Joana Saahirah



Portugueses de Diáspora_Joana Saahirah

O apelo da dança oriental

Aos 27 anos, a portuguesa Joana Saahirah é um dos nomes mais bem sucedidos e respeitados do circuito da Dança Oriental e do Folclore Egípcio. 
Tendo trocado definitivamente Lisboa pelo Cairo, cidade onde diariamente deslumbra o heterogéneo público que assiste aos seus espectáculos, vai edificando a passos seguros e com muita paixão a sua carreira internacional como bailarina oriental.

Texto e fotografias de Susana Paiva

A forma fascinante e cativante como Joana - tal como é simplesmente conhecida no meio profissional egípcio - fala da sua profissão não deixa margem para dúvidas - a dança oriental, prática que casualmente descobriu há sete anos atrás, tornou-se a paixão da sua vida.
As primeiras memórias do seu corpo enquanto corpo que dança remonta aos 4 anos de idade, altura em que por aptidão Joana iniciou os estudos em ballet clássico, mas a sua vocação como bailarina teria que esperar 16 anos para se revelar quando, em 1999, Joana tomou contacto com a dança oriental egípcia ao participar num workshop temático no âmbito do Festival “Andanças”. Na época era aluna do curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema e imaginava-se profissionalmente enquanto actriz quando, com alguma surpresa, descobriu a facilidade e naturalidade com que o seu corpo assimilava e interpretava a música oriental, acabando por alterar os seus planos futuros.
Concluída a licenciatura como actriz na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e consciente de que havia encontrado, na dança oriental, “a sua linguagem” Joana optou por fazer formação em “Dança do Oriente” e percussão árabe com vários professores, solidificando depois os seus conhecimentos com Shokry Mohamed, em Madrid. Mais tarde rumou ao Egipto onde consolidou a técnica com alguns dos mais consagrados bailarinos e professores nacionais e internacionais entre os quais Souhair Zaki, Raqia Hassan, Mona Gareb, Mona El Said, Aida Nour, Mahmoud Reda e Yousry Sharif.
Das 15 viagens que realizou entre 2000 e 2004 ao Egipto, para observação e formação na área, ficou-lhe a convicção de que a aprendizagem só seria completa se conseguisse residir e trabalhar enquanto bailarina no Cairo, cidade unanimemente considerado pelos especialistas como a “Meca da Dança Oriental”.
Assim, em 2005, após 3 anos de trabalho em Portugal em torno da dança oriental, decide instalar-se no Egipto onde começa por viver intermitentemente dado a existência de uma lei que impedia bailarinas estrangeiras de dançarem profissionalmente em território nacional. Inibida de assinar contratos de trabalho no Egipto, Joana começa então a actuar profissionalmente no Líbano, Qatar e Oman, iniciando assim uma carreira de sucesso no Médio Oriente. 
Em Abril de 2006, ao abrigo de uma nova lei que lhe permitia trabalhar no Egipto, Joana fixa definitivamente residência no Cairo, cidade onde “se sente verdadeiramente feliz” e onde hoje diariamente actua com a sua orquestra egípcia.
Tendo compreendido que “a Dança Oriental é interpretação pura”, Joana cedo sentiu a necessidade de aprender a falar árabe, algo que acabou por acontecer naturalmente dado o contacto permanente com a língua. Hoje reconhece que preferia ter aprendido o idioma de forma mais académica dado que o árabe que fala é sobretudo uma língua funcional, um dialecto do Cairo muito ligada ao universo do trabalho e profundamente imbuído da gíria dos músicos com que convive diariamente.
Actualmente, uma das poucas estrangeiras que actua diariamente no Cairo, Joana Saahirah continua profundamente apaixonada e dedicada à dança oriental apesar de reconhecer que é necessário ser-se física e psicologicamente muito resistente para se conseguir sobreviver numa profissão assombrada por tantos estigmas. Ser “estrangeira, mulher e bailarina” num país onde a exposição corporal da mulher em público está associada à ideia de prostituição, e sendo a dança oriental – vulgarmente designada por “dança do ventre” – uma das artes performativas socialmente mais condenadas, não transformam o quotidiano de Joana “num mar de rosas”.
“É um país onde é difícil ser bem sucedido, onde mais do que ser boa bailarina é necessário amar aquilo que se faz” frisa Joana enquanto me elenca os inúmeros obstáculos com que diariamente se depara. “É uma área em que, devido à enorme concorrência, tens que estar sempre a 100%, mesmo quando sujeita a grande pressão quotidiana”, acrescenta.
Numa cidade como o Cairo, em que o caos, corrupção e burocracia consomem muita energia, Joana tenta usar o inevitável cansaço a seu favor, fazendo com que o mesmo se traduza, em palco, no desvanecer da tensão normalmente associada à performance.
No desempenho da “dança que lhe sai da alma”, forma carinhosa como designa a dança oriental, ressalta o papel fundamental da orquestra, dado ser esta dança “a tradução clara daquilo que se ouve”, uma forma interpretativa onde não há nada fora da música, onde “não há espaço para a mentira”.
Tendo visto o seu trabalho validado pelo público egípcio, aquele que possui o mais elevado grau de exigência e perante o qual, enquanto estrangeira, se tem que provar ser muito superior às bailarinas nacionais, Joana sente-se a viver um “estado de graça” e só deseja poder continuar a consolidar, ainda que com muito esforço, a sua carreira.
Reconhece hoje que os seus objectivos actuais se distinguem daqueles com que chegou ao Cairo. Construída, de forma bem sucedida, uma identidade artística num país em que o melhor elogio, como tão frequentemente acontece, é ser tomada por uma bailarina egípcia - “eles sabem se eu sou egípcia ou não assim que entro em palco, pela forma como deixo cair o corpo” – Joana Saahirah é um caso à parte no mercado Egípcio, distingindo-se pelo rigor, vestuário, tipologia física e repertório musical interpretado onde revisita alguns clássicos da música oriental, entre eles Umm Kolthum – a “voz do Egipto” falecida em 1975 – , distanciando-se assim daquilo que o restante mercado oferece.
Assumindo-se como uma “mulher de palco” Joana considera o Egipto como território de descoberta constante onde pretende continuar a consolidar a sua carreira e a preparar dois projectos, um grande espectáculo de dança oriental para digressão internacional e a elaboração de um livro sobre dança oriental centrado na sua experiência pessoal e profissional. Enquanto tais projectos não virem a luz do dia as actividade e vivências de Joana Saahirah poderão ser seguida através de um diário no seu website – www.joanabellydance.com - e a sua mestria partilhada através dos workshops que brevemente promoverá em Lisboa, nos dias 5 e 6 de Abril, no Espaço Pro-Dança e no Porto, nos dias 12 e 13 de Abril,no Espaço Total Fitness.

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" de Março 2008)

Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson


Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris

“Poeta da selva urbana”

As 84 anos de idade, 60 dos quais dedicados à fotografia, Saul Leiter apresenta em Paris a sua primeira exposição retrospectiva na Europa.
Uma oportunidade única para apreciar, até 13 de Abril na Fondation Henri Cartier-Bresson, a obra do fotógrafo cuja falta de ambição artística ocultou do grande público, durante cerca de 50 anos, um dos mais brilhantes e modernos Olhares da segunda metade do século XX.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Saul Leiter, gentilmente cedidas por Fondation Henri Cartier-Bresson

Escutar Saul Leiter discursando sobre o seu próprio trabalho é simultaneamente uma experiência desconcertante e uma imensa lição de humildade. Ouvi-lo confessar que nunca imaginou ver o seu trabalho exposto num museu ou que jamais ambicionou criar obras de Arte causa perplexidade a todos quantos observam as suas extraordinárias fotografias de rua impregnadas de uma poética onde pontuam silhuetas em fuga, apontamentos inesperados de cor e enquadramentos improváveis.
Compreender tamanha modéstia, tamanha falta de ambição artística é a principal chave para descodificar o universo de Saul Leiter, autor que ainda hoje admite, com franco sorriso, que a sua maior preocupação foi sempre “conseguir pagar as contas de electricidade, algo que nem sempre foi possível”.
Nascido em 1923 em Pittsburgh, filho de um famoso rabino, Saul Leiter decidiu, aos 23 anos de idade, abandonar os estudos em Teologia e mudar-se para Nova Iorque a fim de se consagrar totalmente à sua paixão pela pintura. Será pela mão de alguns pintores com quem privou nessa época, nomeadamente Richard Pousette-Dart, que Saul Leiter se começará a interessar pela fotografia. Na sua memória resta ainda bem vívida a forte impressão causada, em 1947, pela exposição de Henri Cartier-Bresson no MoMA, evento a que ainda hoje atribui a causalidade da sua escolha profissional.
Pleno de estímulos e munido de uma Leica começou assim a deambular pelas ruas de Nova Iorque, fotografando-as a preto e branco. Em 1948 entra numa loja de fotografia e inesperadamente decide comprar um rolo a cores, acção que se viria a revelar determinante na sua prática fotográfica, não parando desde então de alternar entre ambos os suportes.
Foi o trabalho a preto e branco de Leiter que primeiro prendeu a atenção de Steichen, na época conservador de fotografia no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova Iorque, e que, em 1953, seleccionaria 25 fotografias suas, exibindo-as na exposição colectiva “Always the Young Stranger”. No entanto a sua grande mestria, patente sobretudo na forma revolucionária como utilizava a cor, teria que aguardar 4 anos antes de ser revelada ao público nova-iorquino no âmbito da conferência “Experimental Photography in Color” proferida por Steichen no MoMA em 1957.
Com uma visão pragmática da vida e concentrado na sua sobrevivência Saul Leiter torna-se, por intermédio de Robert Frank que lhe havia apresentado Alexey Brodovitch – na altura director artístico da revista “Harper’s Bazaar”-, num bem sucedido fotógrafo de moda espelhando, ao longo de duas décadas, as suas obras “dignas de museus e não de páginas de revistas” em publicações de moda como a “Esquire” e a própria “Harper’s Bazaar”.
O seu trabalho mais pessoal, centrado na fotografia de rua, acabará por permanecer esquecido aos olhos do mundo até meados dos anos 90, altura em que a Galeria Nova-iorquina Howard Greenberg lhe consagra uma exposição de fotografias a preto e branco. Será esta exposição, em 1993, juntamente com a publicação de “Early Color”, em 2006 - pela mão de Martin Harrison na Steidl-, que voltarão a concentrar na sua obra a atenção por parte dos especialistas internacionais.
Hoje, na celebração desta brilhante redescoberta, a Fondation Henri Cartier-Bresson apresenta oportunamente, em dois pisos do seu edifício na zona de Montparnasse, uma exposição comissariada por Agnès Sire onde através de dois núcleos expositivos, a cores e a preto e branco, se revelam uma centena de imagens da autoria de Saul Leiter. Realizadas entre 1947 e 1960, as imagens apresentadas a público são na sua maioria impressões de época, emprestadas pela Galeria Howard Greenberg e por coleccionadores privados, onde se revelam “silhuetas em trânsito, sombras, visões misteriosas e indirectas entre romantismo e filme negro” tão características do Olhar do fotógrafo que elegeu a “selva urbana” como sujeito do seu trabalho pessoal revelando assim o seu extraordinário universo “poético, onírico e calmante, sobre o qual plana a doçura da melancolia”.

Exposição “Saul Leiter”
na Fondation Henri Cartier-Bresson, em Paris
Até dia 13 de Abril


Catálogo da exposição
Prefácio de Agnès Sire
Entrevista de Sam Stourdzé a Saul Leiter
50 fotografias a preto e branco e 50 fotografias a cores
edição cartonada com sobrecapa impressa
20x24 cm, 144 páginas
editado por Steidl Paris

outras edições

“Saul Leiter”
Colecção Photo Poche
Edição brochada
64 páginas
Editado por Actes Sud

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" do mês de Março 2008)

Sob o signo da Utopia

Durante 2 semanas, 45 alunos e 15 professores oriundos de 5 universidades europeias exploraram os contornos da Utopia, traçando ideias cenográficas e elaborando projectos arquitectónicos numa Lisboa reinventada à luz do teatro. Uma viagem metafórica que, elegendo “o teatro ilha ou a ilha do teatro” como ponto de partida, acabou por revelar como a cooperação transnacional poderá traçar novos mapas mentais e criativos para levar à cena na capital nacional.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas por José Manuel Castanheira

Para os 60 participantes no projecto intensivo Erasmus, reunindo alunos e professores de arquitectura oriundos das Faculdades de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, da Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica da República Checa, da Escola de Arquitectura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Lund, Suécia, e da Universidade de Strathclyde em Glasgow, Escócia, os quinze dias de Fevereiro que passaram a criar em Portugal poderão ter constituído uma excepção, um sopro de utopia que jamais repetirão na sua vida profissional. Assim o verbalizou Mathab Mazlouman, professora de arquitectura na Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, quando o júri de professores fez o balanço da primeira semana de criação dos alunos participantes na segunda estação do projecto intensivo de cenografia e arquitectura que este ano teve como palco a cidade de Lisboa. Concebido e aprovado como uma iniciativa a realizar durante três anos consecutivos, nas cidades de Praga, Lisboa e Paris, o projecto envolve instituições universitárias europeias em que a área da cenografia constitui uma disciplina autónoma no seio da licenciatura em arquitectura e visa constituir-se como um espaço de criação utópica onde os alunos, devidamente agrupados em núcleos plurinacionais, têm como objectivo a criação de um objecto cenográfico e de um projecto arquitectónico simbólicos que “apontem para a definição de um conceito, prefigurado numa proposta que reformule e/ou re-apresente, num contexto original, as múltiplas pistas que as leituras, visitas, trabalho de grupo e discussões com o professores possam suscitar”. Uma proposta estimulante que, de acordo com José Manuel Castanheira, professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, pode encerrar também um elevado grau de dificuldade sobretudo para alunos e professores provenientes de instituições onde o objectivo final das propostas e projectos escolares tem que passar pela exequibilidade.
Instituído como espaço de transgressão das práticas habituais e de permuta intercultural, esta edição do projecto acabou por se constituir como “uma aventura sem fronteiras” para a qual o único passaporte obrigatório foi a leitura do romance “A Jangada de Pedra” da autoria do Nobel da literatura José Saramago. Talvez por isso fosse inevitável escapar à inclusão simbólica do elemento água nas propostas cénicas solicitadas aos alunos. Talvez por isso mesmo o Tejo tenha merecido a inclusão em muitos dos projectos cenográficos resultantes deste workshop tendo assim devolvido o protagonismo a espaços da capital para os quais já não olhamos de forma refrescada tão frequentemente. 
Reimaginar o Cais do Sodré como espaço central de um percurso que une o rio ao centro da cidade através de uma carpete vermelha, com criação de um espaço de “renascimento” de todos quantos experienciam “esse momento excepcional” ou redescobrir no Terreiro do Paço uma passagem cujo secreto destino nos faz desembocar num “buraco” em pleno Tejo a partir do qual se pode visualizar e vivenciar diferentemente a cidade de Lisboa são algumas das utopias cenográficas que cumpriram o destino de “explorar os limites e transgressões da implantação dos dispositivos cénicos no terreno da arquitectura” tendo, claro está, “sempre em mente o seu carácter especulativo e utópico”.

(Texto publicado na revista "Magazien Artes" de Março 2008)