David Lynch "The air is on fire"

David Lynch na Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris

Um universo altamente inflamável

Numa altura em que a exibição de “Inland Empire”, a última criação cinematográfica de David Lynch, intriga espectadores, um pouco por toda a Europa, o cineasta junta mais uma indecifrável peça ao puzzle do seu universo, apresentando pela primeira vez em Paris “The air is on fire”, uma exposição retrospectiva da sua quase desconhecida obra plástica.

Texto e fotografia de Susana Paiva
Imagens das obras de David Lynch gentilmente cedidas pela Fondation Cartier pour l’art contemporain

Quando o sol da tarde atravessa as paredes de vidro do edifício parisiense projectado por Jean Nouvel, no 261 do boulevard Raspail, lá dentro a obra plástica de David Lynch atinge o seu mais puro grau de estranheza. É a essa hora que as árvores do jardim projectam acentuadas sombras, ondulantes ao sabor do vento, protagonistas de um verdadeiro jogo Lynchiano - ora ocultando ora revelando as obras de pintura instaladas pelo autor, na Fondation Cartier pour l’art contemporain. Nessa sala, banhada de luz, doze imponentes estruturas metálicas, de onde pendem as invulgarmente coloridas cortinas que servem de cenografia a uma parte da exposição, são o chamariz para as cerca de 700 obras que, pela primeira vez, revelam ao mundo a quase desconhecida criação plástica que tem sido uma constante na vida de David Lynch.
Foi aos 14 anos, através do pintor Toby Keeler – pai de um amigo de infância -, que Lynch descobriu a obra de Francis Bacon, aquela que, conjuntamente com as obras de Hopper e Kadinsky, se viriam a revelar influências determinantes na sua criação. Graças a esse “choque estético” o jovem nascido em 1946 em Missoula, Montana, e oriundo de uma família sem qualquer tradição artística, decidiu tornar-se pintor. Em 1963 ingressa na Escola do Museu de Boston onde, para sua decepção, não encontra eco para as suas práticas e ambições artísticas. Decide então partir para a Europa, onde projecta viver durante 3 anos, mas inesperadamente regressa, quinze dias mais tarde, com o sentimento de “não ter encontrado um ambiente propício à sua pintura”, instalando-se em Filadélfia onde começa a frequentar a Academia de Artes da Pensilvânia. É aí, naquilo que Lynch descreve como “uma experiência estimulante e soberba”, que encontra verdadeiramente o seu primeiro espaço de expressão artística.
Decorria o ano 1967 quando, ainda enquanto aluno da Academia de Artes e inspirado pelo som e deslocação do vento que projectava sombras nas brancas telas do seu atelier, decide criar “uma pintura em movimento” e realizar o projecto “Six Men Getting Sic”, uma curta metragem experimental onde o seu desenho se transformava em animação. Um projecto que David Lynch considerava episódico, sem qualquer consequência profissional, mas que acabou por se revelar o início de uma fulgurante carreira cinematográfica.
Apesar de ser sobretudo como realizador que David Lynch é internacionalmente reconhecido - com filmes como “Blue Velvet”, “Lost Highway” e “Mulholland Drive” a brilhar no seu curriculum - a sua pratica artística estende-se ainda por áreas tão diversas como a pintura, a instalação, a fotografia e a composição musical. Fruto do desejo de apresentar essa obra proteiforme, invisível aos olhos do grande público que segue apaixonadamente a obra fílmica de Lynch, decidiu a Fondation Cartier apresentar aquela que é considerada a maior retrospectiva artística do autor, incluíndo exemplos de todas as suas práticas, convidando-o para tal a conceber uma exposição que se constituísse como um singular objecto artístico.
Criada como se tratasse de um grande plateau, onde o público tem simultaneamente acesso aos centros de acção e aos bastidores, a exposição tem como grande virtude os ambientes visuais e sonoros criados por Lynch que brilhantemente nos transportam para o seu onírico, e frequentemente negro, universo cinematográfico. Deliberadamente concebida sem um percurso específico e na ausência de qualquer identificação cronológica a exposição revela obras muito díspares, desde núcleos temáticos onde se destacam as obras sobre a sombria vida de Bob – um personagem ao qual Lynch atribui a personalidade destorcida de alguns dos seus personagens cinematográficos – a um labirinto de esboços, notas e até pequenos poemas que Lynch compulsivamente regista em todos os papéis que vai encontrando pelo caminho. Notável, a título de curiosidade, são os seus pequenos desenhos em caixas de fósforos e as “post it” que materializam desde desenhos a pequenos poemas como “Truth mirror” – “The angriest dog in the world / a dog that is so angry / he cannot move. He / cannot eat. He / cannot sleep. He can barely growl./ Bound so thigtly with / tension and anger / he approaches / the state of / rigor mortis,”
Não obstante todas as surpresas que David Lynch pessoalmente preparou para os visitantes deste seu “The air is on fire”, nomeadamente um concerto dado em parceria com Marek Zebrowski no dia da inauguração da exposição - actualmente visível em dvd no espaço da livraria da Fondation Cartier -, e toda a tensão e preciosa sensação de um universo artísitico altamente inflamável, à beira da explosão, a verdade é que o espaço mais frequentado da exposição continuou a ser aquele que directamente traduz a obra cinematográfica de Lynch - um pequeno cinema de cortinas de veludo negro, exibindo as suas primeiras obras e trabalhos cinematográficos experimentais, onde os 32 cadeirões vermelhos nunca se quedaram vazios.

“The air is on fire”
Exposição de David Lynch na Fondation Cartier pour l’art contemporain, Paris
Até 27 de Maio de 2007

(artigo publicado na "Magazine Artes" de Maio 2007)