"In nomine Dei" de Jose Saramago

A intolerância segundo José Saramago

Foi no passado dia 12 de Dezembro que o Teatro Central de Sevilha recebeu a estreia mundial do espectáculo “In nomine Dei”, um texto teatral de José Saramago levado à cena pelo Centro Andaluz de Teatro, com encenação de José Carlos Plaza e cenografia de José Manuel Castanheira, onde se veicula, numa versão operática, as magníficas palavras do escritor contra a intolerância.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi com um misto de surpresa, respeito e tristeza que o público da estreia de “In nomine Dei” recebeu a mensagem difundida em vídeo onde José Saramago endereçava ao público palavras que todos desejariam ter ouvido de viva voz. No ecrã instalado à boca de cena, o escritor, visivelmente abatido, proferia um discurso universal anti-fundamentalista e testemunhava, com pesar, a dor da ausência e a inveja de todos quantos ali podiam estar. Ele, em casa, cumpria estritas ordens médicas de 15 dias de repouso absoluto, convalescendo ainda de um recente problema de saúde que levará cerca de dois meses a recuperar. Dois dias antes, no âmbito de uma conferência de imprensa realizada na biblioteca Saramago em Lanzarote, havia declarado que, ainda que estivesse certo que a representação da sua obra não mudaria nada, esperava que a estreia do espectáculo em Sevilha servisse pelo menos para “despertar as consciências de algumas pessoas que causam dano à humanidade”. Inegavelmente feliz com a estreia universal do seu texto teatral, originalmente publicado em 1993, Saramago aproveitou para contextualizar o momento histórico em que desenrola a história, explicando que a mesma se baseia num caso verídico passado em Münster, uma cidade no norte de Alemanha, onde no século XVI um conflito entre católicos e protestantes, “em nome do mesmo Deus”, acabou numa carnificina tal que dos 14000 habitantes iniciais, após um processo de tortura e morte, apenas restaram 2000. Um texto pleno de actualidade dado que, na sua opinião, "em milhares de anos de criação, de natureza, de inteligência, de tudo o que faz grande o Homem, o ser humano continua a ser utilizado pelo próprio ser humano para atentar contra si próprio".
Nesse sentido o prémio Nobel da Literatura entende que, apesar das descobertas e avanços na sociedade, “não temos melhorado nada, bem pelo contrário - temos refinado métodos de tortura, transformando-a numa ciência exacta. Nós, seres inteligentes, capazes de rir, chorar e sentir, estamos numa hora de irresponsabilidade em que nada é culpável e todos têm a culpa, como sempre”.
Tomado muitas vezes como uma voz crítica no debate de assuntos religiosos -recorde-se a polémica em Portugal em torno da obra “O Evangelho segundo Jesus Cristo” - Saramago continua a sustentar o único desejo de "compreender as coisas” reforçando a ideia de que nunca pretendeu “convencer ninguém de nada”. “Os acontecimentos descritos nesta peça representam apenas um trágico capítulo da grande e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que a leiam assim, crentes ou não crentes, e farão um favor a si próprios”.
Assumido como uma homenagem a José Saramago - nas palavras de Rosa Torres, “um andaluz que não nasceu em Andaluzia mas que desejou sê-lo sem renunciar a ser qualquer outra coisa”, numa alusão da conselheira para a cultura da Junta de Andaluzia à recente nomeação do escritor como “filho adoptivo de Andaluzia” - “In nomine Dei”, levado à cena pelo Cento Andaluz de Teatro, é um espectáculo maior por mérito próprio, conseguindo, como tão raras vezes acontece, uma perfeita sintonia entre todos os elementos teatrais, com especial destaque para os trabalhos de encenação de José Carlos Plaza e de cenografia de José Manuel Castanheira que criam em cena uma unidade onde se espelha na perfeição a mensagem de José Saramago. Concebido como “uma cidade em ruínas, metáfora universal da destruição do ser humano” o cenário de Castanheira dá o mote essencial para a agilização de uma encenação que se adivinha difícil dada a complexidade do texto e a presença dos cerca de 30 actores e cantores em palco.
Tendo-se deslocado a Lanzarote para trabalhar durante um mês com Saramago na adaptação do texto, “que funciona como um alerta contra os fanatismos que arrastam os seres humanos a matar e a deixar-se matar”, José Carlos Plaza tem o grande mérito de, recorrendo à sua prática na encenação de operas, ter criado um espectáculo que, apesar da sua complexidade, encontrou na forma musical a facilidade de expressão que o texto original, à priori, não deixava antever. Construído de forma operática, “In nomine Dei” revela também o excelente trabalho de Mariano Díaz, responsável pela música e espaço sonoro, que soube criar, com uma matéria humana onde pontuavam apenas 4 cantores, um ambiente sonoro extraordinário, revelador do estudo dos salmos e da música eclesiástica em geral, onde o coro desempenha um papel fundamental.
Construído como um trabalho de grande fôlego e extraordinário empenho colectivo o espectáculo do Centro Andaluz de Teatro fará uma extensa itinerância pelos teatros da Andaluzia, com apresentação em 54 salas distintas, seguindo posteriormente digressão no restante território espanhol e possivelmente noutros países de expressão oficial espanhola.
Para que, pelo menos, Saramago possa estar certo que, concordando com José Carlos Plaza referindo-se a todos os intervenientes no espectáculo, “para todos nós, a partir de agora, será mais difícil ser intolerantes”.

Próximas apresentações

5 a 15 de Março no Teatro Cánovas de Málaga 
27 e 28 de Março no Gran Teatro de Córdoba


(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")