Portugueses de Diáspora_Susana Machado
O espaço teatral como metáfora
Recusa a designação de artista, apresentando-se como apenas como cenógrafa. Aos 35 anos, Susana Machado, assume-se como uma mulher “de sangue português, cabeça francesa e coração italiano” aludindo assim às suas origens, educação e preferências estéticas. Eis o retrato de uma criadora madura, movida pela paixão, cujo trabalho se divide maioritariamente entre palco e plateau mas que confessa preferência pela criação na área teatral.
Texto e fotografia de Susana Paiva
Imagem dos espectáculos gentilmente cedidas por Susana Machado
Susana Machado nasceu em Delães, Vila Nova de Famalicão, mas cinco anos mais tarde instalou-se com os seus pais em Paris, cidade onde havia sido concebida. Fora aí que os seus pais se haviam conhecido e lá haveriam de regressar, em 1976, após conclusão do longo serviço militar do pai em Angola. A infância e adolescência passou-a no coração do Quartier Latin, um local privilegiado no epicentro de Paris, pleno de memórias do Odeon, da Sorbonne e dos boulevards Saint Michel e Saint Germain. Ainda hoje recorda com felicidade os momentos da sua infância em que, no seu tempo livre, o pai a levava às obras em que a sua empresa de decoração intervinha e a deixava pegar nos pincéis e tintas. Tinha então oito ou nove anos, adorava desenhar e nunca perdia a oportunidade de dar umas boas pinceladas.
Dois anos mais tarde a mãe inscreveu-a nos ateliers do Carrousel do Louvre, local onde viria a desenvolver as suas aptidões para o desenho e pintura. Uma aprendizagem que viria a desenvolver paralelamente com o ensino regular num percurso académico que naturalmente a teria conduzido à licenciatura em História de Arte não fosse o facto de, aos 19 anos, ter descoberto o fantástico mundo do teatro. No teatro rapidamente reconheceu a conjugação de dois universos que a seduziam – o da literatura e das artes plásticas – e sem hesitar candidatou-se a cinco anos de formação na École nationale supérieure des arts décoratifs , em Paris, onde em 1996 se viria a diplomar com a especialização em cenografia.
Foi o sonho de trabalhar como cenógrafa teatral que a levou então a contactar o arquitecto português José Manuel Castanheira, cujo trabalho de cenografia havia admirado em Paris no âmbito de uma exposição no Centre George Pompidou, e a instalar-se em Lisboa onde trabalharia como sua assistente durante cerca de 4 anos, período que ainda hoje recorda como “óptimo, cheio de trabalhos interessantes em Portugal e Espanha, nomeadamente em Valência e Mérida”.
Em 1999 Guy-Claude François, seu antigo professor em Paris, desafia-a para um novo projecto de longa duração, desta feita na área do cinema. Foi assim que durante oito meses Susana acabaria a trabalhar como segunda assistente de decoração no filme “Capitães de Abril”, realizado por Maria de Medeiros. A partir desse momento Susana começa então a assinar as suas próprias cenografias em território nacional, trabalhando com estruturas como o Cendrev, em Évora, o Teatro Extremo, em Almada, ou o Teatro das Beiras, na Covilhã.
No ano de 2001 os afectos levam-na a mudar-se para Antuérpia, cidade onde residirá pouco mais do que 18 meses mas onde ainda trabalhará no espectáculo “Hotel Ideal” da companhia belga então designada “Blauw-vier” e actualmente conhecida pelo nome de “Laika”.
No final do ano seguinte resolve regressar a Paris onde reconhece que teve que “recomeçar do zero” a sua carreira como cenógrafa, uma fase onde acabaria por trabalhar sobretudo no meio audiovisual como assistente de decoração em filmes como "Les âmes grises", realizado por Yves Angelo e "Arsène Lupin", realizado por Jean-Paul Salomé.
Foi necessário chegar o ano de 2007 para que Susana voltasse em pleno, com quatro trabalhos da sua autoria nos palcos de Paris e Grenoble, aquilo que mais gosta – criar cenografias para teatro. “Cenografias que se distinguem por serem mais metafóricas”, mais simbólicas e por serem tão melhor sucedidas quanto mais “estiverem ao serviço de um texto, de uma mensagem e dos actores”. Opção de brilhante invisibilidade de uma criadora que sonha ainda, após extensa experiência em teatro e cinema, com a nova aventura da criação de cenografias para Ópera.
(texto publicado na revista "Magazine Artes" de Janeiro 2008)