Portfolio_Horst Friedrich
Anjos do deserto
É do reino do maravilhoso que saem os personagens fotografados por Horst Friedrich, verdadeiros “anjos do deserto” como lhes chamou a escritora venezuelana Elisabetta Balasso, co-autora do livro “Doña Maria und Ihre Träume”, uma das mais telúricas obras fotográficas e literárias da actualidade.
Fotografias gentilmente cedidas por Horst Friedrich
Texto de Susana Paiva
São poéticas e elucidativas as palavras com que Elisabetta Balasso descreve o contacto entre os autores e os habitantes do deserto venezuelano – “viemos de longe, da capital ou de além mar, de lugares míticos dos quais quem lá estava apenas tinha ouvido falar. Chegamos às terras áridas e encontramos paisagens calcinadas pelo vento, árvores iluminadas e uma bebida cheia de espírito, que convoca as sombras transparentes do desejo, e que não acalma a sede mas magnifica e produz eventos excepcionais. Chegamos e conhecemos os habitantes – anjos com rugas profundas e preciosos corações plenos de sabedoria e hospitalidade. E assim comprovamos que a realidade é bem mais mágica do que qualquer literatura, quando se penetra suavemente no tempo do deserto”. Nas palavras iniciais de “Dona Maria e os seus sonhos” se encerra, com grande mestria, o mistério e a beleza de todos quantos habitam as esquecidas paisagens do deserto venezuelano, território onde o tempo parece ter outra dimensão.
“O tempo está parado em casa de Dona Ruperta, presenças fantasmagóricas parecem aguardar nas esquinas que ficaram escuras, tão fiéis e resignadas como um cão enfraquecido. Nada sucede, e no entanto tudo está cheio de sentido - o pau que serve de bastão para espantar os animais, tão seco como os seus braços, apoiado na parede; o pedaço de queijo de cabra sobre o pratito de barro; a pequena cadeira de criança, em que Ruperta se senta nas noites em que não consegue dormir; as gretas na terra das paredes que parecem querer dizer-nos algo que não conseguimos compreender. A casa respira com a respiração pausada e profunda de um adormecido, quem sabe sonhando por Dona Ruperta, sonhando os sonhos que ela esqueceu”. Foi este o ambiente telúrico que o fotógrafo alemão Horst Friedrich encontrou quando, há cerca de doze anos, viajou pela primeira vez ao deserto venezuelano. Lia na altura o romance “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez e estava longe de imaginar que iria encontrar o mesmo realismo mágico em terras venezuelanas.
“Não se ouve nada mais do que o vento. Nem cabras nem pássaros, apenas o vento. Um céu sólido, azul infinito igual à cafeteira pousada sobre a laje de pedra assente na terra. O céu dissolve-se numas nuvens brancas ali onde a terra seca se esmigalha em rectos cactos, em yabos de mil ramificações e em cujís retorcidos”. Percorrendo, a partir de Caracas, um cenário espantoso para lá dos Andes chegou ao estado de Lara, e depois a Falcón, na costa, onde conheceu Dona Maria, Margarita, Eustiquio e família bem como tantos outros habitantes, "pessoas especiais que fabricam um artesanato precioso", afirmou Horst. "São personagens, são heróis... Esta gente é incrível, interessante, forte. São pobres, mas felizes, pois têm sabedoria. Claro que às vezes gostariam de ter uma vida melhor mas, por exemplo, Eustiquio tem um telemóvel e eu de vez em quando telefono-lhe e ele fica feliz".
Tendo viajado múltiplas vezes a esses dois estados no noroeste da Venezuela, Horst fez-se sempre acompanhar da sua Hasselblad, uma máquina fotográfica alemã de médio formato, com a qual retratou os habitantes das povoações visitadas. Nem sempre a aproximação foi fácil pois quando inquiridos alguns populares recusavam a oferta de serem fotografados por Horst mas ainda assim este não desanimava. No ano seguinte voltava a inquiri-los, estreitando, pouco a pouco, os laços de amizade que lhe permitiriam uma aproximação incondicional. Assim foi com quase todos os populares. Alguns resistiram durante três anos mas acabaram por dar corpo e rosto às imagens de Horst e por , mais tarde, partilharem as suas histórias com Elisabetta Balasso.
“São seis os filhos mas deviam ser nove. A voz entrecortada e trémula, os olhos húmidos, pois é difícil recordar as dores da mulher, o medo, a fatalidade, a resignação. O tempo suspendeu-se, o sol cristalizou, a abelha deteve o voo enquanto o homem contou a sua história. Custou-lhe muito, mas seguiu valentemente, como se fora necessário, como se fosse um dever, e não o era, não nos devia nada, não era indispensável contar-nos nada; e agora não sei o que fazer, dá-me pudor este fio de água cristalino e secreto, correndo debaixo das pedras, este desenho de águas subterrâneas, este passarito ferido entre as mãos. Conta-me tudo e eu fico devastada com as experiências de sofrimento que o marcaram, com todas essas mortes sempre presentes, novamente presentes enquanto as rememora, presentes no pátio de trás, onde desde então se erguem duas cruzes brancas”.
Construído numa simbiose perfeita entre os universos imagéticos e literários, “Dona Maria e os seus sonhos” é um exemplo maior daquilo que ainda hoje se pode criar no âmbito da fotografia documental. Justamente aclamado como um projecto ao nível dos desenvolvidos no Estados Unidos da América por fotógrafos como Walker Evans e Robert Frank, este trabalho de Horst Friedrich consagra-o como um dos grandes nomes da fotografia documental, sedimentando aquilo que já se intuía na publicação, em 1999, do seu primeiro livro “Troubadours of Allah” (Trovadores de Alá), também editado pela alemã Frederking & Thaler.
Repleto de poesia e excelentes imagens, “Dona Maria e os seus sonhos” dignifica todos quantos aí estão retratados, transportando-nos para um universo humano de extrema pureza, difícil de imaginar no mundo em que vivemos hoje.
“O filho mais novo de Eustiquio olha o céu, procurando nas estrelas a constelação que nos guia: O coração de Maria e Jesus, disse-me, assinalando os dois corações desenhados na noite”, escreve Elisabetta Balasso como a contrabalançar o insustentável peso das palavras anteriores “O céu ilumina-se aos poucos, acende-se e apaga-se seguindo a navegação das nuvens. Mais próximo da terra voa uma mosca, suspensa por asas tão rápidas que só se distingue uma sombra de cada lado do corpo. Não muito longe ouve-se um compacto zumbido de enxame. De resto, o silêncio é tão espesso que pesa no ar”. Um peso que Horst e Elisabetta souberam retratar com grande beleza e sensibilidade e que certamente perdurará como um dos mais belos livros da nossa década.
“Doña Maria und Ihre Träume” (Dona Maria e os seus sonhos)
de Horst A. Friedrichs e Elisabetta Balasso
192 páginas, aproximadamente 120 fotografias a cor e a preto e branco
Formato: 24,0 x 34,0 cm
editora: Frederking & Thaler
www.horstfriedrichs.com
imagens à venda online na Galeria Anzenberger
http://www.anzenbergergallery.com/en/article/204.html
(Texto publicado na revista "Magazine Artes" na edição de Fevereiro 2008)