Durante 2 semanas, 45 alunos e 15 professores oriundos de 5 universidades europeias exploraram os contornos da Utopia, traçando ideias cenográficas e elaborando projectos arquitectónicos numa Lisboa reinventada à luz do teatro. Uma viagem metafórica que, elegendo “o teatro ilha ou a ilha do teatro” como ponto de partida, acabou por revelar como a cooperação transnacional poderá traçar novos mapas mentais e criativos para levar à cena na capital nacional.
Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas por José Manuel Castanheira
Para os 60 participantes no projecto intensivo Erasmus, reunindo alunos e professores de arquitectura oriundos das Faculdades de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, da Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica da República Checa, da Escola de Arquitectura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Lund, Suécia, e da Universidade de Strathclyde em Glasgow, Escócia, os quinze dias de Fevereiro que passaram a criar em Portugal poderão ter constituído uma excepção, um sopro de utopia que jamais repetirão na sua vida profissional. Assim o verbalizou Mathab Mazlouman, professora de arquitectura na Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, quando o júri de professores fez o balanço da primeira semana de criação dos alunos participantes na segunda estação do projecto intensivo de cenografia e arquitectura que este ano teve como palco a cidade de Lisboa. Concebido e aprovado como uma iniciativa a realizar durante três anos consecutivos, nas cidades de Praga, Lisboa e Paris, o projecto envolve instituições universitárias europeias em que a área da cenografia constitui uma disciplina autónoma no seio da licenciatura em arquitectura e visa constituir-se como um espaço de criação utópica onde os alunos, devidamente agrupados em núcleos plurinacionais, têm como objectivo a criação de um objecto cenográfico e de um projecto arquitectónico simbólicos que “apontem para a definição de um conceito, prefigurado numa proposta que reformule e/ou re-apresente, num contexto original, as múltiplas pistas que as leituras, visitas, trabalho de grupo e discussões com o professores possam suscitar”. Uma proposta estimulante que, de acordo com José Manuel Castanheira, professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, pode encerrar também um elevado grau de dificuldade sobretudo para alunos e professores provenientes de instituições onde o objectivo final das propostas e projectos escolares tem que passar pela exequibilidade.
Instituído como espaço de transgressão das práticas habituais e de permuta intercultural, esta edição do projecto acabou por se constituir como “uma aventura sem fronteiras” para a qual o único passaporte obrigatório foi a leitura do romance “A Jangada de Pedra” da autoria do Nobel da literatura José Saramago. Talvez por isso fosse inevitável escapar à inclusão simbólica do elemento água nas propostas cénicas solicitadas aos alunos. Talvez por isso mesmo o Tejo tenha merecido a inclusão em muitos dos projectos cenográficos resultantes deste workshop tendo assim devolvido o protagonismo a espaços da capital para os quais já não olhamos de forma refrescada tão frequentemente.
Reimaginar o Cais do Sodré como espaço central de um percurso que une o rio ao centro da cidade através de uma carpete vermelha, com criação de um espaço de “renascimento” de todos quantos experienciam “esse momento excepcional” ou redescobrir no Terreiro do Paço uma passagem cujo secreto destino nos faz desembocar num “buraco” em pleno Tejo a partir do qual se pode visualizar e vivenciar diferentemente a cidade de Lisboa são algumas das utopias cenográficas que cumpriram o destino de “explorar os limites e transgressões da implantação dos dispositivos cénicos no terreno da arquitectura” tendo, claro está, “sempre em mente o seu carácter especulativo e utópico”.
(Texto publicado na revista "Magazien Artes" de Março 2008)