Pedro Castanheira_Portugueses de diáspora
Encontrar a própria voz
Pouco mais do que um ano foi quanto bastou a Pedro Castanheira – compositor e intérprete – para compreender que a sua diáspora estava prestes a terminar. Ao fim de 14 meses em Paris, Pedro regressou a Lisboa com o mais precioso de todos os bens - a autoconfiança necessária para assumir profissionalmente o seu trabalho musical.
Texto e fotografias de Susana Paiva
Quando, em Outubro de 2005, Pedro Castanheira abandonou Lisboa, rumo a Paris, perseguindo o sonho de se profissionalizar como músico, pouca experiência tinha de palco. Na bagagem levava pouco mais do que a recém concluída licenciatura em sociologia e a sua preciosa guitarra. Em Portugal havia frequentado a escola de Jazz do Hot Clube mas não antevia grandes possibilidades de se profissionalizar enquanto músico.
Assim que pode, concluído o trabalho final de curso, partiu à procura de algo que hoje sabe ter sido a expressão da sua individualidade musical.
Chegado a Paris cedo compreendeu que a vida da cidade era bastante diferente do que inicialmente pensara - o meio musical era bastante fechado e o nível de exigência muito elevado.
Não obstante todas as dificuldades Pedro não esmoreceu. Entregou-se à composição, actividade que antes exercera timidamente e fez das adversidades – uma certa formalidade dos franceses e a dinâmica por vezes trituradora de uma grande cidade como Paris – a sua fonte de inspiração.
No final de 2005, com a companhia de Benoit Crauste, nos saxophones, Nicolas Bongrand, no trombone, Deniz Fisek, no baixo, Ian Carlo Mendoza, nas percussões, e Matthieu Dorbec, na bateria, funda o “Project Dunga”, assegurando ele próprio a guitarra, o piano, a flauta e o canto.
Com este projecto, “à procura das suas próprias raízes, misturando o máximo de cores e de sons”, que sempre “recusou etiquetagem” integra o colectivo “Pavé Jazz”, uma associação de músicos de jazz e músicas improvisadas, e testa verdadeiramente as suas capacidades como compositor e performer perante plateias que se foram revelando muito receptivas e progressivamente amistosas.
Nos seus concertos, repartidos entre França, Alemanha e Portugal, encontrou a forma “tribal” com que acredita que a música deve ser partilhada. Verdadeiros rituais de celebração, os espectáculos do Projecto Dunga rapidamente conquistaram o respeito do público e conseguiram criar uma corrente interessante para um grupo cuja musicalidade, longe de ser mainstream, assentava num “subtil cruzamento do jazz e dos ritmos afro-brasileiros”. Durante os espectáculos Pedro Castanheira aprendeu a metamorfosear-se e se, fora do palco, alguma timidez ou insegurança existiu esta era agora, perante o público, transformada numa poderosa força de comunicação.
No dia 8 de Dezembro de 2006, o Projecto Dunga fez a sua última apresentação no l'Antirouille, em Paris, imediatamente antes de Pedro Castanheira e Ian Carlo Mendoza regressarem a Portugal para abraçarem um novo projecto musical. No início de 2007, cerca de um mês após o regresso de Pedro e Ian a Lisboa, o Projecto Dunga seria formalmente extinto.
Hoje, aos 27 anos, e regressado de Paris há pouco mais do que 4 meses, Pedro Castanheira confessa-se muito surpreendido com Lisboa e com os músicos excepcionais que aí encontrou nos últimos 2 meses. Pensa que a cena musical portuguesa mudou muito nos últimos anos e que o seu enriquecimento muito se deve aos intercâmbios culturais realizados ao abrigo de projectos como o “Erasmus”.
Quando regressou, juntamente com Ian Carlo, em busca “das suas musas” e da inspiração se sempre vai buscar ao mar, trazia apenas projectos para o “Colectivo Páscoa”, um dos cinco projectos musicais em que se encontra actualmente envolvido. A esse projecto inicial que define como sendo de “Jazz mutante” ou de “Rock pós-regressivo” juntaram-se, desde que chegou a Lisboa, o “Yemanjazz” – um projecto de “world wide jazz” - , o “Projecto Iara” – com o qual realiza “concertos performativos de sonoridades tracionais globais” - , o “Chulage” – promovendo o “hip-hop e spoken word” – e o “Projecto Almagreira” que Pedro gosta de definir, com a habitual poética como um projecto de “música de embalar, sonhar e acordar na beira do mar”.
Hoje sorri quando diz “não ter tempo para a angústia existencial urbana” que por vezes o assolava em Paris. A multiplicidade e heterogenidade de projectos em que se encontra envolvido são a sua maior força motriz que de momento não lhe deixa “muito espaço para respirar”. “Cresce-se muito a tocar estilos diferentes. É uma esquizofrenia muito saudável”, afirma feliz.
Tem consciência que o tempo que passou em Paris foi essencial para a sua afirmação musical. “Vim de Paris músico, saí de cá sonhador e voltei músico sonhador”, afirma sorridente. “De qualquer forma é sempre mais difícil sair da casca em casa”.
Em Paris, graças ao nível de exigência dos músicos locais foi obrigado a trabalhar com disciplina e rigor e hoje sabe que isso em muito contribuiu para o seu crescimento e afirmação musical. Acredita que de momento “talvez seja mais fácil viver da música em Lisboa do que em Paris” e que a tranquilidade e o custo de vida nacional continuam a ser vantagens a ponderar. Além disso acredita que há de momento em Portugal “um novo movimento do Jazz”, com “novos circuitos”. Circuitos que permitem “quebrar a barreira entre o músico que toca na rua e o que toca no conservatório”, “desmistificando certos géneros de música considerados intelectuais.”
Na sua actual agenda não tem mãos a medir. Prepara-se para, no próximo dia 11 de Maio, participar em Andorra num concerto de “Chulage” e seguidamente actuar com o “Colectivo Páscoa” em Barcelona.
E embora ainda seja cedo para tirar conclusões parece-lhe agora fazer-se luz sobre os benefícios dos difíceis meses passados em Paris. E talvez nem seja um preço demasiado elevado a pagar se isso significar encontrar a própria voz.
http://www.myspace.com/yemanjazz
http://www.myspace.com/colectivopascoa
http://www.myspace.com/projectoalmagreira
http://www.myspace.com/projectoiara
(artigo publicado na "Magazine Artes" de Maio 2007)