Kai Wiedenhöfer

O Muro de Sharon: Terra Santa, Terra Dividida

Vencedor em 2005 da bolsa de fotografia editorial Getty Images com o projecto “Sharon’s Wall: Holly Land, Divided Land”, o fotógrafo alemão Kai Wiedenhöfer publicou recentemente, pela Steidl, o livro “Wall” reunindo 51 imagens que documentam a construção de 650 quilómetros de muros, vedações, diques e outras barreiras ao longo da fronteira entre o Estado de Israel e a futura entidade Palestiniana. Um vívido testemunho, pleno de imagens desconcertantes, que enfatiza o lado humano do conflito, revelando famílias divididas por uma barreira incompreendida.

Texto de Susana Paiva
Imagens de Kai Wiedenhöfer, cortesia Steidl

Foi Christian Schimdt, escritor baseado em Zurique, quem pela sua insistência convenceu Kai Wiedenhöfer a regressar a Israel e aos territórios ocupados da Palestina. Correspondente no Médio Oriente durante mais do que uma década, Kai Wiedenhöfer, hoje com 41 anos, estava relutante em regressar.
Desde os 13 anos, idade em que lera um livro sobre os conflitos políticos no Médio Oriente, que se sentia fascinado pelos problemas da região. Inevitavelmente, na primavera de 1989, acabou por viajar rumo a Jerusalém a fim de produzir um portfolio fotográfico para a sua candidatura universitária. Foi com esse portfolio que acedeu ao curso de fotojornalismo na Folkwang School, em Essen, onde concluiu os seus estudos em 1991.
Ainda enquanto estudante Wiedenhöfer visitou duas vezes Jerusalém, focando o seu trabalho nos aspectos religiosos e nos problemas da ocupação, reflectidos no quotidiano da Cidade Santa. Acabada a universidade, e compreendendo a necessidade de falar o idioma local caso quisesse concretizar o sonho de trabalhar no Médio Oriente, Kai rumou a Damasco, Síria, onde aprendeu a falar árabe no Arabic Teaching Institute for Foreigners.
Munido das ferramentas mínimas necessárias, Kai Wiedenhöfer estabeleceu-se então no Médio Oriente, trabalhando como fotógrafo para a agência Suíça “Lookat Photos”.
Considerado não raras vezes como um fotógrafo com “uma lente tendencialmente anti-Israelita”, Kai dedicou os 3 últimos anos a fotografar a construção do muro fronteira que divide o Estado de Israel dos territórios Palestinianos, revelando os dramas humanos daqueles que co-habitam diariamente com a construção. “Erigido com um único propósito – o de manter os terroristas Palestinianos, que desejam assassinar cidadãos Israelitas, fora”, segundo o Ministro dos Negócios Estrangeiros Israelita, “Israel, uma sociedade democrática, está a construir essa vedação para proteger cidadãos de ataques mortais, não para impedir contactos pacíficos com o outro lado”.
Na capa de “Wall”, numa fotografia captada em 2004, Abu Adnan Schawarib, de 70 anos, passeia ao longo do muro em Nazlat Isa. Do outro lado encontra-se Baqa ar-Rarbiya, uma localidade habitada por Palestinianos com cidadania Israelita. “A barreira cortou a cidade separando famílias. 105 lojas e 7 casas foram destruídas para construir o muro. Aí 25% da barreira de separação está construída a seguir à fronteira reconhecida internacionalmente. O resto entra profundamente nos territórios Palestinianos ocupados, dobrando praticamente a extensão da fronteira”, escreve Wiedenhöfer no seu livro.
Tendo optado por fotografar este projecto com uma máquina panorâmica 6x17 cm emprestada por um amigo, Wiedenhöfer criou panoramas que agudizam visualmente a extensão horizontal e vertical do muro, criando imagens extraordinariamente eficazes. Um poderoso documento que perdurará e onde ecoarão as palavras do fotógrafo alemão – “O que resta do muro de Berlim serve como recordação constante do conflito político que separou a Alemanha durante mais de 25 anos. E nesse muro, num graffiti, pode ler-se ainda - "O muro da vergonha ergue-se agora em Israel”


Livro “Wall” de Kai Wiedenhöfer
104 páginas, 30 cm x 20 cm, capa dura
publicado por Steidl
ISBN: 3-86521-117-8
www.steidlville.com