Horst Friedrichs

Portfolio_Horst Friedrich

Anjos do deserto

É do reino do maravilhoso que saem os personagens fotografados por Horst Friedrich, verdadeiros “anjos do deserto” como lhes chamou a escritora venezuelana Elisabetta Balasso, co-autora do livro “Doña Maria und Ihre Träume”, uma das mais telúricas obras fotográficas e literárias da actualidade.

Fotografias gentilmente cedidas por Horst Friedrich
Texto de Susana Paiva

São poéticas e elucidativas as palavras com que Elisabetta Balasso descreve o contacto entre os autores e os habitantes do deserto venezuelano – “viemos de longe, da capital ou de além mar, de lugares míticos dos quais quem lá estava apenas tinha ouvido falar. Chegamos às terras áridas e encontramos paisagens calcinadas pelo vento, árvores iluminadas e uma bebida cheia de espírito, que convoca as sombras transparentes do desejo, e que não acalma a sede mas magnifica e produz eventos excepcionais. Chegamos e conhecemos os habitantes – anjos com rugas profundas e preciosos corações plenos de sabedoria e hospitalidade. E assim comprovamos que a realidade é bem mais mágica do que qualquer literatura, quando se penetra suavemente no tempo do deserto”. Nas palavras iniciais de “Dona Maria e os seus sonhos” se encerra, com grande mestria, o mistério e a beleza de todos quantos habitam as esquecidas paisagens do deserto venezuelano, território onde o tempo parece ter outra dimensão.
“O tempo está parado em casa de Dona Ruperta, presenças fantasmagóricas parecem aguardar nas esquinas que ficaram escuras, tão fiéis e resignadas como um cão enfraquecido. Nada sucede, e no entanto tudo está cheio de sentido - o pau que serve de bastão para espantar os animais, tão seco como os seus braços, apoiado na parede; o pedaço de queijo de cabra sobre o pratito de barro; a pequena cadeira de criança, em que Ruperta se senta nas noites em que não consegue dormir; as gretas na terra das paredes que parecem querer dizer-nos algo que não conseguimos compreender. A casa respira com a respiração pausada e profunda de um adormecido, quem sabe sonhando por Dona Ruperta, sonhando os sonhos que ela esqueceu”. Foi este o ambiente telúrico que o fotógrafo alemão Horst Friedrich encontrou quando, há cerca de doze anos, viajou pela primeira vez ao deserto venezuelano. Lia na altura o romance “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez e estava longe de imaginar que iria encontrar o mesmo realismo mágico em terras venezuelanas.
“Não se ouve nada mais do que o vento. Nem cabras nem pássaros, apenas o vento. Um céu sólido, azul infinito igual à cafeteira pousada sobre a laje de pedra assente na terra. O céu dissolve-se numas nuvens brancas ali onde a terra seca se esmigalha em rectos cactos, em yabos de mil ramificações e em cujís retorcidos”. Percorrendo, a partir de Caracas, um cenário espantoso para lá dos Andes chegou ao estado de Lara, e depois a Falcón, na costa, onde conheceu Dona Maria, Margarita, Eustiquio e família bem como tantos outros habitantes, "pessoas especiais que fabricam um artesanato precioso", afirmou Horst. "São personagens, são heróis... Esta gente é incrível, interessante, forte. São pobres, mas felizes, pois têm sabedoria. Claro que às vezes gostariam de ter uma vida melhor mas, por exemplo, Eustiquio tem um telemóvel e eu de vez em quando telefono-lhe e ele fica feliz".
Tendo viajado múltiplas vezes a esses dois estados no noroeste da Venezuela, Horst fez-se sempre acompanhar da sua Hasselblad, uma máquina fotográfica alemã de médio formato, com a qual retratou os habitantes das povoações visitadas. Nem sempre a aproximação foi fácil pois quando inquiridos alguns populares recusavam a oferta de serem fotografados por Horst mas ainda assim este não desanimava. No ano seguinte voltava a inquiri-los, estreitando, pouco a pouco, os laços de amizade que lhe permitiriam uma aproximação incondicional. Assim foi com quase todos os populares. Alguns resistiram durante três anos mas acabaram por dar corpo e rosto às imagens de Horst e por , mais tarde, partilharem as suas histórias com Elisabetta Balasso.
“São seis os filhos mas deviam ser nove. A voz entrecortada e trémula, os olhos húmidos, pois é difícil recordar as dores da mulher, o medo, a fatalidade, a resignação. O tempo suspendeu-se, o sol cristalizou, a abelha deteve o voo enquanto o homem contou a sua história. Custou-lhe muito, mas seguiu valentemente, como se fora necessário, como se fosse um dever, e não o era, não nos devia nada, não era indispensável contar-nos nada; e agora não sei o que fazer, dá-me pudor este fio de água cristalino e secreto, correndo debaixo das pedras, este desenho de águas subterrâneas, este passarito ferido entre as mãos. Conta-me tudo e eu fico devastada com as experiências de sofrimento que o marcaram, com todas essas mortes sempre presentes, novamente presentes enquanto as rememora, presentes no pátio de trás, onde desde então se erguem duas cruzes brancas”.
Construído numa simbiose perfeita entre os universos imagéticos e literários, “Dona Maria e os seus sonhos” é um exemplo maior daquilo que ainda hoje se pode criar no âmbito da fotografia documental. Justamente aclamado como um projecto ao nível dos desenvolvidos no Estados Unidos da América por fotógrafos como Walker Evans e Robert Frank, este trabalho de Horst Friedrich consagra-o como um dos grandes nomes da fotografia documental, sedimentando aquilo que já se intuía na publicação, em 1999, do seu primeiro livro “Troubadours of Allah” (Trovadores de Alá), também editado pela alemã Frederking & Thaler. 
Repleto de poesia e excelentes imagens, “Dona Maria e os seus sonhos” dignifica todos quantos aí estão retratados, transportando-nos para um universo humano de extrema pureza, difícil de imaginar no mundo em que vivemos hoje.
“O filho mais novo de Eustiquio olha o céu, procurando nas estrelas a constelação que nos guia: O coração de Maria e Jesus, disse-me, assinalando os dois corações desenhados na noite”, escreve Elisabetta Balasso como a contrabalançar o insustentável peso das palavras anteriores “O céu ilumina-se aos poucos, acende-se e apaga-se seguindo a navegação das nuvens. Mais próximo da terra voa uma mosca, suspensa por asas tão rápidas que só se distingue uma sombra de cada lado do corpo. Não muito longe ouve-se um compacto zumbido de enxame. De resto, o silêncio é tão espesso que pesa no ar”. Um peso que Horst e Elisabetta souberam retratar com grande beleza e sensibilidade e que certamente perdurará como um dos mais belos livros da nossa década.

“Doña Maria und Ihre Träume” (Dona Maria e os seus sonhos)
de Horst A. Friedrichs e Elisabetta Balasso
192 páginas, aproximadamente 120 fotografias a cor e a preto e branco
Formato: 24,0 x 34,0 cm
editora: Frederking & Thaler

www.horstfriedrichs.com

imagens à venda online na Galeria Anzenberger
http://www.anzenbergergallery.com/en/article/204.html

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" na edição de Fevereiro 2008)

Jose Vieira

Portugueses de Diáspora_José Vieira

Memórias que queimam

Praticamente desconhecido em Portugal, José Vieira é um realizador de origem Portuguesa residente em França desde 1965 e cujo núcleo central do trabalho versa a emigração portuguesa clandestina em França.
Partindo de histórias individuais, que também são a sua, a autor traça o retrato da emigração em França, recuperando uma memória colectiva, ameaçada de extinção de ambos os lados da fronteira.

Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens de arquivo gentilmente cedidas por José Vieira

Paris 20 ème, zona de Mémilmontant. O céu é visivelmente extenso e a vista extasiante quando observados a partir do 12º andar dos prédios de Nouvelle Belleville. Suspenso o tempo, o espaço reinventa-se à medida de cada observador. A memória liberta-se e a cidade toma nova dimensão. Apenas um intenso odor a café denuncia a presença do realizador
José Vieira prefere a força comunicadora das suas imagens ao exercício da oralidade. Não que não seja bom comunicador, eloquente na expressão das suas ideias, mas sobretudo porque acredita haver mais e melhor poder de síntese naquilo que realizou e escreveu do que naquilo que poderá vir a verbalizar. Quem visualiza as suas obras, lê os documentos que compilou e as palavras que cuidadosamente escreveu, poderá encontrar respostas para muitas das questões imaginadas. Nos seus documentários revelam-se histórias individuais de vida, exemplos que espelham a difícil existência de milhares de portugueses que nos anos 60, tal como a sua família, partilharam a dor da emigração. As suas obras são preciosos documentos sobre a memória colectiva de um povo, que escapou à pobreza e repressão Salazarista encontrando em França um precário porto de abrigo. São espaços-testemunho onde se escutam vívidos relatos sobre um fenómeno ainda hoje insuficientemente estudado e talvez por isso mal compreendido.
José Vieira acredita que há uma generalizada incompreensão por parte de quem o rodeia na escolha das suas temáticas. Para os franceses, ainda tão presos aos estereótipos da emigração - com imaginários povoados de iliteratas porteiras, mulheres da limpeza e homens que trabalham na construção civil -, os portugueses nada tem a dizer. Para os portugueses, indelevelmente marcados pela experiência da emigração clandestina, pouco desejo há em falar disso. São realidades cativas de um mundo de sofrimento e vergonha, um tempo de memórias que queimam e deixam marcas que muitos desejariam apagar e que, por isso mesmo, José Vieira deseja continuar a abordar com a mesma paixão, intensidade e empenho de sempre.
Para José Vieira a história pessoal de emigração começou cedo. Tinha sete anos e meio quando o seu pai, emigrado em França há cerca de um ano, regressou a Oliveira de Frades, distrito de Viseu, para ir buscar a família. Nesse ano de 1965 José seguiu os pais e quatro irmãos com destino a Paris, alojando-se, como tantos outros portugueses, no precário e periférico bairro de lata de Massy que a emigração portuguesa havia criado. Dessa época recorda sobretudo a chegada ao bairro de lata, memória que inscreverá na mente como o primeiro momento de ruptura da sua vida. Para trás ficavam memórias difusas de uma infância tranquila em Oliveira de Frades, o único fragmento de Portugal que perdurará imutável no seu imaginário.
Em Paris as condições no “bidonville” de Massy - baptizado como “o bairro da minhoca”- eram precárias e estavam muito longe de ser as imaginadas no sonho dourado da emigração. Vivido em grande sofrimento pelos adultos e pelas suas irmãs, então adolescentes, o bairro de lata podia contudo, aos olhos de uma criança, constituir também um enorme espaço de liberdade, terreno de fantasia para histórias de cowboys e índios que José partilhava com as outras crianças portuguesas lá residentes. Era sobretudo fora do “bidonville” que a realidade de José se tornava insustentável, com a obrigatoriedade de ocultação do domicílio perante os colegas de escola, todos franceses, e a necessária extensão dessa mentira por altura das visitas a Portugal. Consumidos pela vergonha da realidade da sua vida em França, os relatos dos emigrantes nas visitas ao seu país natal construíam histórias de felicidade e bem-estar, muito distantes do verdadeiro sofrimento da emigração. 
Talvez tenha sido essa mentira a responsável pelo maior fosso entre aqueles que emigravam e os que optavam por ficar em Portugal. Estes, convictos do sucesso dos compatriotas, invejavam-lhes a vida e erguiam barreiras que mais tarde se revelariam difíceis de transpor.
Entretanto a vida em França seguia o seu curso, com a família de José a libertar-se das duras condições do “bidonville” em 1970, altura em que o pai conseguiu reunir as condições financeiras para alugar uma casa. Para José essa mudança, feita em idade crítica - por volta dos seus 12 anos -, constituiria a segunda grande ruptura na sua vida. Cortado o cordão umbilical com os amigos do bairro de lata de Massy, parceiros de brincadeira ao longo de cinco anos, José Vieira estava novamente só, mais estrangeiro do que nunca numa terra que ainda não chegava a ser sua.
Talvez tenham sido estas rupturas que desenvolveram o seu desejo de ser assimilado pela cultura francesa - estava cansado de ser português e apenas desejava ser igual aos outros.
Hoje José Vieira pensa, escreve e sonha em francês. Não recusa as suas origens portuguesas mas tal como muitos franceses de origem portuguesa sente-se bem em França e tem muitas afinidades com a cultura francesa. Em Oliveira de Frades, localidade de que é natural, continua a ser “o filho do ferreiro” e sente que dificilmente se libertará do estigma da emigração, sendo visto como parte do grupo “daqueles que partiram”. Na sua própria terra desconhecem aquilo que faz em França. Por nunca lho terem perguntado nunca sentiu necessidade de dizer que é realizador e que escolheu como núcleo central do seu trabalho debruçar-se sobre a emigração portuguesa em França. Nunca lhes contou, em última instância, que trabalha sobre a sua história pessoal e sobre as memórias colectivas da emigração clandestina. Nunca lhes disse que nos seus documentários, especialmente em “A fotografia rasgada”, de 2001, e “O País onde nunca se regressa”, de 2006, se espelha a história de muitos daqueles que sentiram urgência em partir em busca de uma vida melhor, tal como o seu pai. Nunca lhes revelou que o seu campo de ensaio é também o das feridas que a dor da emigração nunca conseguiu sarar. Nunca lhes confessou que a emigração é sempre uma revolução na vida de quem parte e que isso as transforma para toda a vida.
Hoje, aos 49 anos, ainda não teve oportunidade de ver o seu trabalho reconhecido por todos quantos constroem a história em Portugal. Contrariamente ao que sucede em França o seu trabalho cinematográfico continua praticamente desconhecido em território nacional, ignorado pelos que ficaram e preciosamente ocultado, como uma ferida que não se quer reabrir, por aqueles que partiram.

(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")

"In nomine Dei" de Jose Saramago

A intolerância segundo José Saramago

Foi no passado dia 12 de Dezembro que o Teatro Central de Sevilha recebeu a estreia mundial do espectáculo “In nomine Dei”, um texto teatral de José Saramago levado à cena pelo Centro Andaluz de Teatro, com encenação de José Carlos Plaza e cenografia de José Manuel Castanheira, onde se veicula, numa versão operática, as magníficas palavras do escritor contra a intolerância.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi com um misto de surpresa, respeito e tristeza que o público da estreia de “In nomine Dei” recebeu a mensagem difundida em vídeo onde José Saramago endereçava ao público palavras que todos desejariam ter ouvido de viva voz. No ecrã instalado à boca de cena, o escritor, visivelmente abatido, proferia um discurso universal anti-fundamentalista e testemunhava, com pesar, a dor da ausência e a inveja de todos quantos ali podiam estar. Ele, em casa, cumpria estritas ordens médicas de 15 dias de repouso absoluto, convalescendo ainda de um recente problema de saúde que levará cerca de dois meses a recuperar. Dois dias antes, no âmbito de uma conferência de imprensa realizada na biblioteca Saramago em Lanzarote, havia declarado que, ainda que estivesse certo que a representação da sua obra não mudaria nada, esperava que a estreia do espectáculo em Sevilha servisse pelo menos para “despertar as consciências de algumas pessoas que causam dano à humanidade”. Inegavelmente feliz com a estreia universal do seu texto teatral, originalmente publicado em 1993, Saramago aproveitou para contextualizar o momento histórico em que desenrola a história, explicando que a mesma se baseia num caso verídico passado em Münster, uma cidade no norte de Alemanha, onde no século XVI um conflito entre católicos e protestantes, “em nome do mesmo Deus”, acabou numa carnificina tal que dos 14000 habitantes iniciais, após um processo de tortura e morte, apenas restaram 2000. Um texto pleno de actualidade dado que, na sua opinião, "em milhares de anos de criação, de natureza, de inteligência, de tudo o que faz grande o Homem, o ser humano continua a ser utilizado pelo próprio ser humano para atentar contra si próprio".
Nesse sentido o prémio Nobel da Literatura entende que, apesar das descobertas e avanços na sociedade, “não temos melhorado nada, bem pelo contrário - temos refinado métodos de tortura, transformando-a numa ciência exacta. Nós, seres inteligentes, capazes de rir, chorar e sentir, estamos numa hora de irresponsabilidade em que nada é culpável e todos têm a culpa, como sempre”.
Tomado muitas vezes como uma voz crítica no debate de assuntos religiosos -recorde-se a polémica em Portugal em torno da obra “O Evangelho segundo Jesus Cristo” - Saramago continua a sustentar o único desejo de "compreender as coisas” reforçando a ideia de que nunca pretendeu “convencer ninguém de nada”. “Os acontecimentos descritos nesta peça representam apenas um trágico capítulo da grande e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que a leiam assim, crentes ou não crentes, e farão um favor a si próprios”.
Assumido como uma homenagem a José Saramago - nas palavras de Rosa Torres, “um andaluz que não nasceu em Andaluzia mas que desejou sê-lo sem renunciar a ser qualquer outra coisa”, numa alusão da conselheira para a cultura da Junta de Andaluzia à recente nomeação do escritor como “filho adoptivo de Andaluzia” - “In nomine Dei”, levado à cena pelo Cento Andaluz de Teatro, é um espectáculo maior por mérito próprio, conseguindo, como tão raras vezes acontece, uma perfeita sintonia entre todos os elementos teatrais, com especial destaque para os trabalhos de encenação de José Carlos Plaza e de cenografia de José Manuel Castanheira que criam em cena uma unidade onde se espelha na perfeição a mensagem de José Saramago. Concebido como “uma cidade em ruínas, metáfora universal da destruição do ser humano” o cenário de Castanheira dá o mote essencial para a agilização de uma encenação que se adivinha difícil dada a complexidade do texto e a presença dos cerca de 30 actores e cantores em palco.
Tendo-se deslocado a Lanzarote para trabalhar durante um mês com Saramago na adaptação do texto, “que funciona como um alerta contra os fanatismos que arrastam os seres humanos a matar e a deixar-se matar”, José Carlos Plaza tem o grande mérito de, recorrendo à sua prática na encenação de operas, ter criado um espectáculo que, apesar da sua complexidade, encontrou na forma musical a facilidade de expressão que o texto original, à priori, não deixava antever. Construído de forma operática, “In nomine Dei” revela também o excelente trabalho de Mariano Díaz, responsável pela música e espaço sonoro, que soube criar, com uma matéria humana onde pontuavam apenas 4 cantores, um ambiente sonoro extraordinário, revelador do estudo dos salmos e da música eclesiástica em geral, onde o coro desempenha um papel fundamental.
Construído como um trabalho de grande fôlego e extraordinário empenho colectivo o espectáculo do Centro Andaluz de Teatro fará uma extensa itinerância pelos teatros da Andaluzia, com apresentação em 54 salas distintas, seguindo posteriormente digressão no restante território espanhol e possivelmente noutros países de expressão oficial espanhola.
Para que, pelo menos, Saramago possa estar certo que, concordando com José Carlos Plaza referindo-se a todos os intervenientes no espectáculo, “para todos nós, a partir de agora, será mais difícil ser intolerantes”.

Próximas apresentações

5 a 15 de Março no Teatro Cánovas de Málaga 
27 e 28 de Março no Gran Teatro de Córdoba


(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")

Susana Machado

Portugueses de Diáspora_Susana Machado

O espaço teatral como metáfora

Recusa a designação de artista, apresentando-se como apenas como cenógrafa. Aos 35 anos, Susana Machado, assume-se como uma mulher “de sangue português, cabeça francesa e coração italiano” aludindo assim às suas origens, educação e preferências estéticas. Eis o retrato de uma criadora madura, movida pela paixão, cujo trabalho se divide maioritariamente entre palco e plateau mas que confessa preferência pela criação na área teatral. 

Texto e fotografia de Susana Paiva
Imagem dos espectáculos gentilmente cedidas por Susana Machado

Susana Machado nasceu em Delães, Vila Nova de Famalicão, mas cinco anos mais tarde instalou-se com os seus pais em Paris, cidade onde havia sido concebida. Fora aí que os seus pais se haviam conhecido e lá haveriam de regressar, em 1976, após conclusão do longo serviço militar do pai em Angola. A infância e adolescência passou-a no coração do Quartier Latin, um local privilegiado no epicentro de Paris, pleno de memórias do Odeon, da Sorbonne e dos boulevards Saint Michel e Saint Germain. Ainda hoje recorda com felicidade os momentos da sua infância em que, no seu tempo livre, o pai a levava às obras em que a sua empresa de decoração intervinha e a deixava pegar nos pincéis e tintas. Tinha então oito ou nove anos, adorava desenhar e nunca perdia a oportunidade de dar umas boas pinceladas. 
Dois anos mais tarde a mãe inscreveu-a nos ateliers do Carrousel do Louvre, local onde viria a desenvolver as suas aptidões para o desenho e pintura. Uma aprendizagem que viria a desenvolver paralelamente com o ensino regular num percurso académico que naturalmente a teria conduzido à licenciatura em História de Arte não fosse o facto de, aos 19 anos, ter descoberto o fantástico mundo do teatro. No teatro rapidamente reconheceu a conjugação de dois universos que a seduziam – o da literatura e das artes plásticas – e sem hesitar candidatou-se a cinco anos de formação na École nationale supérieure des arts décoratifs , em Paris, onde em 1996 se viria a diplomar com a especialização em cenografia.
Foi o sonho de trabalhar como cenógrafa teatral que a levou então a contactar o arquitecto português José Manuel Castanheira, cujo trabalho de cenografia havia admirado em Paris no âmbito de uma exposição no Centre George Pompidou, e a instalar-se em Lisboa onde trabalharia como sua assistente durante cerca de 4 anos, período que ainda hoje recorda como “óptimo, cheio de trabalhos interessantes em Portugal e Espanha, nomeadamente em Valência e Mérida”. 
Em 1999 Guy-Claude François, seu antigo professor em Paris, desafia-a para um novo projecto de longa duração, desta feita na área do cinema. Foi assim que durante oito meses Susana acabaria a trabalhar como segunda assistente de decoração no filme “Capitães de Abril”, realizado por Maria de Medeiros. A partir desse momento Susana começa então a assinar as suas próprias cenografias em território nacional, trabalhando com estruturas como o Cendrev, em Évora, o Teatro Extremo, em Almada, ou o Teatro das Beiras, na Covilhã.
No ano de 2001 os afectos levam-na a mudar-se para Antuérpia, cidade onde residirá pouco mais do que 18 meses mas onde ainda trabalhará no espectáculo “Hotel Ideal” da companhia belga então designada “Blauw-vier” e actualmente conhecida pelo nome de “Laika”.
No final do ano seguinte resolve regressar a Paris onde reconhece que teve que “recomeçar do zero” a sua carreira como cenógrafa, uma fase onde acabaria por trabalhar sobretudo no meio audiovisual como assistente de decoração em filmes como "Les âmes grises", realizado por Yves Angelo e "Arsène Lupin", realizado por Jean-Paul Salomé.
Foi necessário chegar o ano de 2007 para que Susana voltasse em pleno, com quatro trabalhos da sua autoria nos palcos de Paris e Grenoble, aquilo que mais gosta – criar cenografias para teatro. “Cenografias que se distinguem por serem mais metafóricas”, mais simbólicas e por serem tão melhor sucedidas quanto mais “estiverem ao serviço de um texto, de uma mensagem e dos actores”. Opção de brilhante invisibilidade de uma criadora que sonha ainda, após extensa experiência em teatro e cinema, com a nova aventura da criação de cenografias para Ópera.

(texto publicado na revista "Magazine Artes" de Janeiro 2008)

Robert Adams

Portfolio_Robert Adams

Escutar a Natureza

Raras vezes fotografia e consciência ecológica se conjugam tão perfeitamente como na obra de Robert Adams. Actualmente em Paris, a Fondation Cartier pour l’art contemporain, apresenta “On the edge”, a sua primeira exposição individual em França onde, através de fotografias e livros, se traçam 40 anos de sucessivas mutações da paisagem do Oeste americano.

Texto de Susana Paiva
Fotografia de Robert Adams, gentilmente cedidas por Fondation Cartier pour l’art contemporain

É nos livros que melhor se revela a força da obra de Robert Adams. A sua eloquência espelha-se caleidoscopicamente nas 34 monografias que publicou e onde desde 1970, com o precioso auxílio da sua mulher Kerstin, Adams tem vindo a ensaiar novas narrativas para as suas séries fotográficas. Contrariamente a muitos dos seus contemporâneos que utilizam os livros meramente para catalogar os seus trabalhos, Robert Adams encontrou na edição um espaço de expressão onde activa plenamente o poder literário do medium, permitindo às suas imagens interagirem, dialogarem e criarem novas e efectivas ligações com vista à agudização da percepção e à extensão da vivência estética.
Não receando protagonizar uma possível contra-corrente na fotografia contemporânea, Robert Adams tem sido um ardente defensor dos valores tradicionais da estética, sem medo de promover a “beleza” como virtude a aspirar. Nas suas belas imagens se revela a raiva perante as práticas anti-ecológicas do seu país, sobretudo no que concerne à sistemática destruição das paisagens naturais do Oeste americano.
Em entrevista concedida a Thomas Weski em Maio de 2004, Adams relata o início da sua actividade fotográfica em 1964 como “uma resposta emotiva à paisagem”, reflexo das suas preocupações ecológicas numa “América bárbara onde a ganância é vista como uma virtude”. Para o fotógrafo que recorda ter tido o privilégio de experienciar o natural, desde a infância pela mão do seu pai, a fotografia de paisagem ganhou força simbólica no seu activismo e expressa hoje, com grande eficiência, as suas opiniões políticas.
Na exposição “On the Edge”, actualmente patente no piso inferior da Fondation Cartier pour l’art contemporain em Paris, Robert Adams expressa a preto e branco, através de 150 fotografias e cerca de 40 livros, as suas actuais preocupações ecológicas, criando um denso e contrastante universo fotográfico que oscila entre desespero e optimismo. Bom exemplo disso é a imagem onde um tronco decepado e desenraizado se revela solitário numa idílica paisagem da costa americana. 

“On the Edge” de Robert Adams
patente até 27 de Janeiro
na Fondation Cartier pour l’art contemporain

www.fondation.cartier.com

(texto publicado na revista"Magazine Artes" de Janeiro 2008)