Visto de Fora_Vieira da Silva no Centre Culturel Calouste Gulbenkian, em Paris

Caligrafias do Olhar

Antecipando a comemoração do centenário do nascimento da pintora, o Centre Culturel Calouste Gulbenkian apresenta, nas suas instalações em Paris, uma exposição de 44 obras de Maria Helena Vieira da Silva provenientes da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva e do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa. Uma exposição imprescindível, a desfrutar gratuitamente até ao próximo dia 28 de Setembro.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pelo Centre Culturel Calouste Gulbenkian

Tal como urgia, a obra de Vieira da Silva regressou à ribalta em Paris, oito anos após a última mostra no Musée Maillot e dezanove anos depois de uma grande retrospectiva, no Grand Palais, confirmar ao público geral a sua genialidade. É numa exposição mais modesta, mas também mais intimista e humanizada, que o público se pode agora instruir sobre a vida e obra da pintora, desfrutando de oito pinturas e uma gravura do acervo do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão, e três óleos, um guache e 31 trabalhos sobre papel, entre desenhos e gravuras, pertencentes à colecção da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva.
Instaladas nos pisos inferior e superior da antiga mansão de Calouste Sarkis Gulbenkian em Paris, no número 51 da Avenue D’Iéna, as 44 obras de Vieira da Silva, revisitam cronologicamente os temas da sua predilecção – “as estruturas espaciais fechadas dos primeiros anos, os tabuleiros de xadrez e os arlequins, o tema da guerra e da angústia representada pelas quadrículas que aprisionam os personagens bem como as suas pesquisas da maturidade sobre o espaço, que caracterizam as suas construções e bibliotecas” – e encontram nesse espaço uma ajustada e interessante dimensão entre pública exposição e privacidade, movimento e imobilidade, fragilidade e fortaleza, constituindo assim uma bela homenagem, na comemoração do 50º aniversário da Fundação Calouste Gulbenkian, à pintora com quem manteve uma longa relação, tendo mesmo um papel relevante – sobretudo graças à acção de José Sommer Ribeiro, primeiro director do Centro de Arte Moderna José de Azeredo Perdigão e grande amigo de Vieira da Silva - na divulgação da sua obra em Portugal, através da organização de exposições e aquisições e do apoio à realização do seu «Catalogue Raisonnée» e à criação da Fundação que tem o seu nome e o do pintor de origem húngara com quem se casou em 1930, Arpad Szenes.
Comissariada por Marina Bairrão Ruivo, conservadora na Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva, e por Ana Vasconcelos e Melo, conservadora no Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, a exposição mostra, nas palavras de Isabel Matos Dias, a diversidade e a unidade da produção artística da pintora, fazendo sentir ao espectador que a percorre o eco das palavras de René Char, seu grande amigo, - “Vieira da Silva…múltipla e uma.”
Para a pintora que afirmou, na monografia “Vieira da Silva”, ter compreendido que a sua pintura era uma escrita - escrita de uma mão activa que age e que vê, e que nos permite falar de uma caligrafia do olhar – a escolha do lápis e de um papel frágil como suporte dos seus desenhos sublinha a precariedade da obra, uma dimensão de efemeridade que descobriu muito cedo na vida.
Numerosos dos seus temas de eleição são representados nos desenhos agora expostos, evidenciando o desejo de Vieira da Silva de alcançar a infinita variedade das diferentes manifestações da vida ou não tivesse Vieira da Silva declarado: “Tudo me espanta. Pinto o meu espanto que é, à vez, maravilhamento, terror, riso”.

Exposição “Vieira da Silva”
Obras da Fundação Arpad Szenes-Vieira da Silva e da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
Centre Culturel Calouste Gulbenkian
Avenue D’Iéna, nº 51 – Paris
Até 28 de Setembro