Portugueses de diáspora_Marco Godinho
Geografias globais
Aos 29 anos, 20 dos quais vividos no estrangeiro, Marco Godinho tem boas razões para estar feliz. A sua obra plástica, iminentemente poética e política, tem sido particularmente bem recebida por instituições artísticas em França e no Luxemburgo, países nos quais divide residência.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens das obras gentilmente cedidas pelo artista
Da janela do 4ª andar do atelier que lhe foi atribuído durante 3 meses na Cité Internationale des Arts em Paris, Marco Godinho observa a rua, o pequeno teatro do quotidiano que alimenta a sua prática artística. Lá em baixo, à beira do Sena, o coração do Marais fervilha e a paisagem ribeirinha surpreende, tal como ano após ano faz com todos os artistas que desde 1965 passaram pelos ateliers da Cité.
Marco sabe que é um grande privilégio ocupar um atelier no casarão que já alojou milhares de jovens artistas de todo o mundo, hoje alguns deles nomes consagrados das Artes. O passaporte de entrada na prestigiada Cité des Arts obteve-o no Luxemburgo, país onde habitualmente reside e onde venceu a Bienal de Artes Plásticas que lhe proporcionou acesso directo ao atelier. Aí, no generoso espaço preparado para residência e atelier de trabalho, Marco dispõe de todas as ferramentas para preparar e criar os seus próximos projectos a realizar em lugares tão diversos como Nancy, Metz e no Château de Malbrouck, em Manderen – França ou em Dudelange e Esch, no Luxemburgo.
Com uma formação artística polivalente Marco Godinho sente-se confortável na criação de universos artísticos proteiformes recorrendo a múltiplos media -da fotografia, ao video, da escultura à tipografia, passando pelo desenho, pela instalação e pelo design gráfico, verdadeiro fio condutor do seu trabalho e que desde os seus tempos de estudante regularmente pratica.
Hoje, com 29 anos, o jovem que aos 9 deixou Salvaterra de Magos, rumo ao Luxemburgo com a sua família, é um criador maduro, completo, seguro de si e consciente da sua responsabilidade enquanto artista.
Define-se como um artista “entre”, um ser relacional que defende uma simbiose entre Arte e Vida e fala do seu trabalho como sendo resultado de um percurso artístico debruçado sobre “a questão do tempo, da sua percepção e da sua experiência individual e colectiva ligada à deslocação, à viagem e à cartografia”. Nas suas obras, pontuada frequentemente por relógios e mapas, há por vezes recurso ao texto que Marco insere num dos múltiplos idiomas que fala. Tendo feito a formação básica em luxemburguês, e dominando igualmente o francês, o inglês e o português, Marco orgulha-se de ser tratado no Luxemburgo como um artista nacional, com acesso igualitário a tudo quanto qualquer outro cidadão nascido no país possa ter. Longe da perspectiva discriminatória que outros criadores portugueses ou lusodescendentes aí residentes dizem sentir, Marco graceja um pouco e diz que se algum problema existe é o de saber, na eventualidade de uma representação artística internacional, qual o país a representar.
Afirma a universalidade da sua obra, apanágio de todos os grandes criadores e não se embaraça quando diz que a sua chegada ao Luxemburgo implicou a construção de uma segunda identidade que hoje articula saudavelmente com a identidade portuguesa. Reconhece na sua dupla identidade vantagens, atitude coerente para quem pensa que “as viagens são importantes” para o artista pois “o mundo é o seu atelier”. Pratica aquilo que chama de “nomadismo cultural” algo fundamental à construção do seu imaginário e não hesita em citar um excerto do texto escrito por Liliana Coutinho no catálogo “En Voyage” - “… poderia pensar imediatamente naquilo que as viagens têm sido para a construção da identidade portuguesa e do seu panorama artístico, mas tudo isso só vem depois. Esta palavra recorda-me sempre uma tribo nómada norte-americana que caminhava por aquelas paisagens que todos nós conhecemos ou imaginamos tão imensas e densas como as cidades que cercam. Eles acreditavam que o homem tinha uma abertura no topo da cabeça que não se vê, mas que era fundamental para que se ligasse aquilo que está por baixo de nós com aquilo que está por cima – a matéria mais densa com a mais volátil. Esta abertura fechar-se-ia se os homens ficassem muito tempo no mesmo lugar e construíssem regras de convivência de acordo com as cidades que aí fossem erguidas” - para reforçar a sua teoria da vantagem do nomadismo.
Numa das paredes do atelier, como a reforçar o livro “Les tactiques de chronos”, de Etienne Klein, que Marco tem na estante, pende uma folha anunciando “Silence! Le temps avance” – um tempo que Marco Godinho deseja continuar a aproveitar da melhor maneira para continuar a explorar as suas geografias globais.
(texto publicado na edição de Julho/Agosto 2007 da revista “Magazine Artes”)