So entra se vier as fatias

Encerrou, no final do passado mês de Dezembro, a primeira Capital Nacional da Cultura.
Em Coimbra, é chegada a hora de fazer o balanço. Tempo de analisar resultados e compreender o real significado, local e nacional, de Coimbra 2003.
Entretanto, fica o testemunho de um dos mais sensíveis e bem sucedidos projectos da Capital. Um verdadeiro exercício de cidadania, com a Cultura em pano de fundo.

Pedaços de todos nós

“Houve um tempo em que eu não sabia que as coisas têm valor não pelo que valem mas pelo que significam. E que a morte não chega com a velhice ou a doença ou o acaso mas com o esquecimento.
Houve um tempo em que eu não sabia que quando um recém-nascido aperta com a sua mão, pela primeira vez, o dedo do seu pai, o tem prisioneiro para sempre. E que um homem só tem o direito de olhar outro homem de cima para baixo se for para o ajudar a levantar-se.
Era outro tempo. Um tempo em que eu ainda não sabia que todas as coisas tem um fim.
Outro tempo, merda, outro tempo.”

No túnel do Estabelecimento Prisional de Coimbra, foram estas as palavras que marcaram o início do espectáculo teatral “Só entra se vier às fatias”. Palavras e gestos, representados por quinze reclusos do EPC, que são também pedaços de todos nós. Relatos de solidão, medo e esperança que, entre 17 a 20 de Dezembro, esgotaram a mais peculiar sala de teatro do país. Um acutilante retrato, escrito por homens enclausurados, a recordar-nos, lá dentro e cá fora, a importância do sonho, o prazer da liberdade e o valor da utopia.

Texto e fotografia de Susana Paiva

À entrada do parlatório do EPC, no acolhimento aos visitantes, encontra-se afixado um pequeno cartaz enunciando: “tudo o que possa camuflar um objecto de agressão ou facilitador de fuga só entra se vier às fatias”.
“Só entra se vier às fatias”- descrição de um procedimento de segurança prisional que descreve também, na perfeição, a sensação geral de quem entra na prisão - acabou por se tornar no título de um projecto, “de construção de um objecto teatral, aberto ao público, a partir das emoções, conflitos internos e ideias de um grupo de reclusos”, proposto pela direcção do Estabelecimento Prisional de Coimbra à Coimbra 2003, e que encontrou em Andrzej Kowalski, o timoneiro certo.
Liderado por A. Kowalski, encenador e realizador polaco, residente em Portugal desde o final dos anos 70, o projecto iniciado em Abril de 2003, e envolvendo quatro outros profissionais de teatro – Luis Mourão na dramaturgia, António Quintas na construção da cenografia, Vitor Filipe na oficina de interpretação e Lúcia Ramos na oficina de corpo e movimento - , culminou no passado mês de Dezembro, com a apresentação pública de quatro espectáculos vistos por cerca de 250 espectadores.
Ao longo da execução de todo o projecto, com os seus naturais avanços e retrocessos e maior demora na construção do espectáculo propriamente dito, o encenador não poupou elogios à direcção do EPC e à chefia dos guardas. “Penso que, no princípio, ninguém acreditava na dimensão do projecto, não sabiam o que poderia significar ou em que poderia resultar, apesar disso houve sempre colaboração. Quando começámos a trabalhar lá em baixo (na zona de apresentação do espectáculo) houve uma colaboração preciosa de alguns guardas - sublinho o Sr. Sequeira - que abraçaram este projecto com alma, coração, tudo… As únicas limitações foram as inerentes ao funcionamento e natureza de uma prisão de alta segurança.”

No princípio havia mais incógnitas do que expectativas

Abertas as inscrições para participação no projecto compareceram cerca de 40 reclusos interessados, um número manifestamente elevado para a produção de um objecto teatral. “Como eu não quis excluir ninguém deixei correr o tempo, pois sabia que o processo iria ser longo e que seria feita uma selecção natural”. Uns foram desistindo pois haviam aparecido apenas por curiosidade ou para quebrar a rotina. Mas pouco a pouco começou a constituir-se um grupo de pessoas interessadas e desse grupo de pessoas “sobreviveram à volta de oito e, depois na fase final, entraram outros de apoio, mas penso, se a memória não me engana, que o núcleo duro dos que entraram em palco são mesmo os que começaram. E houve pessoas que não falharam um único ensaio, desde Abril até Dezembro, o que não é pêra doce”.
“Acho que, no princípio, havia mais incógnitas do que expectativas. As maiores expectativas criaram-se na última fase do trabalho, só aí todos se aperceberam da dimensão do mesmo”. Como em qualquer outro espectáculo “a fase de construção é a mais complicada, é dolorosa e muitas vezes chata. É onde passamos mais crises.” No entanto, apesar das crises “houve pessoas que confiaram no projecto e que se mantiveram. Eu tinha a visão do espectáculo mas também não a podia transmitir até ao fim pois desconhecia o seu desfecho. Foi necessária a cumplicidade e compreensão de todos para levar este projecto a bom porto”

Ponto de partida

“Meu querido filho, recebi a tua carta e não te respondi logo porque ando com a poda. Está um frio de rachar mas não há outro remédio se não fazer o trabalho.
A Otília já chegou, toda contente e logo à noite conta-me tudo. Sei que estás bem e isso é o mais importante.
Saudades e beijinhos deste Pai que te adora.
É mentira não andei em poda nenhuma. Andei atrás da mulher que amo. E quando a encontrei finalmente, alguém se atravessou no caminho e morreu. Foi só isto.
Saudades e beijinhos deste pai que te adora.”

Construído cena a cena ao longo dos ensaios, o espectáculo nasceu a partir de improvisações, conversas com os reclusos e textos sobre as suas vivências. Os textos utilizados, muitos deles de uma beleza e dimensão poética surpreendente, foram produto do labor dos reclusos. São textos “de todos e de ninguém”,
“Foi-lhes proposto fazer um espectáculo “nosso”, e quando digo “nosso” quero dizer “deles”- do lado de dentro - e “meu”- do lado de fora. No fim de contas construir uma coisa que permitisse uma troca de experiências, comigo a contribuir a nível vivencial e teatral e eles a contribuírem com as suas vivências anteriores e posteriores à condenação.
A única coisa pedida foi que se abrissem para se poder construir algo à volta disso, algo que fosse verdadeiramente nosso”. Depois foi feito um trabalho técnico em torno disso, com o Luis Mourão a fazer a dramaturgia a partir de textos, cartas, poemas e composições musicais realizadas pelos reclusos.

Escrever na prisão é difícil

“Escrever é difícil aqui”, verbaliza Mário no decurso do espectáculo. Em contracena Adriano responde “Escrever é difícil em qualquer lado”
“É difícil expressarmo-nos quando pensamos que essa expressão ficará para nós”, afirma Kowalski. “É muito bonito dizer que se escreve para a gaveta mas ter um interlocutor é fundamental. Escrever na prisão é mais difícil pois eles não têm qualquer expectativa acerca de serem lidos. Esta foi uma boa oportunidade de escrever e conseguir comunicar”.
Durante o processo de criação do espectáculo, à medida que os reclusos iam contribuindo para a construção do texto final, foram acontecendo revelações espantosas. “Há pessoas que escrevem lindamente e que poderiam escrever um bom livro. Eu e o Luís (Mourão), apanhava-mos alguns textos que nos deixavam de boca aberta”.
“Outros pintam e desenham que é uma maravilha mas não têm qualquer motivação para o continuar a fazer pois sabem bem que ninguém verá esses trabalhos. E esta perspectiva é semelhante lá dentro ou cá fora. Se eu não tivesse hipótese de fazer espectáculos de teatro, ou de pensar em espectáculos de teatro, mais cedo ou mais tarde desanimava. Aquilo que fazemos é para ou outros, não para nós. Este é o princípio básico de qualquer expressão”.

“Roubei-lhe um beijo. Só um beijo. Mas, que beijo…
E ela disse-me que já andava de olho em mim há algum tempo e que só esperava um pouco de coragem para dizer o que lhe ia na alma.
Tem confiança então, disse-lhe eu. Deixo-te só daqui a oitenta anos. Nunca mais. Nunca mais te deixo , meu tesouro, tu és um anjo no meu caminho. Queres ir passar umas férias comigo e gozar a vida?
Mas tem é que ser noutro ano qualquer que agora não posso.”

Tendo a solidão e o sentimento de isolamento como linhas condutoras do espectáculo cedo percebemos que estes não se prendem exclusivamente às barreiras físicas. “ O isolamento físico é quase o menos importante. É importante na perspectiva de que cria todo o restante isolamento - é uma vedação que se revela mais pesada no cumprimento de uma pena de prisão. É a privação de liberdade física, acompanhada por uma impossibilidade de expressão – artística, emocional – e de contacto com o outro”.

O “Grito”

Baseado nas experiências individuais dos participantes era inevitável que uma das temáticas do espectáculo fosse o desejo de liberdade, “porque quem está dentro quer sempre sair”. Já mais inesperada foi a solução dramatúrgica encontrada para levar essa ideia à cena - um grupo de reclusos que, cansados da rotina e das pressões que os levam a ficar “com os miolos às fatias”, leva a cabo o projecto de construção de um barco, veículo de evasão e de aproximação ao seu desejo de Liberdade. Um barco que carrega a responsabilidade de se chamar não liberdade, nem sonho, nem desejo mas sim grito. Um grito extraordinariamente poético, assente num texto eficaz, pleno de reflexão, conflito e utopia.
Próximo de um registo do Teatro Verdade ou Teatro Depoimento, “Só entra se vier às fatias”, tem a sua maior virtude no facto de não se materializar num registo lamechas, evitando assim cair num certo facilitismo emocional, desresponsabilizante e de fácil comoção. “Acho que o espectáculo conseguiu ultrapassar esse perigo. Acho formidável que os reclusos tivessem tido a dignidade de não choramingar, de assumir a responsabilidade dos seus actos”
Para os reclusos, maioritariamente sem qualquer outra experiência teatral, foi a generosidade e humanismo de Kowalski que os persuadiu a participar neste projecto. “Foi a sua capacidade de ouvir os outros e o seu humanismo que me fizeram acreditar neste projecto. Com outro não sei se teria sido possível” afirma Adriano, compositor de todas as músicas originais do espectáculo.
“O que foi bonito neste trabalho foi a relação humana que conseguimos estabelecer. A partir daí muita coisa se desbloqueou”, afirma Kowalski. “Foi um processo longo e complicado. A única coisa de que tinha a certeza é que este trabalho seria sincero, não poderia ser um ensaio pretensioso sobre a clausura. Ou era sincero e vencia ou corríamos o risco de ser cabotino e de não vencer. Ser-me-ia difícil trabalhar nesta área, em que todos nos expomos um bocado, com gente que oferecesse resistência a essa essencial generosidade”.
E acrescenta “só faço espectáculos porque tenho necessidade de dizer qualquer coisa aos outros” fortalecendo assim a hipótese de que, em Arte, comunica melhor quem mais tem a partilhar.


Só entra se vier às fatias

Texto colectivo/Dramaturgia: Luis Mourão

Interpretação: Adriano Soromenho, Anónimo Italiano, António Santos, Eduardo Cardoso, Ernst Korff, Jaime Guedes, Joaquim Ferreira, José Oliveira, José Tavares, Kalu, Mário de Sousa, Nelson Marques, Roberto Nóbrega, Sérgio Ferreira, Stephane da Silva

Canções Originais: Adriano Soromenho

Encenação e Cenografia: Andrzej Kowalski

(Texto publicado no DNa)