Fazal Sheikh

Exposição

Fazal Sheikh na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris


S.O.S. Humanidade

Vencedor da edição de 2005 do prémio bienal Henri Cartier-Bresson, Fazal Sheikh apresenta “Moksha” e “Ladli”, dois projectos realizados na sequência da distinção e recentemente editados em livro pela Steidl, até ao próximo dia 26 de Agosto na Fondation Henri Cartier-Bresson.

Texto e entrevista de Susana Paiva
Fotografias de Fazal Sheikh, gentilmente cedidas pela FHCB


Nas obras que Fazal Sheikh actualmente expõe em Paris, recorrendo à imagem e à palavra, se testemunha, com grande frontalidade e extraordinário força e poesia, a condição feminina na Índia, particularmente no caso das crianças e viúvas.
Em “Moksha” traça-se o retrato de um conjunto de mulheres que abandonadas após enviuvarem, e em certos casos vítimas de maus-tratos por parte dos seus familiares, rumam à cidade santa de Vrindavan e, em comunhão com outras mulheres, aí devotam a sua vida ao deus Krishna. Desde há 500 anos que a cidade santa de Vrindavan, no norte da Índia, tem sido um refúgio para as viúvas indianas despossadas de tudo. Rejeitadas pelas suas famílias, e condenadas por uma lei que lhes nega quaisquer direitos, algumas aí decidem rumar, em condições muito difíceis, fazendo por vezes perigar a sua vida. O seu maior desejo é o de alcançar “Moksha” - o paraíso - onde se libertarão e viverão rodeadas pelos seus deuses para sempre.
Em “Ladli” - significando “filha bem amada”- o projecto versa as crianças indianas do sexo feminino que, na sociedade indiana tradicional, são vistas como um fardo dado a sua família ter de constituir um importante dote para que estas se casem - frequentemente durante a infância - e integrem com dignidade a família do seu esposo. Dado este costume oneroso as raparigas são frequentemente sujeitas, desde o nascimento, a servícias inimagináveis e frequentemente abandonadas em orfanatos. Nos últimos anos, sobretudo devido à evolução das técnicas de investigação pré-natais, o aborto de fetos femininos aumentou exponencialmente como forma de evitar o custo de um dote, indispensável para o casamento da rapariga. “Gastar 500 rúpias hoje, economizar 50.000 amanhã” é o que afirmam frequentemente os pais que optam pelo aborto das filhas.
Nascido em Nova Iorque em 1965, de ascendência queniana e indiana, Fazal Sheikh tem visto o seu trabalho recompensado com diversos e prestigiados prémios que lhe vêm permitindo continuar a sua linha de trabalho pessoal, socialmente empenhada. O seu talento de fotógrafo e escritor têm lhe permitido abordar os sujeitos não como vítimas simbólicas mas sim como personalidades individuais cujos rostos, nomes e vívidos testemunhos atestam bem o grau de intimidade e profundidade das suas abordagens.
Do seu trabalho, visto como um alerta tranquilo, ressalta a beleza e extraordinária poesia com que retrata os sujeitos, não obstante as terríveis formas de violência que estes relatam. É virtualmente impossível ficar impassível perante a contrastante candura dos retratos de “Moksha” e os violentos relatos das mulheres fotografadas. O sereno rosto de Renuka, abandonada pelos seus filhos após enviuvar, ganha uma nova dimensão quanto escutadas as suas palavras – “Sonho com os meus rapazes, sonho que os alimento e que brinco com eles. Gostaria de ser capaz de esquecer o passado mas continuo com o coração destroçado. Quando sonho com Krishna, quando danço com ele, quando canto e o adoro, não sofro mais.”
Em “Ladli” são os rostos das crianças - tristes, densos e lacerados - que lançam o primeiro alerta. As cicatrizes que ostentam nos corpos são as marcas mais visíveis, embora menos profundas, de todo o seu sofrimento. Os seus duros depoimentos confirmam o suspeitado – histórias de abandono, maus-tratos físicos e frequentemente venda para fins de prostituição. Relatos que nos obrigam a repensar a imagem de uma Índia socialmente estável sobretudo na actual época de grande crescimento económico.


Entrevista

MA- Confesso que fiquei muito impressionada com o projecto“Moksha”, e isso porque na altura desconhecia “Ladli”… Há uma enorme violência nesse trabalho, uma violência silenciosa que nos atinge fulminantemente pela tão subtil abordagem. Mesmo sabendo de antemão que se trata de um ambiente hostil, violento, a verdade é que a observação directa dos retratos, tão dignificantes, tão pacíficos, não a denuncia. Apenas quando começamos a ler os depoimentos daquelas mulheres, tão fortes, tão sofridos, nos damos realmente conta da enorme violência que os retratos encerram.
Por outro lado o outro trabalho – “Ladli” – creio que é explicitamente mais violento, mais revelador ao primeiro olhar da dor e sofrimento daquelas crianças…

FS- Eu não caracterizaria necessariamente o trabalho de “Moksha” como violento. O que penso ser curioso é que normalmente, no legado das imagens de guerra, as pessoas se focalizam no “momento do trauma” e não na tomada de consciência de que muitos de nós passam por diversos traumas durante a vida, que todos somos o total das nossas experiências e não apenas o indivíduo que experiencia um dado trauma. “Moksha” para mim é a ideia de que podemos realizar uma poderosa imagem de uma mulher que relata a sua vida, e depois que esse relato possa encerrar uma grande violência. Mas não desejo, de forma alguma, reduzir essa pessoa a uma episódio de violência na sua vida. Esse trabalho é também o espaço de evocação, da expressão do conforto que essas mulheres obtem naquele lugar, no facto de estarem juntas, num ambiente que as tranquiliza.

MA- De certa forma elas estão ali, pacificamente, à espera da morte.

FS- Quando se teve uma vida muito difícil é claro que a esperança é a vida após a morte, a procura da liberdade, a libertação desse ciclo que trouxe dor. Quando a “Ladli” tem razão, é um trabalho mais acertivo.

MA- Mais explícito, mesmo. Em “Moksha” podemos fazer duas leituras muito diferentes, uma se apenas virmos os serenos rostos das mulheres fotografadas e outra se lermos, a par e passo, os seus depoimentos. Nesse caso a sensação é a de um enorme murro no estômago. Em “Ladli” a simples observação das imagens, mais “carnais”, mais sofridas é o bastante para nos demonstar a dor das crianças fotografadas. E depois, quando lemos os terríveis relatos da violência a que foram sujeitas, apenas confirmamos o terrível sofrimento que anteviramos já no primeiro olhar.

FS- Uma sensação dura mais tempo quando resulta da complexa composição de vários níveis - e não de um único e brusco depoimento - uma vez que assim se encontra impregnada de outros elementos como a beleza, a transcendência ou a religião. Aí cria-se, na minha opinião, algo que perdura mais, que tem uma outra ressonância.
No caso de “Ladli” o objectivo é, ao olhar nos olhos daquelas crianças, criar poderosas imagens que transmitam compreensão e um enorme respeito pelas suas duras vidas. O que é interessante é que os livros também funcionam dessa mesma maneira, se vir o primeiro – “Moksha” – é muito mais um objecto de emoções enquanto o segundo é bastante mais clássico. Foram concebidos para ser “edições companheiras” mas acabaram por resultar muito diferentes na sua estrutura.

MA- Pode dizer-me como se interessou tanto pela condição feminina na Índia?

FS- Em 2000 voltei à fronteira da Somália, onde 8 anos antes havia trabalhado, maioritariamente sobre os homens, e dei-me conta que 80% eram mulheres e crianças e que poderia ser interessante desenvolver um projecto sobre pessoas a quem geralmente não se dá voz, nesse caso as mulheres e as crianças. Foi assim que cheguei à ideia de uma série de projectos nos quais estes se incluem, que viriam a ser sobre as mulheres e as crianças.
Uma coisa que sempre me interessou foi atravessar fronteiras. Quando fiz o meu primeiro livro sobre o Quénia as pessoas relacionaram-o com as minhas raízes, com o facto de ter um pai queniano como justificação para a realização desse trabalho. Diziam que estava bem fazer esse trabalho pois tinha sido feito por um queniano, ignorando que eu estava a trabalhar em diferentes áreas linguísticas e sob diferentes perspectivas religiosas. Acabamos muitas vezes por artificialmente compartimentar dizendo que apenas uma mulher somália pode fazer isto ou aquilo… A mim interessa-me confrontar essas barreiras e fazer estes dois projectos foi um verdadeiro desafio pois eles negam o género como barreira para a realização de um certo trabalho. O que realmente conta no final é o trabalho que fazemos e não as nossas origens ou género.

MA- Mas sendo a Índia uma sociedade patriarcal não acredita que o facto de ser homem possa ter ajudado a cativar o interesse das mulheres fotografadas e entrevistadas para “Moksha” ? Sobretudo sendo mulheres abandonadas e maltratadas…

FS- O que me surpreende é que sempre que as pessoas falam da Índia entram numa espécie de “onda yoga hippie” e sendo verdade que há coisas maravilhosas na Índia também é verdade que essa é uma das sociedades mais patriarcais e que ser mulher na Índia pode ser realmente difícil… Há pelo menos que ter em conta as duas facetas…

MA- Sobretudo porque a Índia está a ter um crescimento económico extraordinário…

FS- E celebremos isso mas tenhamos consciência que há problemas sérios que tem que ser equacionados. Toda a gente diz “Índia, está tudo perfeito!” – Mentira! É incrível como funciona… Nos Estados Unidos também se ignoram esses problemas pois é importante estar ligado economicamente à India. Porquê focar então esses outros níveis da sociedade? Isso enlouquece-me… Para mim é impensável não o fazer e faz-me acreditar cada vez mais que tenho que continuar a realizar projectos desta natureza. Há alguns anos a imagem que tínhamos da Índia era de desespero total e as pessoas eram vistas como algo diferente de nós, como vítimas. E de repente, com a Índia num novo cenário económico, formou-se a ideia de que esse desespero, esses problemas desapareceram. A visão popular da Índia é agora de grande glória…Penso que, no mínimo, devemos manter estas questões em aberto…

MA- Então o seu trabalho é um alerta silencioso…

FS- Esperemos que não demasiado silencioso… É mais um alerta calmo. O meu trabalho não é concebido da mesma forma que alguns outros trabalhos e, tendo consciência que assim poderá não chegar a tantas pessoas, penso que o mesmo chegará de uma forma mais profunda, mais duradoura, deixando espaço para a inprescendível interpretação individual.

(Trabalho publicado na revista "Magazine Artes" de Julho/ Agosto 2007)