David Lynch na Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris
Um universo altamente inflamável
Numa altura em que a exibição de “Inland Empire”, a última criação cinematográfica de David Lynch, intriga espectadores, um pouco por toda a Europa, o cineasta junta mais uma indecifrável peça ao puzzle do seu universo, apresentando pela primeira vez em Paris “The air is on fire”, uma exposição retrospectiva da sua quase desconhecida obra plástica.
Texto e fotografia de Susana Paiva
Imagens das obras de David Lynch gentilmente cedidas pela Fondation Cartier pour l’art contemporain
Quando o sol da tarde atravessa as paredes de vidro do edifício parisiense projectado por Jean Nouvel, no 261 do boulevard Raspail, lá dentro a obra plástica de David Lynch atinge o seu mais puro grau de estranheza. É a essa hora que as árvores do jardim projectam acentuadas sombras, ondulantes ao sabor do vento, protagonistas de um verdadeiro jogo Lynchiano - ora ocultando ora revelando as obras de pintura instaladas pelo autor, na Fondation Cartier pour l’art contemporain. Nessa sala, banhada de luz, doze imponentes estruturas metálicas, de onde pendem as invulgarmente coloridas cortinas que servem de cenografia a uma parte da exposição, são o chamariz para as cerca de 700 obras que, pela primeira vez, revelam ao mundo a quase desconhecida criação plástica que tem sido uma constante na vida de David Lynch.
Foi aos 14 anos, através do pintor Toby Keeler – pai de um amigo de infância -, que Lynch descobriu a obra de Francis Bacon, aquela que, conjuntamente com as obras de Hopper e Kadinsky, se viriam a revelar influências determinantes na sua criação. Graças a esse “choque estético” o jovem nascido em 1946 em Missoula, Montana, e oriundo de uma família sem qualquer tradição artística, decidiu tornar-se pintor. Em 1963 ingressa na Escola do Museu de Boston onde, para sua decepção, não encontra eco para as suas práticas e ambições artísticas. Decide então partir para a Europa, onde projecta viver durante 3 anos, mas inesperadamente regressa, quinze dias mais tarde, com o sentimento de “não ter encontrado um ambiente propício à sua pintura”, instalando-se em Filadélfia onde começa a frequentar a Academia de Artes da Pensilvânia. É aí, naquilo que Lynch descreve como “uma experiência estimulante e soberba”, que encontra verdadeiramente o seu primeiro espaço de expressão artística.
Decorria o ano 1967 quando, ainda enquanto aluno da Academia de Artes e inspirado pelo som e deslocação do vento que projectava sombras nas brancas telas do seu atelier, decide criar “uma pintura em movimento” e realizar o projecto “Six Men Getting Sic”, uma curta metragem experimental onde o seu desenho se transformava em animação. Um projecto que David Lynch considerava episódico, sem qualquer consequência profissional, mas que acabou por se revelar o início de uma fulgurante carreira cinematográfica.
Apesar de ser sobretudo como realizador que David Lynch é internacionalmente reconhecido - com filmes como “Blue Velvet”, “Lost Highway” e “Mulholland Drive” a brilhar no seu curriculum - a sua pratica artística estende-se ainda por áreas tão diversas como a pintura, a instalação, a fotografia e a composição musical. Fruto do desejo de apresentar essa obra proteiforme, invisível aos olhos do grande público que segue apaixonadamente a obra fílmica de Lynch, decidiu a Fondation Cartier apresentar aquela que é considerada a maior retrospectiva artística do autor, incluíndo exemplos de todas as suas práticas, convidando-o para tal a conceber uma exposição que se constituísse como um singular objecto artístico.
Criada como se tratasse de um grande plateau, onde o público tem simultaneamente acesso aos centros de acção e aos bastidores, a exposição tem como grande virtude os ambientes visuais e sonoros criados por Lynch que brilhantemente nos transportam para o seu onírico, e frequentemente negro, universo cinematográfico. Deliberadamente concebida sem um percurso específico e na ausência de qualquer identificação cronológica a exposição revela obras muito díspares, desde núcleos temáticos onde se destacam as obras sobre a sombria vida de Bob – um personagem ao qual Lynch atribui a personalidade destorcida de alguns dos seus personagens cinematográficos – a um labirinto de esboços, notas e até pequenos poemas que Lynch compulsivamente regista em todos os papéis que vai encontrando pelo caminho. Notável, a título de curiosidade, são os seus pequenos desenhos em caixas de fósforos e as “post it” que materializam desde desenhos a pequenos poemas como “Truth mirror” – “The angriest dog in the world / a dog that is so angry / he cannot move. He / cannot eat. He / cannot sleep. He can barely growl./ Bound so thigtly with / tension and anger / he approaches / the state of / rigor mortis,”
Não obstante todas as surpresas que David Lynch pessoalmente preparou para os visitantes deste seu “The air is on fire”, nomeadamente um concerto dado em parceria com Marek Zebrowski no dia da inauguração da exposição - actualmente visível em dvd no espaço da livraria da Fondation Cartier -, e toda a tensão e preciosa sensação de um universo artísitico altamente inflamável, à beira da explosão, a verdade é que o espaço mais frequentado da exposição continuou a ser aquele que directamente traduz a obra cinematográfica de Lynch - um pequeno cinema de cortinas de veludo negro, exibindo as suas primeiras obras e trabalhos cinematográficos experimentais, onde os 32 cadeirões vermelhos nunca se quedaram vazios.
“The air is on fire”
Exposição de David Lynch na Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris
Até 27 de Maio de 2007
(artigo publicado na "Magazine Artes" de Maio 2007)
Pedro Castanheira
Pedro Castanheira_Portugueses de diáspora
Encontrar a própria voz
Pouco mais do que um ano foi quanto bastou a Pedro Castanheira – compositor e intérprete – para compreender que a sua diáspora estava prestes a terminar. Ao fim de 14 meses em Paris, Pedro regressou a Lisboa com o mais precioso de todos os bens - a autoconfiança necessária para assumir profissionalmente o seu trabalho musical.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Quando, em Outubro de 2005, Pedro Castanheira abandonou Lisboa, rumo a Paris, perseguindo o sonho de se profissionalizar como músico, pouca experiência tinha de palco. Na bagagem levava pouco mais do que a recém concluída licenciatura em sociologia e a sua preciosa guitarra. Em Portugal havia frequentado a escola de Jazz do Hot Clube mas não antevia grandes possibilidades de se profissionalizar enquanto músico.
Assim que pode, concluído o trabalho final de curso, partiu à procura de algo que hoje sabe ter sido a expressão da sua individualidade musical.
Chegado a Paris cedo compreendeu que a vida da cidade era bastante diferente do que inicialmente pensara - o meio musical era bastante fechado e o nível de exigência muito elevado.
Não obstante todas as dificuldades Pedro não esmoreceu. Entregou-se à composição, actividade que antes exercera timidamente e fez das adversidades – uma certa formalidade dos franceses e a dinâmica por vezes trituradora de uma grande cidade como Paris – a sua fonte de inspiração.
No final de 2005, com a companhia de Benoit Crauste, nos saxophones, Nicolas Bongrand, no trombone, Deniz Fisek, no baixo, Ian Carlo Mendoza, nas percussões, e Matthieu Dorbec, na bateria, funda o “Project Dunga”, assegurando ele próprio a guitarra, o piano, a flauta e o canto.
Com este projecto, “à procura das suas próprias raízes, misturando o máximo de cores e de sons”, que sempre “recusou etiquetagem” integra o colectivo “Pavé Jazz”, uma associação de músicos de jazz e músicas improvisadas, e testa verdadeiramente as suas capacidades como compositor e performer perante plateias que se foram revelando muito receptivas e progressivamente amistosas.
Nos seus concertos, repartidos entre França, Alemanha e Portugal, encontrou a forma “tribal” com que acredita que a música deve ser partilhada. Verdadeiros rituais de celebração, os espectáculos do Projecto Dunga rapidamente conquistaram o respeito do público e conseguiram criar uma corrente interessante para um grupo cuja musicalidade, longe de ser mainstream, assentava num “subtil cruzamento do jazz e dos ritmos afro-brasileiros”. Durante os espectáculos Pedro Castanheira aprendeu a metamorfosear-se e se, fora do palco, alguma timidez ou insegurança existiu esta era agora, perante o público, transformada numa poderosa força de comunicação.
No dia 8 de Dezembro de 2006, o Projecto Dunga fez a sua última apresentação no l'Antirouille, em Paris, imediatamente antes de Pedro Castanheira e Ian Carlo Mendoza regressarem a Portugal para abraçarem um novo projecto musical. No início de 2007, cerca de um mês após o regresso de Pedro e Ian a Lisboa, o Projecto Dunga seria formalmente extinto.
Hoje, aos 27 anos, e regressado de Paris há pouco mais do que 4 meses, Pedro Castanheira confessa-se muito surpreendido com Lisboa e com os músicos excepcionais que aí encontrou nos últimos 2 meses. Pensa que a cena musical portuguesa mudou muito nos últimos anos e que o seu enriquecimento muito se deve aos intercâmbios culturais realizados ao abrigo de projectos como o “Erasmus”.
Quando regressou, juntamente com Ian Carlo, em busca “das suas musas” e da inspiração se sempre vai buscar ao mar, trazia apenas projectos para o “Colectivo Páscoa”, um dos cinco projectos musicais em que se encontra actualmente envolvido. A esse projecto inicial que define como sendo de “Jazz mutante” ou de “Rock pós-regressivo” juntaram-se, desde que chegou a Lisboa, o “Yemanjazz” – um projecto de “world wide jazz” - , o “Projecto Iara” – com o qual realiza “concertos performativos de sonoridades tracionais globais” - , o “Chulage” – promovendo o “hip-hop e spoken word” – e o “Projecto Almagreira” que Pedro gosta de definir, com a habitual poética como um projecto de “música de embalar, sonhar e acordar na beira do mar”.
Hoje sorri quando diz “não ter tempo para a angústia existencial urbana” que por vezes o assolava em Paris. A multiplicidade e heterogenidade de projectos em que se encontra envolvido são a sua maior força motriz que de momento não lhe deixa “muito espaço para respirar”. “Cresce-se muito a tocar estilos diferentes. É uma esquizofrenia muito saudável”, afirma feliz.
Tem consciência que o tempo que passou em Paris foi essencial para a sua afirmação musical. “Vim de Paris músico, saí de cá sonhador e voltei músico sonhador”, afirma sorridente. “De qualquer forma é sempre mais difícil sair da casca em casa”.
Em Paris, graças ao nível de exigência dos músicos locais foi obrigado a trabalhar com disciplina e rigor e hoje sabe que isso em muito contribuiu para o seu crescimento e afirmação musical. Acredita que de momento “talvez seja mais fácil viver da música em Lisboa do que em Paris” e que a tranquilidade e o custo de vida nacional continuam a ser vantagens a ponderar. Além disso acredita que há de momento em Portugal “um novo movimento do Jazz”, com “novos circuitos”. Circuitos que permitem “quebrar a barreira entre o músico que toca na rua e o que toca no conservatório”, “desmistificando certos géneros de música considerados intelectuais.”
Na sua actual agenda não tem mãos a medir. Prepara-se para, no próximo dia 11 de Maio, participar em Andorra num concerto de “Chulage” e seguidamente actuar com o “Colectivo Páscoa” em Barcelona.
E embora ainda seja cedo para tirar conclusões parece-lhe agora fazer-se luz sobre os benefícios dos difíceis meses passados em Paris. E talvez nem seja um preço demasiado elevado a pagar se isso significar encontrar a própria voz.
http://www.myspace.com/yemanjazz
http://www.myspace.com/colectivopascoa
http://www.myspace.com/projectoalmagreira
http://www.myspace.com/projectoiara
(artigo publicado na "Magazine Artes" de Maio 2007)
Encontrar a própria voz
Pouco mais do que um ano foi quanto bastou a Pedro Castanheira – compositor e intérprete – para compreender que a sua diáspora estava prestes a terminar. Ao fim de 14 meses em Paris, Pedro regressou a Lisboa com o mais precioso de todos os bens - a autoconfiança necessária para assumir profissionalmente o seu trabalho musical.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Quando, em Outubro de 2005, Pedro Castanheira abandonou Lisboa, rumo a Paris, perseguindo o sonho de se profissionalizar como músico, pouca experiência tinha de palco. Na bagagem levava pouco mais do que a recém concluída licenciatura em sociologia e a sua preciosa guitarra. Em Portugal havia frequentado a escola de Jazz do Hot Clube mas não antevia grandes possibilidades de se profissionalizar enquanto músico.
Assim que pode, concluído o trabalho final de curso, partiu à procura de algo que hoje sabe ter sido a expressão da sua individualidade musical.
Chegado a Paris cedo compreendeu que a vida da cidade era bastante diferente do que inicialmente pensara - o meio musical era bastante fechado e o nível de exigência muito elevado.
Não obstante todas as dificuldades Pedro não esmoreceu. Entregou-se à composição, actividade que antes exercera timidamente e fez das adversidades – uma certa formalidade dos franceses e a dinâmica por vezes trituradora de uma grande cidade como Paris – a sua fonte de inspiração.
No final de 2005, com a companhia de Benoit Crauste, nos saxophones, Nicolas Bongrand, no trombone, Deniz Fisek, no baixo, Ian Carlo Mendoza, nas percussões, e Matthieu Dorbec, na bateria, funda o “Project Dunga”, assegurando ele próprio a guitarra, o piano, a flauta e o canto.
Com este projecto, “à procura das suas próprias raízes, misturando o máximo de cores e de sons”, que sempre “recusou etiquetagem” integra o colectivo “Pavé Jazz”, uma associação de músicos de jazz e músicas improvisadas, e testa verdadeiramente as suas capacidades como compositor e performer perante plateias que se foram revelando muito receptivas e progressivamente amistosas.
Nos seus concertos, repartidos entre França, Alemanha e Portugal, encontrou a forma “tribal” com que acredita que a música deve ser partilhada. Verdadeiros rituais de celebração, os espectáculos do Projecto Dunga rapidamente conquistaram o respeito do público e conseguiram criar uma corrente interessante para um grupo cuja musicalidade, longe de ser mainstream, assentava num “subtil cruzamento do jazz e dos ritmos afro-brasileiros”. Durante os espectáculos Pedro Castanheira aprendeu a metamorfosear-se e se, fora do palco, alguma timidez ou insegurança existiu esta era agora, perante o público, transformada numa poderosa força de comunicação.
No dia 8 de Dezembro de 2006, o Projecto Dunga fez a sua última apresentação no l'Antirouille, em Paris, imediatamente antes de Pedro Castanheira e Ian Carlo Mendoza regressarem a Portugal para abraçarem um novo projecto musical. No início de 2007, cerca de um mês após o regresso de Pedro e Ian a Lisboa, o Projecto Dunga seria formalmente extinto.
Hoje, aos 27 anos, e regressado de Paris há pouco mais do que 4 meses, Pedro Castanheira confessa-se muito surpreendido com Lisboa e com os músicos excepcionais que aí encontrou nos últimos 2 meses. Pensa que a cena musical portuguesa mudou muito nos últimos anos e que o seu enriquecimento muito se deve aos intercâmbios culturais realizados ao abrigo de projectos como o “Erasmus”.
Quando regressou, juntamente com Ian Carlo, em busca “das suas musas” e da inspiração se sempre vai buscar ao mar, trazia apenas projectos para o “Colectivo Páscoa”, um dos cinco projectos musicais em que se encontra actualmente envolvido. A esse projecto inicial que define como sendo de “Jazz mutante” ou de “Rock pós-regressivo” juntaram-se, desde que chegou a Lisboa, o “Yemanjazz” – um projecto de “world wide jazz” - , o “Projecto Iara” – com o qual realiza “concertos performativos de sonoridades tracionais globais” - , o “Chulage” – promovendo o “hip-hop e spoken word” – e o “Projecto Almagreira” que Pedro gosta de definir, com a habitual poética como um projecto de “música de embalar, sonhar e acordar na beira do mar”.
Hoje sorri quando diz “não ter tempo para a angústia existencial urbana” que por vezes o assolava em Paris. A multiplicidade e heterogenidade de projectos em que se encontra envolvido são a sua maior força motriz que de momento não lhe deixa “muito espaço para respirar”. “Cresce-se muito a tocar estilos diferentes. É uma esquizofrenia muito saudável”, afirma feliz.
Tem consciência que o tempo que passou em Paris foi essencial para a sua afirmação musical. “Vim de Paris músico, saí de cá sonhador e voltei músico sonhador”, afirma sorridente. “De qualquer forma é sempre mais difícil sair da casca em casa”.
Em Paris, graças ao nível de exigência dos músicos locais foi obrigado a trabalhar com disciplina e rigor e hoje sabe que isso em muito contribuiu para o seu crescimento e afirmação musical. Acredita que de momento “talvez seja mais fácil viver da música em Lisboa do que em Paris” e que a tranquilidade e o custo de vida nacional continuam a ser vantagens a ponderar. Além disso acredita que há de momento em Portugal “um novo movimento do Jazz”, com “novos circuitos”. Circuitos que permitem “quebrar a barreira entre o músico que toca na rua e o que toca no conservatório”, “desmistificando certos géneros de música considerados intelectuais.”
Na sua actual agenda não tem mãos a medir. Prepara-se para, no próximo dia 11 de Maio, participar em Andorra num concerto de “Chulage” e seguidamente actuar com o “Colectivo Páscoa” em Barcelona.
E embora ainda seja cedo para tirar conclusões parece-lhe agora fazer-se luz sobre os benefícios dos difíceis meses passados em Paris. E talvez nem seja um preço demasiado elevado a pagar se isso significar encontrar a própria voz.
http://www.myspace.com/yemanjazz
http://www.myspace.com/colectivopascoa
http://www.myspace.com/projectoalmagreira
http://www.myspace.com/projectoiara
(artigo publicado na "Magazine Artes" de Maio 2007)
Floripes
Contra o Esquecimento
Miguel Gonçalves Mendes já antes se havia distinguido no panorama do documentário Português quando "Autografia", o seu intenso retrato de Mário Cesariny, venceu o prémio de melhor documentário Português na edição de 2004 do Festival DocLISBOA. Agora, com “Floripes ou a morte de um mito” - um dos quatro filmes realizados a convite de Faro Capital Nacional da Cultura 2005 - volta a surpreender, dando voz aos habitantes de Olhão que aí rememoram e ensaiam explicações para uma lenda local.
Texto de Susana Paiva
"Reza a lenda que Floripes, uma moura encantada, deambula todas as noites, triste e sem destino, pela vila de Olhão. Prisioneira do seu encantamento, representa o medo e o sofrimento da comunidade de pescadores, que, inebriados pelo feitiço da bela e misteriosa mulher, com o intuito de a desencantar, morreriam ao tentar atravessar o mar". É este o ponto de partida de “Floripes ou a morte de um mito”, o último filme de Miguel Gonçalves Mendes, onde se traça um interessante retrato da cidade de Olhão, povoado pelas fantasias, medos e mistérios da sua comunidade piscatória. Um ensaio apaixonante, cruzando ficção e realidade, onde o realizador retoma o tema da Morte como pano de fundo.
Após convite para a realização de um filme sobre o Algarve, endereçado por Anabela Moutinho no âmbito de Faro Capital Nacional da Cultura 2005, Miguel Gonçalves Mendes optou pela cidade de Olhão por ser aquela que melhor conhece, já que aí viveu, e por considerar que esta possui "características muito peculiares que a tornam única e, sobretudo, um objecto de trabalho muito interessante a nível documental".
Confessa que, desde a sua adolescência, tinha ideia de fazer "um projecto sobre a moura Floripes pois, até aos anos 60, acreditava-se que ela existia, havendo pessoas que afirmavam tê-la visto". Foi assim que decidiu "pegar nesse mote das lendas, na sua necessidade e na forma como lidamos com o medo e o desconhecido, para retratar uma comunidade urbana, neste caso piscatória".
Apresentado, pelo próprio realizador, na cerimónia de encerramento da Capital Nacional da Cultura, como um filme sobre a sua memória, histórica e afectiva, -"Floripes ou a morte de um mito" é "a memória de uma época, de um passado, e a história do desaparecimento de uma cidade idealizada" mas também uma dissertação sobre o medo, onde a moura Floripes desempenha um papel regulador. "Apesar de nesta versão, inevitavelmente mais curta por questões inerentes à própria encomenda, não ser óbvia a ligação da lenda às, à época, regulares actividades de contrabando na costa de Olhão", parece ser claro que a lenda da moura constituía uma poderosa força intimidatória que prevenia e evitava olhares indiscretos sobre as referidas actividades clandestinas.
Rodado em cerca de dois meses, com recurso a uma pequena equipa de criativos e tendo como actores os habitantes de Olhão, o filme constitui um verdadeiro hino à nobreza e valentia do povo Olhanense, excelentemente expressa nos minutos iniciais do documentário.
As saudosas imagens a preto e branco do excerto fílmico produzido pelo Secretariado de Propaganda Nacional contrastam agora com as actuais imagens coloridas de conserveiras devastadas e silenciosamente desérticas. De permeio, intensos e comoventes depoimentos - de pescadores e mulheres de rostos talhados pelo sol que dissertam sobre a adversidade da vida do mar e a dureza de uma sobrevivência conquistada a pulso - conjugados com poéticas imagens de mulheres que rezam pelo regresso seguro dos seus maridos após a faina.
Presente ainda no filme a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes que, anos após ano, perpetuando a tradição "dos antigos" continua a juntar centenas de pessoas no percurso entre a ilha da Culatra e o porto de Olhão. Traineiras e embarcações de todo o tipo quebram o silêncio das duras e longas madrugadas passadas no mar e agradecem à sua padroeira a benção recebida. Imagens mais que perfeitas para reforçar, em coro, as palavras de Raul Brandão em "Os Pescadores", a comoção de Lucília Bagarrão quando declara que "com dez anos já trabalhava, já ia à amêijoa" ou a sapiência de Guilherme Silva quando, entre harpejos na sua harmónica, declara que "sabe que vai morrer, não tem é pressa".
Exibido já no canal 2, co-produtor do documentário, e aguardando a saída em dvd da versão exibida em Faro, “Floripes ou a morte de um mito” aguarda agora financiamento que permita a remontagem do filme para exibição em sala de cinema. Na sua versão final espera-se maior ênfase na vertente ficcional, algo obnubilada, por contigências diversas, na versão televisiva e na versão exibida na sua ante-estreia, em Faro. Para que, uma vez mais, a morte o esquecimento não atinjam também a memória do cinema Português.
“Floripes ou a morte de um mito”
Um filme de Miguel Gonçalves Mendes
Encomenda de Faro Capital Nacional da Cultura 2005
Co-Produção com a 2:
Uma Produção JumpCut
Equipa Artística
Catarina Barros no papel de Aninhas
João Salero no papel de Quinzinho
João Sancho no papel de Julião
Selma Cifka no papel de Floripes
e a figuração dos habitantes de Olhão
Equipa Técnica
Argumento e Realização de Miguel Gonçalves Mendes
Direcção de Produção de Marisa Salvador
Direcção de Fotografia de Daniel Neves
Fotografia de Cena de Susana Paiva
Direcção de Som de Carlos Vicente
Banda Sonora Original de Paulo Machado
Montagem de Cláudia Rita Oliveira
Direcção Artística de Eduardo Costa
Miguel Gonçalves Mendes já antes se havia distinguido no panorama do documentário Português quando "Autografia", o seu intenso retrato de Mário Cesariny, venceu o prémio de melhor documentário Português na edição de 2004 do Festival DocLISBOA. Agora, com “Floripes ou a morte de um mito” - um dos quatro filmes realizados a convite de Faro Capital Nacional da Cultura 2005 - volta a surpreender, dando voz aos habitantes de Olhão que aí rememoram e ensaiam explicações para uma lenda local.
Texto de Susana Paiva
"Reza a lenda que Floripes, uma moura encantada, deambula todas as noites, triste e sem destino, pela vila de Olhão. Prisioneira do seu encantamento, representa o medo e o sofrimento da comunidade de pescadores, que, inebriados pelo feitiço da bela e misteriosa mulher, com o intuito de a desencantar, morreriam ao tentar atravessar o mar". É este o ponto de partida de “Floripes ou a morte de um mito”, o último filme de Miguel Gonçalves Mendes, onde se traça um interessante retrato da cidade de Olhão, povoado pelas fantasias, medos e mistérios da sua comunidade piscatória. Um ensaio apaixonante, cruzando ficção e realidade, onde o realizador retoma o tema da Morte como pano de fundo.
Após convite para a realização de um filme sobre o Algarve, endereçado por Anabela Moutinho no âmbito de Faro Capital Nacional da Cultura 2005, Miguel Gonçalves Mendes optou pela cidade de Olhão por ser aquela que melhor conhece, já que aí viveu, e por considerar que esta possui "características muito peculiares que a tornam única e, sobretudo, um objecto de trabalho muito interessante a nível documental".
Confessa que, desde a sua adolescência, tinha ideia de fazer "um projecto sobre a moura Floripes pois, até aos anos 60, acreditava-se que ela existia, havendo pessoas que afirmavam tê-la visto". Foi assim que decidiu "pegar nesse mote das lendas, na sua necessidade e na forma como lidamos com o medo e o desconhecido, para retratar uma comunidade urbana, neste caso piscatória".
Apresentado, pelo próprio realizador, na cerimónia de encerramento da Capital Nacional da Cultura, como um filme sobre a sua memória, histórica e afectiva, -"Floripes ou a morte de um mito" é "a memória de uma época, de um passado, e a história do desaparecimento de uma cidade idealizada" mas também uma dissertação sobre o medo, onde a moura Floripes desempenha um papel regulador. "Apesar de nesta versão, inevitavelmente mais curta por questões inerentes à própria encomenda, não ser óbvia a ligação da lenda às, à época, regulares actividades de contrabando na costa de Olhão", parece ser claro que a lenda da moura constituía uma poderosa força intimidatória que prevenia e evitava olhares indiscretos sobre as referidas actividades clandestinas.
Rodado em cerca de dois meses, com recurso a uma pequena equipa de criativos e tendo como actores os habitantes de Olhão, o filme constitui um verdadeiro hino à nobreza e valentia do povo Olhanense, excelentemente expressa nos minutos iniciais do documentário.
As saudosas imagens a preto e branco do excerto fílmico produzido pelo Secretariado de Propaganda Nacional contrastam agora com as actuais imagens coloridas de conserveiras devastadas e silenciosamente desérticas. De permeio, intensos e comoventes depoimentos - de pescadores e mulheres de rostos talhados pelo sol que dissertam sobre a adversidade da vida do mar e a dureza de uma sobrevivência conquistada a pulso - conjugados com poéticas imagens de mulheres que rezam pelo regresso seguro dos seus maridos após a faina.
Presente ainda no filme a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes que, anos após ano, perpetuando a tradição "dos antigos" continua a juntar centenas de pessoas no percurso entre a ilha da Culatra e o porto de Olhão. Traineiras e embarcações de todo o tipo quebram o silêncio das duras e longas madrugadas passadas no mar e agradecem à sua padroeira a benção recebida. Imagens mais que perfeitas para reforçar, em coro, as palavras de Raul Brandão em "Os Pescadores", a comoção de Lucília Bagarrão quando declara que "com dez anos já trabalhava, já ia à amêijoa" ou a sapiência de Guilherme Silva quando, entre harpejos na sua harmónica, declara que "sabe que vai morrer, não tem é pressa".
Exibido já no canal 2, co-produtor do documentário, e aguardando a saída em dvd da versão exibida em Faro, “Floripes ou a morte de um mito” aguarda agora financiamento que permita a remontagem do filme para exibição em sala de cinema. Na sua versão final espera-se maior ênfase na vertente ficcional, algo obnubilada, por contigências diversas, na versão televisiva e na versão exibida na sua ante-estreia, em Faro. Para que, uma vez mais, a morte o esquecimento não atinjam também a memória do cinema Português.
“Floripes ou a morte de um mito”
Um filme de Miguel Gonçalves Mendes
Encomenda de Faro Capital Nacional da Cultura 2005
Co-Produção com a 2:
Uma Produção JumpCut
Equipa Artística
Catarina Barros no papel de Aninhas
João Salero no papel de Quinzinho
João Sancho no papel de Julião
Selma Cifka no papel de Floripes
e a figuração dos habitantes de Olhão
Equipa Técnica
Argumento e Realização de Miguel Gonçalves Mendes
Direcção de Produção de Marisa Salvador
Direcção de Fotografia de Daniel Neves
Fotografia de Cena de Susana Paiva
Direcção de Som de Carlos Vicente
Banda Sonora Original de Paulo Machado
Montagem de Cláudia Rita Oliveira
Direcção Artística de Eduardo Costa
So entra se vier as fatias
Encerrou, no final do passado mês de Dezembro, a primeira Capital Nacional da Cultura.
Em Coimbra, é chegada a hora de fazer o balanço. Tempo de analisar resultados e compreender o real significado, local e nacional, de Coimbra 2003.
Entretanto, fica o testemunho de um dos mais sensíveis e bem sucedidos projectos da Capital. Um verdadeiro exercício de cidadania, com a Cultura em pano de fundo.
Pedaços de todos nós
“Houve um tempo em que eu não sabia que as coisas têm valor não pelo que valem mas pelo que significam. E que a morte não chega com a velhice ou a doença ou o acaso mas com o esquecimento.
Houve um tempo em que eu não sabia que quando um recém-nascido aperta com a sua mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem prisioneiro para sempre. E que um homem só tem o direito de olhar outro homem de cima para baixo se for para o ajudar a levantar-se.
Era outro tempo. Um tempo em que eu ainda não sabia que todas as coisas tem um fim.
Outro tempo, merda, outro tempo.”
No túnel do Estabelecimento Prisional de Coimbra, foram estas as palavras que marcaram o início do espectáculo teatral “Só entra se vier às fatias”. Palavras e gestos, representados por quinze reclusos do EPC, que são também pedaços de todos nós. Relatos de solidão, medo e esperança que, entre 17 a 20 de Dezembro, esgotaram a mais peculiar sala de teatro do país. Um acutilante retrato, escrito por homens enclausurados, a recordar-nos, lá dentro e cá fora, a importância do sonho, o prazer da liberdade e o valor da utopia.
Texto e fotografia de Susana Paiva
À entrada do parlatório do EPC, no acolhimento aos visitantes, encontra-se afixado um pequeno cartaz enunciando: “tudo o que possa camuflar um objecto de agressão ou facilitador de fuga só entra se vier às fatias”.
“Só entra se vier às fatias”- descrição de um procedimento de segurança prisional que descreve também, na perfeição, a sensação geral de quem entra na prisão - acabou por se tornar no título de um projecto, “de construção de um objecto teatral, aberto ao público, a partir das emoções, conflitos internos e ideias de um grupo de reclusos”, proposto pela direcção do Estabelecimento Prisional de Coimbra à Coimbra 2003, e que encontrou em Andrzej Kowalski, o timoneiro certo.
Liderado por A. Kowalski, encenador e realizador polaco, residente em Portugal desde o final dos anos 70, o projecto iniciado em Abril de 2003, e envolvendo quatro outros profissionais de teatro – Luis Mourão na dramaturgia, António Quintas na construção da cenografia, Vitor Filipe na oficina de interpretação e Lúcia Ramos na oficina de corpo e movimento - , culminou no passado mês de Dezembro, com a apresentação pública de quatro espectáculos vistos por cerca de 250 espectadores.
Ao longo da execução de todo o projecto, com os seus naturais avanços e retrocessos e maior demora na construção do espectáculo propriamente dito, o encenador não poupou elogios à direcção do EPC e à chefia dos guardas. “Penso que, no princípio, ninguém acreditava na dimensão do projecto, não sabiam o que poderia significar ou em que poderia resultar, apesar disso houve sempre colaboração. Quando começámos a trabalhar lá em baixo (na zona de apresentação do espectáculo) houve uma colaboração preciosa de alguns guardas - sublinho o Sr. Sequeira - que abraçaram este projecto com alma, coração, tudo… As únicas limitações foram as inerentes ao funcionamento e natureza de uma prisão de alta segurança.”
No princípio havia mais incógnitas do que expectativas
Abertas as inscrições para participação no projecto compareceram cerca de 40 reclusos interessados, um número manifestamente elevado para a produção de um objecto teatral. “Como eu não quis excluir ninguém deixei correr o tempo, pois sabia que o processo iria ser longo e que seria feita uma selecção natural”. Uns foram desistindo pois haviam aparecido apenas por curiosidade ou para quebrar a rotina. Mas pouco a pouco começou a constituir-se um grupo de pessoas interessadas e desse grupo de pessoas “sobreviveram à volta de oito e, depois na fase final, entraram outros de apoio, mas penso, se a memória não me engana, que o núcleo duro dos que entraram em palco são mesmo os que começaram. E houve pessoas que não falharam um único ensaio, desde Abril até Dezembro, o que não é pêra doce”.
“Acho que, no princípio, havia mais incógnitas do que expectativas. As maiores expectativas criaram-se na última fase do trabalho, só aí todos se aperceberam da dimensão do mesmo”. Como em qualquer outro espectáculo “a fase de construção é a mais complicada, é dolorosa e muitas vezes chata. É onde passamos mais crises.” No entanto, apesar das crises “houve pessoas que confiaram no projecto e que se mantiveram. Eu tinha a visão do espectáculo mas também não a podia transmitir até ao fim pois desconhecia o seu desfecho. Foi necessária a cumplicidade e compreensão de todos para levar este projecto a bom porto”
Ponto de partida
“Meu querido filho, recebi a tua carta e não te respondi logo porque ando com a poda. Está um frio de rachar mas não há outro remédio se não fazer o trabalho.
A Otília já chegou, toda contente e logo à noite conta-me tudo. Sei que estás bem e isso é o mais importante.
Saudades e beijinhos deste Pai que te adora.
É mentira não andei em poda nenhuma. Andei atrás da mulher que amo. E quando a encontrei finalmente, alguém se atravessou no caminho e morreu. Foi só isto.
Saudades e beijinhos deste pai que te adora.”
Construído cena a cena ao longo dos ensaios, o espectáculo nasceu a partir de improvisações, conversas com os reclusos e textos sobre as suas vivências. Os textos utilizados, muitos deles de uma beleza e dimensão poética surpreendente, foram produto do labor dos reclusos. São textos “de todos e de ninguém”,
“Foi-lhes proposto fazer um espectáculo “nosso”, e quando digo “nosso” quero dizer “deles”- do lado de dentro - e “meu”- do lado de fora. No fim de contas construir uma coisa que permitisse uma troca de experiências, comigo a contribuir a nível vivencial e teatral e eles a contribuírem com as suas vivências anteriores e posteriores à condenação.
A única coisa pedida foi que se abrissem para se poder construir algo à volta disso, algo que fosse verdadeiramente nosso”. Depois foi feito um trabalho técnico em torno disso, com o Luis Mourão a fazer a dramaturgia a partir de textos, cartas, poemas e composições musicais realizadas pelos reclusos.
Escrever na prisão é difícil
“Escrever é difícil aqui”, verbaliza Mário no decurso do espectáculo. Em contracena Adriano responde “Escrever é difícil em qualquer lado”
“É difícil expressarmo-nos quando pensamos que essa expressão ficará para nós”, afirma Kowalski. “É muito bonito dizer que se escreve para a gaveta mas ter um interlocutor é fundamental. Escrever na prisão é mais difícil pois eles não têm qualquer expectativa acerca de serem lidos. Esta foi uma boa oportunidade de escrever e conseguir comunicar”.
Durante o processo de criação do espectáculo, à medida que os reclusos iam contribuindo para a construção do texto final, foram acontecendo revelações espantosas. “Há pessoas que escrevem lindamente e que poderiam escrever um bom livro. Eu e o Luís (Mourão), apanhava-mos alguns textos que nos deixavam de boca aberta”.
“Outros pintam e desenham que é uma maravilha mas não têm qualquer motivação para o continuar a fazer pois sabem bem que ninguém verá esses trabalhos. E esta perspectiva é semelhante lá dentro ou cá fora. Se eu não tivesse hipótese de fazer espectáculos de teatro, ou de pensar em espectáculos de teatro, mais cedo ou mais tarde desanimava. Aquilo que fazemos é para ou outros, não para nós. Este é o princípio básico de qualquer expressão”.
“Roubei-lhe um beijo. Só um beijo. Mas, que beijo…
E ela disse-me que já andava de olho em mim há algum tempo e que só esperava um pouco de coragem para dizer o que lhe ia na alma.
Tem confiança então, disse-lhe eu. Deixo-te só daqui a oitenta anos. Nunca mais. Nunca mais te deixo , meu tesouro, tu és um anjo no meu caminho. Queres ir passar umas férias comigo e gozar a vida?
Mas tem é que ser noutro ano qualquer que agora não posso.”
Tendo a solidão e o sentimento de isolamento como linhas condutoras do espectáculo cedo percebemos que estes não se prendem exclusivamente às barreiras físicas. “ O isolamento físico é quase o menos importante. É importante na perspectiva de que cria todo o restante isolamento - é uma vedação que se revela mais pesada no cumprimento de uma pena de prisão. É a privação de liberdade física, acompanhada por uma impossibilidade de expressão – artística, emocional – e de contacto com o outro”.
O “Grito”
Baseado nas experiências individuais dos participantes era inevitável que uma das temáticas do espectáculo fosse o desejo de liberdade, “porque quem está dentro quer sempre sair”. Já mais inesperada foi a solução dramatúrgica encontrada para levar essa ideia à cena - um grupo de reclusos que, cansados da rotina e das pressões que os levam a ficar “com os miolos às fatias”, leva a cabo o projecto de construção de um barco, veículo de evasão e de aproximação ao seu desejo de Liberdade. Um barco que carrega a responsabilidade de se chamar não liberdade, nem sonho, nem desejo mas sim grito. Um grito extraordinariamente poético, assente num texto eficaz, pleno de reflexão, conflito e utopia.
Próximo de um registo do Teatro Verdade ou Teatro Depoimento, “Só entra se vier às fatias”, tem a sua maior virtude no facto de não se materializar num registo lamechas, evitando assim cair num certo facilitismo emocional, desresponsabilizante e de fácil comoção. “Acho que o espectáculo conseguiu ultrapassar esse perigo. Acho formidável que os reclusos tivessem tido a dignidade de não choramingar, de assumir a responsabilidade dos seus actos”
Para os reclusos, maioritariamente sem qualquer outra experiência teatral, foi a generosidade e humanismo de Kowalski que os persuadiu a participar neste projecto. “Foi a sua capacidade de ouvir os outros e o seu humanismo que me fizeram acreditar neste projecto. Com outro não sei se teria sido possível” afirma Adriano, compositor de todas as músicas originais do espectáculo.
“O que foi bonito neste trabalho foi a relação humana que conseguimos estabelecer. A partir daí muita coisa se desbloqueou”, afirma Kowalski. “Foi um processo longo e complicado. A única coisa de que tinha a certeza é que este trabalho seria sincero, não poderia ser um ensaio pretensioso sobre a clausura. Ou era sincero e vencia ou corríamos o risco de ser cabotino e de não vencer. Ser-me-ia difícil trabalhar nesta área, em que todos nos expomos um bocado, com gente que oferecesse resistência a essa essencial generosidade”.
E acrescenta “só faço espectáculos porque tenho necessidade de dizer qualquer coisa aos outros” fortalecendo assim a hipótese de que, em Arte, comunica melhor quem mais tem a partilhar.
Só entra se vier às fatias
Texto colectivo/Dramaturgia: Luis Mourão
Interpretação: Adriano Soromenho, Anónimo Italiano, António Santos, Eduardo Cardoso, Ernst Korff, Jaime Guedes, Joaquim Ferreira, José Oliveira, José Tavares, Kalu, Mário de Sousa, Nelson Marques, Roberto Nóbrega, Sérgio Ferreira, Stephane da Silva
Canções Originais: Adriano Soromenho
Encenação e Cenografia: Andrzej Kowalski
(Texto publicado no DNa)
Em Coimbra, é chegada a hora de fazer o balanço. Tempo de analisar resultados e compreender o real significado, local e nacional, de Coimbra 2003.
Entretanto, fica o testemunho de um dos mais sensíveis e bem sucedidos projectos da Capital. Um verdadeiro exercício de cidadania, com a Cultura em pano de fundo.
Pedaços de todos nós
“Houve um tempo em que eu não sabia que as coisas têm valor não pelo que valem mas pelo que significam. E que a morte não chega com a velhice ou a doença ou o acaso mas com o esquecimento.
Houve um tempo em que eu não sabia que quando um recém-nascido aperta com a sua mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem prisioneiro para sempre. E que um homem só tem o direito de olhar outro homem de cima para baixo se for para o ajudar a levantar-se.
Era outro tempo. Um tempo em que eu ainda não sabia que todas as coisas tem um fim.
Outro tempo, merda, outro tempo.”
No túnel do Estabelecimento Prisional de Coimbra, foram estas as palavras que marcaram o início do espectáculo teatral “Só entra se vier às fatias”. Palavras e gestos, representados por quinze reclusos do EPC, que são também pedaços de todos nós. Relatos de solidão, medo e esperança que, entre 17 a 20 de Dezembro, esgotaram a mais peculiar sala de teatro do país. Um acutilante retrato, escrito por homens enclausurados, a recordar-nos, lá dentro e cá fora, a importância do sonho, o prazer da liberdade e o valor da utopia.
Texto e fotografia de Susana Paiva
À entrada do parlatório do EPC, no acolhimento aos visitantes, encontra-se afixado um pequeno cartaz enunciando: “tudo o que possa camuflar um objecto de agressão ou facilitador de fuga só entra se vier às fatias”.
“Só entra se vier às fatias”- descrição de um procedimento de segurança prisional que descreve também, na perfeição, a sensação geral de quem entra na prisão - acabou por se tornar no título de um projecto, “de construção de um objecto teatral, aberto ao público, a partir das emoções, conflitos internos e ideias de um grupo de reclusos”, proposto pela direcção do Estabelecimento Prisional de Coimbra à Coimbra 2003, e que encontrou em Andrzej Kowalski, o timoneiro certo.
Liderado por A. Kowalski, encenador e realizador polaco, residente em Portugal desde o final dos anos 70, o projecto iniciado em Abril de 2003, e envolvendo quatro outros profissionais de teatro – Luis Mourão na dramaturgia, António Quintas na construção da cenografia, Vitor Filipe na oficina de interpretação e Lúcia Ramos na oficina de corpo e movimento - , culminou no passado mês de Dezembro, com a apresentação pública de quatro espectáculos vistos por cerca de 250 espectadores.
Ao longo da execução de todo o projecto, com os seus naturais avanços e retrocessos e maior demora na construção do espectáculo propriamente dito, o encenador não poupou elogios à direcção do EPC e à chefia dos guardas. “Penso que, no princípio, ninguém acreditava na dimensão do projecto, não sabiam o que poderia significar ou em que poderia resultar, apesar disso houve sempre colaboração. Quando começámos a trabalhar lá em baixo (na zona de apresentação do espectáculo) houve uma colaboração preciosa de alguns guardas - sublinho o Sr. Sequeira - que abraçaram este projecto com alma, coração, tudo… As únicas limitações foram as inerentes ao funcionamento e natureza de uma prisão de alta segurança.”
No princípio havia mais incógnitas do que expectativas
Abertas as inscrições para participação no projecto compareceram cerca de 40 reclusos interessados, um número manifestamente elevado para a produção de um objecto teatral. “Como eu não quis excluir ninguém deixei correr o tempo, pois sabia que o processo iria ser longo e que seria feita uma selecção natural”. Uns foram desistindo pois haviam aparecido apenas por curiosidade ou para quebrar a rotina. Mas pouco a pouco começou a constituir-se um grupo de pessoas interessadas e desse grupo de pessoas “sobreviveram à volta de oito e, depois na fase final, entraram outros de apoio, mas penso, se a memória não me engana, que o núcleo duro dos que entraram em palco são mesmo os que começaram. E houve pessoas que não falharam um único ensaio, desde Abril até Dezembro, o que não é pêra doce”.
“Acho que, no princípio, havia mais incógnitas do que expectativas. As maiores expectativas criaram-se na última fase do trabalho, só aí todos se aperceberam da dimensão do mesmo”. Como em qualquer outro espectáculo “a fase de construção é a mais complicada, é dolorosa e muitas vezes chata. É onde passamos mais crises.” No entanto, apesar das crises “houve pessoas que confiaram no projecto e que se mantiveram. Eu tinha a visão do espectáculo mas também não a podia transmitir até ao fim pois desconhecia o seu desfecho. Foi necessária a cumplicidade e compreensão de todos para levar este projecto a bom porto”
Ponto de partida
“Meu querido filho, recebi a tua carta e não te respondi logo porque ando com a poda. Está um frio de rachar mas não há outro remédio se não fazer o trabalho.
A Otília já chegou, toda contente e logo à noite conta-me tudo. Sei que estás bem e isso é o mais importante.
Saudades e beijinhos deste Pai que te adora.
É mentira não andei em poda nenhuma. Andei atrás da mulher que amo. E quando a encontrei finalmente, alguém se atravessou no caminho e morreu. Foi só isto.
Saudades e beijinhos deste pai que te adora.”
Construído cena a cena ao longo dos ensaios, o espectáculo nasceu a partir de improvisações, conversas com os reclusos e textos sobre as suas vivências. Os textos utilizados, muitos deles de uma beleza e dimensão poética surpreendente, foram produto do labor dos reclusos. São textos “de todos e de ninguém”,
“Foi-lhes proposto fazer um espectáculo “nosso”, e quando digo “nosso” quero dizer “deles”- do lado de dentro - e “meu”- do lado de fora. No fim de contas construir uma coisa que permitisse uma troca de experiências, comigo a contribuir a nível vivencial e teatral e eles a contribuírem com as suas vivências anteriores e posteriores à condenação.
A única coisa pedida foi que se abrissem para se poder construir algo à volta disso, algo que fosse verdadeiramente nosso”. Depois foi feito um trabalho técnico em torno disso, com o Luis Mourão a fazer a dramaturgia a partir de textos, cartas, poemas e composições musicais realizadas pelos reclusos.
Escrever na prisão é difícil
“Escrever é difícil aqui”, verbaliza Mário no decurso do espectáculo. Em contracena Adriano responde “Escrever é difícil em qualquer lado”
“É difícil expressarmo-nos quando pensamos que essa expressão ficará para nós”, afirma Kowalski. “É muito bonito dizer que se escreve para a gaveta mas ter um interlocutor é fundamental. Escrever na prisão é mais difícil pois eles não têm qualquer expectativa acerca de serem lidos. Esta foi uma boa oportunidade de escrever e conseguir comunicar”.
Durante o processo de criação do espectáculo, à medida que os reclusos iam contribuindo para a construção do texto final, foram acontecendo revelações espantosas. “Há pessoas que escrevem lindamente e que poderiam escrever um bom livro. Eu e o Luís (Mourão), apanhava-mos alguns textos que nos deixavam de boca aberta”.
“Outros pintam e desenham que é uma maravilha mas não têm qualquer motivação para o continuar a fazer pois sabem bem que ninguém verá esses trabalhos. E esta perspectiva é semelhante lá dentro ou cá fora. Se eu não tivesse hipótese de fazer espectáculos de teatro, ou de pensar em espectáculos de teatro, mais cedo ou mais tarde desanimava. Aquilo que fazemos é para ou outros, não para nós. Este é o princípio básico de qualquer expressão”.
“Roubei-lhe um beijo. Só um beijo. Mas, que beijo…
E ela disse-me que já andava de olho em mim há algum tempo e que só esperava um pouco de coragem para dizer o que lhe ia na alma.
Tem confiança então, disse-lhe eu. Deixo-te só daqui a oitenta anos. Nunca mais. Nunca mais te deixo , meu tesouro, tu és um anjo no meu caminho. Queres ir passar umas férias comigo e gozar a vida?
Mas tem é que ser noutro ano qualquer que agora não posso.”
Tendo a solidão e o sentimento de isolamento como linhas condutoras do espectáculo cedo percebemos que estes não se prendem exclusivamente às barreiras físicas. “ O isolamento físico é quase o menos importante. É importante na perspectiva de que cria todo o restante isolamento - é uma vedação que se revela mais pesada no cumprimento de uma pena de prisão. É a privação de liberdade física, acompanhada por uma impossibilidade de expressão – artística, emocional – e de contacto com o outro”.
O “Grito”
Baseado nas experiências individuais dos participantes era inevitável que uma das temáticas do espectáculo fosse o desejo de liberdade, “porque quem está dentro quer sempre sair”. Já mais inesperada foi a solução dramatúrgica encontrada para levar essa ideia à cena - um grupo de reclusos que, cansados da rotina e das pressões que os levam a ficar “com os miolos às fatias”, leva a cabo o projecto de construção de um barco, veículo de evasão e de aproximação ao seu desejo de Liberdade. Um barco que carrega a responsabilidade de se chamar não liberdade, nem sonho, nem desejo mas sim grito. Um grito extraordinariamente poético, assente num texto eficaz, pleno de reflexão, conflito e utopia.
Próximo de um registo do Teatro Verdade ou Teatro Depoimento, “Só entra se vier às fatias”, tem a sua maior virtude no facto de não se materializar num registo lamechas, evitando assim cair num certo facilitismo emocional, desresponsabilizante e de fácil comoção. “Acho que o espectáculo conseguiu ultrapassar esse perigo. Acho formidável que os reclusos tivessem tido a dignidade de não choramingar, de assumir a responsabilidade dos seus actos”
Para os reclusos, maioritariamente sem qualquer outra experiência teatral, foi a generosidade e humanismo de Kowalski que os persuadiu a participar neste projecto. “Foi a sua capacidade de ouvir os outros e o seu humanismo que me fizeram acreditar neste projecto. Com outro não sei se teria sido possível” afirma Adriano, compositor de todas as músicas originais do espectáculo.
“O que foi bonito neste trabalho foi a relação humana que conseguimos estabelecer. A partir daí muita coisa se desbloqueou”, afirma Kowalski. “Foi um processo longo e complicado. A única coisa de que tinha a certeza é que este trabalho seria sincero, não poderia ser um ensaio pretensioso sobre a clausura. Ou era sincero e vencia ou corríamos o risco de ser cabotino e de não vencer. Ser-me-ia difícil trabalhar nesta área, em que todos nos expomos um bocado, com gente que oferecesse resistência a essa essencial generosidade”.
E acrescenta “só faço espectáculos porque tenho necessidade de dizer qualquer coisa aos outros” fortalecendo assim a hipótese de que, em Arte, comunica melhor quem mais tem a partilhar.
Só entra se vier às fatias
Texto colectivo/Dramaturgia: Luis Mourão
Interpretação: Adriano Soromenho, Anónimo Italiano, António Santos, Eduardo Cardoso, Ernst Korff, Jaime Guedes, Joaquim Ferreira, José Oliveira, José Tavares, Kalu, Mário de Sousa, Nelson Marques, Roberto Nóbrega, Sérgio Ferreira, Stephane da Silva
Canções Originais: Adriano Soromenho
Encenação e Cenografia: Andrzej Kowalski
(Texto publicado no DNa)
Mario Cesariny por Miguel Gonçalves Mendes
autografia
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio e Alvim
2ª edição – Março 1999
Ante-estreado, na Cinemateca Portuguesa, no passado dia 3 de Maio com honra de casa cheia, o documentário “Autografia” de Miguel Gonçalves Mendes revelou, ao longo de quase duas horas, um cúmplice e sensível retrato do poeta e pintor Mário Cesariny. Um documento onde, com uma imensa generosidade, o homem se sobrepõe à obra e embarca numa partilha de fragmentos de vida, traçando, simultaneamente, o perfil de uma Lisboa há muito desaparecida.
Fotografias e texto de Susana Paiva
No princípio e no fim, anunciando uma premeditada circularidade, existe apenas o branco. Um longo e doloroso branco que acompanha as palavras de “Autografia”. Depois surge uma janela de Lisboa, que por aproximações sucessivas nos leva a mergulhar na intimidade de Cesariny. Lá dentro, à nossa espera, um corpo suado, intenso, envolto num caloroso tom laranja. Cesariny está sentado no seu quarto e, pacientemente, deixa que a câmara capte toda a expressividade da sua pele. Abre bem os olhos e conserva o seu olhar, firme e penetrante, como frequentemente gosta de fazer quando é fotografado.
Partilhamos agora o espaço da sua intimidade. Somos guiados por uma respiração ofegante que percorre o corredor de sua casa, e falamos da morte. Da morte física, da morte espiritual, mas também da morte de uma certa Lisboa que Cesariny amou.
“Parti do seu quarto, da sua casa, para a cidade. Lisboa é uma cidade que o Mário já dificilmente reconhece. Acabaram-se os cafés de referência de uma certa geração. As pessoas deixaram de comunicar…” contextualiza Miguel Mendes.
Sentado à mesa, encontramos Cesariny crítico e acutilante. Sobre a mesa duas novas obras, ambas em finalização. Grande plano sobre um dos livros em curso. “É contra os Americanos”, diz. “Mas sobretudo contra a pena de morte”.
Depois, com um sorriso, fecha o livro e mostra uma ilustração branca, sobre papel negro, onde se lê “Isto não faz mal”. “Era o que os romanos diziam quando pediam a um amigo que lhes espetasse um punhal”.
Pena de Morte. Morte Assistida. É neste cenário que, timidamente, o ouvimos dizer “Não sei se à hora da morte terei tanto medo. Sou capaz de ter, sou. Um bocadinho…”
Ri um pouco e acrescenta “Não sei o que isso é, mas gostava de ter uma daquelas mortes boas. A gente deita-se para dormir e nunca mais acorda. Isso é que é bom.”
Para um pouco, depois continua. “Tenho medo sobretudo da degradação física, porque eu já sofro um bocadinho, vá lá… Isso é que é muito chato. É a morte a trabalhar, a trabalhar…A morte é o momento. Tens medo da morte, tu?” interroga, alterando o tom do seu discurso.
“Quanto à vida… Há deficiências físicas que vêm da idade, como a depressão, a que não estou a achar graça nenhuma. Ou muito pouca. Há talvez ainda uma certa esperança, não sei de quê…”, remata.
Na sala, está também presente Henriette, a mais velha das três irmãs de Mário. À medida que Mário vai elaborando o seu discurso, Henriette age soltando pequenas interjeições. Cesariny começa a relatar um episódio sucedido com a arma do seu falecido pai. “O meu pai tinha ali uma pistola. Quando ele morreu eu despachei a pistola em trinta segundos porque só de olhar para aquilo fazia-me impressão. Fazia-me impressão… Não fiz a vida militar, não tenho nenhum contacto com armas, e não tenho coragem para me matar mas tenho admiração pelos suicidas [ “não é capaz” murmura Henriette ] porque é preciso um grande desespero, ou uma grande coragem, para fazer isto” afirma erguendo a mão esquerda, punho cerrado abruptamente justaposto à sua têmpora.
“Quanto ao mais…de vez em quando ainda há umas coisas agradáveis, não é? Apesar de tudo. E há uma certa curiosidade de saber até onde é que isto vai”.
Depois, referindo-se a Henriette - falecida pouco tempo após o final da rodagem de “Autografia” - desabafa : “Dá-me alegria ainda estar vivo para poder acompanhar a minha irmã. Isso é um motivo de alegria. E escrever ou pintar é uma razão forte para estar aqui. Sobretudo pintar. Agora abandonei mais a escrita”.
E numa fina ironia continua o seu desabafo. “Porque na escrita tens que dizer se é de dia ou de noite, se estás apaixonado pela vizinha de cima, que horas são, se te dói o fígado, se tens medo da morte… São tudo coisas muito chatas. Na pintura isso não existe. Quer dizer… é capaz de existir mas não se sente.
Num misto de brincadeira e impaciência Henriette vai interagindo com a equipa de filmagens. Aproveita para falar um pouco sobre o irmão. “Sempre foi diferente de todos. Como ele não há outro igual, sob todos os aspectos. Até como amizade à sua irmã mais velha. É o melhor mano do mundo, é ele” – diz sem hesitação.
Glória literária à Portuguesa
Adivinho a próxima questão, num jogo assente em perguntas ausentes. E depois da morte, o que fica de cada um de nós?
“Bom, de nós ficam os filhos se fazes filhos, ficam livros e pinturas se pintas ou escreves, ficam esculturas… Não é grande consolação… para mim não é! Porque se houvesse eternidade era uma coisa mas como não há… Não interessa quanto tempo é que a terra vai levar para acabar por explodir, acaba por desaparecer tudo. É muito misterioso…
Por fim uma voz, sem rosto, quebra o jogo das inaudíveis perguntas. Invade bruscamente o ecrã e, aludindo à vida, formaliza a questão – “Para que é que isto serve?”
E Mário, uma vez mais, responde. “Não sei…Serve para foder, que é muito agradável - dá muito gozo, serve para amar e serve para morrer.
Atravessamos agora o Tejo. Doce planagem. Merecida pausa e descompressão.
No ecrã sucedem-se algumas fotografias antigas da baixa lisboeta. Cesariny afina o seu sentido de humor. “Sabes que estamos num país em que não se pode dizer o que realmente interessa. É assim desde D. Afonso Henriques”.
Subitamente, a plateia explode numa gargalhada. Muitas outras se seguirão.
“A chamada consideração - não quero dizer glória - literária ou artística, para mim não tem significado nenhum. Queres ver como é?”- pergunta Cesariny . “Também terás isso, quando começares a receber grandes prémios de curta-metragem na Alemanha. É assim: colocam-te num pedestal muito alto a dizer versos – blá, blá, blá… blá, blá, blá – e depois está uma quantidade de malta cá em baixo a bater palmas – ééé!”, diz Cesariny representando, caricaturalmente, a multidão boquiaberta. “Depois deixam-me ir para casa sozinho. Isto é a glória literária à Portuguesa”.
Pintura e Literatura
Mário gesticula energicamente, reproduzindo numa escrita invisível, algumas das suas palavras, agora agigantadas, na projecção de um diapositivo. Em voz off ouve-se “Eu julgo que foi a pintura, que eu na altura chamava despintura e ainda chamaria se os negociantes de arte quisessem…Acho que foi a despintura que me ajudou a libertar dos versos mais convencionais. Não é que eu fizesse grandes pinturas mas era a bonecada, a liberdade das cores e não o contrário…”
No ecrã aparece novamente o seu rosto, compenetrado, expressivo. Os braços gesticulando, traçando tectos imaginários, muito, muito próximos do seu crânio. “Eu acho que sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo. Um grande poeta numa época onde não há Anteros, não há Camilos Pessanhas, não há Guerra Junqueiros, não há Pessoas…”.
“Isto é horrível de dizer mas, é talvez porque aos meus poemas - digamos de amor -nunca falta um condimento muito forte de revolta, que estes se tornam mais fortes. São também uma espécie de grito.”
“A poesia foi um fogo muito grande que ardeu e depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim ou para o editor ter mais um livro. Acabou.”
“Pintar é mais divertido. Muito mais. Quer dizer, muito mais libertador”.
“Não sente mesmo necessidade de escrever?” – pergunta o Miguel.
“Nenhuma. Não. Para quê? A quem? Às vezes uma carta”, responde rindo. “Eu há muito tempo, talvez, que não estou cá…”
A entrevista
Estamos, bem perto do mar, na casa da Costa da Caparica, refúgio eleito por Cesariny para os dias de sol. Mário entrevista a sua irmã Henriette.
“Ó Henriette, que achas tudo de mim?”
“O que acho de ti…Acho-te uma pessoa encantadora, um irmão inolvidável, um artista sem comentários. Acho-te um irmão grandioso, mais nada!”
“Mas e no convívio fraterno?…”
“No convívio fraterno é melhor não falar. A gente dá-se tão mal…”- responde Henriette rindo.
“O que é que a Senhora Dona Henriette Cesariny Rossis Cardona de Vasconcelos pensa da minha homossexualidade?”
“Ai que pergunta…” murmura.
“Fala francamente”, pede-lhe Mário.
“Não tenho comentários a fazer. Ficam comigo”
“É pouco”.
“É pouco mas é tudo o que posso pensar”, responde Henriette um pouco embaraçada.
“Eu julgo saber o que tu pensas”
“Hã?!”
“Julgo saber o que tu pensas. Posso dizer?”
“Diz”- responde Henriette, ao fim de uma longa pausa.
“Não aceitas a homossexualidade, mas a minha, porque sou eu, aceitas. Não é?”
“Espera aí um bocadinho” pede, um pouco tensa, Henriette. “Aceito…Aceito por seres meu irmão, por o amor que te tenho, e o da nossa família toda, mas tenho pena.
“Também eu” – responde Mário de imediato.
“Também tu?”
“Tenho muita pena. Olha, queres definir-me como poeta ou como pintor?”
“Imenso”- diz Henriette com um sorriso.
“O que é imenso?”
“És imenso! Imensamente artista, poeta , escultor…”
“Desejavas alguma coisa melhor para mim?”
“Tudo de melhor para ti é o que te desejo. Mais nada. Que sei eu de especial?”
“Amores não? – prossegue Mário.
“Amores de quê?”
“Amores meus”
“Dos teus amores? Amor por ti? Amor de irmão e irmã? – arrisca Henriette.
“Amor por outra pessoa” – esclarece Mário.
“O que é que eu acho? Acho que é mal empregado!
[ Riem ambos, revelando grande cumplicidade ]
O Piano
“O Mário tinha tal amor e habilidade, era de tal maneira sabedor de música clássica que estava em casa sozinho e tocava Beethoven, Mozart. O pai subia as escadas, abria a porta e se ouvia aquela música…atirava-lhe com o piano nas mãos. Tapava-lhe o piano.
Um dia o Mário chegou a casa e o piano tinha voado. Vêm o paizinho que nós tínhamos?”- desabafa Henriette.
“Ele não queria o meu mal, percebes? Ele queria que eu fosse um industrial joalheiro, com sucesso, como ele era. Pronto” – responde Mário.
“Mas ele era um grande ourives e tu ias ser um grande pianista, que o Lopes Graça bem chorou que ele te deixasse tocar” – prossegue Henriette inconformada.
E Mário continua “Para mim [ o pai ] teve tanto de positivo como de negativo. A parte negativa é medonha, tanto para mim como para a minha mãe e para esta [ apontando Henriette ] também. E a parte positiva também existe.”
“Existe mas não se viu nada de jeito”- remata Henriette.
“A primeira exposição individual que fiz, em 1958, na livraria do Diário de Notícias no Chiado, ele apareceu lá e disse esta coisa espantosa: “Ó Mário, então tu trabalhas”.
Não lhe guardo rancor.
Ultimamente não, mas aqui há algum tempo eu sonhava várias vezes que queria falar com ele no género… não é pedir perdão mas pedir desculpa de ter saído tudo oposto ao que ele queria para mim. Ele achava que o que ele queria é que era bom para mim. Sonhei isso mais do que uma vez mas, mesmo em sonho, não consegui chegar a falar-lhe.
Há agora, na imagem, uma dominante azul a recordar um mar calmo numa tarde de verão. Cesariny fala sobre o Amor. “É a única coisa que há para acreditar. É o único contacto que temos com o sagrado. No Amor - estou-me a referir ao momento único - és igual ao finito e ao infinito.
Eu acho que nós, em muitos casos, o outro é o nosso espelho. Sem esse espelho não nos vemos, não existimos. Claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho só me vejo a mim mesmo mas não é isso. Nesse espelho ou vejo os dois ou vejo o outro através de mim.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio. É o olhar para a água e ver o outro, ou a outra, com quem se pode conversar, viver.”
Mário acena afirmativamente com a cabeça, quando lhe perguntam se acredita que se pode morrer de amor. “E também se pode morrer de falta de amor “, acrescenta.
“Se eu acredito no Amor…Eu nunca acreditei muito na chamada alma gémea porque a minha alma gémea tinha que ser muito diferente de mim, sabes? Porque de poesia, filosofia e literatura e outras merdas já eu estou cheio dos pés à cabeça. Nesse aspecto eu era talvez um pouco à Grega – alguém jovem, alguém mais inocente, alguém que tivesse a pureza do mar. A pureza e a tempestade, às vezes, também.
E para mim o Amor foi sempre… quer dizer, nunca acreditei muito que esse tal amor absoluto me pudesse aparecer. Tenho medo que tenha aparecido e eu não tenha dado por isso. Também pode acontecer.”
“Qual foi a pessoa que o Mário mais amou na sua vida?” – pergunta o realizador.
“Infelizmente parece que foi a mim.”
Obituário
Centrado num fundo vermelho muito vivo, raiado por néons brancos, Cesariny enumera os seus amigos mortos, indicando a causa ou circunstância da sua morte.
“E Lisboa?” – pergunta Miguel Mendes.
“Lisboa para mim desapareceu. Morreu sem enterro. Vê-se passar os cadáveres.
Morreu tudo o que eu sabia, tudo o que via. Nunca escrevi um poema em casa. Era sempre no café ou na rua. Isto é chato!, exclama tirando os óculos e olhando de forma penetrante para a câmara.
Saudade
“Parece que não há palavra sem ser a portuguesa. Não há, não existe. No fundo é uma coisa surrealista. É um anseio do passado misturado com um anseio do futuro.
É como diz Breton – que o real e o imaginário e, o passado, o futuro e o presente se encontram.
E o Pascoaes disse isso. Saudade é um anseio de um passado já desaparecido e de um futuro a chegar. Tornar presente uma coisa que já passou, já é, de alguma maneira, futura-la, não é?”
Ah! Tenho ali muitos livros sobre a saudade. Agora é uma coisa um bocado portuguesa, não é? Somos um país aqui de extremo da Europa, aqui à beira-mar. Não temos muitas hipóteses e então sonhamos. Sonhamos muito. Sonhadores…”
Cesariny fuma mais um dos seus cigarros, meticulosamente preparado com a sua boquilha. Pensa um pouco sobre o objecto da sua saudade e repentinamente diz: “Tenho saudades de comer uma grande lagosta. Tenho saudade de quê? Olha, tenho saudades de voar. Lá isso tenho, porque eu, não sei desde quando mas quase desde miúdo até aí aos meus cinquenta anos, todas as noites já adormecia a sorrir de gozo porque sonhava sempre que voava. Era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa.
E eu orientava. Quer dizer, não havia paisagem, era o espaço puro. Não se via nada. Uma Maravilha!
Sobrevoamos agora o rio e pairamos sobre a baixa lisboeta ao som de Carlos Paredes. Depois somos levados ao ponto de partida. É Cesariny quem, à janela, nos aguarda.
Regressamos ao interior da casa. As magras e longas mãos de Cesariny, lado a lado, de punhos cerrados, com os polegares movendo-se ansiosamente não abafam a força das suas palavras.
“Tinha que ser. Com isso garanti não ter que fazer mais nada até morrer. Com o dinheiro, percebes? A partir de uma certa altura constrangiu-me perceber que estava a fazer pintura para vender. Não era por prazer, era para vender” diz Cesariny, acentuando longamente a palavra vender. “Assim é melhor”.
“Se eles fizeram isso [ referindo-se à Fundação Cupertino de Miranda ] é porque eu aceitei e quis, pronto”. Faz uma longa pausa e recomeça “ quero lá saber, fizeram-me muita companhia. Ainda estão comigo, não faz diferença”
E ouve-se, com um arrepio, o som da fita adesiva deslizando sobre obras e caixotes.
Autografia
Construído como se de “uma palestra sobre a vida” se tratasse, “Autografia” assume, para os seus espectadores, a hipotética forma de um manual de sobrevivência no qual, ao longo de três actos, se abordam algumas temáticas universalistas – a morte, o amor, a infância. “Como se houvesse uma passagem de testemunho, de alguém sábio, a alguém que ainda não está totalmente preparado para a vida”, afirma o seu jovem realizador. “E, mesmo versando a morte, este filme está repleto de vida e de esperança. Há nele uma certa melancolia mas também uma imensa alegria de viver”, acrescenta.
Aluno do terceiro ano do curso de cinema da Escola Superior de Cinema e Teatro, Miguel Mendes, 25 anos, nunca pretendeu materializar o seu projecto num documentário institucional. Aspirava que a relação estabelecida com Cesariny, ao longo dos dois anos de trabalho se sobrepusesse a toda e qualquer outra lógica narrativa.
Assim nasceu este filme sensível, num registo que, apesar da doce tentação, nunca se tornou surrealista. “O Mário chegou a sugerir que o filme poderia não ter palavras, só imagens e eventualmente alguns poemas”.
Um filme “fruto do diálogo e relação que estabelecemos mas também da imensa generosidade e dádiva do Mário”. Um filme que ousou revelar traços de personalidade de Mário Cesariny, mais do que a sua obra. Ou como Cesariny tão bem escreveu, na folha de sala distribuída na ante-estreia - “Venho aqui hoje porque o Miguel conseguiu descobrir em mim muito mais do que sou e, talvez, o que poderia ter sido neste infernal jardim à beira mar plantado.”
(Texto publicado no DNa)
Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra
O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!
Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio e Alvim
2ª edição – Março 1999
Ante-estreado, na Cinemateca Portuguesa, no passado dia 3 de Maio com honra de casa cheia, o documentário “Autografia” de Miguel Gonçalves Mendes revelou, ao longo de quase duas horas, um cúmplice e sensível retrato do poeta e pintor Mário Cesariny. Um documento onde, com uma imensa generosidade, o homem se sobrepõe à obra e embarca numa partilha de fragmentos de vida, traçando, simultaneamente, o perfil de uma Lisboa há muito desaparecida.
Fotografias e texto de Susana Paiva
No princípio e no fim, anunciando uma premeditada circularidade, existe apenas o branco. Um longo e doloroso branco que acompanha as palavras de “Autografia”. Depois surge uma janela de Lisboa, que por aproximações sucessivas nos leva a mergulhar na intimidade de Cesariny. Lá dentro, à nossa espera, um corpo suado, intenso, envolto num caloroso tom laranja. Cesariny está sentado no seu quarto e, pacientemente, deixa que a câmara capte toda a expressividade da sua pele. Abre bem os olhos e conserva o seu olhar, firme e penetrante, como frequentemente gosta de fazer quando é fotografado.
Partilhamos agora o espaço da sua intimidade. Somos guiados por uma respiração ofegante que percorre o corredor de sua casa, e falamos da morte. Da morte física, da morte espiritual, mas também da morte de uma certa Lisboa que Cesariny amou.
“Parti do seu quarto, da sua casa, para a cidade. Lisboa é uma cidade que o Mário já dificilmente reconhece. Acabaram-se os cafés de referência de uma certa geração. As pessoas deixaram de comunicar…” contextualiza Miguel Mendes.
Sentado à mesa, encontramos Cesariny crítico e acutilante. Sobre a mesa duas novas obras, ambas em finalização. Grande plano sobre um dos livros em curso. “É contra os Americanos”, diz. “Mas sobretudo contra a pena de morte”.
Depois, com um sorriso, fecha o livro e mostra uma ilustração branca, sobre papel negro, onde se lê “Isto não faz mal”. “Era o que os romanos diziam quando pediam a um amigo que lhes espetasse um punhal”.
Pena de Morte. Morte Assistida. É neste cenário que, timidamente, o ouvimos dizer “Não sei se à hora da morte terei tanto medo. Sou capaz de ter, sou. Um bocadinho…”
Ri um pouco e acrescenta “Não sei o que isso é, mas gostava de ter uma daquelas mortes boas. A gente deita-se para dormir e nunca mais acorda. Isso é que é bom.”
Para um pouco, depois continua. “Tenho medo sobretudo da degradação física, porque eu já sofro um bocadinho, vá lá… Isso é que é muito chato. É a morte a trabalhar, a trabalhar…A morte é o momento. Tens medo da morte, tu?” interroga, alterando o tom do seu discurso.
“Quanto à vida… Há deficiências físicas que vêm da idade, como a depressão, a que não estou a achar graça nenhuma. Ou muito pouca. Há talvez ainda uma certa esperança, não sei de quê…”, remata.
Na sala, está também presente Henriette, a mais velha das três irmãs de Mário. À medida que Mário vai elaborando o seu discurso, Henriette age soltando pequenas interjeições. Cesariny começa a relatar um episódio sucedido com a arma do seu falecido pai. “O meu pai tinha ali uma pistola. Quando ele morreu eu despachei a pistola em trinta segundos porque só de olhar para aquilo fazia-me impressão. Fazia-me impressão… Não fiz a vida militar, não tenho nenhum contacto com armas, e não tenho coragem para me matar mas tenho admiração pelos suicidas [ “não é capaz” murmura Henriette ] porque é preciso um grande desespero, ou uma grande coragem, para fazer isto” afirma erguendo a mão esquerda, punho cerrado abruptamente justaposto à sua têmpora.
“Quanto ao mais…de vez em quando ainda há umas coisas agradáveis, não é? Apesar de tudo. E há uma certa curiosidade de saber até onde é que isto vai”.
Depois, referindo-se a Henriette - falecida pouco tempo após o final da rodagem de “Autografia” - desabafa : “Dá-me alegria ainda estar vivo para poder acompanhar a minha irmã. Isso é um motivo de alegria. E escrever ou pintar é uma razão forte para estar aqui. Sobretudo pintar. Agora abandonei mais a escrita”.
E numa fina ironia continua o seu desabafo. “Porque na escrita tens que dizer se é de dia ou de noite, se estás apaixonado pela vizinha de cima, que horas são, se te dói o fígado, se tens medo da morte… São tudo coisas muito chatas. Na pintura isso não existe. Quer dizer… é capaz de existir mas não se sente.
Num misto de brincadeira e impaciência Henriette vai interagindo com a equipa de filmagens. Aproveita para falar um pouco sobre o irmão. “Sempre foi diferente de todos. Como ele não há outro igual, sob todos os aspectos. Até como amizade à sua irmã mais velha. É o melhor mano do mundo, é ele” – diz sem hesitação.
Glória literária à Portuguesa
Adivinho a próxima questão, num jogo assente em perguntas ausentes. E depois da morte, o que fica de cada um de nós?
“Bom, de nós ficam os filhos se fazes filhos, ficam livros e pinturas se pintas ou escreves, ficam esculturas… Não é grande consolação… para mim não é! Porque se houvesse eternidade era uma coisa mas como não há… Não interessa quanto tempo é que a terra vai levar para acabar por explodir, acaba por desaparecer tudo. É muito misterioso…
Por fim uma voz, sem rosto, quebra o jogo das inaudíveis perguntas. Invade bruscamente o ecrã e, aludindo à vida, formaliza a questão – “Para que é que isto serve?”
E Mário, uma vez mais, responde. “Não sei…Serve para foder, que é muito agradável - dá muito gozo, serve para amar e serve para morrer.
Atravessamos agora o Tejo. Doce planagem. Merecida pausa e descompressão.
No ecrã sucedem-se algumas fotografias antigas da baixa lisboeta. Cesariny afina o seu sentido de humor. “Sabes que estamos num país em que não se pode dizer o que realmente interessa. É assim desde D. Afonso Henriques”.
Subitamente, a plateia explode numa gargalhada. Muitas outras se seguirão.
“A chamada consideração - não quero dizer glória - literária ou artística, para mim não tem significado nenhum. Queres ver como é?”- pergunta Cesariny . “Também terás isso, quando começares a receber grandes prémios de curta-metragem na Alemanha. É assim: colocam-te num pedestal muito alto a dizer versos – blá, blá, blá… blá, blá, blá – e depois está uma quantidade de malta cá em baixo a bater palmas – ééé!”, diz Cesariny representando, caricaturalmente, a multidão boquiaberta. “Depois deixam-me ir para casa sozinho. Isto é a glória literária à Portuguesa”.
Pintura e Literatura
Mário gesticula energicamente, reproduzindo numa escrita invisível, algumas das suas palavras, agora agigantadas, na projecção de um diapositivo. Em voz off ouve-se “Eu julgo que foi a pintura, que eu na altura chamava despintura e ainda chamaria se os negociantes de arte quisessem…Acho que foi a despintura que me ajudou a libertar dos versos mais convencionais. Não é que eu fizesse grandes pinturas mas era a bonecada, a liberdade das cores e não o contrário…”
No ecrã aparece novamente o seu rosto, compenetrado, expressivo. Os braços gesticulando, traçando tectos imaginários, muito, muito próximos do seu crânio. “Eu acho que sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo. Um grande poeta numa época onde não há Anteros, não há Camilos Pessanhas, não há Guerra Junqueiros, não há Pessoas…”.
“Isto é horrível de dizer mas, é talvez porque aos meus poemas - digamos de amor -nunca falta um condimento muito forte de revolta, que estes se tornam mais fortes. São também uma espécie de grito.”
“A poesia foi um fogo muito grande que ardeu e depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim ou para o editor ter mais um livro. Acabou.”
“Pintar é mais divertido. Muito mais. Quer dizer, muito mais libertador”.
“Não sente mesmo necessidade de escrever?” – pergunta o Miguel.
“Nenhuma. Não. Para quê? A quem? Às vezes uma carta”, responde rindo. “Eu há muito tempo, talvez, que não estou cá…”
A entrevista
Estamos, bem perto do mar, na casa da Costa da Caparica, refúgio eleito por Cesariny para os dias de sol. Mário entrevista a sua irmã Henriette.
“Ó Henriette, que achas tudo de mim?”
“O que acho de ti…Acho-te uma pessoa encantadora, um irmão inolvidável, um artista sem comentários. Acho-te um irmão grandioso, mais nada!”
“Mas e no convívio fraterno?…”
“No convívio fraterno é melhor não falar. A gente dá-se tão mal…”- responde Henriette rindo.
“O que é que a Senhora Dona Henriette Cesariny Rossis Cardona de Vasconcelos pensa da minha homossexualidade?”
“Ai que pergunta…” murmura.
“Fala francamente”, pede-lhe Mário.
“Não tenho comentários a fazer. Ficam comigo”
“É pouco”.
“É pouco mas é tudo o que posso pensar”, responde Henriette um pouco embaraçada.
“Eu julgo saber o que tu pensas”
“Hã?!”
“Julgo saber o que tu pensas. Posso dizer?”
“Diz”- responde Henriette, ao fim de uma longa pausa.
“Não aceitas a homossexualidade, mas a minha, porque sou eu, aceitas. Não é?”
“Espera aí um bocadinho” pede, um pouco tensa, Henriette. “Aceito…Aceito por seres meu irmão, por o amor que te tenho, e o da nossa família toda, mas tenho pena.
“Também eu” – responde Mário de imediato.
“Também tu?”
“Tenho muita pena. Olha, queres definir-me como poeta ou como pintor?”
“Imenso”- diz Henriette com um sorriso.
“O que é imenso?”
“És imenso! Imensamente artista, poeta , escultor…”
“Desejavas alguma coisa melhor para mim?”
“Tudo de melhor para ti é o que te desejo. Mais nada. Que sei eu de especial?”
“Amores não? – prossegue Mário.
“Amores de quê?”
“Amores meus”
“Dos teus amores? Amor por ti? Amor de irmão e irmã? – arrisca Henriette.
“Amor por outra pessoa” – esclarece Mário.
“O que é que eu acho? Acho que é mal empregado!
[ Riem ambos, revelando grande cumplicidade ]
O Piano
“O Mário tinha tal amor e habilidade, era de tal maneira sabedor de música clássica que estava em casa sozinho e tocava Beethoven, Mozart. O pai subia as escadas, abria a porta e se ouvia aquela música…atirava-lhe com o piano nas mãos. Tapava-lhe o piano.
Um dia o Mário chegou a casa e o piano tinha voado. Vêm o paizinho que nós tínhamos?”- desabafa Henriette.
“Ele não queria o meu mal, percebes? Ele queria que eu fosse um industrial joalheiro, com sucesso, como ele era. Pronto” – responde Mário.
“Mas ele era um grande ourives e tu ias ser um grande pianista, que o Lopes Graça bem chorou que ele te deixasse tocar” – prossegue Henriette inconformada.
E Mário continua “Para mim [ o pai ] teve tanto de positivo como de negativo. A parte negativa é medonha, tanto para mim como para a minha mãe e para esta [ apontando Henriette ] também. E a parte positiva também existe.”
“Existe mas não se viu nada de jeito”- remata Henriette.
“A primeira exposição individual que fiz, em 1958, na livraria do Diário de Notícias no Chiado, ele apareceu lá e disse esta coisa espantosa: “Ó Mário, então tu trabalhas”.
Não lhe guardo rancor.
Ultimamente não, mas aqui há algum tempo eu sonhava várias vezes que queria falar com ele no género… não é pedir perdão mas pedir desculpa de ter saído tudo oposto ao que ele queria para mim. Ele achava que o que ele queria é que era bom para mim. Sonhei isso mais do que uma vez mas, mesmo em sonho, não consegui chegar a falar-lhe.
Há agora, na imagem, uma dominante azul a recordar um mar calmo numa tarde de verão. Cesariny fala sobre o Amor. “É a única coisa que há para acreditar. É o único contacto que temos com o sagrado. No Amor - estou-me a referir ao momento único - és igual ao finito e ao infinito.
Eu acho que nós, em muitos casos, o outro é o nosso espelho. Sem esse espelho não nos vemos, não existimos. Claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho só me vejo a mim mesmo mas não é isso. Nesse espelho ou vejo os dois ou vejo o outro através de mim.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio. É o olhar para a água e ver o outro, ou a outra, com quem se pode conversar, viver.”
Mário acena afirmativamente com a cabeça, quando lhe perguntam se acredita que se pode morrer de amor. “E também se pode morrer de falta de amor “, acrescenta.
“Se eu acredito no Amor…Eu nunca acreditei muito na chamada alma gémea porque a minha alma gémea tinha que ser muito diferente de mim, sabes? Porque de poesia, filosofia e literatura e outras merdas já eu estou cheio dos pés à cabeça. Nesse aspecto eu era talvez um pouco à Grega – alguém jovem, alguém mais inocente, alguém que tivesse a pureza do mar. A pureza e a tempestade, às vezes, também.
E para mim o Amor foi sempre… quer dizer, nunca acreditei muito que esse tal amor absoluto me pudesse aparecer. Tenho medo que tenha aparecido e eu não tenha dado por isso. Também pode acontecer.”
“Qual foi a pessoa que o Mário mais amou na sua vida?” – pergunta o realizador.
“Infelizmente parece que foi a mim.”
Obituário
Centrado num fundo vermelho muito vivo, raiado por néons brancos, Cesariny enumera os seus amigos mortos, indicando a causa ou circunstância da sua morte.
“E Lisboa?” – pergunta Miguel Mendes.
“Lisboa para mim desapareceu. Morreu sem enterro. Vê-se passar os cadáveres.
Morreu tudo o que eu sabia, tudo o que via. Nunca escrevi um poema em casa. Era sempre no café ou na rua. Isto é chato!, exclama tirando os óculos e olhando de forma penetrante para a câmara.
Saudade
“Parece que não há palavra sem ser a portuguesa. Não há, não existe. No fundo é uma coisa surrealista. É um anseio do passado misturado com um anseio do futuro.
É como diz Breton – que o real e o imaginário e, o passado, o futuro e o presente se encontram.
E o Pascoaes disse isso. Saudade é um anseio de um passado já desaparecido e de um futuro a chegar. Tornar presente uma coisa que já passou, já é, de alguma maneira, futura-la, não é?”
Ah! Tenho ali muitos livros sobre a saudade. Agora é uma coisa um bocado portuguesa, não é? Somos um país aqui de extremo da Europa, aqui à beira-mar. Não temos muitas hipóteses e então sonhamos. Sonhamos muito. Sonhadores…”
Cesariny fuma mais um dos seus cigarros, meticulosamente preparado com a sua boquilha. Pensa um pouco sobre o objecto da sua saudade e repentinamente diz: “Tenho saudades de comer uma grande lagosta. Tenho saudade de quê? Olha, tenho saudades de voar. Lá isso tenho, porque eu, não sei desde quando mas quase desde miúdo até aí aos meus cinquenta anos, todas as noites já adormecia a sorrir de gozo porque sonhava sempre que voava. Era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa.
E eu orientava. Quer dizer, não havia paisagem, era o espaço puro. Não se via nada. Uma Maravilha!
Sobrevoamos agora o rio e pairamos sobre a baixa lisboeta ao som de Carlos Paredes. Depois somos levados ao ponto de partida. É Cesariny quem, à janela, nos aguarda.
Regressamos ao interior da casa. As magras e longas mãos de Cesariny, lado a lado, de punhos cerrados, com os polegares movendo-se ansiosamente não abafam a força das suas palavras.
“Tinha que ser. Com isso garanti não ter que fazer mais nada até morrer. Com o dinheiro, percebes? A partir de uma certa altura constrangiu-me perceber que estava a fazer pintura para vender. Não era por prazer, era para vender” diz Cesariny, acentuando longamente a palavra vender. “Assim é melhor”.
“Se eles fizeram isso [ referindo-se à Fundação Cupertino de Miranda ] é porque eu aceitei e quis, pronto”. Faz uma longa pausa e recomeça “ quero lá saber, fizeram-me muita companhia. Ainda estão comigo, não faz diferença”
E ouve-se, com um arrepio, o som da fita adesiva deslizando sobre obras e caixotes.
Autografia
Construído como se de “uma palestra sobre a vida” se tratasse, “Autografia” assume, para os seus espectadores, a hipotética forma de um manual de sobrevivência no qual, ao longo de três actos, se abordam algumas temáticas universalistas – a morte, o amor, a infância. “Como se houvesse uma passagem de testemunho, de alguém sábio, a alguém que ainda não está totalmente preparado para a vida”, afirma o seu jovem realizador. “E, mesmo versando a morte, este filme está repleto de vida e de esperança. Há nele uma certa melancolia mas também uma imensa alegria de viver”, acrescenta.
Aluno do terceiro ano do curso de cinema da Escola Superior de Cinema e Teatro, Miguel Mendes, 25 anos, nunca pretendeu materializar o seu projecto num documentário institucional. Aspirava que a relação estabelecida com Cesariny, ao longo dos dois anos de trabalho se sobrepusesse a toda e qualquer outra lógica narrativa.
Assim nasceu este filme sensível, num registo que, apesar da doce tentação, nunca se tornou surrealista. “O Mário chegou a sugerir que o filme poderia não ter palavras, só imagens e eventualmente alguns poemas”.
Um filme “fruto do diálogo e relação que estabelecemos mas também da imensa generosidade e dádiva do Mário”. Um filme que ousou revelar traços de personalidade de Mário Cesariny, mais do que a sua obra. Ou como Cesariny tão bem escreveu, na folha de sala distribuída na ante-estreia - “Venho aqui hoje porque o Miguel conseguiu descobrir em mim muito mais do que sou e, talvez, o que poderia ter sido neste infernal jardim à beira mar plantado.”
(Texto publicado no DNa)
Edgar Martins
Portugueses de Diáspora_ Edgar Martins
Uma certa quietude
Nasceu, há 30 anos, em Évora mas cedo deixou Portugal rumo a Macau, onde cresceu. Vive, desde 1996, no Reino Unido onde estudou e iniciou um sólido trabalho artístico, aí contribuído activamente para a renovação do conceito de fotógrafo autor. Entre exposições, seminários e edições de livros, Edgar Martins – comissário e autor - não tem mãos a medir.
Texto de Susana Paiva
O que mais impressiona no trabalho de Edgar Martins é um certa quietude nas suas imagens. Oriundo de meios cosmopolitas plenos de ruído visual, com que sempre co-habitou, Edgar encontrou o campo perfeito para o seu olhar na ténue fronteira entre o urbano e o suburbano, esse “não lugar” tão dificilmente operacionalizável. As suas imagens espelham o indizível, criam espaços de projecção para o eu individual, cativam o espectador reservando-lhe o supremo papel da interpretação. Contemplar uma das suas imagens é reportar a um tempo em que o olhar se constitui como factor primordial, onde a técnica, que domina com mestria, se esbate e o lugar à multipla interpretação ganha protagonismo.
Quando Edgar fala sobre o seu trabalho tudo se torna mais claro. Há no seu discurso uma lógica e uma segurança invulgares, uma extraordinária capacidade de transmitir conceitos apenas tangível a quem possui já uma invejável maturidade.
A uma formação de base em filosofia, obtida em Macau, somou Edgar, em Londres, um bacharelato em fotografia e ciências sociais e um mestrado em fotografia e belas artes, obtido no Royal College of Arts. Ainda hoje sorri quando falando da sua chegada à fotografia defende que a mesma foi, de certo modo, acidental. “A surpresa foi não ter seguido uma carreira literária mas sim uma carreira ligada às imagens”.
Foi em Macau, aos 19 anos, que editou, - fruto das suas múltiplas leituras filosóficas -, o seu primeiro livro intitulado “Mãe, deixa-me fazer o pino”, “um diário de um adolescente em vias de dar os primeiros passos na vida”.
Os seus maiores interesses “sempre foram a filosofia e as ciências urbanas”, a fotografia revelou-se uma consequência natural da sua “escrita baseada em visualizações” que acabou por desenbocar num universo imagético “baseado em questões literárias”.
A sua paixão pelos livros encontrou na fotografia o objecto ideal. Edgar concretizou, com a cumplicidade da editora “The moth house”, o seu sonho de criar obras editoriais “que se afastam do formato tradicional do livro” e onde a liberdade para produzir narrativas específicas vai ao encontro da sua convicção de que “um livro não deve dar demasiada informação ao leitor pois corre-se o risco de acabar por se condicionar a leitura das imagens”.
Hoje Edgar não dispensa o livro na sua lógica de produção artística, defendendo-o como meio maior, que lhe permite conjugar textos e imagens da forma que mais lhe agrada. “Eu trabalho por projectos, O livro é um meio fantástico, um foco tão importante como a exposição.” É também através desse meio que Edgar exerce uma das outras funções que muito lhe agrada, a de comissário, gozando de plena liberdade para convidar quem assim desejar para participar nos seus livros.
Representado por quarto galerias – “La caja negra”, em Madrid, “The Photographer’s Gallery”, em Londres, “The Betty Cuningham Gallery”, em Nova Iorque e a “Galeria Graça Brandão”, em Lisboa e Porto – Edgar Martins tem exposto regular e extensivamente na Europa e na Ásia, coordenado, sempre que possível, seminários sobre os seus projectos e recebido numerosos prémios pelo seu trabalho literário e fotográfico. Expôs recentemente, na Galeria Graça Brandão em Lisboa, 12 das 50 imagens do seu mais recente projecto “Aproximações”, resultante de uma encomenda da ANA- Aeroportos de Portugal. Em “Aproximações” Edgar evitou uma abordagem documental, continuando fiel à sua linha de trabalho pessoal, com a representação fotográfica dos espaços invisíveis a público, dos aeroportos de Santa Maria, Horta, Ponta Delgada, Flores, Faro, Porto e Lisboa, valorizando assim o “seu lado mais surreal” com claras aproximações aos seus “não lugares” das anteriores séries fotográficas. Ancoradas na “linguagem dos aeroportos” as imagens geram com grande beleza um sentimento de solidão, fora do tempo e do espaço que marca a frenética concepção geral de um aeroporto.
Feliz pelas oportunidades que lhe têm surgido, Edgar continua concentrado no seu trabalho e ocupado como sempre, preparando agora o lançamento da sua nova monografia, a lançar em Março de 2008 em Nova Iorque, pela Aperture Books.
(Texto publicado na "Magazine Artes" de Março 2007)
Uma certa quietude
Nasceu, há 30 anos, em Évora mas cedo deixou Portugal rumo a Macau, onde cresceu. Vive, desde 1996, no Reino Unido onde estudou e iniciou um sólido trabalho artístico, aí contribuído activamente para a renovação do conceito de fotógrafo autor. Entre exposições, seminários e edições de livros, Edgar Martins – comissário e autor - não tem mãos a medir.
Texto de Susana Paiva
O que mais impressiona no trabalho de Edgar Martins é um certa quietude nas suas imagens. Oriundo de meios cosmopolitas plenos de ruído visual, com que sempre co-habitou, Edgar encontrou o campo perfeito para o seu olhar na ténue fronteira entre o urbano e o suburbano, esse “não lugar” tão dificilmente operacionalizável. As suas imagens espelham o indizível, criam espaços de projecção para o eu individual, cativam o espectador reservando-lhe o supremo papel da interpretação. Contemplar uma das suas imagens é reportar a um tempo em que o olhar se constitui como factor primordial, onde a técnica, que domina com mestria, se esbate e o lugar à multipla interpretação ganha protagonismo.
Quando Edgar fala sobre o seu trabalho tudo se torna mais claro. Há no seu discurso uma lógica e uma segurança invulgares, uma extraordinária capacidade de transmitir conceitos apenas tangível a quem possui já uma invejável maturidade.
A uma formação de base em filosofia, obtida em Macau, somou Edgar, em Londres, um bacharelato em fotografia e ciências sociais e um mestrado em fotografia e belas artes, obtido no Royal College of Arts. Ainda hoje sorri quando falando da sua chegada à fotografia defende que a mesma foi, de certo modo, acidental. “A surpresa foi não ter seguido uma carreira literária mas sim uma carreira ligada às imagens”.
Foi em Macau, aos 19 anos, que editou, - fruto das suas múltiplas leituras filosóficas -, o seu primeiro livro intitulado “Mãe, deixa-me fazer o pino”, “um diário de um adolescente em vias de dar os primeiros passos na vida”.
Os seus maiores interesses “sempre foram a filosofia e as ciências urbanas”, a fotografia revelou-se uma consequência natural da sua “escrita baseada em visualizações” que acabou por desenbocar num universo imagético “baseado em questões literárias”.
A sua paixão pelos livros encontrou na fotografia o objecto ideal. Edgar concretizou, com a cumplicidade da editora “The moth house”, o seu sonho de criar obras editoriais “que se afastam do formato tradicional do livro” e onde a liberdade para produzir narrativas específicas vai ao encontro da sua convicção de que “um livro não deve dar demasiada informação ao leitor pois corre-se o risco de acabar por se condicionar a leitura das imagens”.
Hoje Edgar não dispensa o livro na sua lógica de produção artística, defendendo-o como meio maior, que lhe permite conjugar textos e imagens da forma que mais lhe agrada. “Eu trabalho por projectos, O livro é um meio fantástico, um foco tão importante como a exposição.” É também através desse meio que Edgar exerce uma das outras funções que muito lhe agrada, a de comissário, gozando de plena liberdade para convidar quem assim desejar para participar nos seus livros.
Representado por quarto galerias – “La caja negra”, em Madrid, “The Photographer’s Gallery”, em Londres, “The Betty Cuningham Gallery”, em Nova Iorque e a “Galeria Graça Brandão”, em Lisboa e Porto – Edgar Martins tem exposto regular e extensivamente na Europa e na Ásia, coordenado, sempre que possível, seminários sobre os seus projectos e recebido numerosos prémios pelo seu trabalho literário e fotográfico. Expôs recentemente, na Galeria Graça Brandão em Lisboa, 12 das 50 imagens do seu mais recente projecto “Aproximações”, resultante de uma encomenda da ANA- Aeroportos de Portugal. Em “Aproximações” Edgar evitou uma abordagem documental, continuando fiel à sua linha de trabalho pessoal, com a representação fotográfica dos espaços invisíveis a público, dos aeroportos de Santa Maria, Horta, Ponta Delgada, Flores, Faro, Porto e Lisboa, valorizando assim o “seu lado mais surreal” com claras aproximações aos seus “não lugares” das anteriores séries fotográficas. Ancoradas na “linguagem dos aeroportos” as imagens geram com grande beleza um sentimento de solidão, fora do tempo e do espaço que marca a frenética concepção geral de um aeroporto.
Feliz pelas oportunidades que lhe têm surgido, Edgar continua concentrado no seu trabalho e ocupado como sempre, preparando agora o lançamento da sua nova monografia, a lançar em Março de 2008 em Nova Iorque, pela Aperture Books.
(Texto publicado na "Magazine Artes" de Março 2007)
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