Revolução “Magnum”

Quando Robert Capa, Henri Cartier-Bresson, George Rodger e David "Chim" Seymour criaram, em 1947, a cooperativa “Magnum Photos” iniciaram uma revolução na práctica do fotojornalismo. Hoje, volvidos 60 anos, a Magnum continua a apostar na independência editorial e criativa dos seus associados, revolucionando continuamente na articulação entre fotografia e restantes prácticas artísticas.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas por Magnum Photos

Criada para “reflectir a natureza independente dos seus fotógrafos”, e traduzindo essa “mistura entre jornalista e artista que continua a definir os seus membros”, a Magnum, onde se valoriza “não apenas o que se vê mas sobretudo a forma como é visto”, tornou-se, durante décadas, uma referência obrigatória para fotojornalistas do mundo inteiro. Hoje, num mundo em permanente mutação onde o fotojornalismo entrou pela porta principal das galerias e instituições culturais, a agência dedica uma parte substancial das suas actividades à edição de livros, à produção de exposições e à comercialização das obras dos seus cooperantes nos mercados da arte.
Para quem visite Paris, neste ano comemorativo dos 60 anos da cooperativa, o nome “Magnum” dificilmente passará despercebido. Actualmente no histórico coração do Marais, a “Maison Européenne de la Photographie” mostra o trabalho de Richard Kalvar, um dos mais discretos fotógrafos da Magnum, que através das 90 imagens de “Terriens” (Terráqueos), traça 40 anos de carreira. Uma exposição plena de humor, a lembrar o universo do seu colega Elliot Erwitt, onde situações inusitadas, cómicas e emocionantes revelam a nossa vida enquanto “terráqueos”.
Organizada sem preocupações cronológicas, a exposição de Kalvar revela, dos anos 60 aos nossos dias, um universo impregnado de ambiguidade onde o humor negro oferece às imagens de composição clássica uma via original de confrontação com o real. São, tal como descreveu o seu autor, “cenas da vida quotidiana nas quais os actores desconheciam desempenhar papéis dramáticos ou de grande comicidade”. Um verdadeiro hino à “candid photography”, um estilo quase esquecido, de onde dificilmente qualquer humano não sai a sorrir.
Um pouco mais periférica - na nova Cinemateca Francesa, em Bercy -, mas absolutamente imperdível, encontra-se a exposição “L’image d’après” onde, centrada nas múltiplas relações entre fotografia e cinema, 10 fotógrafos da Magnum traçam as suas ligações pessoais ao universo cinematográfico.
Dificilmente uma exposição de fotografia poderia ser mais rica e heterogenea. Ali, no belo edificio desenhado por Frank O. Gerthy, que desde a sua abertura em Setembro de 2005 apresenta exposições temporárias ligadas ao cinema, 10 olhares inbuídos de subjectividade e profundamente mergulhados nas suas vivências pessoais, revisitam géneros - como o filme negro Americano dos anos 40 e 50 e o cinema de Shangai dos anos 30 -, e obras de autores como Michelangelo Antonioni, Alan Clarke, Roberto Rosselini, Alain Resnais, Andrei Tarkovski, Krzysztof Kieslowski e Wim Wenders.
Com registos completamente distintos, oscilando entre o documentarismo puro de Abbas – que encontra paralelismo na obra “Paisà” de Rossellini – e a poesia de Gruyaert - cuja obra iminentemente plástica encontra a parceria perfeita nas obras de Antonioni – os restantes trabalhos encontram formas hibrídas de expressão, ora utilizando a imagem fotográfica combinada com a banda sonora de filmes, como no caso de Bruce Gilden com os filmes negros americanos dos anos 40 e 50, ora incorporando excerto de filmes, como é o caso de Patrick Zachmann com os filmes de Shangai dos anos 30.
Excepção a esta lógica do cinema como obra estética com implicações directas na criação fotográfica são os trabalhos de Donovan Wylie, que parte de imagens de Belfast captadas pelo seu tio-avô, demonstrando uma “colisão e tensão entre coisa pública e privada, destino individual e colectivo, vida quotidiana e irrupção da violência” que tanto marcaram a sua obra fotográfica, e de Antoine d’Agata, cujo trabalho passou pela realização de uma curta-metragem onde, ao longo de 15 minutos, diversas prostitutas Japonesas fazem depoimentos sofridos e desconcertantes, não obstante poéticas, sobre a sua relação com os clientes. Uma proposta ousada, quer pelo teor contextual quer pela forte, e por vezes obscena, componente visual. Um verdadeiro mergulho no cinema por parte de um fotógrafo que assume renunciar ao discurso e “dar uma visão em bruto das suas transgressões, entre forma e matéria, entre olhar e experiência”. Ou melhor, abstraindo-nos do seu conteúdo, um leve piscar de olho à práctica de Henri-Cartier-Bresson cuja cinematografia, practicamente desconhecida até à data, se começa agora a celebrar graças à recente edição em DVD.

Exposições

“Terriens” de Richard Kalvar
na Maison Européenne de la Photographie
Até 3 de Junho

“L’image d’après” – Le cinema dans l’imaginaire de la photographie
de Harry Gruyaert, Abbas, Antoine d’Agata, Bruce Gilden, Gilles Peress, Georgui Pinkhassov, Mark Power, Alec Soth, Donovan Wylie e Patrick Zachmann
na Cinémathéque Française
Até 30 de Julho

(Texto publicado na edição de Junho 2007 da revista "Magazine Artes")