Jose Vieira

Portugueses de Diáspora_José Vieira

Memórias que queimam

Praticamente desconhecido em Portugal, José Vieira é um realizador de origem Portuguesa residente em França desde 1965 e cujo núcleo central do trabalho versa a emigração portuguesa clandestina em França.
Partindo de histórias individuais, que também são a sua, a autor traça o retrato da emigração em França, recuperando uma memória colectiva, ameaçada de extinção de ambos os lados da fronteira.

Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens de arquivo gentilmente cedidas por José Vieira

Paris 20 ème, zona de Mémilmontant. O céu é visivelmente extenso e a vista extasiante quando observados a partir do 12º andar dos prédios de Nouvelle Belleville. Suspenso o tempo, o espaço reinventa-se à medida de cada observador. A memória liberta-se e a cidade toma nova dimensão. Apenas um intenso odor a café denuncia a presença do realizador
José Vieira prefere a força comunicadora das suas imagens ao exercício da oralidade. Não que não seja bom comunicador, eloquente na expressão das suas ideias, mas sobretudo porque acredita haver mais e melhor poder de síntese naquilo que realizou e escreveu do que naquilo que poderá vir a verbalizar. Quem visualiza as suas obras, lê os documentos que compilou e as palavras que cuidadosamente escreveu, poderá encontrar respostas para muitas das questões imaginadas. Nos seus documentários revelam-se histórias individuais de vida, exemplos que espelham a difícil existência de milhares de portugueses que nos anos 60, tal como a sua família, partilharam a dor da emigração. As suas obras são preciosos documentos sobre a memória colectiva de um povo, que escapou à pobreza e repressão Salazarista encontrando em França um precário porto de abrigo. São espaços-testemunho onde se escutam vívidos relatos sobre um fenómeno ainda hoje insuficientemente estudado e talvez por isso mal compreendido.
José Vieira acredita que há uma generalizada incompreensão por parte de quem o rodeia na escolha das suas temáticas. Para os franceses, ainda tão presos aos estereótipos da emigração - com imaginários povoados de iliteratas porteiras, mulheres da limpeza e homens que trabalham na construção civil -, os portugueses nada tem a dizer. Para os portugueses, indelevelmente marcados pela experiência da emigração clandestina, pouco desejo há em falar disso. São realidades cativas de um mundo de sofrimento e vergonha, um tempo de memórias que queimam e deixam marcas que muitos desejariam apagar e que, por isso mesmo, José Vieira deseja continuar a abordar com a mesma paixão, intensidade e empenho de sempre.
Para José Vieira a história pessoal de emigração começou cedo. Tinha sete anos e meio quando o seu pai, emigrado em França há cerca de um ano, regressou a Oliveira de Frades, distrito de Viseu, para ir buscar a família. Nesse ano de 1965 José seguiu os pais e quatro irmãos com destino a Paris, alojando-se, como tantos outros portugueses, no precário e periférico bairro de lata de Massy que a emigração portuguesa havia criado. Dessa época recorda sobretudo a chegada ao bairro de lata, memória que inscreverá na mente como o primeiro momento de ruptura da sua vida. Para trás ficavam memórias difusas de uma infância tranquila em Oliveira de Frades, o único fragmento de Portugal que perdurará imutável no seu imaginário.
Em Paris as condições no “bidonville” de Massy - baptizado como “o bairro da minhoca”- eram precárias e estavam muito longe de ser as imaginadas no sonho dourado da emigração. Vivido em grande sofrimento pelos adultos e pelas suas irmãs, então adolescentes, o bairro de lata podia contudo, aos olhos de uma criança, constituir também um enorme espaço de liberdade, terreno de fantasia para histórias de cowboys e índios que José partilhava com as outras crianças portuguesas lá residentes. Era sobretudo fora do “bidonville” que a realidade de José se tornava insustentável, com a obrigatoriedade de ocultação do domicílio perante os colegas de escola, todos franceses, e a necessária extensão dessa mentira por altura das visitas a Portugal. Consumidos pela vergonha da realidade da sua vida em França, os relatos dos emigrantes nas visitas ao seu país natal construíam histórias de felicidade e bem-estar, muito distantes do verdadeiro sofrimento da emigração. 
Talvez tenha sido essa mentira a responsável pelo maior fosso entre aqueles que emigravam e os que optavam por ficar em Portugal. Estes, convictos do sucesso dos compatriotas, invejavam-lhes a vida e erguiam barreiras que mais tarde se revelariam difíceis de transpor.
Entretanto a vida em França seguia o seu curso, com a família de José a libertar-se das duras condições do “bidonville” em 1970, altura em que o pai conseguiu reunir as condições financeiras para alugar uma casa. Para José essa mudança, feita em idade crítica - por volta dos seus 12 anos -, constituiria a segunda grande ruptura na sua vida. Cortado o cordão umbilical com os amigos do bairro de lata de Massy, parceiros de brincadeira ao longo de cinco anos, José Vieira estava novamente só, mais estrangeiro do que nunca numa terra que ainda não chegava a ser sua.
Talvez tenham sido estas rupturas que desenvolveram o seu desejo de ser assimilado pela cultura francesa - estava cansado de ser português e apenas desejava ser igual aos outros.
Hoje José Vieira pensa, escreve e sonha em francês. Não recusa as suas origens portuguesas mas tal como muitos franceses de origem portuguesa sente-se bem em França e tem muitas afinidades com a cultura francesa. Em Oliveira de Frades, localidade de que é natural, continua a ser “o filho do ferreiro” e sente que dificilmente se libertará do estigma da emigração, sendo visto como parte do grupo “daqueles que partiram”. Na sua própria terra desconhecem aquilo que faz em França. Por nunca lho terem perguntado nunca sentiu necessidade de dizer que é realizador e que escolheu como núcleo central do seu trabalho debruçar-se sobre a emigração portuguesa em França. Nunca lhes contou, em última instância, que trabalha sobre a sua história pessoal e sobre as memórias colectivas da emigração clandestina. Nunca lhes disse que nos seus documentários, especialmente em “A fotografia rasgada”, de 2001, e “O País onde nunca se regressa”, de 2006, se espelha a história de muitos daqueles que sentiram urgência em partir em busca de uma vida melhor, tal como o seu pai. Nunca lhes revelou que o seu campo de ensaio é também o das feridas que a dor da emigração nunca conseguiu sarar. Nunca lhes confessou que a emigração é sempre uma revolução na vida de quem parte e que isso as transforma para toda a vida.
Hoje, aos 49 anos, ainda não teve oportunidade de ver o seu trabalho reconhecido por todos quantos constroem a história em Portugal. Contrariamente ao que sucede em França o seu trabalho cinematográfico continua praticamente desconhecido em território nacional, ignorado pelos que ficaram e preciosamente ocultado, como uma ferida que não se quer reabrir, por aqueles que partiram.

(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")