Portugueses de diáspora_ Paula Gonçalves
Palavras migratórias
Há uma luminosidade e intensidade nas palavras de Paula Gonçalves que nos mergulha na profunda beleza da língua portuguesa. Aos 42 anos, 32 dos quais vividos em França, Paula Gonçalves – escritora e jornalista – constrói, a passos seguros, um universo pessoal centrado no prazer da partilha da palavra falada e escrita.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Foi com apenas 10 anos que Paula vivenciou a diáspora. Em Outubro de 1975 deixou Lisboa rumo a Paris, com os pais e irmão, experiência que recorda como uma intensa ruptura “em relação a tudo - língua, clima, escola, amigos, referências”. Hoje, volvidos 32 anos, reconhece que a ida para França “lhe abriu as portas do mundo”.
Foram bastante dolorosos os primeiros anos de exílio de Paula Gonçalves em Paris - tempos de construção de uma nova identidade, de adaptação a uma nova e desconhecida realidade povoada de “chambres de bonne”- pequenos quartos de empregada - e casas de banho no corredor dos prédios. Momentos de uma adolescência vividos entre duas culturas, plenos de dúvidas e interrogações suplementares numa idade já por si prolífera em questionamento - tudo fragmentos que Paula Gonçalves registou, sob a forma de poemas e diários, e que anos mais tarde, filtrados pela sua visão distanciada e madura, se iriam converter na base da primeira obra literária a título individual.
Editada em 2002 pelas Editions Lusophone, “Âncora estilhaçada” é a materialização das recordações de infância da escritora mas também a invocação das raízes celtas de que tanto se orgulha. Uma “obra catártica” que reflecte a inicial busca de raízes num país onde memória individual e histórica se misturam e onde, mais tarde, se desvenda o impacto emocional do exílio em França.
Hoje, ultrapassadas as dificuldades iniciais e plenamente feliz por viver no país que lhe proporcionou contacto com o multiculturalismo, inicialmente vivenciado enquanto cursava a licenciatura em português na Sorbonne, Paula Gonçalves não hesita em afirmar que possui duas línguas maternas – o português e o francês – exprimindo-se sem dificuldade em qualquer uma.
Ambicionando ser professora após conclusão dos seus estudos, Paula Gonçalves acabou por encontrar na literatura e no jornalismo de proximidade os canais ideais para fazer aquilo que mais gosta - comunicar. Actualmente escreve em duas publicações da aglomeração de Cergy-Pontoise, uma de âmbito generalista e outra cultural, onde se privilegia o contacto directo com os habitantes e leitores da região.
Da leitura do seu curriculum confirma-se aquilo que pessoalmente, perante o seu ânimo e contagiante energia, já intuíamos – Paula desdobra-se nas “mil e uma coisas” que gosta de fazer simultaneamente. Depois de, nos anos 90, ter dinamizado a emissão diária e bilingue de “Ponto de Encontro” na Rádio Alfa – rádio de língua portuguesa localizada nas imediações de Paris – anima agora na rádio local RGB, em co-autoria com Philippe Raimbault, o programa literário “Mots migrateurs”. Inicialmente uma emissão mensal, “onde se viajava através das palavras” dando a conhecer autores e obras literárias, sempre que possível no idioma original, “Mots migrateurs” acabou também por se converter no nome do colectivo de escritores que Paula ajudou a formar em 2006 na região de Val d’Oise. “Mots migrateurs” tornou-se um espaço privilegiado para a vivência da literatura onde se promove e interajuda os seus membros.
Foi também o desejo de viver, e fazer viver, o catalisador que persuadiu Paula Gonçalves da necessidade da tradução da sua primeira obra literária, resultando assim na edição bilingue – “Âncora estilhaçada/ Ancre en éclats” - lançada em 2006 pela sua editora original. Com esta versão Paula reconhece ter alargado o universo de leitores da sua obra, permitindo-lhe aquilo que considera fundamental e lhe dá mais prazer - “divulgar a cultura portuguesa aos não-lusófonos”.
Possuidora de múltiplos recursos e fascinada pela interacção da literatura com as restantes artes, Paula tem desenvolvidos projectos colectivos que cruzam literatura com pintura e fotografia, e mais recentemente trabalhado num recital, conjuntamente com a actriz Ana Knight e com o músico Vitor Marques, onde as suas palavras ganham vida através da voz e da música. Tudo projectos que a escritora gostaria de continuar a desenvolver, a par e passo com a reposição de “Où es-tu mon pays?”, projecto teatral escrito em parceria com Jean Gennaro e estreado no passado mês de Maio, enquanto aguarda a publicação de 2 novos livros - o romance “Le fracas du silence” e “Regards Pluriels/ Dans l’intimité des couples mixtes” uma publicação reunindo testemunhos sobre a vida de casais mistos em França,