Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson


Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris

“Poeta da selva urbana”

As 84 anos de idade, 60 dos quais dedicados à fotografia, Saul Leiter apresenta em Paris a sua primeira exposição retrospectiva na Europa.
Uma oportunidade única para apreciar, até 13 de Abril na Fondation Henri Cartier-Bresson, a obra do fotógrafo cuja falta de ambição artística ocultou do grande público, durante cerca de 50 anos, um dos mais brilhantes e modernos Olhares da segunda metade do século XX.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Saul Leiter, gentilmente cedidas por Fondation Henri Cartier-Bresson

Escutar Saul Leiter discursando sobre o seu próprio trabalho é simultaneamente uma experiência desconcertante e uma imensa lição de humildade. Ouvi-lo confessar que nunca imaginou ver o seu trabalho exposto num museu ou que jamais ambicionou criar obras de Arte causa perplexidade a todos quantos observam as suas extraordinárias fotografias de rua impregnadas de uma poética onde pontuam silhuetas em fuga, apontamentos inesperados de cor e enquadramentos improváveis.
Compreender tamanha modéstia, tamanha falta de ambição artística é a principal chave para descodificar o universo de Saul Leiter, autor que ainda hoje admite, com franco sorriso, que a sua maior preocupação foi sempre “conseguir pagar as contas de electricidade, algo que nem sempre foi possível”.
Nascido em 1923 em Pittsburgh, filho de um famoso rabino, Saul Leiter decidiu, aos 23 anos de idade, abandonar os estudos em Teologia e mudar-se para Nova Iorque a fim de se consagrar totalmente à sua paixão pela pintura. Será pela mão de alguns pintores com quem privou nessa época, nomeadamente Richard Pousette-Dart, que Saul Leiter se começará a interessar pela fotografia. Na sua memória resta ainda bem vívida a forte impressão causada, em 1947, pela exposição de Henri Cartier-Bresson no MoMA, evento a que ainda hoje atribui a causalidade da sua escolha profissional.
Pleno de estímulos e munido de uma Leica começou assim a deambular pelas ruas de Nova Iorque, fotografando-as a preto e branco. Em 1948 entra numa loja de fotografia e inesperadamente decide comprar um rolo a cores, acção que se viria a revelar determinante na sua prática fotográfica, não parando desde então de alternar entre ambos os suportes.
Foi o trabalho a preto e branco de Leiter que primeiro prendeu a atenção de Steichen, na época conservador de fotografia no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova Iorque, e que, em 1953, seleccionaria 25 fotografias suas, exibindo-as na exposição colectiva “Always the Young Stranger”. No entanto a sua grande mestria, patente sobretudo na forma revolucionária como utilizava a cor, teria que aguardar 4 anos antes de ser revelada ao público nova-iorquino no âmbito da conferência “Experimental Photography in Color” proferida por Steichen no MoMA em 1957.
Com uma visão pragmática da vida e concentrado na sua sobrevivência Saul Leiter torna-se, por intermédio de Robert Frank que lhe havia apresentado Alexey Brodovitch – na altura director artístico da revista “Harper’s Bazaar”-, num bem sucedido fotógrafo de moda espelhando, ao longo de duas décadas, as suas obras “dignas de museus e não de páginas de revistas” em publicações de moda como a “Esquire” e a própria “Harper’s Bazaar”.
O seu trabalho mais pessoal, centrado na fotografia de rua, acabará por permanecer esquecido aos olhos do mundo até meados dos anos 90, altura em que a Galeria Nova-iorquina Howard Greenberg lhe consagra uma exposição de fotografias a preto e branco. Será esta exposição, em 1993, juntamente com a publicação de “Early Color”, em 2006 - pela mão de Martin Harrison na Steidl-, que voltarão a concentrar na sua obra a atenção por parte dos especialistas internacionais.
Hoje, na celebração desta brilhante redescoberta, a Fondation Henri Cartier-Bresson apresenta oportunamente, em dois pisos do seu edifício na zona de Montparnasse, uma exposição comissariada por Agnès Sire onde através de dois núcleos expositivos, a cores e a preto e branco, se revelam uma centena de imagens da autoria de Saul Leiter. Realizadas entre 1947 e 1960, as imagens apresentadas a público são na sua maioria impressões de época, emprestadas pela Galeria Howard Greenberg e por coleccionadores privados, onde se revelam “silhuetas em trânsito, sombras, visões misteriosas e indirectas entre romantismo e filme negro” tão características do Olhar do fotógrafo que elegeu a “selva urbana” como sujeito do seu trabalho pessoal revelando assim o seu extraordinário universo “poético, onírico e calmante, sobre o qual plana a doçura da melancolia”.

Exposição “Saul Leiter”
na Fondation Henri Cartier-Bresson, em Paris
Até dia 13 de Abril


Catálogo da exposição
Prefácio de Agnès Sire
Entrevista de Sam Stourdzé a Saul Leiter
50 fotografias a preto e branco e 50 fotografias a cores
edição cartonada com sobrecapa impressa
20x24 cm, 144 páginas
editado por Steidl Paris

outras edições

“Saul Leiter”
Colecção Photo Poche
Edição brochada
64 páginas
Editado por Actes Sud

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" do mês de Março 2008)