Leonardo Da Vinci, o magnífico

Pensamento em papel

Expoente máximo do Homem Renascentista, Leonardo Da Vinci foi muito mais do que um artista genial. A sua aguçada curiosidade e brilhante mente conduziram-no à produção de estudos em áreas tão diversas como a arquitectura, botânica, anatomia, engenharia, geometria, matemática, música e pintura.
É a alguns desses estudos, meticulamente anotados por Leonardo em milhares de pequenas folhas de papel, que dedica agora o Victoria & Albert Museum, em Londres, a exposição “Experience, Experiment and Design” - uma extraordinária experiência que nos auxilia a desvendar o processo intelectual de um dos maiores génios da humanidade.

Texto de Susana Paiva


No livro de registos de St. Florentin, na localidade de Amboise, França, há uma entrada, no dia 12 de Agosto de 1519, com a seguinte inscrição: “No claustro desta igreja foi sepultado o Sr. Leonardo Da Vinci, nobre Milanês, primeiro pintor, engenheiro e arquitecto do Rei, mecânico do Reino e em tempos chefe dos pintores do Duque de Milão”. Era assim que, à data da sua morte, Da Vinci era distintamente considerado em França, país em que viveu, ao serviço do Rei Francis I, durante os 3 últimos anos da sua vida. Hoje, quase cinco séculos volvidos, conscientes da sua importância nos vários domínios da artes e do saber, teríamos inegavelmente que acrescentar ao seu obituário muitas outras actividades e competências.
Leonardo Da Vinci, em plena Renascença, havia já, empiricamente, antecipado a relação entre arte e ciência e é mais do que justo que, dada toda a sua vida dedicada à auto-aprendizagem e transmissão de conhecimentos, figure actualmente como um dos mais ilustres intelectos da humanidade. Hoje, em pleno coração do South Kensignton Londrino, em Exhibition Road - uma das mais afamadas artérias da cidade no que concerne instituições científicas e culturais, Leonardo volta a demonstrar todo o brilhantismo e pluridisciplinaridade do seu pensamento através da exposição de alguns dos seus apontamentos e códices.
Apresentada como uma exposição “sobre como Leonardo pensava em papel”, a pequena sala que o museu dedicou à exposição atrai diariamente, desde a sua abertura no passado mês de Setembro, milhares de visitantes que aguardam pacientemente para ingressar na sala de exposições temporárias. Aí, num ambiente deliberadade escurecido, valorizando as vitrinas que albergam os manunscritos de Da Vinci, em dezenas de pequenos pedaços de papel - frequentemente menores do que o formato A4 -, se vislumbram, numa caligrafia muito miudinha, os imensos estudos que Leonardo realizou durante toda a sua vida.
Organizada em quatro grandes núcleos temáticos, a exposição aborda vectores transversais das notas de Da Vinci – a observação, os estudos comparados, as forças e a construção de mecanismos. Para Leonardo a visão era “o mais nobre e fiável sentido”, providenciando acesso “à experiência” e mostrando-nos como a natureza funcionava de acordo com regras matemáticas.
Num dos estudos onde Leonardo mostra, por analogia com uma cebola, as menbranas que cobrem o olho e o cérebro, a fila organizada de visitantes, deslizando ao longo das vitrinas, abranda por algum tempo e duas inglesas de meia-idade não resistem a exclamar “espantoso, espantoso! Realmente muito engenhoso”. É uma pequena multidão silenciosa a que se encontra dentro da sala, fascinada com o universo de Da Vinci. Alguns visitantes, mais cansados pela longa espera na fruição total dos documentos, optam por se sentar e observar a projecção, em multiplos ecrãs, das animações que a equipa da Cosgrove Hall Films produziu, deliberadamente, para a exposição, a apartir dos desenhos de Leonardo Da Vinci.Graças à tecnologia é agora mais fácil ao público compreender os estudos de Leonardo sobre a quadratura do círculo – um dos seus desenhos mais conhecidos, onde um homem com os braços esticados e penas abertas se consegue simultaneamente inscrever dentro de um círculo e de um quadrado, tal como defendida anteriormente pelo arquitecto romano Vitruvius,. Sobre este estudo anotou Leonardo, lateralmente ao 3º diagrama, – “Tendo durante muito tempo procurado o quadrado no ângulo de duas curvas iguais (…) agora, no ano de 1509, na véspera do calendário de Maio (dia 30 de Abril), encontrei a solução à 22ª hora deste domingo”.
Plenas de observações paralelas e de casos singulares que demonstram bem a forma particular como Leonardo utilizava o papel para registo do seu pensamento, algumas das folhas patentes a público constituem-se como verdadeiras obras plásticas. Em “ Estudos sobre a luz, o olho humano e um homem martelando”, datada por volta de 1508, Leonardo utiliza uma folha de papel invulgarmente grande para desenvolver estudos sobre a transmissão da luz e a produção de sombras, dobrando a folha duas vezes e tratando-a como se de um caderno de oito páginas se tratasse, apesar de a mesma conter já um desenho anteriormente realizado por um aluno seu. O resultado não poderia ser plasticamente mais espantoso, com os esquemas de Leonardo, traçados a carvão, a atravessarem o espaço que antes fora ocupado pelo desenho colorido de um homem de cócoras.
Entre os seus estudos recorrentes encontra-se o estudo da reflexão da luz na água, como prolongamento do seu interesse inicial nas reflexões de luz obtidas na superficie de espelhos curvos, um assunto que o interessava duplamente, como pintor e cientista, ancorado no desejo de compreender os efeitos da luz reflectida nas superfícies da terra e da lua.
Devirsas vezes, ao longo dos seus estudos, defendeu que “para analisar funções complexas era necessário, cumulativamente, ilustrar e descrever”, razão pela qual os seus manuscritos se encontram plenos de pequenas ilustrações que acompanham as descrições das suas observações e experiências.
Em muitos dos seus manuscritos se encontram ainda observações e desenhos sobre o voo dos pássaros, actividade que o fascinava por si mesmo tanto quanto como chave para a construção da sua máquina de voo, cuja réplica, recentemente construída e testada, o Victoria & Albert Museum decidiu instalar, junto às bilheteiras, no seu átrio principal.
Com um grande fascínio também pelo movimento humano, Leonardo desenhou insistentemente a figura humana em acção, tentando descortinar os mecanismos dos seus movimentos e a deslocação do seu centro de gravidade. A mestria do seu desenho, aprendida, durante a sua adolescência, no atelier de Andrea Verrocchio, em Florença, e mais tarde largamente consagrada em obras de pintura como “ A última Ceia” e “Mona Lisa”, acompanhou Leonardo durante toda a vida e foi uma extraordinária ferramenta para as suas restantes actividades. As 57 anos, dez anos antes de falecer, após ter desenvolvido múltiplos projectos de engenharia, Leonardo aplica a sua genialidade a desenvolver uma cenografia teatral para o espectáculo “Orpheus” de Angelo Poliziano, onde um mecanismo por si inventado permitia que, em cena, uma montanha se abrisse e desvendasse Hades, o Deus das profundezas.
A sua paixão pelas Artes, e as suas capacidades enquanto músico, levaram-no ainda a desenvolver estudos de concepção de diversos instrumentos musicais, sobretudo de percursão. Em 1510, realiza estudos sobre a língua e os lábios, estabelecendo uma tabela comparativa entre sons e geometria. Nesse estudo Leonardo contabiliza 24 músculos na língua que permitem a sua extraordinária flexibilidade e, em jeito de conclusão, anota “Apesar do engenho humano, através de diversas invenções e instrumentos almejando o mesmo fim, nunca se desenvolverá uma invenção mais bela, mais funcional ou sucinta do que faz a natureza, pois nas suas invenções nada falta ou é superfluo”.

Exposição patente a público até dia 7 de Janeiro no Victoria & Albert Museum, em Londres

(Texto publicado na edição de Janeiro 2007 da revista "Magazine Artes")

Hugo Canoilas

"Diásporas"
Hugo Canoilas

Redimensionar o humano

Aos 29 anos, quatro dos quais passados fora de Portugal, Hugo Canoilas é um dos mais surpreendentes e interessantes artistas da sua geração. Na sua obra, expressa em múltiplos media, há uma rebeldia, um inconformismo e um desejo de liberdade que espelham bem a sua criatividade e generosidade enquanto artista. Um artista completo que, recorrendo à pintura, escultura, vídeo, fotografia, instalação ou performance, cria territórios e novas espacialidades nos quais repensar o humano é epicentro.

Texto de Susana Paiva

Foi o desejo de mudança que, em 2003, levou Hugo a deixar Portugal e a instalar-se em Budapeste onde viveu durante 8 meses. Foi ainda esse perpétuo desejo que o fez seguidamente rumar a Londres onde ainda hoje reside. Nesta diáspora encontrou a “situação privilegiada, uma distância que ajuda ao pensamento crítico”, um “distanciamento e simultâneo envolvimento” que o obrigou a crescer enquanto homem e artista.
Em Londres, onde, no Royal College of Arts, concluiu um mestrado em Fine Arts, deparou-se com uma cidade dura onde “as coisas da vida real são as mais difíceis”. Um novo universo vivencial e criativo que despertou em si “uma adrenalina natural” que faz parecer “muitos outros sítios lentos e confortáveis”. Foi nesta cidade que sentiu a urgência de, repensando o binómio capitalismo/democracia, acordar o seu “lado político” traduzido na busca artística de um “grão de humanidade”.
Flâneur incansável, Hugo transformou as ruas de Londres numa extensão do seu atelier, um espaço em permanente movimento onde urge “redimensionar o humano”.
Com trabalhos entre abstração e figuração, já viu o seu trabalho definido como pós-minimalista, embora o desejo de não ser catalogado continue mais forte do que o de encontrar uma categoria onde se insira. Recorrentemente, e de uma forma quase desconcertante, não hesita em quebrar a imagem que o público faz da sua obra e em arriscar nova formas e estilos de expressão. Reinvidica, com grande mestria, o direito ao ócio - por oposição ao negócio - lutando por uma liberdade de reflexão e expressão que lhe permita “continuar a fazer aquilo que mais gosta”, o “chegar à essência”, numa permanente valorização das qualidades poéticas e políticas das suas obras.
Valorizando o processo de trabalho conducente à produção da obra, confessa “trabalhar até encontar uma evidência” e está convicto de que “cada trabalho que faz molda a forma de fazer o seguinte”.
Das raízes portuguesas herdou um forte sistema de valores que o levam, recorrentemente, a exaltar o valor do trabalho, que nunca o assusta, e a apreciar a mãe terra, com a qual possui uma forte ligação.
Admite ser influenciado pela corrente existencialista, citando frequentemente Fernando Pessoa, e afirmando “encontrar na reflexão do eu o espaço priveligiado para encontrar o outro”. Entre os seus desafios diários encontra-se a luta para “tentar fugir aos limites do seu eu”, assente numa constante necessidade de reinvenção e de contribuição, à sua escala, para a mudança de um sistema artístico onde “se deixou de dar espaço à falha e onde havendo falha se morre.”
Apesar de ter já trabalhado com diversas galerias, optou, conscientemente, por assumir o risco do exercício de uma liberdade que lhe permite agora sonhar com uma “comunidade de independentes” ou com uma relação de confiança total entre o artista e os seus representantes. Um certo “acto de fé” que Hugo preconiza no seu trabalho e deseja projectar na relação com o outro.
Enfatizando a relação humana, Hugo Canoilas pretende criar uma relação excepcional com o outro - esse que “ao ser diferente dá razão à indivualidade do seu ser” -, defendendo a prática da arte como intensificadora da vida, vida essa que modela a Arte que pratica.
Aprendeu, com o tempo, a saborear aquilo que faz e a distanciar-se daquilo a que chama o “pintor macaco” – um virtuoso da técnica que se dedica a mostrar as suas habilidades na pintura. Não obstante a sua formação de base, em pintura e artes plásticas na Escola Superior de Arte e Design nas Caldas da Rainha, a obra de Hugo Canoilas há muito ultrapassou o media da pintura, espalhando-se livre e caleidoscopicamente através da escultura, fotografia, vídeo, instalação e performance, tão à imagem das imprevisíveis sonoridades dos discos de free jazz que o acompanham diariamente.
É ao som de “Beauty is a rare thing” e de “A Love Supreme”, dos essenciais Ornette Coleman e John Coltrane, que Hugo prepara agora os seus três próximos trabalhos, encomendas que semearão, ainda este mês, obras em Londres e Murcia, e em Março próximo, aquela que Hugo refere como sendo “ a maior responsabilidade que teve até ao momento”, no Frankfurter Kunstverein, na Alemanha.
Foi no passado mês de Outubro, na “Workplace Gallery” em Newcastle, que Hugo apresentou a público “Propaganda”, a sua última exposição cruzando o “formal e o político”, onde uma série de murais, “herdeiros de um certo realismo social” - aos quais “retirou a mensagem política, mantendo o lado formal das pinturas”, aproximando-as assim das suas pinturas abstractas - se conjugavam com peças herdadas de uma certa minimal art. Uma experiência extraordinariamente gratificante, que marcou uma nova étapa no seu trabalho, e que, ao longo de 3 semanas de instalação in situ, revelou a Hugo Canoilas um companheirismo e solidariedade por parte de jovens artistas locais que voluntariamente o ajudaram a montar a exposição. Tudo boas razões para, ao ver o olhar feliz do Hugo, exclamar “És um Humanista” e ele, gentil com sempre, responder “Pois sou!”.

(texto publicado na edição de Janeiro 2007 da "Magazine Artes")

Margarida Guia

Um pequeno universo de enorme poesia

O universo musical de Margarida Guia é como uma das pequenas caixas de música que ela tão frequentemente utiliza nos espectáculos – uma extraordinária caixa de ressonância, onde a madeira se tornou corpo e as notas musicais foram substituídas por vogais e consoantes.
Há nesse pequeno grande instrumento, que é a sua voz, toda a poesia universal do quotidiano, cruzada com as palavras dos poetas e autores que ela tanto aprecia. De Samuel Beckett bebeu a mestria da pausa, respiração entrecortada, entre silêncio e palavra. Do Jazz herdou uma extraordinária capacidade de escuta e improvisação, a fórmula ideal para fazer aquilo que mais gosta – tomar a voz dos outros e, entre sussurro e canção de embalar improvisada, devolve-la a todos nós.

Paris, Dezembro 2006
Susana Paiva

“L’écho de mon corps répété dans le battement d’une aile murmurante” de Carlos Zingaro e Francis Plisson

Um corpo é um instrumento que dança

Há nos minutos iniciais do espectáculo “L’écho de mon corps répété dans le battement d’une aile murmurante” todos os ingredientes que atestam o sucesso da frutífera colaboração artística entre Francis Plisson e Carlos Zíngaro, resultante de uma residência artística realizada no Le Petit Faucheux, em Tours, entre Setembro e Novembro 2006. Onde outrora habitaram, separadamente, movimento e som, mora agora, em perfeita sintonia, um único e virtuoso instrumento em palco - o corpo que dança. Um corpo oscilando entre sonho e realidade, entre desejo e fantasia, cuja imobildade silenciosa Carlos Zíngaro, movimento a movimento, amplifica, controla, dirige e transforma, criando distintos universos que cruzam o onírico e o concreto. Um trabalho invisível para que quando, perante os olhos dos espectadores, a primeira luz invadir o palco, os passos e movimentos de Francis Plisson sejam já, surpreendentemente e como que por magia, areia e vento, acalmia e tempestade.
Um espectáculo extraordinariamente poético, construído com rara sensibilidade e clara maturidade dos seus intervenientes, que merece, sem sombra de dúvida, múltiplas revistações já que, abrindo espaço à improvisação, sonho e viagem interior ali jamais se repetem.

Paris, Dezembro 2006
Susana Paiva