Robert Doisneau



O pequeno teatro do quotidiano

Onze anos após a sua morte, a Mairie de Paris consagra ao mais famoso fotografo humanista francês a exposição “Paris en liberté”, uma singular retrospectiva do seu trabalho, num dos locais que celebrizou. Um percurso livre, através de duzentas e vinte e quatro imagens, que transforma a sala St. Jean, no coração do Hotêl de Ville, num espelho da memória de uma cidade há muito desaparecida.
Uma exposição surpreendente, a visitar gratuitamente até ao próximo dia 17 de Fevereiro.

Texto de Susana Paiva

Às dez da manhã, hora em que “Paris en liberté” abre ao público, já os visitantes se avolumam à porta do nº 5 da rue de Lobau, onde uma longa espera será o preço a pagar por todos quantos desejem entrar. Lá dentro, à semelhança dos olhares curiosos dos visitantes do Louvre perante a “Gioconda” de Leonardo da Vinci, que Doisneau fotografou em 1945, centenas de visitantes deslumbrados observam as imagens do fotógrafo francês, mundialmente celebrizado pela sua imagem de 1950 “O beijo do Hôtel de Ville”.
Comissariada pelas suas duas filhas, directoras do Atelier Robert Doisneau e gestoras, em parceria com a agência Rapho, dos direitos do seu espólio, a exposição - a maior retrospectiva dedicada a Doisneau nos últimos 11 anos - surpreende pela organização onde, através das mais de duzentas imagens do fotógrafo, se traça a dinâmica de cinco décadas do quotidiano parisience. É num itinerário livre, liberto de qualquer organização cronológica ou nuclear - que traduz na perfeição o espírito flaneur com que Doisneau percorreu e registou a vida dos subúrbios e centro da cidade -, e contrapondo imagens sobejamente conhecidas com fotografias até à data inéditas, que a “viagem ao imaginário parisience de Robert Doisneau” nos faz mergulhar nas grandes temáticas que toda a vida o acompanharam - a infância, o trabalho, a vida nos subúrbios, o humor no quotidiano – introduzindo-nos simultaneamente numa dimensão mais desconhecida do seu trabalho, onde o fotógrafo recorre a montagens tridimensionais das suas imagens.
Constituindo-se como as mais interessantes obras exibidas, “Les Halles de Paris” - uma montagem constituída por 36 elementos, exposta pela primeira vez em 1968 na Biblioteca Nacional, onde se revela a dinânica do mercado central de Paris -, “La Maison des locataires” - uma montagem tridimensional onde 12 janelas de um prédio parisience deixam vislumbrar a vida das 12 famílias que aí residem – e “Les Pont des Arts” - uma montagem tridimensional que permite observar, em diferentes escalas e distâncias, a dinâmica da ponte e seu envolvente -, introduzem uma faceta conceptual no trabalho de Doisneau, confirmando-o como um criador de pleno direito.
Considerado por muitos como um extraordinário historiador, e tendo consagrado a sua vida a um intenso trabalho documental sobre a capital francesa, Doisneau recusou sempre qualquer categorização, negando haver no seu trabalho a sistematização e objectividade necessária para qualquer estudo histórico. É no entanto indubitável que é fruto do seu trabalho que hoje se guarda a memória de uma Paris conservando o humano como epicentro.
Oriundo de Gentilly, nos subúrbios de Paris - onde hoje se encontra a “Maison Robert Doisneau”, um centro de exposições dedicado à fotografia humanista -, e confrontado com a ausência de registos da vida dos seus próximos, desde cedo se sentiu compelido a fotografar o envolvente. “A primeira coisa que fazem os viajantes desembarcados num paraíso turístico, exótico, é enviar um postal aos seus amigos. Para mostrar o exotismo da periferia e os hábitos dos seus habitantes não havia postais. Tive então que me lançar nesse trabalho”.
Um trabalho que durante anos o levou a fotografar os subúrbios norte e sul de Paris, fotografando, entre tantos outros, os talhantes de La Villette, os músicos e frequentadores dos pequenos bistros, cuja confiança e cumplicidade ganhou visita após visita, até se “tornar invisível” como fotógrafo. Era o tempo em que, juntamente com Jacques Prévert e Robert Giraud, deambulava por uma Paris popular, totalmente invisível aos olhos diúrnos. O tempo em que seria convidado a rescindir o seu contrato como fotógrafo industrial das fábricas Renault, em virtude de as suas noites noites serem melhores, e maiores, que os seus dias.
Era o princípio de uma aventura que o levaria, ao longo de cerca de 60 anos, a produzir 450 mil negativos, “falsos testemunhos” - nas palavras do autor - imbuídos de subjectividade e traduzindo um estilo muito próprio.
“Quando vou a Paris, vou a Paris. Instalo-me, imóvel, num certo endereço e fico à espera que qualquer coisa venha na minha direcção”, declarou Doisneau sobre a sua metodologia. “Não sou um caçador, sou um pescador de imagens. O meu trabalho consiste em lançar o isco e esperar que o mordam”. Claramente assim foi no trabalho que realizou, em 1948, “Chez Romy”, quando ocultamente instalado no interior, máquina fotográfica apontada aos rostos dos traseuntes, registou as suas surpreendentes reações à exibição de um nu feminino na montra da loja.
Eternamente ligado a uma certa candura do olhar, embora tratando realidades profundas, Doisneau será para sempre recordado como o autor de imagens doces e poéticas, tradudoras de um mundo humanizado. “O mundo que tentei mostrar era um mundo onde eu me teria sentido bem, onde as pessoas seriam amáveis e eu encontraria a ternura que desejo receber”. Um mundo de homens livres, traduzidos numa Paris em liberdade que parece hoje tão difícil de fotografar.

(artigo publicado na "Magazine Artes" de Fevereiro 2007)