
«A poesia está na rua»
Margarida Guia, 32 anos, «bailarina cantora leitora em voz alta» (assim mesmo sem vírgulas) encontrou na sua Bibliambule, uma pequena biblioteca móvel, o meio ideal para gerar aquilo em que mais acredita - um espaço de encontro onde através da poesia, se criam relações de dádiva entre quem lê e quem escuta.
TEXTO E FOTOGRAFIA Susana Paiva
«A Bibliambule é uma biblioteca de rodas que me acompanha sempre nos meus passeios literários, leituras em voz alta fora e dentro da cidade, interior, exterior... na esquina de uma rua, num jardim, num café, num palco ou numa exposição » anuncia o texto, da autoria de Margarida Guia, à entrada do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.
O dia começou cedo para Margarida. Todas as manhãs, antes de sair à rua, prepara a sua biblioteca, escolhendo cuidadosamente os livros a transportar. Com gestos suaves, mas determinados, vai substituindo os livros utilizados na véspera pelos eleitos de hoje. Um olhar rápido pelas lombadas revelam-nos Samuel Beckett, Jacques Prevert, William Parker, Mário Dionísio, Michaux, entre tantos outros.
Ajoelhada no chão, Margarida está prestes a concluir a tarefa. Depois, em tom de desabafo, mostra-me, na madeira da sua biblioteca, uma pequena chapa de cobre redonda que oculta um rombo feito durante o seu transporte. «Já a primeira vez que vim a Portugal a minha biblioteca sofreu muito... »
Margarida é luso-descendente mas nunca viveu em Portugal. Habita em França, onde nasceu e trabalha regularmente. Desde muito cedo descobriu, através da leitura, o valor da dádiva e da troca. Quando tinha sete anos, numa manifestação de apreço pela professora, rasgou uma folha do seu caderno de poesia e subiu ao palco da escola para lho ler. «Já na altura havia essa ligação. Oferecer poesia é uma maneira de oferecer alguma coisa ao outro mas nessa relação é também muito importante reconhecer aquilo que o outro te dá através da escuta», afirma Margarida.
Nunca abandonou a leitura, mas foi a Bibliambule — conceito resultante da contracção das palavras biblioteca e deambulação —, nascida a 28 de Julho de 2002, data do seu trigésimo aniversário, que revolucionou a sua prática como «leitora em voz alta».
Mesmo ao lado do Teatro Académico de Gil Vicente, no geométrico centro da Praça da República, Margarida instala a sua biblioteca, senta-se e espera, tranquilamente, que passe alguém. «É importante não forçar a ligação, há que esperar que a relação se estabeleça de uma forma harmoniosa e natural.» Conta como em Lisboa, por vezes, as pessoas a olhavam de forma desconfiada. «O que é engraçado é que às vezes pensam que estou a pedir esmola e não se aproximam...»
Recorda-se da experiência, não muito gratificante, que teve no Chiado, mesmo frente ao café A Brasileira. «Pus-me de propósito no sítio onde as pessoas tiram as fotografias com a estátua de Fernando Pessoa e havia sempre muitas pessoas a passar. Comecei a cantar e as pessoas ou se riam ou simplesmente passavam... Eu a cantar textos do Fernando Pessoa e as pessoas pura e simplesmente a ignorarem-me.» Mas Margarida não desiste e, com o seu ânimo habitual — forma mais que perfeita da paixão posta em tudo o que faz—, continua. «Depois fui para o Largo de Camões, contei sete rectângulos e instalei a biblioteca. Sentei-me e há um homem que se aproxima e diz: mas o que é que está a fazer? A vender livros? E eu expliquei que estava a ler poesia, perguntando-lhe se ele queria uma leitura. Ah sim, tudo bem! E foi buscar dinheiro. Penso que esse homem não teria muito dinheiro, tinha uns cêntimos, e eu disse-lhe que não era necessário pagar. Depois comecei a cantar "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..." e ele começou a dizer o texto. Foi um coro lindíssimo. Eu a cantar e ele a recitar. Gerou-se um conjunto muito rico de paisagens sonoras e o que foi engraçado é que, uma semana depois, encontrei-o em Lisboa e ele perguntou se ela [a Biblioambule] não estava aí. Eu gosto destas relações. São coisas pequeninas mas são vivas...», confessa com um enorme brilho nos olhos.
Ao longe, algumas pessoas passam lançando olhares desconfiados àquele objecto estranhamente pousado no centro da praça. Margarida canta. Depois um homem, passeando um boxer bebé, pára e pergunta-lhe o que faz ali.
«Posso ler-lhe uma poesia?», avança Margarida. O homem senta-se no chão e ouve. Diz-lhe que, contrariamente ao habitual, hoje tem tempo. Que não foi trabalhar e que aproveita para passear o cão de uns amigos. Que gosta de poesia mas que habitualmente a lê em silêncio. No Final da intervenção, trocam nomes de poetas. É também por esta via que Margarida vai descobrindo novos autores portugueses a que habitualmente, em França, não tem acesso.
«Porquê os livros?», parafraseia-me, surpreendida. «Desde pequena que pensava que as palavras dos livros falavam melhor do que as minhas. Diziam as coisas certas, reforçavam a minha relação com as palavras acertadas e justas.» E continua, num só fôlego, falando sobre a sua relação com a poesia. «Penso que a poesia pode tocar muito, na sua acutilância, abre espaço nos que a lêem e nos que a escutam.»
Existe no seu projecto uma gigantesca capacidade de despertar os outros, mas Margarida Guia, modestamente, diz que esta foi a forma por si encontrada para continuar desperta. «Quero continuar viva, e pequenas acções como estas fazem-nos acreditar que ainda é possível encontrar coisas boas. Quando passeamos nas cidades e vemos a publicidade, agora com o futebol em toda a parte, vemos que as pessoas já não têm tempo para si próprias. Há pessoas que ficam a chorar com as leituras, redescobrem em si a capacidade de parar e escutar os outros.»
A caminho da baixa da cidade, descendo a longa Avenida Sá Bandeira, conta-me um dos encontros que mais a sensibilizou. «Fiz um encontro lindíssimo na Suíça. Eu ia apanhar o comboio em Genebra, de regresso a França... A Bibliambule estava ao meu lado e chegou uma senhora idosa, em quem eu já havia reparado, que me perguntou o que era aquela caixa... Perguntei-lhe se lhe poderia oferecer uma leitura, ao que ela respondeu: "Minha menina eu sei ler." Expliquei-lhe que gostaria de lhe oferecer uma leitura e escolhi um poema de Beckett de que ela gostou muito. Acompanhou-me até ao TGV, ficando scomigo até ao embarque, e afirmou: "Você nunca estará sozinha, estará sempre acompanhada" e disse-me que estaria comigo, mesmo quando não estivesse presente.»
Explica agora que, no seu trabalho, o livro é o protagonista, que o corpo apenas transporta e serve o texto. Que gosta de brincar com as fronteiras da leitura e do canto e que tudo o que faz é uma troca. Depois afirma: «O que gosto na cidade é de ler a uma pessoa que não conheço, essa relação íntima que vamos estabelecer.»
E tranquilamente, chegada ao seu destino, instala-se numa esquina da Rua do Corvo, ali bem na baixa coimbrã, onde os pombos são reis. Abre a sua biblioteca, sorri e espera.
«Eu chamei a isto bibliambulação poética. A acção poética é estar presente e dar as palavras, pois as palavras do dia-a-dia também podem ser poéticas. Não sabemos o que é poesia. Eu não sei... É uma questão de sentir as palavras. As palavras que mais senti estão em livros de poesia, por isso as chamo de poesia. Mas o objectivo é encontrar as palavras certas para dizer as coisas que te podem tocar, que criam momentos excepcionais, pois temos de encher os dias de coisas excepcionais, de encontros.»
«Como as palavras falam devagar e na cidade paramos ou continuamos... », diz, docemente, Margarida aos transeuntes apressados. «É tão agradável ver um sorriso. Um sorriso na esquina de uma rua», continua, melodiosamente.
Alguns homens sorriem. «Está aqui uma grande coisa», exclama um. Outros continuam, de rosto cerrado, em direcção aos seus objectivos. Uma senhora idosa pára e pergunta: «Está a correr mundo? Tem de ir à televisão.» Depois, apaziguada, abranda um pouco e opta por ouvir a poesia.
Margarida saboreia as palavras. «Não sei de que ando à procura. Faço coisas diferentes na tentativa de encontrar sons com a voz, de envolver a poesia de sons. Sinto-me viva com isso.»
Pouco a pouco, a receptividade à Bibliambule vai aumentando. Agora é uma jovem que pára e que diz já ter lido no jornal sobre aquela acção poética. «Achei muito interessante», confessa.
No final, Margarida reorganiza a sua biblioteca, para voltar a partir. Antes, no diário da Bibliambule, escreve o nome de todos quantos pararam para a escutar. No chão, onde a biblioteca esteve instalada, assinala, com fita isoladora vermelha, um pequeno xis. «Faço o meu caminho. Sei que tenho para dar e receber e que as coisas acontecem com o tempo.» E conclui: «Encontrei um poema de Manuel Gusmão que diz: Dá-me a tua voz para dizer as vozes/ e então eu falarei/ eu direi as vozes/ de viva voz. Acaba assim...» <<
(artigo publicado na revista Notícias Magazine, de 27 de Junho de 2004)