Hitchcock vive em todos nós
Entre 7 de Julho e 23 de Setembro, em Vila do Conde, a essência de Hitchcock invade a “Solar”- Galeria de Arte Cinemática e revela “Under Hitchcock”, uma exposição de arte contemporânea, onde artistas nacionais e estrangeiros, atestam nas suas criações a influência artística da obra e imaginário de um dos maiores mestres do “suspense”.
Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pela organização da exposição
Herdeira da secção “Work in Progress” - onde, desde Junho de 2002, o Festival Internacional de Curtas Metragens de Vila do Conde tem vindo a destacar “obras e autores que se revelaram nas salas de cinema mas que cedo demonstraram necessidade de ocupar outros espaços e explorar outras fórmulas de apresentação dos seus trabalhos” - a Solar Galeria de Arte Cinemática iniciou, em Março de 2005, uma actividade permanente “enquanto espaço de exposição dedicado às imagens em movimento”, tendo desde então vindo a afirmar-se no panorama nacional como um projecto singular na divulgação de criadores cujas obras reflectem um conjunto de questões relativas ao universo do cinema e às suas repercussões na criação artística actual. Por lá passaram, em estreia nacional, exposições de artistas como Matthias Müller e Gustav Deutsch, “referências a nível internacional na exploração e uso recorrente de found-footage”, reflectindo assim uma lógica programática “nascida da necessidade de aprofundar e dar continuidade a projectos nos quais se explora o relacionamento entre o cinema e as outras artes, bem como a utilização do found–footage nos novos territórios dessas mesmas áreas”. Fruto de uma progressiva “proliferação de peças artísticas - sobretudo na área do vídeo, mas também na fotografia ou nas Artes Plásticas”, a Galeria Cinemática surgiu, segundo José Nuno Rodrigues, director do “Curtas Vila do Conde” e coordenador artístico da Solar, “para dar voz a esse território de fronteira da criação artística o qual, por vezes, tem dificuldade em marcar presença de forma sistemática em galerias de arte contemporânea ou até na maioria dos festivais de cinema”.
Hoje, nesse território de fronteira - “um espaço de experimentação audiovisual, do cinema, do vídeo, da fotografia e das outras artes que de algum modo os prolongam e reinventam” - José Nuno Rodrigues e Sílvia Guerra comissariam e apresentam na Solar “Under Hitchcock”, uma exposição de arte contemporânea onde se explora o modo como a obra e o imaginário de Alfred Hitchcock se repercutem na criação plástica e audiovisual contemporâneas. Aí, nos diferentes espaços do antigo solar de S. Roque, através de um percurso que se pretende orgânico, serão expostas não apenas uma selecção de peças anteriormente exibidas mas também peças totalmente novas, concebidas específicamente para esta exposição na Solar.
Definido por Sílvia Guerra como sendo também “um projecto sobre a atracção das imagens, a atracção entre a arte contemporânea e o cinema”, “Under Hitchcock” joga com o facto de nos filmes de Alfred Hitchcoock “não existir um tempo preciso mas sim um vórtice de pulsões”, permitindo assim que as obras expostas criem “uma materialidade física inspirando-se nos filmes, criando a partir de fotogramas, de sons e de sequências, ou criando um universo, que lhes seja paralelo - transportando-nos assim à obra sem que para tal se utilizem as películas como matéria-prima”.
Tratando-se da primeira grande exposição nacional sobre este tema e contando com a presença de vários artistas de renome internacional - alguns dos quais exibidos nos mais importantes museus e galerias da actualidade, tal como Matthias Müller, que expôs na Tate Modern (Londres) e no Centre Georges Pompidou (Paris), Salla Tykkä, que apresentou trabalhos no Palais de Tokyo (Paris) e no Whitney Museum of American Art (NY) e Joan Grimonprez, que já expôs no MoMa (Oxford), no Centre George Pompidou (Paris) e no Whitney Museum of American Art (NY) -, a ousada exposição ambiciona “viver do quoficiente pulsional que os trabalhos expostos podem vir a suscitar no público, tal como os filmes de Alfred Hitchcock vivem no interior das pulsões dos seus personagens”. Uma exposição que vivida intensamente por certo será capaz de ressuscitar as embriagantes memórias de todos quantos fruiram uma das muito belas e significativas obras de Alfred Hitchcock.
Exposição “Under Hitchcock”
Obras de Jean Breschand, Christoph Girardet, Johan Grimonprez, Laurent Fievet, Carlos Lobo, Matthias Müller e Salla Tykka
de 7 de Julho a 23 de Setembro, na Solar Galeria de Arte Cinemática
Solar de S. Roque - Vila do Conde
Programa paralelo de cinema
“Under Hitchcock” curtas – programa 1
Auditório Municipal de Vila do Conde, 10 de Julho, às 18.30h
“4 Vertigo”
de Les Leveque
EUA, 2000, 9’, Cor, Exp.
“Struggling in Paradise”
de Gerda Johanna Cammaer
Canadá, 2004, 6’, Exp.
“Spherical Coordinates”
de Gregg Biermann
EUA, 2005, 8’38’’
“Nine piece rope”
de J. Tobias Anderson
Suécia, 2002, 2’24’’, Cor, Ani.
“When Hitchcock met Else Eiermann in Auerstedt…”
de Birgit Lehmann
Alemanha, 1999, 15’, Cor, Doc.
“Bodega Bay School”
de J. Tobias Anderson
Suécia, 2004, 5’29’’
“Under Hitchcock” curtas – programa 2
Auditório Municipal de Vila do Conde, 14 de Julho, às 18.30h
“Psycho”
de Martin Arnold
Austria, 1997, 1’, Exp.
“2 Spellbound”
de Les Leveque
EUA, 1999, 7’30’’, P&B, Exp.
“879 Colour”
de J. Tobias Anderson
Suécia, 2002, 1’23’’, Ani.
“Phoenix Tapes”
de Christoph Girardet e Matthias Müller
Alemanha, 1999, 45’, cor/p&b
(Trabalho publicado na revista "Magazine Artes" de Julho/ Agosto 2007)