Mario Cesariny por Miguel Gonçalves Mendes

autografia


Sou um homem
um poeta
uma máquina de passar vidro colorido
um copo uma pedra
uma pedra configurada
um avião que sobe levando-te nos seus braços
que atravessam agora o último glaciar da terra

O meu nome está farto de ser escrito na lista dos tiranos: condenado
à morte!
os dias e as noites deste século têm gritado tanto no meu peito que
existe nele uma árvore miraculada
tenho um pé que já deu a volta ao mundo
e a família na rua
um é loiro
outro moreno
e nunca se encontrarão
conheço a tua voz como os meus dedos
(antes de conhecer-te já eu te ia beijar a tua casa)
tenho um sol sobre a pleura
e toda a água do mar à minha espera
quando amo imito o movimento das marés
e os assassínios mais vulgares do ano
sou, por fora de mim, a minha gabardina
e eu o pico do Everest
posso ser visto à noite na companhia de gente altamente suspeita
e nunca de dia a teus pés florindo a tua boca
porque tu és o dia porque tu és
a terra onde eu há milhares de anos vivo a parábola
do rei morto, do vento e da primavera
Quanto ao de toda a gente – tenho visto qualquer coisa
Viagens a Paris – já se arranjaram algumas.
Enlaces e divórcios de ocasião – não foram poucos.
Conversas com meteoros internacionais – também, já por cá
passaram.
Eu sou, no sentido mais enérgico da palavra
uma carruagem de propulsão por hálito
os amigos que tive as mulheres que assombrei as ruas por onde
passei uma só vez
tudo isso vive em mim para uma história
de sentido ainda oculto
magnífica irreal
como uma povoação abandonada aos lobos
lapidar e seca
como uma linha férrea ultrajada pelo tempo
é por isso que eu trago um certo peso extinto
nas costas
a servir de combustível
e é por isso que eu acho que as paisagens ainda hão-de vir a ser
escrupulosamente electrocutadas vivas
para não termos de atirá-los semi-mortas à linha
E para dizer-te tudo
dir-te-ei que aos meus vinte e cinco anos de existência solar estou
em franca ascensão para ti O Magnífico
na cama no espaço duma pedra em Lisboa-Os-Sustos
e que o homem-expedição de que não há notícias nos jornais nem
lágrimas à porta das famílias
sou eu meu bem sou eu partido de manhã encontrado perdido entre
lagos de incêndio e o teu retrato grande!

Mário Cesariny
in Pena Capital
Assírio e Alvim
2ª edição – Março 1999


Ante-estreado, na Cinemateca Portuguesa, no passado dia 3 de Maio com honra de casa cheia, o documentário “Autografia” de Miguel Gonçalves Mendes revelou, ao longo de quase duas horas, um cúmplice e sensível retrato do poeta e pintor Mário Cesariny. Um documento onde, com uma imensa generosidade, o homem se sobrepõe à obra e embarca numa partilha de fragmentos de vida, traçando, simultaneamente, o perfil de uma Lisboa há muito desaparecida.

Fotografias e texto de Susana Paiva


No princípio e no fim, anunciando uma premeditada circularidade, existe apenas o branco. Um longo e doloroso branco que acompanha as palavras de “Autografia”. Depois surge uma janela de Lisboa, que por aproximações sucessivas nos leva a mergulhar na intimidade de Cesariny. Lá dentro, à nossa espera, um corpo suado, intenso, envolto num caloroso tom laranja. Cesariny está sentado no seu quarto e, pacientemente, deixa que a câmara capte toda a expressividade da sua pele. Abre bem os olhos e conserva o seu olhar, firme e penetrante, como frequentemente gosta de fazer quando é fotografado.
Partilhamos agora o espaço da sua intimidade. Somos guiados por uma respiração ofegante que percorre o corredor de sua casa, e falamos da morte. Da morte física, da morte espiritual, mas também da morte de uma certa Lisboa que Cesariny amou.
“Parti do seu quarto, da sua casa, para a cidade. Lisboa é uma cidade que o Mário já dificilmente reconhece. Acabaram-se os cafés de referência de uma certa geração. As pessoas deixaram de comunicar…” contextualiza Miguel Mendes.

Sentado à mesa, encontramos Cesariny crítico e acutilante. Sobre a mesa duas novas obras, ambas em finalização. Grande plano sobre um dos livros em curso. “É contra os Americanos”, diz. “Mas sobretudo contra a pena de morte”.
Depois, com um sorriso, fecha o livro e mostra uma ilustração branca, sobre papel negro, onde se lê “Isto não faz mal”. “Era o que os romanos diziam quando pediam a um amigo que lhes espetasse um punhal”.
Pena de Morte. Morte Assistida. É neste cenário que, timidamente, o ouvimos dizer “Não sei se à hora da morte terei tanto medo. Sou capaz de ter, sou. Um bocadinho…”
Ri um pouco e acrescenta “Não sei o que isso é, mas gostava de ter uma daquelas mortes boas. A gente deita-se para dormir e nunca mais acorda. Isso é que é bom.”
Para um pouco, depois continua. “Tenho medo sobretudo da degradação física, porque eu já sofro um bocadinho, vá lá… Isso é que é muito chato. É a morte a trabalhar, a trabalhar…A morte é o momento. Tens medo da morte, tu?” interroga, alterando o tom do seu discurso.
“Quanto à vida… Há deficiências físicas que vêm da idade, como a depressão, a que não estou a achar graça nenhuma. Ou muito pouca. Há talvez ainda uma certa esperança, não sei de quê…”, remata.

Na sala, está também presente Henriette, a mais velha das três irmãs de Mário. À medida que Mário vai elaborando o seu discurso, Henriette age soltando pequenas interjeições. Cesariny começa a relatar um episódio sucedido com a arma do seu falecido pai. “O meu pai tinha ali uma pistola. Quando ele morreu eu despachei a pistola em trinta segundos porque só de olhar para aquilo fazia-me impressão. Fazia-me impressão… Não fiz a vida militar, não tenho nenhum contacto com armas, e não tenho coragem para me matar mas tenho admiração pelos suicidas [ “não é capaz” murmura Henriette ] porque é preciso um grande desespero, ou uma grande coragem, para fazer isto” afirma erguendo a mão esquerda, punho cerrado abruptamente justaposto à sua têmpora.
“Quanto ao mais…de vez em quando ainda há umas coisas agradáveis, não é? Apesar de tudo. E há uma certa curiosidade de saber até onde é que isto vai”.
Depois, referindo-se a Henriette - falecida pouco tempo após o final da rodagem de “Autografia” - desabafa : “Dá-me alegria ainda estar vivo para poder acompanhar a minha irmã. Isso é um motivo de alegria. E escrever ou pintar é uma razão forte para estar aqui. Sobretudo pintar. Agora abandonei mais a escrita”.
E numa fina ironia continua o seu desabafo. “Porque na escrita tens que dizer se é de dia ou de noite, se estás apaixonado pela vizinha de cima, que horas são, se te dói o fígado, se tens medo da morte… São tudo coisas muito chatas. Na pintura isso não existe. Quer dizer… é capaz de existir mas não se sente.

Num misto de brincadeira e impaciência Henriette vai interagindo com a equipa de filmagens. Aproveita para falar um pouco sobre o irmão. “Sempre foi diferente de todos. Como ele não há outro igual, sob todos os aspectos. Até como amizade à sua irmã mais velha. É o melhor mano do mundo, é ele” – diz sem hesitação.

Glória literária à Portuguesa

Adivinho a próxima questão, num jogo assente em perguntas ausentes. E depois da morte, o que fica de cada um de nós?
“Bom, de nós ficam os filhos se fazes filhos, ficam livros e pinturas se pintas ou escreves, ficam esculturas… Não é grande consolação… para mim não é! Porque se houvesse eternidade era uma coisa mas como não há… Não interessa quanto tempo é que a terra vai levar para acabar por explodir, acaba por desaparecer tudo. É muito misterioso…
Por fim uma voz, sem rosto, quebra o jogo das inaudíveis perguntas. Invade bruscamente o ecrã e, aludindo à vida, formaliza a questão – “Para que é que isto serve?”
E Mário, uma vez mais, responde. “Não sei…Serve para foder, que é muito agradável - dá muito gozo, serve para amar e serve para morrer.

Atravessamos agora o Tejo. Doce planagem. Merecida pausa e descompressão.
No ecrã sucedem-se algumas fotografias antigas da baixa lisboeta. Cesariny afina o seu sentido de humor. “Sabes que estamos num país em que não se pode dizer o que realmente interessa. É assim desde D. Afonso Henriques”.
Subitamente, a plateia explode numa gargalhada. Muitas outras se seguirão.

“A chamada consideração - não quero dizer glória - literária ou artística, para mim não tem significado nenhum. Queres ver como é?”- pergunta Cesariny . “Também terás isso, quando começares a receber grandes prémios de curta-metragem na Alemanha. É assim: colocam-te num pedestal muito alto a dizer versos – blá, blá, blá… blá, blá, blá – e depois está uma quantidade de malta cá em baixo a bater palmas – ééé!”, diz Cesariny representando, caricaturalmente, a multidão boquiaberta. “Depois deixam-me ir para casa sozinho. Isto é a glória literária à Portuguesa”.

Pintura e Literatura

Mário gesticula energicamente, reproduzindo numa escrita invisível, algumas das suas palavras, agora agigantadas, na projecção de um diapositivo. Em voz off ouve-se “Eu julgo que foi a pintura, que eu na altura chamava despintura e ainda chamaria se os negociantes de arte quisessem…Acho que foi a despintura que me ajudou a libertar dos versos mais convencionais. Não é que eu fizesse grandes pinturas mas era a bonecada, a liberdade das cores e não o contrário…”
No ecrã aparece novamente o seu rosto, compenetrado, expressivo. Os braços gesticulando, traçando tectos imaginários, muito, muito próximos do seu crânio. “Eu acho que sou um poeta bastante sofrível numa época em que o tecto está muito baixo. Um grande poeta numa época onde não há Anteros, não há Camilos Pessanhas, não há Guerra Junqueiros, não há Pessoas…”.
“Isto é horrível de dizer mas, é talvez porque aos meus poemas - digamos de amor -nunca falta um condimento muito forte de revolta, que estes se tornam mais fortes. São também uma espécie de grito.”
“A poesia foi um fogo muito grande que ardeu e depois ficaram as cinzas. Não sou capaz de fazer versos porque sim ou para o editor ter mais um livro. Acabou.”
“Pintar é mais divertido. Muito mais. Quer dizer, muito mais libertador”.
“Não sente mesmo necessidade de escrever?” – pergunta o Miguel.
“Nenhuma. Não. Para quê? A quem? Às vezes uma carta”, responde rindo. “Eu há muito tempo, talvez, que não estou cá…”

A entrevista

Estamos, bem perto do mar, na casa da Costa da Caparica, refúgio eleito por Cesariny para os dias de sol. Mário entrevista a sua irmã Henriette.
“Ó Henriette, que achas tudo de mim?”
“O que acho de ti…Acho-te uma pessoa encantadora, um irmão inolvidável, um artista sem comentários. Acho-te um irmão grandioso, mais nada!”
“Mas e no convívio fraterno?…”
“No convívio fraterno é melhor não falar. A gente dá-se tão mal…”- responde Henriette rindo.
“O que é que a Senhora Dona Henriette Cesariny Rossis Cardona de Vasconcelos pensa da minha homossexualidade?”
“Ai que pergunta…” murmura.
“Fala francamente”, pede-lhe Mário.
“Não tenho comentários a fazer. Ficam comigo”
“É pouco”.
“É pouco mas é tudo o que posso pensar”, responde Henriette um pouco embaraçada.
“Eu julgo saber o que tu pensas”
“Hã?!”
“Julgo saber o que tu pensas. Posso dizer?”
“Diz”- responde Henriette, ao fim de uma longa pausa.
“Não aceitas a homossexualidade, mas a minha, porque sou eu, aceitas. Não é?”
“Espera aí um bocadinho” pede, um pouco tensa, Henriette. “Aceito…Aceito por seres meu irmão, por o amor que te tenho, e o da nossa família toda, mas tenho pena.
“Também eu” – responde Mário de imediato.
“Também tu?”
“Tenho muita pena. Olha, queres definir-me como poeta ou como pintor?”
“Imenso”- diz Henriette com um sorriso.
“O que é imenso?”
“És imenso! Imensamente artista, poeta , escultor…”
“Desejavas alguma coisa melhor para mim?”
“Tudo de melhor para ti é o que te desejo. Mais nada. Que sei eu de especial?”
“Amores não? – prossegue Mário.
“Amores de quê?”
“Amores meus”
“Dos teus amores? Amor por ti? Amor de irmão e irmã? – arrisca Henriette.
“Amor por outra pessoa” – esclarece Mário.
“O que é que eu acho? Acho que é mal empregado!
[ Riem ambos, revelando grande cumplicidade ]

O Piano

“O Mário tinha tal amor e habilidade, era de tal maneira sabedor de música clássica que estava em casa sozinho e tocava Beethoven, Mozart. O pai subia as escadas, abria a porta e se ouvia aquela música…atirava-lhe com o piano nas mãos. Tapava-lhe o piano.
Um dia o Mário chegou a casa e o piano tinha voado. Vêm o paizinho que nós tínhamos?”- desabafa Henriette.
“Ele não queria o meu mal, percebes? Ele queria que eu fosse um industrial joalheiro, com sucesso, como ele era. Pronto” – responde Mário.
“Mas ele era um grande ourives e tu ias ser um grande pianista, que o Lopes Graça bem chorou que ele te deixasse tocar” – prossegue Henriette inconformada.
E Mário continua “Para mim [ o pai ] teve tanto de positivo como de negativo. A parte negativa é medonha, tanto para mim como para a minha mãe e para esta [ apontando Henriette ] também. E a parte positiva também existe.”
“Existe mas não se viu nada de jeito”- remata Henriette.
“A primeira exposição individual que fiz, em 1958, na livraria do Diário de Notícias no Chiado, ele apareceu lá e disse esta coisa espantosa: “Ó Mário, então tu trabalhas”.
Não lhe guardo rancor.
Ultimamente não, mas aqui há algum tempo eu sonhava várias vezes que queria falar com ele no género… não é pedir perdão mas pedir desculpa de ter saído tudo oposto ao que ele queria para mim. Ele achava que o que ele queria é que era bom para mim. Sonhei isso mais do que uma vez mas, mesmo em sonho, não consegui chegar a falar-lhe.

Há agora, na imagem, uma dominante azul a recordar um mar calmo numa tarde de verão. Cesariny fala sobre o Amor. “É a única coisa que há para acreditar. É o único contacto que temos com o sagrado. No Amor - estou-me a referir ao momento único - és igual ao finito e ao infinito.
Eu acho que nós, em muitos casos, o outro é o nosso espelho. Sem esse espelho não nos vemos, não existimos. Claro que podes dizer que isto é um bocado abusivo, que eu no espelho só me vejo a mim mesmo mas não é isso. Nesse espelho ou vejo os dois ou vejo o outro através de mim.
Não é o Narciso, que esse quer ver-se a si próprio. É o olhar para a água e ver o outro, ou a outra, com quem se pode conversar, viver.”
Mário acena afirmativamente com a cabeça, quando lhe perguntam se acredita que se pode morrer de amor. “E também se pode morrer de falta de amor “, acrescenta.

“Se eu acredito no Amor…Eu nunca acreditei muito na chamada alma gémea porque a minha alma gémea tinha que ser muito diferente de mim, sabes? Porque de poesia, filosofia e literatura e outras merdas já eu estou cheio dos pés à cabeça. Nesse aspecto eu era talvez um pouco à Grega – alguém jovem, alguém mais inocente, alguém que tivesse a pureza do mar. A pureza e a tempestade, às vezes, também.
E para mim o Amor foi sempre… quer dizer, nunca acreditei muito que esse tal amor absoluto me pudesse aparecer. Tenho medo que tenha aparecido e eu não tenha dado por isso. Também pode acontecer.”
“Qual foi a pessoa que o Mário mais amou na sua vida?” – pergunta o realizador.
“Infelizmente parece que foi a mim.”

Obituário

Centrado num fundo vermelho muito vivo, raiado por néons brancos, Cesariny enumera os seus amigos mortos, indicando a causa ou circunstância da sua morte.
“E Lisboa?” – pergunta Miguel Mendes.
“Lisboa para mim desapareceu. Morreu sem enterro. Vê-se passar os cadáveres.
Morreu tudo o que eu sabia, tudo o que via. Nunca escrevi um poema em casa. Era sempre no café ou na rua. Isto é chato!, exclama tirando os óculos e olhando de forma penetrante para a câmara.

Saudade

“Parece que não há palavra sem ser a portuguesa. Não há, não existe. No fundo é uma coisa surrealista. É um anseio do passado misturado com um anseio do futuro.
É como diz Breton – que o real e o imaginário e, o passado, o futuro e o presente se encontram.
E o Pascoaes disse isso. Saudade é um anseio de um passado já desaparecido e de um futuro a chegar. Tornar presente uma coisa que já passou, já é, de alguma maneira, futura-la, não é?”
Ah! Tenho ali muitos livros sobre a saudade. Agora é uma coisa um bocado portuguesa, não é? Somos um país aqui de extremo da Europa, aqui à beira-mar. Não temos muitas hipóteses e então sonhamos. Sonhamos muito. Sonhadores…”

Cesariny fuma mais um dos seus cigarros, meticulosamente preparado com a sua boquilha. Pensa um pouco sobre o objecto da sua saudade e repentinamente diz: “Tenho saudades de comer uma grande lagosta. Tenho saudade de quê? Olha, tenho saudades de voar. Lá isso tenho, porque eu, não sei desde quando mas quase desde miúdo até aí aos meus cinquenta anos, todas as noites já adormecia a sorrir de gozo porque sonhava sempre que voava. Era uma coisa tão boa, tão boa, tão boa.
E eu orientava. Quer dizer, não havia paisagem, era o espaço puro. Não se via nada. Uma Maravilha!

Sobrevoamos agora o rio e pairamos sobre a baixa lisboeta ao som de Carlos Paredes. Depois somos levados ao ponto de partida. É Cesariny quem, à janela, nos aguarda.
Regressamos ao interior da casa. As magras e longas mãos de Cesariny, lado a lado, de punhos cerrados, com os polegares movendo-se ansiosamente não abafam a força das suas palavras.
“Tinha que ser. Com isso garanti não ter que fazer mais nada até morrer. Com o dinheiro, percebes? A partir de uma certa altura constrangiu-me perceber que estava a fazer pintura para vender. Não era por prazer, era para vender” diz Cesariny, acentuando longamente a palavra vender. “Assim é melhor”.
“Se eles fizeram isso [ referindo-se à Fundação Cupertino de Miranda ] é porque eu aceitei e quis, pronto”. Faz uma longa pausa e recomeça “ quero lá saber, fizeram-me muita companhia. Ainda estão comigo, não faz diferença”
E ouve-se, com um arrepio, o som da fita adesiva deslizando sobre obras e caixotes.


Autografia

Construído como se de “uma palestra sobre a vida” se tratasse, “Autografia” assume, para os seus espectadores, a hipotética forma de um manual de sobrevivência no qual, ao longo de três actos, se abordam algumas temáticas universalistas – a morte, o amor, a infância. “Como se houvesse uma passagem de testemunho, de alguém sábio, a alguém que ainda não está totalmente preparado para a vida”, afirma o seu jovem realizador. “E, mesmo versando a morte, este filme está repleto de vida e de esperança. Há nele uma certa melancolia mas também uma imensa alegria de viver”, acrescenta.
Aluno do terceiro ano do curso de cinema da Escola Superior de Cinema e Teatro, Miguel Mendes, 25 anos, nunca pretendeu materializar o seu projecto num documentário institucional. Aspirava que a relação estabelecida com Cesariny, ao longo dos dois anos de trabalho se sobrepusesse a toda e qualquer outra lógica narrativa.
Assim nasceu este filme sensível, num registo que, apesar da doce tentação, nunca se tornou surrealista. “O Mário chegou a sugerir que o filme poderia não ter palavras, só imagens e eventualmente alguns poemas”.
Um filme “fruto do diálogo e relação que estabelecemos mas também da imensa generosidade e dádiva do Mário”. Um filme que ousou revelar traços de personalidade de Mário Cesariny, mais do que a sua obra. Ou como Cesariny tão bem escreveu, na folha de sala distribuída na ante-estreia - “Venho aqui hoje porque o Miguel conseguiu descobrir em mim muito mais do que sou e, talvez, o que poderia ter sido neste infernal jardim à beira mar plantado.”

(Texto publicado no DNa)