Alabad ou o outro lado do espelho

Estreado em Outubro de 2002, no Festival Internacional de Teatro de Portalegre, “O Relato de Alabad” de Nuno Pino Custódio, é um texto que serve, na perfeição, a linha de trabalho do Teatro Meridional – “Um teatro despojado onde a voz e o corpo do actor são a principal referência”. Um espectáculo exemplar que demonstra, com simplicidade, que da conjugação de uma boa dramaturgia, uma boa encenação e excelentes desempenhos, se faz o melhor teatro nos palcos nacionais.

Texto de Susana Paiva

Tomemos como ponto de partida a mensagem de boas-vindas do site oficial do Teatro Meridional - “Passados 10 anos continuamos a acreditar que o teatro é fruto de um colectivo criativo, em que as relações humanas desempenham o motor congregador e unificador dos espectáculos e, com uma equipa renovada, mantemos a aposta num teatro vivo, criativo e que corre o risco do inesperado e da transgressão.(…)” – e desde logo encontraremos as linhas de força daquele que é um dos mais jovens, sólidos e originais colectivos nacionais. Contando com dezanove produções no seu curriculum, desde a sua primeira apresentação em 1992, e com um invejável número de prémios e distinções, o Teatro Meridional volta a maravilhar com a apresentação, um pouco por todo o país, da sua 18ª produção - um dos mais belos e eficientes espectáculos estreados no passado ano.
Baseado na ancestral tradição dos contadores de histórias, e com um precioso acompanhamento musical-sonoro ao vivo - da autoria e responsabilidade de Fernando Mota - o espectáculo relata, pela voz de Alabad - poeta por vocação e arqueiro pela força das circunstâncias -, a perda de uma das mais importantes cidades comerciais do Al-Gharb Al-Andaluz, a parte da Península Ibérica controlada pelos muçulmanos.
É a Nuno Pinto Custódio, autor do texto original e interprete de Alabad, que cabe a titânica, contudo gloriosa, tarefa de “desdobrando-se em inúmeras personagens e situações trágico-cómicas” descrever e confidenciar “com palavras e gestos” a derrota infligida aos mouros em 1147, por D.Afonso Henriques, durante o cerco de Lisboa.
O texto, construído na original perspectiva do "lado de lá" - o dos muçulmanos - recria, através da crónica de Alabad bin Muhammad Almançor, o ponto de vista dos derrotados. Tendo Portugal, até ao século XIX, ficado circunscrito à informação espelhada por cronistas cristãos, parece evidente que para trás terá sido relegado o testemunho de uma civilização que, aqui instalada durante séculos, teve repercussões ainda hoje evidentes e imprescindíveis na nossa prática quotidiana. “Já conhecemos alguns relatos de testemunhas presenciais do mesmo acontecimento. Agora temos este, vindo do outro lado e chegado dos céus; tão verdadeiro e tão falso quanto os restantes que aqui ficaram, na Terra.”
Reza a história que, fugidos de Santarém, recentemente tomada de assalto pelos portugueses, Alabad e o seu irmão Youssef são acolhidos por um tio lisbonense, procurando aí recomeçar as suas vidas. Mas a esperança de uma vida feliz, numa cidade florescente e muito populosa, em breve se transformará numa tormenta, quando os cristãos chegam às portas da cidade para a conquistar. O cerco, que durará quatro infindáveis meses, vai obrigar os habitantes de Lisboa a (sobre)viver no limite das suas forças, com a fome e a peste como pano de fundo, e a forçosa necessidade, ainda que contra a sua natureza, de enveredar esforços para repelir o invasor.
Motivados pela possibilidade de exploração de “todo um universo de sonoridades riquíssimo que o texto sugere” o colectivo optou por um trabalho musical ao vivo, materializado num rico dialogo sonoro com o texto, extraordinariamente onomatopeico, de Nuno Pino Custódio. Raras vezes se viu, em produções nacionais, uma tão perfeita articulação entre toda a equipa criativa de um espectáculo. São inexcedíveis, em rigor e criatividade, as interpretações do actor e do músico, consolidadas pelos não menos excelentes trabalhos de Miguel Seabra, na encenação, e de Marta Carreiras, na cenografia e figurinos. Uma verdadeira “via rápida” para a reconciliação dos espectadores com o teatro que por lusas terras se vai fazendo.

para mais informações consulte _www.teatromeridional.net

José David


Auto-retrato em permanente mutação

Há 38 anos que José David reside em Paris onde, lenta e discretamente, tem vindo a desenvolver a sua obra de pintura.
Após ter recentemente exposto na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, prepara agora duas exposições individuais em Lisboa. Três excelentes razões para uma luminosa visita ao seu atelier de artista, na histórica zona de Montparnasse.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Quando às nove horas da manhã o atelier de José David se enche da exuberante luz natural que desponta na rua, já o madrugador pintor labora há mais de duas horas. Ajoelhado no chão, com as mãos cuidadosamente revestidas com luvas de latex, trabalha, com a esponja, um dos seus múltiplos auto-retratos de costas. Depois, com a habilmente manejada espátula, talha o papel manufacturado, dispersando pequenas aparas pelo chão, lascas cujos sucalcos serão mais tarde afagados, com mestria, por uma fina lixa até à sua preciosa finalização.
No atelier de José David há tudo o que se pode esperar de um atelier de artista – pincéis e tintas de óleo sobre a mesa, telas prontas a estrear, obras inacabadas entre outras que parecem concluídas, catálogos do autor e algumas obras de referência, tudo iluminado pelo sol que timidamente atravessa as suas enormes vidraças viradas a norte. Mas no espaço de trabalho de José David há sobretudo lugar cativo para a esponja, o esfregão, o trapo, a espátula, a lixa e as folhas de papel torchon de várias dimensões, companheiros inseparáveis das suas mãos, e em muito responsáveis pela organicidade dos seus mais recentes trabalhos.
Quando há sete anos José David iniciou uma nova abordagem dos seus auto-retratos - temática que o acompanha desde a adolescência, embora hoje totalmente livre das suas iniciais referências ilustrativas -, estava longe de imaginar que o seu processo criativo o conduziria ao seu trabalho artístico actual. Fruto de um longo percurso em que os auto-retratos frontais cederam lugar, primeiro aos auto-retratos de costas – “materializando uma presença que eliminava o lado expressivo, ficando apenas uma forma, uma tensão, qualquer coisa que tem uma vida e que dá vontade de ir ver o que se passa pela frente”-, depois a uma multiplicidade de rostos fraccionados em pequenas telas, “onde apenas se revelavam pormenores da cara”, até finalmente “chegar ao actual trabalho de papel em o seu rosto serve como ponto da partida mas em que não se procura representar”.
Sobre o seu trabalho mais recente revela, parafraseando um amigo, que “o mais interessante é sentir a memória”, tradução de um inconsciente individual mas também clara alusão “à história da pintura onde, desde os frescos à escultura, figuram caras destas, intemporais”.
Na obra de José David existe, além de uma clara dimensão biográfica que espelha as suas origens ribatejanas - traduzida em algumas das outras temáticas abordadas como o retrato da mãe ou o recorrente touro, reminiscência das lezírias ribatejanas, de um pai que fora forcado ou do forte desejo de infância de ser toureiro - , uma vertente que, assente na sua permanente insatisfação criativa, o leva a retrabalhar muitas das suas obras, transformando-as profundamente, ao ponto de não ser reconhecível a imagem que esteve na sua origem. Através de processos aditivos, onde as camadas de tinta se sobrepõem cumulativamente, criando texturas tridimensionais, ou através de processos subtrativos, onde o papel arrancado encontra novos níveis subterrâneos em cada rasgão, a obra de José David abre espaço “ao acidente na construção” e constitui-se sobretudo como um ensaio sobre a transformação e a mudança - alicerces fundamentais da procura de “um ponto de verdade” que sustente as suas obras.
Para o pintor que, à imagem da filosofia Zen, acredita sobretudo “ser o caminho que conta e não o fim”, sacrificar algumas das suas pinturas e “destruir quadros de que às vezes se arrepende”, é inevitável e “faz parte de si”, não obstante isso poder por vezes significar “desfazer trabalho do qual muita gente gostava”.
Acreditando profundamente que na pintura “o factor surpresa não é suficiente” e que a obra tem que ser sustentada por um conteúdo forte pois “não há surpresas perpétuas que garantam uma obra”, José David trabalha diária e afincadamente no seu luminoso atelier de Montparnasse, concentrando-se actualmente nos rostos e paisagens que, no próximo mês de Maio, nos surpreenderão na Galeria Diferença e na Cidi Arte Galeria, em Lisboa.

(artigo publicado na "Magazine Artes" de Fevereiro 2007)

Robert Doisneau



O pequeno teatro do quotidiano

Onze anos após a sua morte, a Mairie de Paris consagra ao mais famoso fotografo humanista francês a exposição “Paris en liberté”, uma singular retrospectiva do seu trabalho, num dos locais que celebrizou. Um percurso livre, através de duzentas e vinte e quatro imagens, que transforma a sala St. Jean, no coração do Hotêl de Ville, num espelho da memória de uma cidade há muito desaparecida.
Uma exposição surpreendente, a visitar gratuitamente até ao próximo dia 17 de Fevereiro.

Texto de Susana Paiva

Às dez da manhã, hora em que “Paris en liberté” abre ao público, já os visitantes se avolumam à porta do nº 5 da rue de Lobau, onde uma longa espera será o preço a pagar por todos quantos desejem entrar. Lá dentro, à semelhança dos olhares curiosos dos visitantes do Louvre perante a “Gioconda” de Leonardo da Vinci, que Doisneau fotografou em 1945, centenas de visitantes deslumbrados observam as imagens do fotógrafo francês, mundialmente celebrizado pela sua imagem de 1950 “O beijo do Hôtel de Ville”.
Comissariada pelas suas duas filhas, directoras do Atelier Robert Doisneau e gestoras, em parceria com a agência Rapho, dos direitos do seu espólio, a exposição - a maior retrospectiva dedicada a Doisneau nos últimos 11 anos - surpreende pela organização onde, através das mais de duzentas imagens do fotógrafo, se traça a dinâmica de cinco décadas do quotidiano parisience. É num itinerário livre, liberto de qualquer organização cronológica ou nuclear - que traduz na perfeição o espírito flaneur com que Doisneau percorreu e registou a vida dos subúrbios e centro da cidade -, e contrapondo imagens sobejamente conhecidas com fotografias até à data inéditas, que a “viagem ao imaginário parisience de Robert Doisneau” nos faz mergulhar nas grandes temáticas que toda a vida o acompanharam - a infância, o trabalho, a vida nos subúrbios, o humor no quotidiano – introduzindo-nos simultaneamente numa dimensão mais desconhecida do seu trabalho, onde o fotógrafo recorre a montagens tridimensionais das suas imagens.
Constituindo-se como as mais interessantes obras exibidas, “Les Halles de Paris” - uma montagem constituída por 36 elementos, exposta pela primeira vez em 1968 na Biblioteca Nacional, onde se revela a dinânica do mercado central de Paris -, “La Maison des locataires” - uma montagem tridimensional onde 12 janelas de um prédio parisience deixam vislumbrar a vida das 12 famílias que aí residem – e “Les Pont des Arts” - uma montagem tridimensional que permite observar, em diferentes escalas e distâncias, a dinâmica da ponte e seu envolvente -, introduzem uma faceta conceptual no trabalho de Doisneau, confirmando-o como um criador de pleno direito.
Considerado por muitos como um extraordinário historiador, e tendo consagrado a sua vida a um intenso trabalho documental sobre a capital francesa, Doisneau recusou sempre qualquer categorização, negando haver no seu trabalho a sistematização e objectividade necessária para qualquer estudo histórico. É no entanto indubitável que é fruto do seu trabalho que hoje se guarda a memória de uma Paris conservando o humano como epicentro.
Oriundo de Gentilly, nos subúrbios de Paris - onde hoje se encontra a “Maison Robert Doisneau”, um centro de exposições dedicado à fotografia humanista -, e confrontado com a ausência de registos da vida dos seus próximos, desde cedo se sentiu compelido a fotografar o envolvente. “A primeira coisa que fazem os viajantes desembarcados num paraíso turístico, exótico, é enviar um postal aos seus amigos. Para mostrar o exotismo da periferia e os hábitos dos seus habitantes não havia postais. Tive então que me lançar nesse trabalho”.
Um trabalho que durante anos o levou a fotografar os subúrbios norte e sul de Paris, fotografando, entre tantos outros, os talhantes de La Villette, os músicos e frequentadores dos pequenos bistros, cuja confiança e cumplicidade ganhou visita após visita, até se “tornar invisível” como fotógrafo. Era o tempo em que, juntamente com Jacques Prévert e Robert Giraud, deambulava por uma Paris popular, totalmente invisível aos olhos diúrnos. O tempo em que seria convidado a rescindir o seu contrato como fotógrafo industrial das fábricas Renault, em virtude de as suas noites noites serem melhores, e maiores, que os seus dias.
Era o princípio de uma aventura que o levaria, ao longo de cerca de 60 anos, a produzir 450 mil negativos, “falsos testemunhos” - nas palavras do autor - imbuídos de subjectividade e traduzindo um estilo muito próprio.
“Quando vou a Paris, vou a Paris. Instalo-me, imóvel, num certo endereço e fico à espera que qualquer coisa venha na minha direcção”, declarou Doisneau sobre a sua metodologia. “Não sou um caçador, sou um pescador de imagens. O meu trabalho consiste em lançar o isco e esperar que o mordam”. Claramente assim foi no trabalho que realizou, em 1948, “Chez Romy”, quando ocultamente instalado no interior, máquina fotográfica apontada aos rostos dos traseuntes, registou as suas surpreendentes reações à exibição de um nu feminino na montra da loja.
Eternamente ligado a uma certa candura do olhar, embora tratando realidades profundas, Doisneau será para sempre recordado como o autor de imagens doces e poéticas, tradudoras de um mundo humanizado. “O mundo que tentei mostrar era um mundo onde eu me teria sentido bem, onde as pessoas seriam amáveis e eu encontraria a ternura que desejo receber”. Um mundo de homens livres, traduzidos numa Paris em liberdade que parece hoje tão difícil de fotografar.

(artigo publicado na "Magazine Artes" de Fevereiro 2007)