Floripes

Contra o Esquecimento

Miguel Gonçalves Mendes já antes se havia distinguido no panorama do documentário Português quando "Autografia", o seu intenso retrato de Mário Cesariny, venceu o prémio de melhor documentário Português na edição de 2004 do Festival DocLISBOA. Agora, com “Floripes ou a morte de um mito” - um dos quatro filmes realizados a convite de Faro Capital Nacional da Cultura 2005 - volta a surpreender, dando voz aos habitantes de Olhão que aí rememoram e ensaiam explicações para uma lenda local.

Texto de Susana Paiva

"Reza a lenda que Floripes, uma moura encantada, deambula todas as noites, triste e sem destino, pela vila de Olhão. Prisioneira do seu encantamento, representa o medo e o sofrimento da comunidade de pescadores, que, inebriados pelo feitiço da bela e misteriosa mulher, com o intuito de a desencantar, morreriam ao tentar atravessar o mar". É este o ponto de partida de “Floripes ou a morte de um mito”, o último filme de Miguel Gonçalves Mendes, onde se traça um interessante retrato da cidade de Olhão, povoado pelas fantasias, medos e mistérios da sua comunidade piscatória. Um ensaio apaixonante, cruzando ficção e realidade, onde o realizador retoma o tema da Morte como pano de fundo.
Após convite para a realização de um filme sobre o Algarve, endereçado por Anabela Moutinho no âmbito de Faro Capital Nacional da Cultura 2005, Miguel Gonçalves Mendes optou pela cidade de Olhão por ser aquela que melhor conhece, já que aí viveu, e por considerar que esta possui "características muito peculiares que a tornam única e, sobretudo, um objecto de trabalho muito interessante a nível documental".
Confessa que, desde a sua adolescência, tinha ideia de fazer "um projecto sobre a moura Floripes pois, até aos anos 60, acreditava-se que ela existia, havendo pessoas que afirmavam tê-la visto". Foi assim que decidiu "pegar nesse mote das lendas, na sua necessidade e na forma como lidamos com o medo e o desconhecido, para retratar uma comunidade urbana, neste caso piscatória".
Apresentado, pelo próprio realizador, na cerimónia de encerramento da Capital Nacional da Cultura, como um filme sobre a sua memória, histórica e afectiva, -"Floripes ou a morte de um mito" é "a memória de uma época, de um passado, e a história do desaparecimento de uma cidade idealizada" mas também uma dissertação sobre o medo, onde a moura Floripes desempenha um papel regulador. "Apesar de nesta versão, inevitavelmente mais curta por questões inerentes à própria encomenda, não ser óbvia a ligação da lenda às, à época, regulares actividades de contrabando na costa de Olhão", parece ser claro que a lenda da moura constituía uma poderosa força intimidatória que prevenia e evitava olhares indiscretos sobre as referidas actividades clandestinas.
Rodado em cerca de dois meses, com recurso a uma pequena equipa de criativos e tendo como actores os habitantes de Olhão, o filme constitui um verdadeiro hino à nobreza e valentia do povo Olhanense, excelentemente expressa nos minutos iniciais do documentário.
As saudosas imagens a preto e branco do excerto fílmico produzido pelo Secretariado de Propaganda Nacional contrastam agora com as actuais imagens coloridas de conserveiras devastadas e silenciosamente desérticas. De permeio, intensos e comoventes depoimentos - de pescadores e mulheres de rostos talhados pelo sol que dissertam sobre a adversidade da vida do mar e a dureza de uma sobrevivência conquistada a pulso - conjugados com poéticas imagens de mulheres que rezam pelo regresso seguro dos seus maridos após a faina.
Presente ainda no filme a procissão de Nossa Senhora dos Navegantes que, anos após ano, perpetuando a tradição "dos antigos" continua a juntar centenas de pessoas no percurso entre a ilha da Culatra e o porto de Olhão. Traineiras e embarcações de todo o tipo quebram o silêncio das duras e longas madrugadas passadas no mar e agradecem à sua padroeira a benção recebida. Imagens mais que perfeitas para reforçar, em coro, as palavras de Raul Brandão em "Os Pescadores", a comoção de Lucília Bagarrão quando declara que "com dez anos já trabalhava, já ia à amêijoa" ou a sapiência de Guilherme Silva quando, entre harpejos na sua harmónica, declara que "sabe que vai morrer, não tem é pressa".
Exibido já no canal 2, co-produtor do documentário, e aguardando a saída em dvd da versão exibida em Faro, “Floripes ou a morte de um mito” aguarda agora financiamento que permita a remontagem do filme para exibição em sala de cinema. Na sua versão final espera-se maior ênfase na vertente ficcional, algo obnubilada, por contigências diversas, na versão televisiva e na versão exibida na sua ante-estreia, em Faro. Para que, uma vez mais, a morte o esquecimento não atinjam também a memória do cinema Português.


“Floripes ou a morte de um mito”
Um filme de Miguel Gonçalves Mendes

Encomenda de Faro Capital Nacional da Cultura 2005
Co-Produção com a 2:
Uma Produção JumpCut

Equipa Artística
Catarina Barros no papel de Aninhas
João Salero no papel de Quinzinho
João Sancho no papel de Julião
Selma Cifka no papel de Floripes
e a figuração dos habitantes de Olhão

Equipa Técnica
Argumento e Realização de Miguel Gonçalves Mendes
Direcção de Produção de Marisa Salvador
Direcção de Fotografia de Daniel Neves
Fotografia de Cena de Susana Paiva
Direcção de Som de Carlos Vicente
Banda Sonora Original de Paulo Machado
Montagem de Cláudia Rita Oliveira
Direcção Artística de Eduardo Costa