Paris Photo 2007

Fotografia e “Champagne”

Visitar o Salão Paris Photo é participar numa experiência inebriante onde fotografia e glamour se combinam para criar um mundo pleno de códigos complexos, indecifráveis aos olhos do cidadão comum. Um universo onde a qualidade é um requisito, a discrição um imperativo e o dinheiro o motor que faz transitar de mão em mão obras artísticas de fotógrafos de todo o mundo.

Texto de Susana Paiva
Fotografias gentilmente cedidas por Paris Photo 2007

São múltiplas as razões que levam, ano após ano, milhares de pessoas de todo o mundo a deslocar-se ao Carrousel do Louvre, espaço onde desde há 11 anos se realiza uma das mais conceituadas feiras internacionais de fotografia. Para as 83 galerias este ano aí representadas, oriundas de 17 países, o objectivo é inequívoco e bastante claro – vender o maior número de obras dos artistas que representam ao melhor preço possível. Já para o público que gravita em torno dos diferentes espaços expositivos a motivação nem sempre é a mesma. Muitos visitantes consideram que em anos ímpares, quando o “Mois de la Photo” - a grande bienal Parisiense de fotografia - não se realiza, o Salão Paris Photo constitui um espaço alternativo para se ver boa fotografia. No entanto, não obstante o razoável preço do bilhete de acesso - 15 euros para o público geral e metade desse valor para estudantes e grupos de visitantes - o Paris Photo está longe de ser um local privilegiado para a fruição da fotografia dado que frequentemente em pequenas áreas expositivas, envoltas em tapetes sonoros de risos e conversas eufóricas, se exibem dezenas de obras que competindo ferozmente entre si impedem o olhar pausado e atento que cada fotografia merece.
Claramente concebido como um evento comercial cujo público alvo são os coleccionadores de fotografia institucionais e privados, o Paris Photo organiza-se segundo os códigos gerais do mercado da Arte que cada participante depois se encarrega de personalizar mediante as suas práticas profissionais e convicções pessoais.
Nem sempre é fácil descortinar a lógica subjacente a cada um dos expositores dado que grande maioria das galerias apresenta uma selecção desconexa das obras que representa, quiça aquelas que julga mais vendáveis. Poucos são os expositores que, como a Galeria Yvon Lambert, optam por exibir apenas um ou dois autores. Talvez por isso, não nos abstraindo da qualidade das imagens que apresenta, a galeria se destaque no meio de toda a cacofonia visual. Aí as séries “The other side” (1971-1974) da autoria de Nan Goldin e “Intimate” (1979 -1986) de Andy Warhol ganham uma visibilidade extraordinária e brilham no seio de uma das mais concorridas alas do Salão.
Para a premente sensação de caos geral muito contribui a multiplicidade e diversidade de dimensões das fotografias expostas, percorrendo quase todas as escalas imagináveis, do imensamente pequeno ao extraordinariamente grande, bem como os diferentes estilos e suportes que tão bem reflectem o largo espectro que a feira promove – da fotografia do século XIX à fotografia contemporânea, passando pela fotografia moderna.
Descortinar no seio do Paris Photo a lógica do mercado da fotografia é tarefa ingrata. A maioria das galerias opta por não afixar o preço das obras à venda obrigando os interessados a dialogar e negociar face a face com o galerista. Para galeristas como Agathe Gaillard, proprietária da mais antiga galeria exclusivamente dedicada à fotografia em Paris e membro do comité de selecção dos participantes do Paris Photo, a não afixação dos preços não só ajuda à especulação financeira como parece obnubilar a realidade que muitos pressentem – a da aplicação de diferentes preçários de acordo com a natureza do comprador. “Chez Agathe”, como todos se referem ao espaço expositivo da Galeria Agathe Gaillard, não há lugar a equívocos e a tratamentos diferenciados – os preços encontram-se todos afixados e aos clientes mais inexperientes até é facultada, numa folha de papel amarelo, um excerto da definição de “fotografia original” de acordo com o estabelecido em 1982 pela “Associação para a Defesa e Promoção da Fotografia Original”.
Talvez seja a sua franqueza, por muitos proclamada “honestidade”, que faça com que o seu espaço esteja sempre cheio de visitantes. Aos amigos mais próximos oferece um copo de champanhe - do genuíno “Champagne” que abunda em quase todos os espaços expositivos neste dia zero de exposição à porta fechada, acessível apenas por convite e regulado segundo áreas profissionais. Entre as 4 e as 7 da tarde desfilam no Salão todos quantos o visitam por razões exclusivamente comerciais, excepção feita aos jornalistas que são livres de circular desta a primeira abertura de portas. Depois entre as 7 e as 10 da noite a entrada é facultada aos restantes convidados - artistas, amigos e outros sortudos que terão acesso privilegiado às obras em exposição.
Ao público geral restará esperar pela manhã do dia seguinte, quando terá lugar a abertura oficial dos 4 dias do certame, para ter acesso à compra de tudo aquilo que não tenha sido adquirido ou reservado pelos milhares de profissionais que por lá circularam na véspera.
É logo na primeira hora do dia zero que Agathe Gaillard vende a primeira obra no certame deste ano. Trata-se de “Seville 1933”, uma fotografia de Henri Cartier-Bresson, imprensa nos anos 60 e autenticada com carimbo pelo seu autor. São os primeiros onze mil euros que Agathe contabiliza, por enquanto um magro contributo para amortizar o enorme investimento que significa participar no certame. No seu espaço os valores das imagens variam entre os mil e os doze mil euros, sendo a imagem mais cara uma outra fotografia também da autoria de Henri Cartier-Bresson. Considerada uma galerista que vende a preços moderados - num certame em que o preço médio de venda por imagem é cerca de quatro mil euros – há na galeria de Agathe umas quantas preciosidades que merecem bem o investimento. Entre elas contam-se uma prova de contacto, datada de 1 de Janeiro de 1972, de “Martinique” da autoria de André Kertèsz, no valor de nove mil euros, e dois retratos particularmente interessantes, um de Patrice Chéreau, em 1982, e outro de Margarite Yourcenar, em 1987, ambos da autoria de Carlos Freire. Com o valor unitário de mil e oitocentos euros, os retratos de Carlos Freire tem a particularidade de apresentar depoimentos manuscritos pelo seu autor onde este descreve a experiência do encontro com o sujeito fotografado. No passe-partout do retrato de Chéreau pode ler-se claramente “Muito impressionado pelas necessidades técnicas mínimas da tomada de vista, Chereau fala do seu desejo de um dia realizar um filme a preto e branco. Nanterre 1982”.
Com uma postura bastante diferente de Agathe Gaillard, só após alguma insistência se consegue saber, junto da Galeria Nova-Iorquina Charles Cowles, qual o valor de venda a público de uma das magistrais obras que o canadiano Edward Burtynsky captou nas pedreiras de mármore do Alentejo. Um valor bastante acima da média que o galerista não deseja ver publicado na imprensa.
Igualmente prudente na comunicação dos valores das obras à imprensa, a fim de evitar futuros equívocos com os clientes, é também a Galeria Filomena Soares, a única galeria portuguesa representada no Paris Photo e que este ano repete a experiência iniciada na passada edição. Um regresso a Paris que se deve segundo Bruno Múrias, relações públicas da galeria, sobretudo a uma experiência anterior “muito satisfatória a todos os níveis”, e na altura muito saudada por permitir a visibilização de alguma da obra fotográfica actualmente produzida em Portugal. Representando artistas como Helena Almeida - autora da mais cara obra em exposição -, Vasco Araújo, João Penalva, Júlia Ventura e Rodrigo Oliveira a galeria exibe a quase totalidade dos autores portugueses presentes no certame. Excepção a esta representação são os trabalhos de Rita Magalhães e de Edgar Martins representados respectivamente pela “Galeria Fucares”, de Madrid, e pela “The Photographers Gallery” de Londres.
Exibindo, numa área equivalente a dois módulos expositivos, cerca de 20 obras do acervo de 30 que transportou para Paris, a galeria opta pelo sistema de substituição das obras vendidas permitindo assim uma visibilidade pública a um maior número de obras e artistas.
Admitindo que a participação num certame desta natureza envolve despesas muito elevadas que é necessário rentabilizar, Manuel Santos, director da galeria em parceria com Filomena Soares, garante que “nunca aposta para perder” revelando desta forma confiança na cotação internacional dos artistas que representa. Outra coisa não seria de esperar por parte da galeria que, dependendo exclusivamente de investimento privado, projecta já no próximo mês de Março 2008 participar num feira no Dubai, e que há oito anos leva a Arte Portuguesa à Arco, em Madrid, e mais recentemente, nos últimos cinco anos, marca presença como a única galeria portuguesa na Frieze Art Fair, em Londres.

Próxima edição:

Paris Photo 2008
13 a 16 de Novembro
Carrousel du Louvre, Paris
www.parisphoto.fr

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" de Dezembro 2007)