Bruce Davidson na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris


© Bruce Davidson/ Magnum Photos


Tempo de mudança seguido de Avenida dos sonhos perdidos

São dois projectos distintos da obra fotográfica de Bruce Davidson, integrados na celebração dos 60 anos da agência Magnum Photos, o que se mostra, até o próximo dia 22 de Abril, na Fondation Henri Cartier Bresson, em Paris. Em “Times of change” e “East 100th street” uma centena de imagens acutilantes traduzem na perfeição um novo conceito de fotografia documental onde, longe do mero registo, o fotógrafo se implica no processo e se transforma em invisível actor da acção fotografada.

Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens de Bruce Davidson/ Magnum Photos gentilmente cedidas pela FHCB

“Não me considero um fotógrafo documental” afirmou Bruce Davidson na inauguração da sua última exposição na Fondation Henri Cartier Bresson. ”Ser fotógrafo documental sugere que nos afastamos da acção, que não estamos na imagem, apenas a gravamos. Eu estou na imagem, acreditem. Estou lá mas não sou a própria imagem” prossegue Bruce Davidson explicando o seu modus operandis no terreno.
Tendo integrado a agência Magnum em 1958, a convite de Henri Cartier Bresson, Bruce Davidson protagoniza uma nova prática dentro da fotografia documental na qual o fotógrafo se envolve na acção, partilhando o quotidiano dos seus sujeitos, com vista à obtenção de um elevado grau de intimidade e à tradução de realidades complexas normalmente invisíveis ao olhar do fotógrafo não comprometido. “Na altura em que integrei a Magnum a agência havia-se construído à imagem da prática de Cartier-Bresson e todos os fotógrafos procuravam imagens do “momento decisivo”. Depois, à medida que o tempo foi passando, pessoas como a Susan Meiselas foram impondo o seu estilo, chegando ao âmago dos seus sujeitos, confrontando pessoas, vivendo com elas. Não eram meros observadores que fotografavam e partiam de seguida.”
Sentindo como sua “missão na vida” visibilizar o aparentemente invisível, “mostrando-o tal como um cego que chega ao mundo e de repente começa a ver”, Bruce Davidson produziu em 50 anos uma obra unanimemente celebrada pela sua pujança formal, a sua dimensão política e a sua profunda humanidade. Hoje exibe em Paris, na fundação que gere o património artístico de Henri Cartier Bresson, dois dos seus mais emblemáticos ensaios fotográficos – “Times of Change” e “East 100th street” – onde uma centena de fotografias a preto e branco, seleccionadas pelo autor juntamente com Agnès Sire – directora da Fondation Henri Cartier Bresson – testemunham a emancipação dos Negros Americanos, entre 1961 e 1965, e revelam os rostos e o quotidiano do Harlem Espanhol, entre 1966 e 1968,
Segundo John Sarkowski, director honorário do MoMA (Museu de Arte Moderna de Nova Iorque) “poucos fotógrafos contemporâneos nos entregam observações pessoais tão isentas de falsificação ou de artifício” como Bruce Davidson, o fotógrafo que, ainda enquanto aluno de fotografia na Universidade de Yale, foi profundamente influenciado pelas palavras que Cartier-Bresson escreveu, em 1952, em “Images à la Savette” – “É vivendo que nos descobrimos, ao mesmo tempo que descobrimos o mundo exterior. Ele forma-nos mas nós podemos agir sobre ele”.
Foi o serviço militar que o levou a cruzar o oceano rumo a Paris onde, em 1957, realizou o seu primeiro ensaio fotográfico - “ A viúva de Montmartre” – trabalho sobre uma velha Parisiense representando o último elo com a era dos Impressionistas. Depois a cidade das luzes proporcionou-lhe o seu primeiro encontro com Henri Cartier-Bresson que, encorajando-o a prosseguir o seu trabalho, o convida, um ano mais tarde, a integrar a agência fotográfica Magnum.
É já no seio da Magnum Photos que Bruce Davidson realiza os seus mais conhecidos trabalhos – “The Dwarf” (“O Anão”), retrato de um palhaço solitário num circo ambulante, em 1958, e “ Brooklyn Gang”, trabalho sobre um gang de adolescentes na Brooklyn de 1959.
Entre 1961 e 1965 desenvolve um projecto sobre os direitos cívicos nos Estados Unidos da América, a que chamou “Time of Change” , fotografando a luta pela emancipação dos Negros Americanos nos Sul dos EUA, de Chicago a Nova Iorque. Entre as suas imagens tornadas emblemáticas encontram-se uma das primeiras mobilizações de Malcom X em Harlem e os combates encabeçados por Martin Luther King, nomeadamente a marcha de Selma na primavera de 1965 – um percurso de 80 km entre Selma e Montgomery, um dos eventos mais marcantes na luta pelos direitos cívicos.
Em Maio de 1961 o New York Times envia-o para cobrir a “Freedom March”, uma viagem de autocarro, promovida por estudantes anti-segregação, entre Montgomery, no Alabama, e Jackson, no Mississippi. Davidson integra-se no movimento e fotografa-o do interior - participando nas marchas e fotografando as detenções e a violência das confrontações com as forças da ordem - tornando o seu trabalho no testemunho principal das lutas dos “Freedom Riders”. Sobre esse trabalho escreveu Sarah Boxer, no New York Times de 24 de Janeiro de 2003 - “O testemunho de Bruce Davidson sobre estes 5 anos cruciais para o Sul dos Estados Unidos – quase sempre concentrados nos momentos de vulnerabilidade silenciosa – transmitem de maneira profundamente intuitiva as sensações de um observador interior desta multidão desenfreada”.
Foi em 1966 que esse mesmo “observador interior” iniciou o projecto “East 100th street” que durante 3 anos o levaria a retratar o Harlem Espanhol, um dos guetos mais pobres de Nova Iorque. O fascínio por Harlem Este começara uma década antes, quando Davidson habitava em Hartsdale e viajava para o seu emprego no laboratório da Eastman Kodak, em Manhattan, e do viaduto de Park Avenue vislumbrava as janelas de East Harlem, especialmente à noite, “quando a luz iluminava a vista por detrás das paredes de tijolo”. Dez anos depois o fotógrafo decidiu atravessar para o outro lado desses muros, e visibilizar aqueles que “representavam a essência da pobreza urbana e ruína”. “Na altura em que enviava-mos foguetões para a lua, senti necessidade de fotografar o espaço interior. Queria explorar o bairro como uma entidade, trata-lo como se fosse uma estrutura molecular”.
Durante dois anos foi conquistando o seu lugar na comunidade, tornando-se conhecido como o “picture man” (homem das fotografias), que trazia imagens ainda húmidas, todas as manhãs, para oferecer aos sujeitos que fotografara com recurso a uma máquina fotográfica de grande formato. “Queria dar ao acto fotográfico um sentido de dignidade. Não era uma fotografia de “apanhados”, tirada com uma máquina de motor barulhento. Não estava a espiar ou a ser um intruso.”
“As janelas são a frágil e contudo impenetrável fronteira entre a vida pública e privada em Nova Iorque” e Bruce Davidson investiu muito tempo a ultrapassar essa barreira de forma a “explorar não só os quartos mas também o que quem os habitava via pelas janelas através do pátio e até ao infinito”. Pouco a pouco penetrou num mundo invisível que o atraía profundamente. “Por vezes tinha que me forçar a ir ao bairro pois tinha medo de violar a dolorosa barreira da sua pobreza. Mas uma vez lá, entrando em contacto com qualquer um, sentia-me integrado e não me queria vir embora”.
Na rua, nos bares, nos telhados, nos interiores sombrios, durante três anos, Bruce Davidson fotografou incansavelmente os habitantes do bairro, nomeadamente graças à atribuição de uma bolsa do “National Endownment for the Arts”, atribuída pela primeira vez a um projecto fotográfico. “Eu olhava as pessoas nos olhos, eles estavam calmos, tranquilos, absortos em si mesmos”
“East 100th Street” foi publicado pela primeira vez em 1969, na revista Du, e novamente em 1970, pela Harvard University Press, no mesmo ano que o MoMA lhe consagra uma exposição individual “onde os habitantes da 100ª rua se foram ver”, coroando assim a excelência desse trabalho.

Bruce Davidson
“Times of Change” e “East 100th Street”
Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris
Até 22 de Abril

(publicado na revista "Magazine Artes" de Abril 2007)

Joao Heitor

Portugueses de diáspora_João Heitor

Lusitânia no Bairro Latino

Radicado há 33 anos em França, João Heitor é hoje sinónimo de livro entre a Comunidade Portuguesa residente no país. Livreiro e editor, há 20 anos que difunde a língua e cultura nacionais a partir do coração do “Quartier Latin” Parisiense onde a sua “Librairie Lusophone” é considerada ponto de encontro por todos quantos amem as letras em português.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi João Heitor quem, no seu jeito descontraído, primeiro me chamou a atenção para a pequena placa alusiva a António Nobre colocada na fachada do nº 12 da rue de la Sorbonne, onde o poeta viveu entre 1890 e 1891. No rés-do-chão existe agora um pequeno e colorido “Sun coffee” cujos “paninis e viennoiseries”, profusamente anunciados, roubam protagonismo às placas alusivas aos dois poetas que lá viveram. António Nobre e, mais tarde, Ossip Mandelstam partilharam vista para a soberba Sorbornne que domina o “Quartier Latin” e cuja fervilhante vida cultural terá servido de inspiração ao poeta português para a escrita da sua primeira obra - "Só", editado em Paris em 1892.
No olhar de João Heitor ainda se sente o brilho quando relata as dificuldades superadas para realizar tal homenagem ao autor de “Lusitânia no Bairro Latino” precisamente por se tratar da vizinhança da afamada universidade. Hoje, vencidas as adversidades, é com prazer que indica o itinerário de menos cinco minutos que separa a sua livraria da antiga casa do poeta.
Nas redondezas da rue de Sommerard, onde há 20 anos abriu pela primeira vez abriu a porta da sua “Librairie Lusophone”, todos o conhecem como o “português dos livros”, designação que o enche de orgulho.
Quando há 36 anos deixou de Portugal, João Heitor era um adolescente idealista que encontrara motivação para partir nos grandes ideais universalistas com que tivera contacto, por via educacional, no seio de uma Congregação Cambodiana, em Viseu.
Antes de se radicar em França, em 1974, passou 3 anos a estudar e a trabalhar em Espanha, contribuindo para a formação do homem que mais tarde se viria a licenciar em sociologia pela “École des hautes études en sciences socials”, em Paris. Hoje reconhece que possui “o espírito estruturado pela metodologia da escola francesa” que combinada com o “lado poético e espontâneo do homem e da mulher portuguesa” o dotam das ferramentas de combatividade e dinamismo necessárias para o exercício da profissão que elegeu.
A sua chegada “às letras”, com a abertura da livraria em 1987, fez-se naturalmente através da paixão que sempre tivera pelos livros e pela cultura portuguesa. Para trás ficara o tempo do ensino do português a gerações de imigrantes portugueses em frança e das reivindicações culturais das diversas estruturas associativas que, enquanto jovem recém chegado a Paris, ajudou a construir.
Hoje, aos 55 anos, conta com a satisfação de saber que “marcou a comunidade pelo livro” e com o prazer de poder atender, com afabilidade, todos aqueles que cruzam a porta da sua livraria em busca de autores lusófonos, no idioma original ou nas múltiplas traduções em francês que também comercializa. Sabe que a sua livraria se tornou um ponto de encontro, onde elementos da comunidade portuguesa e estrangeiros de diversas nacionalidades se juntam em torno da cultura portuguesa. Sorri com alegria quando recorda que muitos filhos de emigrantes tiveram o primeiro contacto com a literatura portuguesa através da sua “Lusophone”. “Fiz pontes, fiz janelas, é isso o mais bonito do meu projecto”.
Há cerca de 6 anos atrás resolveu correr um novo risco e juntar a edição à sua já longa carreira de livreiro. Para este homem, nascido na Meda, que “para ir ao encontro do sonho vendeu tudo” lançar-se na edição tornara-se algo de inevitável, essencial para divulgar o que de melhor se vai produzindo no seio da comunidade portuguesa em França. Fundou então a “Éditions Lusophone”, dedicada à edição de autores lusófonos, que traduzam a riqueza da língua portuguesa. De seu catálogo, que conta já com 60 obras, destacam-se as obras da colecção “Testemunhos”, onde múltiplas obras de lusodescendentes foram já publicadas, e da colecção “Universitária”, dedicada à publicação de temas filosóficos - como “L’Universel et le Singulier dans la saudade – une philosophie de l’interculturel” de Adelino Braz, doutorado em filosofia pela Universidade de Paris I/ Panthéon Sorbonne – bem como de “outros actos e temas universitários”.
Para João Heitor, assumidamente “livreiro bulímico”, função que protagoniza com maior prazer, “todo o tempo é pouco” e as cerca de duas horas que dura a viagem entre casa e o trabalho é passada a ler. Na livraria guarda religiosamente os manuscritos e algumas provas de livros a editar proximamente. Confessa que tem, como “agente difusor da cultura portuguesa”, “planos até ao fim da vida” e que nos seus sonhos por realizar se encontra ainda a publicação de um livro da sua autoria para o qual até já tem título - “As memórias de um pequeno livreiro português no Quartier Latin”.

(publicado na revista Magazine Artes de Abril 2007)