Quatro anos após a sua última exposição individual em Portugal, na Casa da Cerca em Almada, José David regressa a Lisboa com duas exposições, cidade onde, em alternância com Paris, vai dividindo o seu tempo e afectos.
Revisitar a sua obra é também traçar um poético retrato do artista que singularmente contempla espelho e paisagem com a mesma intensa e perturbante densidade.
Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pelo Artista
Foi João Pedro Garcia, director do Centro Cultural Gulbenkian em Paris, quem primeiro traçou um paralelismo entre a força da obra de José David e a sua discrição, referindo-se acertadamente a essa timidez inata, que ao longo do convívio se dissipa, revelando o caloroso temperamento com que o artista brinda todos os que tem o privilégio de pertencer ao seu íntimo círculo de amigos. Assim é José David - olhar sereno, quase tímido, discreto, mas albergando, na sua aparente simplicidade, a produção de uma perturbante obra que, após um primeiro contacto, se revela complexa e de uma extraordinária densidade.
Talvez não caiba ao artista equacionar tudo quanto o seu trabalho encerra, substituir-se ao público das suas obras, privando-o do inalienável direito à interpretação individual, mas no caso de José David há uma certeza que o acompanha - e que, desde que se recorda, tem sido motor do seu trabalho -, o permanente desejo de aí materializar um espaço de tensão, de procurar um “ponto de verdade” que sustente as suas obras.
Foi há cerca de sete anos que José David retomou a temática do auto-retrato, uma práctica que o acompanha desde a adolescência e que, liberta hoje das iniciais referências ilustrativas, se materializa agora nos orgânicos sulcos do papel Torchon, que tanto aprecia, e onde a negra tinta da China se aloja, desenhando retalhos, fragmentárias porções do seu rosto. São rostos extraordinariamente fortes - sem nome próprio e identificados numericamente -, construidos a partir da sua imagem reflectida ao espelho e que nos induzem estados de alma muito distintos, oscilando entre tranquilidade e tormenta. Na sua organicidade se pode dizer que reside a maior força dos rostos gigantes que nos observam, a partir das paredes da galeria, e cujo apelo ao toque é quase imperativo.
As suas mais recentes obras, quer sejam os “Rostos” patentes na Galeria Diferença ou as “Paisagens” na Galeria CidiArte, revelam brilhantemente o espaço ao “acidente na construção” que José David tanto defende na sua práctica. Aí se observam, com clareza, os processos criativos do artista que, ora recorrendo a métodos aditivos, onde as camadas de tinta se sobrepõem cumulativamente criando texturas tridimensionais, ora a métodos subtrativos, onde o papel arrancado encontra novos níveis subterrâneos a cada rasgão, produzem obras de grande densidade poética, constituindo-se simultanemente como ensaios sobre a perpétua transformação e mudança.
Sobre “Rostos” escreveu Nuno Júdice no catálogo da exposição, sintese mais do que perfeita da actual obra de José David, - “Poderíamos falar a respeito destes retratos de José David (a que hesito em chamar “auto-retratos” devido à flutuação no campo do fragmento), de uma desconstrução da imagem do Eu. Um após outro, eles organizam-se como memória de uma imagem inicial, ou primordial, que seria esse Sujeito total a que, num plano empírico, daríamos o nome de Artista; mas cada um deles reenvia para um corte com esse Artista, como se a fixação, do fragmento constituindo uma nova realidade, destruísse a própria concepção do ser como unidade primordial. É por isso que o gesto repetitivo adquire a sua exigência: em cada novo retrato, é como se um re-nascimento se operasse, à imagem desse primeiro parto de onde surge o corpo a que nome e espírito se associam, até descobrirem a trindade que compõe o universo pessoal”. Um universo pessoal singular traduzido igualmente nas paisagens, pintadas a óleo sobre tela, que mostra simultaneamente na CidiArte e que segundo Henri Pierre Jeudy são feitas “a partir da representação do seu próprio rosto, deixando surgir da sua cabeça fragmentada variações passageiras, as quais, quer sejam únicas ou declinadas como um díptico, ou um tríptico, são reveladas através de uma tensão de cores e de luz, ao sabor dessa indeterminação entre o figurativo e o abstrato que oferece ao olhar a sensação de uma antecedência da figuração”.
Uma constelação de paisagens mentais, desenhando sensações cujos títulos como “Verde azeite”, “Azul agreste” ou “Verde-branco salpicado” nos proporcionam espaços de projecção individual dado que, parafraseando Henry Pierre Jeudy, mais do que a paisagem propriamente dita, aquilo que “José David nos dá a ver é a densidade da paisagem”, uma densidade difícil de apreender e que “provém da sua espessura, espessura essa que ele torna paradoxalmente tão ligeira”.
Exposições
Paisagens
Pinturas a óleo sobre tela
CidiArte Galeria
Rua da Escola Politécnica, nº 69 (Frente ao Jardim Botânico)
1200-457 Lisboa
até dia 9 de Junho
de 3ª a sábado das 13h30m às 19h30m
Rostos
Tinta da China sobre papel e pinturas
Galeria Diferença
Rua S. Filipe Neri, 42 cave ( ao Rato)
1250-227 Lisboa
até dia 16 de Junho
de 3ª feira a sábado das 15h00 às 20h00
(Texto publicado na edição de Junho 2007 da revista "Magazine Artes")