Visto de fora_Rock’n’Roll 39-59_Fondation Cartier pour l’art contemporain

Filhos do Rock

É uma exposição monumental a que, em Paris, a Fondation Cartier pour l’art contemporain dedica à génese do Rock’n’Roll. Uma mostra claramente pedagógica que proporciona aos seus visitantes a exploração, através de objectos e sonoridades, de um movimento que transformou o mundo.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pela Fondation Cartier pour l’art contemporain

É uma exposição atípica a que aguarda os habituais visitantes do nº 261 do Parisiense boulevard Raspail. Longe das eclécticas mostras de arte contemporânea a que a Fondation Cartier pour l’art contemporain nos tem habituado, o imóvel concebido por Jean Nouvel é agora habitado por coloridas jukeboxes dos anos 40 e 50, microfones das décadas de 30, 40 e 50, um Cadillac cabriolet serie 62, fabricado em 1953, impecavelmente conservado e com os seus acessórios originais, e até por um estúdio de gravação dos anos 50 no interior do qual se ouvem, entre outras, as sessões originais de gravação de “She knows how to rock”, interpretada por Little Richards, “Great Balls of Fire” por Jerry Lee Lewis - ambas de 1957 - e “I got stung”, gravada em 1958 por Elvis Presley.
Lá fora, no átrio, colunas difundem extractos das ondas hertzianas emitidas em 1955 pela Wins Radio nas suas “Alan Freed sessions”, invocando deste modo o importante papel desempenhado por Alan Freed na invenção e difusão do rock’n’roll. Tudo no espaço expositivo da fundação convida a um mergulho no passado – a estética retro, as irresistíveis sonoridades difundidas, a jukebox ainda em funcionamento na qual os visitantes podem escolher o disco a ouvir, a montra repleta de exemplares da “Dig”, “Teen”, “Movie Teen Illustrated” e “Song hits Magazine” - revistas dos anos 50 dedicadas aos adolescentes, esse “extracto social financeiramente emergente numa América Pós-Guerra” tão desejoso de novas sonoridades e práticas que reflectissem a sua rebeldia e vitalidade.
Na sala contígua, em jeito de preparação para a visita global, projecta-se o filme “Rock’n’Roll: The Early Days”, realizado em 1984 por Patrick Montgomery e Pamela Page. Aí desfilam, ao lado das guitarras expostas de 3 gigantes dos primórdios do rock – Elvis Presley, Buddy Holly e Carl Perkins – imagens de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richards e muitos outros que contribuíram para a afirmação do rock como uma sonoridade de futuro. Ao longo de uma hora passa-se em revista a totalidade dos ingredientes reunidos para a génese do rock, desde a estética musical moralista vigente nos anos 30 e protagonizada unicamente por músicos brancos, à segregação racial que assolava sobretudo o sul dos Estados Unidos da América, passando pela emergência de uma cultura adolescente e um culto exacerbado de heróis rebeldes.
É nesse ambiente social e culturalmente conturbado que surge o rock’n’roll, herdeiro dos cruzamentos de sonoridades como o Boogie-woogie, as Big Band Jazz, o Gospel, o Blues, o Country e o Rhythm and Blues como assim o demonstram os módulos que no piso inferior da Fondation Cartier onde se traça a cronologia detalhada da génese e evolução do rock, com particular enfoque na vida e obra de algumas figuras emblemáticas como “Bill Haley and his Comets”, o primeiro grupo a fazer conhecer e a popularizar o rock à escala internacional.
Lugar de destaque na exposição merece ainda a mítica figura de Elvis Presley, o jovem camionista que aos 19 anos gravou “That’s all right” apanhando Memphis de surpresa e provando que a fórmula inicial do sucesso popular do rock poderia residir “num branco que cantava e dançava como um negro”.

Exposição “Rock’n’Roll 39-59”
Patente até 28 de Outubro na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris

Visto de Fora_Vieira da Silva no Centre Culturel Calouste Gulbenkian, em Paris

Caligrafias do Olhar

Antecipando a comemoração do centenário do nascimento da pintora, o Centre Culturel Calouste Gulbenkian apresenta, nas suas instalações em Paris, uma exposição de 44 obras de Maria Helena Vieira da Silva provenientes da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva e do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Uma exposição imprescindível, a desfrutar gratuitamente até ao próximo dia 28 de Setembro.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pelo Centre Culturel Calouste Gulbenkian

Tal como urgia, a obra de Vieira da Silva regressou à ribalta em Paris, oito anos após a última mostra no Musée Maillot e dezanove anos depois de uma grande retrospectiva, no Grand Palais, confirmar ao público geral a sua genialidade. É numa exposição mais modesta, mas também mais intimista e humanizada, que o público se pode agora instruir sobre a vida e obra da pintora, desfrutando de oito pinturas e uma gravura do acervo do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, e três óleos, um guache e 31 trabalhos sobre papel, entre desenhos e gravuras, pertencentes à colecção da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.
Instaladas nos pisos inferior e superior da antiga mansão de Calouste Sarkis Gulbenkian em Paris, no número 51 da Avenue D’Iéna, as 44 obras de Vieira da Silva, revisitam cronologicamente os temas da sua predilecção – “as estruturas espaciais fechadas dos primeiros anos, os tabuleiros de xadrez e os arlequins, o tema da guerra e da angústia representada pelas quadrículas que aprisionam os personagens bem como as suas pesquisas da maturidade sobre o espaço, que caracterizam as suas construções e bibliotecas” – e encontram nesse espaço uma ajustada e interessante dimensão entre pública exposição e privacidade, movimento e imobilidade, fragilidade e fortaleza, constituindo assim uma bela homenagem, na comemoração do 50º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian, à pintora com quem manteve uma longa relação, tendo mesmo um papel relevante – sobretudo graças à acção de José Sommer Ribeiro, primeiro director do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão e grande amigo de Vieira da Silva - na divulgação da sua obra em Portugal, através da organização de exposições e aquisições e do apoio à realização do seu «Catalogue Raisonnée» e à criação da Fundação que tem o seu nome e o do pintor de origem húngara com quem se casou em 1930, Arpad Szenes.
Comissariada por Marina Bairrão Ruivo, conservadora na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, e por Ana Vasconcelos e Melo, conservadora no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição mostra, nas palavras de Isabel Matos Dias, a diversidade e a unidade da produção artística da pintora, fazendo sentir ao espectador que a percorre o eco das palavras de René Char, seu grande amigo, - “Vieira da Silva…múltipla e uma.”
Para a pintora que afirmou, na monografia “Vieira da Silva”, ter compreendido que a sua pintura era uma escrita - escrita de uma mão activa que age e que vê, e que nos permite falar de uma caligrafia do olhar – a escolha do lápis e de um papel frágil como suporte dos seus desenhos sublinha a precariedade da obra, uma dimensão de efemeridade que descobriu muito cedo na vida.
Numerosos dos seus temas de eleição são representados nos desenhos agora expostos, evidenciando o desejo de Vieira da Silva de alcançar a infinita variedade das diferentes manifestações da vida ou não tivesse Vieira da Silva declarado: “Tudo me espanta. Pinto o meu espanto que é, à vez, maravilhamento, terror, riso”.

Exposição “Vieira da Silva”
Obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva e da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Centre Culturel Calouste Gulbenkian
Avenue D’Iéna, nº 51 – Paris
Até 28 de Setembro

Sílvia Guerra

Portugueses de Diáspora_Sílvia Guerra

Sentido único – Arte!

Aos 34 anos Sílvia Guerra, historiadora e crítica de arte, lança-se num novo desafio, aventurando-se a título individual no seu primeiro comissariado – a exposição “Under Hitchcock”, actualmente patente na Galeria de Arte Cinemática Solar, em Vila do Conde. Uma experiência gratificante e bem sucedida que gostaria de ver multiplicada em França, onde vive, ou em Portugal e Itália, países com os quais possui fortes ligações.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi em Coimbra, onde aos 19 anos iniciou os seus estudos universitários, que Sílvia Guerra despertou para as práticas artísticas. Em 1998, chegada ao 4º ano da licenciatura em Direito, decide inscrever-se na licenciatura em História de Arte da Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra e mudar o rumo da sua futura vida profissional.
Durante os anos de estudante participa intensa e activamente na vida cultural da Associação Académica local, integrando durante 5 anos a direcção do C.I.T.A.C - Círculo de Iniciação Teatral da Academia de Coimbra. Aí, através do trabalho como actriz, produtora e gestora, dota-se das ferramentas que viriam a revelar-se essenciais ao desenvolvimentos dos seus projectos profissionais. Nos múltiplos anos de aprendizagem e experimentação teatral, cria espaços públicos de redescoberta da Poesia Portuguesa que lhe permitiriam apresentar, no seio do grupo de teatro universitário, espectáculos em Portugal, Macau e Moçambique que lhe deixariam um indelével gosto pela Arte e viagem.
A primeira grande vivência no estrangeiro concretiza-se ainda durante os anos de estudante quando, em 2000, Sílvia ruma a Veneza para, na l’Università di Cà Foscari ao abrigo do projecto Erasmus, realizar o terceiro e quarto anos da licenciatura em História de Arte. Será nessa mesma cidade que iniciará o seu trabalho profissional no domínio da Arte Contemporânea.
Em 2001, no âmbito da 49ª Bienal de Veneza, e sob o comissariado de Udo Kittelmann, dirige e coordena o grupo de trabalho no Pavilhão Alemão onde se encontra exposta a obra “Totes Haus Ur”, do artista Gregor Schneider. Uma experiência muito gratificante e marcante que Sílvia ainda hoje recorda com grande vivacidade ou não tivesse sido ela a responsável por abrir diariamente a porta da casa que, artisticamente, Gregor Schneider aí materializou.
Em consequência do seu currículo e das suas bem sucedidas actividades em Itália é convidada por Paulo Cunha e Silva a regressar a Portugal e a integrar o Instituto das Artes (IA) do Ministério da Cultura. Aí exerce, durante dois anos, as funções de técnica superior especializada em arte contemporânea, no Gabinete de Internacionalização, desenvolvendo diversos projectos entre os quais a produção da representação portuguesa no 1° Fórum das Artes de Ouro Preto no Brasil, com a participação dos artistas Joana Vasconcelos, Noé Sendas, Filipa César e Francisco Queirós, e dos “Drumming”- grupo de musica erudita contemporânea de percussão, bem como a produção executiva da Representação Portuguesa na 51° Bienal de Arte de Veneza, materializada pela artista Helena Almeida, sob o comissariado de Isabel Carlos.
Com trabalho louvado por colegas e responsáveis políticos é com estranheza que recebe, em Outubro de 2005, a notícia de rescisão do seu contrato com o Instituto das Artes. Grávida de 7 meses e não sentindo energia para avançar contra a decisão do Ministério da Cultura resolve instalar-se em Paris onde se inscreve como doutoranda na École des Hautes Études en Sciences Sociales. Aí, sob a orientação de Pierre-Michel Menger, inicia o seu doutoramento com o tema “Trajectória de algumas colecções privadas de arte contemporânea na Europa e seus coleccionadores”, cruzando exemplos portugueses, franceses e suíços.
É em Paris, cidade em que vive desde 2006, que elabora agora os seus projectos pessoais, articulando-os com o permanente trabalho da sua tese de doutoramento e com a actividade de crítica artística que desenvolve para a publicação portuguesa on-line “artecapital.net”.
No plano profissional brindou-nos recentemente com o seu último “risco” individual – o comissariado da exposição colectiva “Under Hitchcock”, com obras de Jean Breschand, Christoph Girardet, Laurent Févét, Carlos Lobo, Mathias Muller e Salla Tykka, exposto até 7 de Outubro na galeria de arte cinemática Solar, em Vila do Conde. Um projecto ambicioso e bem sucedido, à imagens de outros que Sílvia gostaria de desenvolver entre França. Portugal e Itália, revelador da sua capacidade de ultrapassar obstáculos e seguir rumo aos múltiplos rostos da Arte.

Kai Wiedenhöfer

O Muro de Sharon: Terra Santa, Terra Dividida

Vencedor em 2005 da bolsa de fotografia editorial Getty Images com o projecto “Sharon’s Wall: Holly Land, Divided Land”, o fotógrafo alemão Kai Wiedenhöfer publicou recentemente, pela Steidl, o livro “Wall” reunindo 51 imagens que documentam a construção de 650 quilómetros de muros, vedações, diques e outras barreiras ao longo da fronteira entre o Estado de Israel e a futura entidade Palestiniana. Um vívido testemunho, pleno de imagens desconcertantes, que enfatiza o lado humano do conflito, revelando famílias divididas por uma barreira incompreendida.

Texto de Susana Paiva
Imagens de Kai Wiedenhöfer, cortesia Steidl

Foi Christian Schimdt, escritor baseado em Zurique, quem pela sua insistência convenceu Kai Wiedenhöfer a regressar a Israel e aos territórios ocupados da Palestina. Correspondente no Médio Oriente durante mais do que uma década, Kai Wiedenhöfer, hoje com 41 anos, estava relutante em regressar.
Desde os 13 anos, idade em que lera um livro sobre os conflitos políticos no Médio Oriente, que se sentia fascinado pelos problemas da região. Inevitavelmente, na primavera de 1989, acabou por viajar rumo a Jerusalém a fim de produzir um portfolio fotográfico para a sua candidatura universitária. Foi com esse portfolio que acedeu ao curso de fotojornalismo na Folkwang School, em Essen, onde concluiu os seus estudos em 1991.
Ainda enquanto estudante Wiedenhöfer visitou duas vezes Jerusalém, focando o seu trabalho nos aspectos religiosos e nos problemas da ocupação, reflectidos no quotidiano da Cidade Santa. Acabada a universidade, e compreendendo a necessidade de falar o idioma local caso quisesse concretizar o sonho de trabalhar no Médio Oriente, Kai rumou a Damasco, Síria, onde aprendeu a falar árabe no Arabic Teaching Institute for Foreigners.
Munido das ferramentas mínimas necessárias, Kai Wiedenhöfer estabeleceu-se então no Médio Oriente, trabalhando como fotógrafo para a agência Suíça “Lookat Photos”.
Considerado não raras vezes como um fotógrafo com “uma lente tendencialmente anti-Israelita”, Kai dedicou os 3 últimos anos a fotografar a construção do muro fronteira que divide o Estado de Israel dos territórios Palestinianos, revelando os dramas humanos daqueles que co-habitam diariamente com a construção. “Erigido com um único propósito – o de manter os terroristas Palestinianos, que desejam assassinar cidadãos Israelitas, fora”, segundo o Ministro dos Negócios Estrangeiros Israelita, “Israel, uma sociedade democrática, está a construir essa vedação para proteger cidadãos de ataques mortais, não para impedir contactos pacíficos com o outro lado”.
Na capa de “Wall”, numa fotografia captada em 2004, Abu Adnan Schawarib, de 70 anos, passeia ao longo do muro em Nazlat Isa. Do outro lado encontra-se Baqa ar-Rarbiya, uma localidade habitada por Palestinianos com cidadania Israelita. “A barreira cortou a cidade separando famílias. 105 lojas e 7 casas foram destruídas para construir o muro. Aí 25% da barreira de separação está construída a seguir à fronteira reconhecida internacionalmente. O resto entra profundamente nos territórios Palestinianos ocupados, dobrando praticamente a extensão da fronteira”, escreve Wiedenhöfer no seu livro.
Tendo optado por fotografar este projecto com uma máquina panorâmica 6x17 cm emprestada por um amigo, Wiedenhöfer criou panoramas que agudizam visualmente a extensão horizontal e vertical do muro, criando imagens extraordinariamente eficazes. Um poderoso documento que perdurará e onde ecoarão as palavras do fotógrafo alemão – “O que resta do muro de Berlim serve como recordação constante do conflito político que separou a Alemanha durante mais de 25 anos. E nesse muro, num graffiti, pode ler-se ainda - "O muro da vergonha ergue-se agora em Israel”


Livro “Wall” de Kai Wiedenhöfer
104 páginas, 30 cm x 20 cm, capa dura
publicado por Steidl
ISBN: 3-86521-117-8
www.steidlville.com

Paula Gonçalves

Portugueses de diáspora_ Paula Gonçalves

Palavras migratórias

Há uma luminosidade e intensidade nas palavras de Paula Gonçalves que nos mergulha na profunda beleza da língua portuguesa. Aos 42 anos, 32 dos quais vividos em França, Paula Gonçalves – escritora e jornalista – constrói, a passos seguros, um universo pessoal centrado no prazer da partilha da palavra falada e escrita.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi com apenas 10 anos que Paula vivenciou a diáspora. Em Outubro de 1975 deixou Lisboa rumo a Paris, com os pais e irmão, experiência que recorda como uma intensa ruptura “em relação a tudo - língua, clima, escola, amigos, referências”. Hoje, volvidos 32 anos, reconhece que a ida para França “lhe abriu as portas do mundo”.
Foram bastante dolorosos os primeiros anos de exílio de Paula Gonçalves em Paris - tempos de construção de uma nova identidade, de adaptação a uma nova e desconhecida realidade povoada de “chambres de bonne”- pequenos quartos de empregada - e casas de banho no corredor dos prédios. Momentos de uma adolescência vividos entre duas culturas, plenos de dúvidas e interrogações suplementares numa idade já por si prolífera em questionamento - tudo fragmentos que Paula Gonçalves registou, sob a forma de poemas e diários, e que anos mais tarde, filtrados pela sua visão distanciada e madura, se iriam converter na base da primeira obra literária a título individual.
Editada em 2002 pelas Editions Lusophone, “Âncora estilhaçada” é a materialização das recordações de infância da escritora mas também a invocação das raízes celtas de que tanto se orgulha. Uma “obra catártica” que reflecte a inicial busca de raízes num país onde memória individual e histórica se misturam e onde, mais tarde, se desvenda o impacto emocional do exílio em França.
Hoje, ultrapassadas as dificuldades iniciais e plenamente feliz por viver no país que lhe proporcionou contacto com o multiculturalismo, inicialmente vivenciado enquanto cursava a licenciatura em português na Sorbonne, Paula Gonçalves não hesita em afirmar que possui duas línguas maternas – o português e o francês – exprimindo-se sem dificuldade em qualquer uma.
Ambicionando ser professora após conclusão dos seus estudos, Paula Gonçalves acabou por encontrar na literatura e no jornalismo de proximidade os canais ideais para fazer aquilo que mais gosta - comunicar. Actualmente escreve em duas publicações da aglomeração de Cergy-Pontoise, uma de âmbito generalista e outra cultural, onde se privilegia o contacto directo com os habitantes e leitores da região.
Da leitura do seu curriculum confirma-se aquilo que pessoalmente, perante o seu ânimo e contagiante energia, já intuíamos – Paula desdobra-se nas “mil e uma coisas” que gosta de fazer simultaneamente. Depois de, nos anos 90, ter dinamizado a emissão diária e bilingue de “Ponto de Encontro” na Rádio Alfa – rádio de língua portuguesa localizada nas imediações de Paris – anima agora na rádio local RGB, em co-autoria com Philippe Raimbault, o programa literário “Mots migrateurs”. Inicialmente uma emissão mensal, “onde se viajava através das palavras” dando a conhecer autores e obras literárias, sempre que possível no idioma original, “Mots migrateurs” acabou também por se converter no nome do colectivo de escritores que Paula ajudou a formar em 2006 na região de Val d’Oise. “Mots migrateurs” tornou-se um espaço privilegiado para a vivência da literatura onde se promove e interajuda os seus membros.
Foi também o desejo de viver, e fazer viver, o catalisador que persuadiu Paula Gonçalves da necessidade da tradução da sua primeira obra literária, resultando assim na edição bilingue – “Âncora estilhaçada/ Ancre en éclats” - lançada em 2006 pela sua editora original. Com esta versão Paula reconhece ter alargado o universo de leitores da sua obra, permitindo-lhe aquilo que considera fundamental e lhe dá mais prazer - “divulgar a cultura portuguesa aos não-lusófonos”.
Possuidora de múltiplos recursos e fascinada pela interacção da literatura com as restantes artes, Paula tem desenvolvidos projectos colectivos que cruzam literatura com pintura e fotografia, e mais recentemente trabalhado num recital, conjuntamente com a actriz Ana Knight e com o músico Vitor Marques, onde as suas palavras ganham vida através da voz e da música. Tudo projectos que a escritora gostaria de continuar a desenvolver, a par e passo com a reposição de “Où es-tu mon pays?”, projecto teatral escrito em parceria com Jean Gennaro e estreado no passado mês de Maio, enquanto aguarda a publicação de 2 novos livros - o romance “Le fracas du silence” e “Regards Pluriels/ Dans l’intimité des couples mixtes” uma publicação reunindo testemunhos sobre a vida de casais mistos em França,

Cinema_“4 meses, 3 semanas, 2 dias” de Cristian Mungiu

“Filmar a dor”

É um filme espartano, evitando todo o superfluo, onde acção e silêncio se articulam e jogam um milimétrico xadrez num notável trabalho de interpretação por um trio de actores romenos, perfeitos desconhecidos entre nós. Uma obra de cortar o folêgo, com a qual o realizador romeno Cristian Mungiu arrebatou o Festival de Cannes levando a cobiçada Palma de ouro para casa.

Texto de Susana Paiva

Quando a 28 de Agosto, na sua ante-estreia em Paris, Cristian Mungiu apresentou o seu filme “4 meses, 3 semanas, 2 dias” na sala 10 do multiplex UGC Les Halles, estava visivelmente emocionado. As suas escassas palavras, num francês imaculado, lembravam o facto deste ser o seu primeiro filme distribuído fora da Roménia.
Jovem cineasta romeno, nascido em 1968 em Lasi, Mungiu realizou, entre 2002 e 2007, 3 obras cinematográficas – “Occident”, “Turkey girl” e “4 meses, 3 semanas, 2 dias”, este último vencedor da Palma de Ouro na última edição do Festival de Cannes.
Aclamado pela crítica internacional, o filme narra a história de duas colegas de universidade, uma das quais se encontra indesejadamente grávida e pretende fazer um aborto numa Roménia comunista onde a prática é proibida. Responsável pelo argumento, produção e realização Chistian Mungiu criou um filme assente “numa experiência pessoal que normalmente não partilhamos com os outros”. E, surpreendido ao descobrir que “alguns amigos haviam passado por experiências semelhantes, dissumuladas, por vezes horríveis”, Mungiu construiu um guião onde põe a nu as consequências da lei que, em 1966, interditou o aborto na Roménia. “O efeito foi imediato, desde os anos 70 que existem 4 novas gerações de crianças, gerações muito mais numerosas do que as anteriores a 1966. O número de crianças numa sala de aula passou de 28 a 36, e o número de turmas nas escolas passaram de 2 a 10. Quando entrei para a escola, erámos 7 “Christian” na sala – mesmo os nomes próprios já não eram suficientes para todas as crianças. Rapidamente as mulheres começaram a recorrer ao aborto ilegal. Com o fim do comunismo as fontes apontam para mais de 500 mil mulheres mortas graças a isso. Nesse contexto o aborto perdeu toda a conotação moral e foi sobretudo praticado como um acto de rebelião e de resistência contra o regime, que proibia o aborto a fim de aumentar a mão de obra disciplinada. Após 1989, uma vez caído o regime comunista, uma das primeiras medidas tomadas no país foi o restabelecimento da legalidade do aborto”.
Situada em 1987, numa pequena cidade romena, a acção de “4 meses, 3 semanas, 2 dias” põe em cena Ottila e Gabita, colegas e amigas que partilham um pequeno quarto na cidade universitária local, tendo como problema, necessitando de resolução imediata, a avançada e indesejada gravidez de Gabita. Construído como uma verdadeira corrida contra o tempo onde a dedicada Ottila tem que solucionar todos os problemas inerentes à clandestinidade do aborto de Gabita, agravados ainda pela questão financeira, o filme assenta, como o afirmou Cristian Mungiu, na personagem primorosamente desempenhada pela actriz Anamaria Marinca.
Vivendo em Londres, desde que foi distinguida, em 2004, com um prémio Bafta pela sua interpretação em “Sex traffic” de David Yates, a actriz romena declarou em entrevista à rádio francesa TSF que apesar de “estar a par das situações retratadas no filme não as vivenciara”, congratulando-se por “dar voz aqueles que não podiam falar”.
Construído através de um forte mas escasso discurso verbal o filme intensifica o discurso do não dito, materializando nos silêncios um dramatismo impar onde, de acordo com Anamaria Marinca, se materializam “os momentos onde o personagem pode respirar”. Um filme onde, ao longo de 113 minutos, se faz num registo livre e próximo do realismo, um forte e coerente discurso, de grande genialidade, sobre os limites morais e físicos da dor.

“4 meses, 3 semanas, 2 dias”
argumento, produção e realização de Cristian Mungiu
Roménia – 2006 – duração 113 minutos