Filhos do Rock
É uma exposição monumental a que, em Paris, a Fondation Cartier pour l’art contemporain dedica à génese do Rock’n’Roll. Uma mostra claramente pedagógica que proporciona aos seus visitantes a exploração, através de objectos e sonoridades, de um movimento que transformou o mundo.
Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pela Fondation Cartier pour l’art contemporain
É uma exposição atípica a que aguarda os habituais visitantes do nº 261 do Parisiense boulevard Raspail. Longe das eclécticas mostras de arte contemporânea a que a Fondation Cartier pour l’art contemporain nos tem habituado, o imóvel concebido por Jean Nouvel é agora habitado por coloridas jukeboxes dos anos 40 e 50, microfones das décadas de 30, 40 e 50, um Cadillac cabriolet serie 62, fabricado em 1953, impecavelmente conservado e com os seus acessórios originais, e até por um estúdio de gravação dos anos 50 no interior do qual se ouvem, entre outras, as sessões originais de gravação de “She knows how to rock”, interpretada por Little Richards, “Great Balls of Fire” por Jerry Lee Lewis - ambas de 1957 - e “I got stung”, gravada em 1958 por Elvis Presley.
Lá fora, no átrio, colunas difundem extractos das ondas hertzianas emitidas em 1955 pela Wins Radio nas suas “Alan Freed sessions”, invocando deste modo o importante papel desempenhado por Alan Freed na invenção e difusão do rock’n’roll. Tudo no espaço expositivo da fundação convida a um mergulho no passado – a estética retro, as irresistíveis sonoridades difundidas, a jukebox ainda em funcionamento na qual os visitantes podem escolher o disco a ouvir, a montra repleta de exemplares da “Dig”, “Teen”, “Movie Teen Illustrated” e “Song hits Magazine” - revistas dos anos 50 dedicadas aos adolescentes, esse “extracto social financeiramente emergente numa América Pós-Guerra” tão desejoso de novas sonoridades e práticas que reflectissem a sua rebeldia e vitalidade.
Na sala contígua, em jeito de preparação para a visita global, projecta-se o filme “Rock’n’Roll: The Early Days”, realizado em 1984 por Patrick Montgomery e Pamela Page. Aí desfilam, ao lado das guitarras expostas de 3 gigantes dos primórdios do rock – Elvis Presley, Buddy Holly e Carl Perkins – imagens de Chuck Berry, Jerry Lee Lewis, Little Richards e muitos outros que contribuíram para a afirmação do rock como uma sonoridade de futuro. Ao longo de uma hora passa-se em revista a totalidade dos ingredientes reunidos para a génese do rock, desde a estética musical moralista vigente nos anos 30 e protagonizada unicamente por músicos brancos, à segregação racial que assolava sobretudo o sul dos Estados Unidos da América, passando pela emergência de uma cultura adolescente e um culto exacerbado de heróis rebeldes.
É nesse ambiente social e culturalmente conturbado que surge o rock’n’roll, herdeiro dos cruzamentos de sonoridades como o Boogie-woogie, as Big Band Jazz, o Gospel, o Blues, o Country e o Rhythm and Blues como assim o demonstram os módulos que no piso inferior da Fondation Cartier onde se traça a cronologia detalhada da génese e evolução do rock, com particular enfoque na vida e obra de algumas figuras emblemáticas como “Bill Haley and his Comets”, o primeiro grupo a fazer conhecer e a popularizar o rock à escala internacional.
Lugar de destaque na exposição merece ainda a mítica figura de Elvis Presley, o jovem camionista que aos 19 anos gravou “That’s all right” apanhando Memphis de surpresa e provando que a fórmula inicial do sucesso popular do rock poderia residir “num branco que cantava e dançava como um negro”.
Exposição “Rock’n’Roll 39-59”
Patente até 28 de Outubro na Fondation Cartier pour l’art contemporain, em Paris