Portugueses de Diáspora_Teresa Mota
Brilhar na sombra
Não gosta de dar entrevistas e cultiva o anonimato, estatuto antagónico ao com que, há 44 anos, saiu de Portugal rumo a França. Hoje, aos 66 anos, Teresa Mota não é apenas memória da jovem e talentosa actriz que marcou o teatro português nas décadas de 50 e 60 mas também uma respeitada académica cuja paixão pela escrita e pelo teatro nunca abandonou.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Os amigos são peremptórios acerca da generosidade e devoção que Teresa Mota põe em todas as relações que preza. Louvam-lhe a discrição, a modéstia e sabedoria, enaltecendo as suas qualidades humanas e profissionais pois estão certos que ela própria nunca o faria. Solicitar a Teresa que fale de si é tarefa difícil resultando normalmente na valorização daqueles que lhe são mais próximos – o seu filho, Emmanuel Demarcy-Mota, jovem encenador que tem visto o seu trabalho consagrado nos meios teatrais português e francês e João Mota, seu irmão dois anos mais novo, reconhecido actor e encenador que nos tem brindado com uma carreira teatral e educativa plena de sucessos.
Há muito que Teresa optou pelo anonimato, posicionando-se na sombra que lhe permite “estar atenta às pessoas de quem se gosta”. Talvez o reconhecimento artístico precoce, protagonizado da infância à jovem adultez, tenha moldado o caracter da criança que, aos 6 anos, com a sua mãe, avó e irmão trocou a pacatez da sua terra natal pela capital nacional.
Da infância recorda a paradisíaca vida em Tomar, marcada pelas regulares idas ao teatro local, onde viu os primeiros espectáculos e filmes, e ao café Paraíso - ambos propriedade da sua família – bem como pelas tertúlias que o seu tio-avô materno promovia. Da mudança para Lisboa reteve a luminosidade da grande casa alugada pela mãe na frondosa avenida Marquês de Tomar e que marcou o início de uma nova vida para toda a família. Recorda-se dos sábados em que corria para casa na ânsia de ouvir o programa infantil de Maria Madalena Patacho na Emissora Nacional, o mesmo com o qual, algum tempo depois, viria a colaborar. Com 10 anos, concluída a escola primária em S. Sebastião da Pedreira, escreve uma carta a Maria Madalena Patacho manifestando o seu interesse em participar nas emissões e, pouco tempo depois, passado um concurso promovido pela Emissora Nacional, inicia uma longa colaboração com a rádio. Ao longo do trabalho com Madalena Patacho a voz de menina foi dando lugar à timbrada e agradável voz de adolescente com que Teresa Mota interpretou múltiplos personagens dos folhetins radiofónicos do “Teatro das Comédias” dirigidos então na Emissora Nacional por Álvaro Benamor.
Foi ainda enquanto adolescente que protagonizou um dos primeiros programas infantis da televisão portuguesa – “as cartas do tio João (e da sua sobrinha Teresinha)” – onde juntamente com Gustavo Fontoura respondia às cartas dos jovens telespectadores. É, aos 16 anos, como “Teresinha” que Teresa Mota, propulsionada pela visibilidade e sucesso dos primeiros anos da televisão, se vê catapultada para o estrelato. Uma visibilidade que ainda hoje recorda como assustadora e que a impedia de ser uma menina como as outras, dado ser regularmente reconhecida na rua e solicitada para autógrafos.
Apaixonada desde sempre pelo teatro, cujo desejo atribui à necessidade de conversar com um pai ausente, Teresa Mota não hesitou em escrever a Amélia Rey Colaço - então à frente da companhia Rey Colaço-Robles Monteiro residente no Teatro Nacional -, manifestando o seu desejo de ser actriz. Uma acção decisiva que marcaria o início de uma longa colaboração, iniciada com a participação em dois espectáculos ainda enquanto estudante liceal e que culminaria, findo o liceu Maria Amália e a convite de Amélia Rey-Colaço, na integração durante 4 anos do elenco permanente da companhia.
Foi, em 1961, sob a alçada de Amélia Rey-Colaço que Teresa Mota, então com 20 anos, viu reconhecido a sua interpretação em “Romeu e Julieta” de William Shakespeare com o prémio da crítica. Uma distinção que levaria Mário Casimiro Cortesão e a própria Amélia Rey-Colaço a aconselhar a intérprete de “Julieta” a ir para o estrangeiro aprender o máximo possível. Encorajada pelos seus mentores, Teresa Mota parte então em 1963 para Paris onde, com uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, frequenta o curso teatral de René Simon no “Centre Dramatique de la rue Blanche”, inscrevendo-se também na licenciatura de “literatura estrangeira” da Sorbonne, universidade onde mais tarde viria a realizar o seu doutoramento subordinado ao tema “o conto e o teatro”.
Vivendo há 44 anos em França e desde 1993 professora agregada da Sorbonne Nouvelle/ Paris III, com a especialidade de língua e teatro, Teresa Mota construiu um universo pessoal onde teatro e ensino se entrecruzam. Foi fundadora na década de 60, juntamente com o seu marido Richard Demarcy, do “Naif Theatre”, a companhia teatral na qual, durante mais de 25 anos, foi co-criadora de todos os espectáculos. Actriz, encenadora, estudiosa, professora, mulher, mãe – tudo actividades que Teresa Mota se orgulha de ter desenvolvido, discretamente e na sombra como é seu apanágio.
(texto publicado na Magazine Artes de Novembro 2007)