José David


Auto-retrato em permanente mutação

Há 38 anos que José David reside em Paris onde, lenta e discretamente, tem vindo a desenvolver a sua obra de pintura.
Após ter recentemente exposto na Fundação Calouste Gulbenkian, em Paris, prepara agora duas exposições individuais em Lisboa. Três excelentes razões para uma luminosa visita ao seu atelier de artista, na histórica zona de Montparnasse.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Quando às nove horas da manhã o atelier de José David se enche da exuberante luz natural que desponta na rua, já o madrugador pintor labora há mais de duas horas. Ajoelhado no chão, com as mãos cuidadosamente revestidas com luvas de latex, trabalha, com a esponja, um dos seus múltiplos auto-retratos de costas. Depois, com a habilmente manejada espátula, talha o papel manufacturado, dispersando pequenas aparas pelo chão, lascas cujos sucalcos serão mais tarde afagados, com mestria, por uma fina lixa até à sua preciosa finalização.
No atelier de José David há tudo o que se pode esperar de um atelier de artista – pincéis e tintas de óleo sobre a mesa, telas prontas a estrear, obras inacabadas entre outras que parecem concluídas, catálogos do autor e algumas obras de referência, tudo iluminado pelo sol que timidamente atravessa as suas enormes vidraças viradas a norte. Mas no espaço de trabalho de José David há sobretudo lugar cativo para a esponja, o esfregão, o trapo, a espátula, a lixa e as folhas de papel torchon de várias dimensões, companheiros inseparáveis das suas mãos, e em muito responsáveis pela organicidade dos seus mais recentes trabalhos.
Quando há sete anos José David iniciou uma nova abordagem dos seus auto-retratos - temática que o acompanha desde a adolescência, embora hoje totalmente livre das suas iniciais referências ilustrativas -, estava longe de imaginar que o seu processo criativo o conduziria ao seu trabalho artístico actual. Fruto de um longo percurso em que os auto-retratos frontais cederam lugar, primeiro aos auto-retratos de costas – “materializando uma presença que eliminava o lado expressivo, ficando apenas uma forma, uma tensão, qualquer coisa que tem uma vida e que dá vontade de ir ver o que se passa pela frente”-, depois a uma multiplicidade de rostos fraccionados em pequenas telas, “onde apenas se revelavam pormenores da cara”, até finalmente “chegar ao actual trabalho de papel em o seu rosto serve como ponto da partida mas em que não se procura representar”.
Sobre o seu trabalho mais recente revela, parafraseando um amigo, que “o mais interessante é sentir a memória”, tradução de um inconsciente individual mas também clara alusão “à história da pintura onde, desde os frescos à escultura, figuram caras destas, intemporais”.
Na obra de José David existe, além de uma clara dimensão biográfica que espelha as suas origens ribatejanas - traduzida em algumas das outras temáticas abordadas como o retrato da mãe ou o recorrente touro, reminiscência das lezírias ribatejanas, de um pai que fora forcado ou do forte desejo de infância de ser toureiro - , uma vertente que, assente na sua permanente insatisfação criativa, o leva a retrabalhar muitas das suas obras, transformando-as profundamente, ao ponto de não ser reconhecível a imagem que esteve na sua origem. Através de processos aditivos, onde as camadas de tinta se sobrepõem cumulativamente, criando texturas tridimensionais, ou através de processos subtrativos, onde o papel arrancado encontra novos níveis subterrâneos em cada rasgão, a obra de José David abre espaço “ao acidente na construção” e constitui-se sobretudo como um ensaio sobre a transformação e a mudança - alicerces fundamentais da procura de “um ponto de verdade” que sustente as suas obras.
Para o pintor que, à imagem da filosofia Zen, acredita sobretudo “ser o caminho que conta e não o fim”, sacrificar algumas das suas pinturas e “destruir quadros de que às vezes se arrepende”, é inevitável e “faz parte de si”, não obstante isso poder por vezes significar “desfazer trabalho do qual muita gente gostava”.
Acreditando profundamente que na pintura “o factor surpresa não é suficiente” e que a obra tem que ser sustentada por um conteúdo forte pois “não há surpresas perpétuas que garantam uma obra”, José David trabalha diária e afincadamente no seu luminoso atelier de Montparnasse, concentrando-se actualmente nos rostos e paisagens que, no próximo mês de Maio, nos surpreenderão na Galeria Diferença e na Cidi Arte Galeria, em Lisboa.

(artigo publicado na "Magazine Artes" de Fevereiro 2007)