Cinema
Amor e ódio nos bastidores de Cannes
“Je t’aime…moi non plus” é a segunda longa metragem de Maria de Medeiros, estreada comercialmente em França no passado dia 9 de Maio. Sob a forma de documentário, com laivos de fina ironia e muito humor, aí se traça a relação entre cineastas e críticos, revelando ao grande público um Festival de Cannes longe do glamour que habitualmente se lhe atribui.
Texto de Susana Paiva
Imagens do filme gentilmente cedidas por Everybody on deck
É um filme inteligente, sensível e pleno de humor este “Je t’aime… moi non plus – artistas e críticos”, rodado por Maria de Medeiros em 2002 nos bastidores do Festival de Cannes e recentemente estreado no circuito comercial françês. Em cena duas categorias habitualmente não filmadas, realizadores e críticos, partilham os seus pensamentos e revelam sentimentos contraditórios acerca das suas relações.
Estruturado sob a forma de um longo discurso amoroso, com capítulos entitulados a partir do referido código – onde não falta o “encontro”, o “primeiro beijo”, a “dúvida e dependência”, “o objecto do desejo”, o “correio sentimental” e “ a carícia e a punhalada”-, o documentário tem a grande virtude de ser uma reflexão honesta e bem humorada sobre a forma subjectiva de recepção de uma obra de Arte.
Nascido de um projecto mais ambicioso, que pretendia abordar a relação entre artistas e críticos de várias disciplinas, o documentário de Maria de Medeiros acabou por se centrar na “história de uma não relação” no universo da “meca do cinema global”, abrindo uma “plataforma de diálogo entre os cerca de 60 participantes do filme”. Aí, em cerca de 80 minutos de filme, se condensam os emocionalmente carregados depoimentos das mais de 80 horas de filmagem obtidas em Cannes.
São momentos de tensão, entre ansiedade e angústia, entrecortados por cenas de uma comicidade desmedida, onde realizadores como Hany Abu-Assad, Pedro Almodovar, Vicente Aranda, David Cronenberg, Manoel de Oliveira , Atom Egoyan, Christophe Honoré, Ken Loach, Danis Tanovic e Wim Wenders se degladiam e esgrimem argumentos com críticos como Samuel Blumenfeld – “Le Monde” (França), Carlos Boyero – “El Mundo” (Espanha), Michel Ciment – “Positif” (França), Kenneth Duran – “LA Times” (EUA) , Jean-Michel Frodon – “Les Cahiers du Cinéma” (França), Serge Kaganski – “Les Inrockuptibles” (France), Gérard Lefort “Libération” (França), Luis Carlos Merten – “O Estado de São Paulo” (Brasil), Elvis Mitchell – “New York Times” (EUA), Lisa Nesselson – “Variety” (EUA), Andrei Plakhov - “Commercent Daily” (Rússia) e Alexander Walker “Living Standart” (UK).
No universo filmado por Maria de Medeiros há também lugar para os “papéis secundários” de alguns acessores de imprensa (aparentemente sempre à beira de um ataque de nervos pois são mediadores de uma relação conflituosa entre sensibilidades diversas) e para Gérard Wajcman, psicanalista francês, que ensaia um singular discurso sobre o género da obra cinematográfica.
Circunscrito aos “assuntos de ordem estética”, o filme de Maria de Medeiros acaba por deixar de fora dois aspectos satélites – o público – aqui apenas convidado a assistir ao, de outra forma, invísivel teatro do quotidiano de Cannes - e a questão financeira – cuja temática a realizadora ainda pensou em abordar. Melhor assim, pois desta forma tem o público o prazer de se concentrar nos invisíveis mecanismos de um grande festival de cinema e de rir descomplexadamente quando ouve a metáfora utilizada por um dos realizadores entrevistados ao descrever a relação entre cineasta e crítico espelhada, respectivamente, na de um candeeiro e de um cão, podendo este urinar no candeeiro livremente.
Entre os diversos momentos memoráveis do filme encontram-se o episódio em que Atom Egoyan relata a enorme expectativa com que aguardou, após a projecção do seu primeiro filme no Festival de Cinema da Figueira da Foz, por uma crítica que pensou que lançaria definitivamente a sua carreira para mais tarde, após muito procurar na imprensa, descobrir que a referida apreciação se resumia a uma linha no jornal.
Para Maria de Medeiros que encara este trabalho como uma homenagem à França, onde a crítica cinematográfica é considerada uma verdadeira disciplina literária e faz descobrir a cinematografia de todo o mundo, esta foi a oportunidade óptima para “desempenhar o papel de jornalista” e passar por uma experiência complementar à sua já longa carreira de actriz e de realizadora. Foi também a oportunidade de revisitar as sonoridade de Caetano Veloso – ele próprio cinesta e crítico de cinema – e de partilhar com o mundo o que ela considera ser uma geração de músicos que marcou o seu crescimento. “Je t’aime…moi non plus” é uma história de afectos onde não há intenção de valorizar grupos profissionais em detrimento de outros, antes demonstrar, num capítulo final sugestivamente designado “envelheceremos juntos”, que cinestas e críticos protagonizam uma relação simbiótica, fundamental e recíproca, ainda que por vezes conturbada. Enfim, um filme feliz onde, no ano comemorativo do 60º aniversário do Festival de Cannes, sob o título pedido de empréstimo a uma canção de Serge Gainsbourg, se põe em perspectiva os valores humanos do festival e se descobre que a verdade e o melhor caminho são aqueles que com seriedade preconizamos.
“Je t’aime…moi non plus”
Realização de Maria de Medeiros
França – 2004, Vídeo, Cor, 82 minutos
(Trabalho publicado na edição de Junho 2007 da revista "Magazine Artes")