Flor Garduno

Entre a Terra e o Céu

Céu e Terra, Sagrado e Profano, Intimidade e Exposição - são estas as pedras basilares da obra de Flor Garduño.
Herdeira da tradição do seu conterrâneo Manuel Alvarez Bravo, e da sua capacidade de captar o sonho enquanto obra do homem acordado, Flor Garduño cria, com as suas imagens, “momentos suspensos de grande densidade, onde sentimos a intersecção de diferentes planos temporais e uma voz que está para lá de todas as medidas”.

Fotografias de Flor Garduño
Texto de Susana Paiva

Frequentemente descrita como “fotógrafa poética”, Flor Garduño tem o extraordinário poder de, quer seja através das suas imagens dos indígenas americanos ou dos seus nus simbólicos e das suas naturezas mortas, criar pontes que nos conduzem, entre os mundos do sagrado e do profano, numa improvável cartografia temporal que o escritor Carlos Fuentes tão bem descreveu como “o retrato móvel da eternidade” .
Outrora assistente do mestre mexicano Manuel Alvarez Bravo, Flor Garduño cedo encontrou, no seu próprio Olhar, a liberdade artística que, durante os anos 80, a levou a percorrer zonas remotas da América Latina captando a vida e os rituais dos povos indígenas. Daí resultou “Witnesses of Time” - o seu livro internacionalmente aclamado, editado em sete países durante o ano de 1992.
Nesses “testemunhos”, Flor Garduño habituou-nos às suas pesquisas e deambulações por “interstícios do tempo longo onde se anicham os medos da morte e de esperança de ressurreição” , espaços-tempo onde se revelam a sobrevivência de crenças mais velhas que a ocupação europeia e a difusão do cristianismo nas Américas.
Depois, com a maternidade, a fotógrafa decidiu interromper os seus trabalhos de exterior. Voltou-se para a casa, - “essa ferramenta interior que tem um espaço e um tempo muito próprios” -, onde faz agora fotografia.
Mas, não obstante a mudança de cenário, é ainda “da fronteira indefinível que separa e integra o sagrado e o profano que tratam as novas imagens de Flor Garduño. Porque, bem o sabemos, de uma prática rara de alguns momentos diferentes, que esses dois mundos se tocam e entrecruzam”, escreve Teresa Siza, no prefácio de “Flor”, versão europeia de “Inner Light”, última publicação da fotógrafa mexicana.
Reflectindo uma nova forma de estar, e um novo espaço de acção, o último trabalho de Flor Garduño dá-nos a certeza de ser este apenas um novo capítulo dos seus motivos principais. “A temática é, ainda, a ritualística da relação com o sagrado, agora centrada no intercâmbio dos signos da tradição mágica e mítica com o corpo da mulher”, revela Teresa Siza, directora do Centro Português de Fotografia.
É agora no corpo da mulher, “associado a um sinal de posse ou de passagem a um dos objectos que, ao longo dos tempos e das civilizações mais tem perdurado como receptáculo de um sagrado qualquer”, que se encontra o epicentro do seu trabalho.
“Sujeito simultaneamente ao profano, o corpo do homem arrisca-se a ser destruído com a proximidade do sagrado. Porque o sagrado representa uma energia perigosa, temível, que envolve o "pneuma", essa respiração que fala e que é o corpo.
Mas não para a mulher, ser que escapa, desde a mais primitiva das sociedades, às regras que controlam o dom, o corpo colectivo e a organização social.
A mulher é, pois, o elemento de equilíbrio, de ligação entre os grupos, mas, também, o elemento estranho, diferente - a ara e não o corpo, o local ou agente de sacrifício e não a vítima. O homem, esse sim, é ser-para-a-morte; a mulher é ser-para-a-vida. Esse foi o sentimento desde a primitividade da cultura”, explica Teresa Siza.
Nas imagens de Flor Garduño se define um sentido que não é histórico nem de causa-efeito. Os signos, encontrados no substracto de muitas culturas, apontam para a presença desse corpo onde as respostas se procuram e se devolvem enigmas.
“Neste percurso labiríntico pelos signos da fertilidade e do poder feminino, atravessado pelo elemento de função catalizadora, - o símbolo fálico, peixe, espada, feixe de luz - , não é com a realidade da presença dos mitos que nos confrontamos, mas com o esplendor do corpo e da concepção. Por isso mesmo as flores - símbolos sexuais -, os frutos férteis, esse peixe das profundidades, cuja função e forma são as de cortar a água da vida”, conclui Teresa Siza.
As imagens de Flor Garduño “são herdeiras de sentidos dispersos, havendo nelas uma depuração da natureza dos mitos, que aqui se fazem música e bailado” , como tão bem revela a majestosa fotografia da “Árvore da Vida” - uma esplendorosa árvore, criadora de vida e movimento, que parece surgir da vastidão de um deserto.
E parafraseando Teresa Siza, reforçamos a ideia inicial de Carlos Fuentes reveladora do fulcro da obra de Garduño. “Mas é com o domínio do tempo que a fotógrafa introduz a ruptura. São momentos suspensos de grande densidade, onde sentimos a intersecção de diferentes planos temporais e uma voz que está para lá de todas as medidas”.


Bibliografia

2002 INNER LIGHT editado por Bulfinch Press New York/Boston EUA
FLOR (versão europeia de INNER LIGHT) editado por:
Lunwerg, Madrid/Espanha (espanhol)
Peliti Associati, Roma/Itália (italiano)
Braus, Heidelberg/Alemanha (alemão)

2001 Reedição de WITNESSES OF TIME pela APERTURE, New York, EUA (versão inglesa e espanhola)

1996 MUMMENSCHANZ, Tobler Verlag, Altstätten, Suiça

1994 MESTEÑOS, Schellenberger, Frauenfeld, Suiça

1992 WITNESSES OF TIME, Prólogo de Carlos Fuentes
editado por:
Braus, Heidelberg/Alemanha
Thames and Hudson Ltd. London/Inglaterra
Thames and Hudson Inc. New York/EUA
Motta Editore, Milano/Itália
Redacta SA, Mécixo D.F./México
Helvetas, Zurich/Suiça
Arthaud, Paris/França

1992 Monografia publicada pela revista DU, Zurich/Suiça (Janeiro)

1987 BESTIARIUM, U. Bär Verlag, Zurich/Suiça (alemão)
Edizione Argentum, Stabio/Suiça (espanhol)

1985 MAGIA DEL JUEGO ETERNO, Ed. Juchachi' Reya, Juchitán, Oax., México

(publicado no "Dna")

Ao centro o Jazz

Após anos de difícil visibilidade o Jazz parece ter finalmente chegado a todo o país. De norte a sul o Jazz vai somando público, dividido entre festivais - internacionais e nacionais - concertos esporádicos e edições discográficas.
Certamente ainda muito estará por fazer no que diz respeito à divulgação do Jazz mas já não faltam muitas e boas razões para celebrar o Jazz em território nacional. Nem mesmo uma revista da especialidade.

Fotografias* e texto de Susana Paiva
*fotografias da 1ª e 2ª edição do Festival "Jazz ao Centro", em Coimbra


“A música que tocamos procede da tradição da vida e dos seres vivos. Ela inspira-se e pode ser inspirada por tudo o que vive ou viveu. Esta música é do planeta, ela utiliza fundamentos musicais vindos de todo o mundo: África, Ásia, Austrália, Europa, América do Norte ou do Sul” (…)
William Parker


Nascido do blues, das canções de trabalho dos trabalhadores negros norte-americanos, do espiritual negro e do ragtime, o jazz passou por uma extraordinária sucessão de transformações no decurso do século XX.
A designação Jazz começou a ser usada, no final dos anos 10 e início dos anos 20, para descrever um tipo de música que, na época, surgia em New Orleans, Chicago e New York. "Seus expoentes são considerados "oficialmente" os primeiros músicos de jazz: a Original Dixieland Jass Band do cornetista Nick LaRocca, o pianista Jelly Roll Morton (que se auto-denominava "criador do jazz"), o cornetista King Oliver com sua Original Creole Jazz Band, e o clarinetista e sax-sopranista Sidney Bechet. Seguidamente, vamos encontrar em Chicago os trompetistas Louis Armstrong e Bix Beiderbecke, e em New York o histriónico pianista Fats Waller e o pioneiro bandleader Fletcher Henderson. Em 1930 o jazz já possui uma "massa crítica" considerável e já se acham consolidadas várias grandes orquestras, como as Duke Ellington, Count Basie, Cab Calloway e Earl Hines", afirma José Duarte, autor do inolvidável programa radiofónico 'Cinco Minutos de Jazz' que, desde 1966, muito tem contribuído para a divulgação do Jazz em Portugal.
A evolução histórica do jazz, assim como da literatura, artes plásticas e música clássica, segue um padrão de movimento pendular, alternando tendências e frequentemente apontando direcções opostas. "Em meados dos anos 30 surge o primeiro estilo maciçamente popular do jazz, o swing - dançante e palatável - que agradava imensamente às multidões durante a época da guerra. Em 1945 surge um estilo muito mais radical, e que fazia menos concessões ao gosto popular, - o bebop - que seria revisto, radicalizado e ampliado, nos anos 50, com o hard bop. Em resposta à agressividade do bebop e do hard bop, aparece nos anos 50 o cool jazz, com uma proposta intelectualizada que está para o jazz assim como a música de câmara está para a música erudita".
Dominando a década de 50, o cool e o bop são, na década seguinte, destronados pelo free jazz - forma mais que perfeita para atribuir voz às perplexidades e incertezas dos anos 60. No final dos anos 60, ocorre então a inevitável fusão do jazz com o rock "resultando primeiro em obras inovadoras e vigorosas, e posteriormente em pastiches produzidos em série e de gosto duvidoso".
Não obstante a sua polimorfia, um dos aspectos claramente distintivos do Jazz - especialmente da música clássica - é o facto do performer de jazz ser primariamente um criativo, um improvisador - não raras vezes revelando-se como o seu próprio compositor - enquanto na música clássica, tradicionalmente, o performer se limita a interpretar e expressar as composições de outrém.
Hoje em dia parece existir espaço para cultivar todos os géneros de jazz, desde o dixieland até o experimentalismo free, desde os velhos e populares standards até às mais ambiciosas composições originais para grandes formações. A comprová-lo estão os festivais nacionais que, ao longo de todo o ano, de norte a sul, vão apresentando uma muito diversificada programação. A um roteiro outrora centrado, maioritariamente, em Lisboa e Porto, juntam-se agora muitos outros destinos - rotas dinamizadas por novos entusiatas, que semeam o Jazz por localidades como Coimbra, Cantanhede, Montemor-o-Velho, Aveiro,Tondela, Viseu, Seia, Matosinhos, Braga e Portalegre, entre outras.
"Mas qual seria o estilo de jazz próprio dos dias de hoje?" interroga-se José Duarte, confrontado com o renovado interesse por esta sua tão amada área. "Talvez o jazz feito com instrumentos electrónicos - samplers e sequenciadores - num cruzamento com o tecno e o drum´n´bass".
E, "se esse jazz possui a consistência para não se dissolver como tantos outros modismos, só o tempo dirá", conclui José Duarte.

“Cada um possui um sentido pessoal de ritmo e de tempo. Isso aplica-se à maneira de nos mexermos, agirmos e reagir aos acontecimentos, a forma como falamos, andamos, piscamos o olho. Um ritmo reside lá, dentro de cada gesto de existência.
As funções secundárias do ritmo são a melodia e a harmonia.
No nosso coração que bate, há uma canção e uma figura rítmica. A função principal do coração é o de bombear o sangue. O som que o sangue faz ao ser bombeado é acessório em relação ao bombeamento propriamente dito. Mostrar-se vivo é escutar a música por todo o lado. A vida é som e o som é vida. (…)
A música criativa é toda a música que se reproduz durante uma actuação e origina uma entidade viva maior do que a sua origem”
William Parker


Qualquer tentativa de operacionalizar uma definição precisa do Jazz será provavelmente inútil. Desde o seu surgimento, até ao virar do século XX, o Jazz tem se revelado uma forma musical em constante evolução e expansão que impossibilita adjectivações e predicados definitivos.
Já muito se escreveu sobre a dificuldade de se definir o Jazz. Uma certa corrente de pensamento afirma mesmo que o Jazz não é tanto o que se toca, mas, sobretudo, a forma como se toca. "De qualquer modo, parece consensual que dois elementos são absolutamente necessários numa performance de jazz - o swing e a improvisação".
Nenhuma apresentação ou gravação de jazz está completa se não contiver algum trecho improvisado. "Uma peça de jazz totalmente escrita e fixada na partitura é uma contradição - o que, diga-se de passagem, indica que peças como a "Suíte para Flauta e Piano de Jazz", de Claude Bolling, embora muito agradáveis de se ouvir, não são propriamente jazz", afirma José Duarte.
Fazer jazz significa assumir um risco - o risco de se confrontar com o silêncio e preenchê-lo com um discurso inédito e próprio, o risco de ser um "compositor instantâneo", como dizia Charles Mingus.

(…) A composição é um enunciado musical com um princípio, um meio e um fim. Uma composição pode durar dez segundos, dois minutos ou seis horas. Ela pode ser escrita previamente ou enquanto é tocada.
A improvisação é a organização dos sons que não assenta sobre uma notação musical preestabelecida, uma música tocada espontaneamente e sem pensamentos preestabelecido, respondendo intuitivamente aos sons, segundo após segundo”
William Parker


O conceito de improvisação, em si mesmo, não apresenta grandes dificuldades de compreensão, embora exija longos anos de dedicação para ser posto em prática. "Trata-se de tecer - em tempo real, no exacto momento em que se está tocando - variações em torno de algo que serve de base: a linha de uma canção que serve de tema, uma sequência de acordes, alguns intervalos melódicos, uma tonalidade".
As variações têm uma longa tradição na música clássica ocidental. Grandes compositores escreveram ciclos de variações, explorando até o limite o potencial dos seus temas.
Já na Renascença era habitual tomar como tema uma canção popular e, sobre ela, fazer variações. "Isto era chamado na Inglaterra de divisions on grounds e na Espanha de diferencias sobre bajos ostinados", resume José Duarte.
Assim como as variações, a improvisação não é uma invenção moderna. "Bach era um improvisador de mão-cheia. Na Renascença já havia o costume de se apresentar peças de caráter improvisatório e de forma totalmente livre, denominadas fantasias, nas quais o executante dava largas à sua imaginação". Muitas dessas fantasias e colecções de variações foram registradas em partitura, sendo assim possível, depois de séculos, e ainda que sem a espontaneidade do momento, reviver e apreciar as "jam sessions" de outrora.

“O swing é um gesto afirmativo da vida: um pássaro cantando numa árvore, um recém nascido, uma criança brincando na rua. Todas as plantas verdes “swingam”. Os salmões “swingam”. O swing não é uma questão de música. O swing está ligado ao restabelecimento da humanidade. (…)”
William Parker

Definir o swing é algo muito mais difícil. Parafraseando Louis Armstrong quando questionado sobre o que significava swing - " Se tem que perguntar nunca saberá"…
O swing trata-se "de algo que engloba o fraseado, o ritmo, o ataque das notas. O swing não se escreve numa partitura, por mais detalhada e precisa que seja a sua notação". A definição dada por André Francis, no seu livro Jazz, é bastante interessante: "tocar com swing, swingar, significa trazer à execução de uma peça um certo estado rítmico que determine a sobreposição de uma tensão e de um relaxamento". Esta é a dialética do swing - dar flexibilidade a um ritmo, dar "balanço" a uma frase, e contudo manter a precisão, preservar o foco da música, evitando que ela perca o caráter incisivo.


"O que é o free jazz?
É um movimento para libertar o jazz das suas grades, do seu nome e da sua situação? Quererá dizer que o público entra gratuitamente? Ou que os músicos tocam gratuitamente? (…)
O conceito de improvisador/compositor na música que foi chamada de jazz de vanguarda, free jazz, nova música, música Negra, etc.., é um conceito evolutivo que varia consoante os músicos. Perguntar que nome atribuir é uma maneira de desviar a atenção - como a questão “o que é o Jazz?”
William Parker

Nascido sob a égide de Coimbra Capital Nacional da Cultura 2003, o Festival Jazz ao Centro - uma das estruturas que, nos últimos anos, mais tem dinamizado o Jazz em Portugal - não parece temer o nefasto efeito que o termo "free jazz" produz junto de algum público.
Sendo um género caracterizado pela ausência de regras, onde os músicos, não seguindo uma estrutura harmónica fixa enquanto improvisam, vão modelando à sua livre vontade, o free jazz poderá parecer, a um público menos esclarecido, uma forma musical anárquica e por vezes caótica. Mas justiça seja feita, quer seja em virtude da inegável qualidade da programação ou da desconstrução do mito do Jazz ao Centro como um festival free jazz, a verdade é que o evento tem vindo progressivamente a conquistar uma crescente e fiel audiência que, não só acorre aos seus excelentes concertos, como também participa nas restantes actividades programadas no âmbito do Festival.
Umas das actividades que mais entusiástico acolhimento tem vindo a merecer, por parte do público e dos próprios músicos, são as jam sessions que ocorrem em vários bares ou clubes da cidade, após realização dos concertos, no teatro académico de Gil Vicente.
Definidas por Jean Wagner, no seu livro O guia do Jazz - Iniciação à história e estética do Jazz, como "reuniões de Jazzmen que se juntam pelo prazer de tocar e que improvisam à vontade" as jam sessions são também, não raras vezes, onde "os músicos dão o melhor de si mesmos".
Espelho do caloroso ambiente vivido, na última edição do festival, é o artigo do critico Rui Eduardo Paes, escrito para a revista espanhola Oro Molido - "Na cidade universitária, o jazz ouve-se, toca-se e vive-se de maneira muito especial, e isso ficou exemplarmente demonstrado com a primeira parte dos Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra, decorridos entre 2 e 4 de Junho (a segunda parte está marcada para Novembro). Organizado pelo Jazz ao Centro Clube, um grupo de entusiastas deste género de música que não propriamente uma produtora, com a colaboração da “jazz store” e distribuidora discográfica Trem Azul, o festival não se ficou pelos concertos. Memoráveis foram as “jam sessions” realizadas já a altas horas da madrugada, sobretudo a que teve lugar no Salão Brasil, em pleno bairro “sevilhano” de Coimbra. Alguns dos músicos estrangeiros programados, membros da JACC Workshop Orchestra e instrumentistas locais juntaram-se em improvisações que tiveram o gozo e a empatia musical/humana como resultado, fazendo até com que a numerosa e participativa assistência dançasse. Sim, dançasse; coisa rara numa música que, diz-se, perdeu o “groove”. Ficou provado que é mentira e foi, inclusive, a maior festa do jazz a que já pudemos assistir, com a vantagem para os presentes de saxofonistas, trompetistas, contrabaixistas e bateristas (mais um trombonista, um clarinetista baixo, um guitarrista e uma cantora) tocarem a um palmo de distância. A sessão acabou em apoteose com a intervenção da polícia, chamada pela vizinhança devido ao barulho provocado pelos despiques".
Um final abrupto mas, de certa forma, necessário para quem, acreditando na eternidade do momento, respirou, sentiu e vibrou Jazz durante três dias de absoluta felicidade.

“Um dos principais mal-entendidos reside na ideia duma arte criada para a eternidade. Um trecho musical cria-se nesse instante perpetuo que é a eternidade, ou seja nada mais do que um certo momento. Cada trecho musical encerra em si a verdade. É a interacção do tempo e do espaço".

William Parker


Pequeno glossário para a melhor compreensão de alguns agentes do actual fenómeno Jazz em Portugal

JACC - Jazz ao Centro Clube
Fundado em 30 de Abril de 2003, o JACC, apesar do seu curto historial, apresenta já um vasto trabalho desenvolvido. Exemplo disso são os “Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra – 2003”, que representaram toda a componente Jazz na programação da Coimbra Capital Nacional da Cultura e que, numa prova de resistência e persistência, se tem vindo - divididos em duas temporadas anuais - a repetir desde então.
O sucesso desta iniciativa ultrapassou largamente as expectativas da organização, traduzindo-se numa invulgar adesão de público e excepcional qualidade de programação - facto já devidamente reconhecido nacional e internacionalmente, por um conjunto de críticos e especialistas da área, nomeando-o como um dos melhores festivais de Jazz contemporâneo a nível mundial.
Desde a sua constituição o JACC foi responsável pela organização de mais de 35 concertos, dos quais se destacam o de Steve Lehman - um dos mais promissores saxofonistas da actualidade que, em Coimbra, com o seu “Camoflage Trio” gravou ao vivo o seu último disco -, e um “mega concerto” com “Dave Holland Big Band” que proporcionou, aos cerca de 1500 espectadores, uma noite memorável no “Pateo das Escolas” - recinto central da Universidade de Coimbra. Ainda a destacar a realização da segunda edição dos “Encontros Internacionais de Jazz de Coimbra” com a participação de Tripleplay, Whit Dickey Quartet, Dennis González NY Quartet feat. Oliver Lake, Michael Blake Trio, Adam Lane Quartet, Will Holshouser Trio, Bernardo Sassetti, Spring Heel Jack feat. Wadada Leo Smith, a qual mereceu os mais rasgados elogios.
Além dos espectáculos e da divulgação do Jazz, o JACC, tem apostado também na vertente pedagógica, realizando um conjunto de Workshops com músicos estrangeiros que vêm aos “Encontros”, e proporcionando assim, aos músicos locais e nacionais, a partilha de experiências e um contacto directo com os grandes vultos do Jazz mundial.
Conscientes ainda que existe uma forte necessidade de formação de públicos, o JACC, em colaboração da Direcção Regional da Educação do Centro, promoveu também, em 2003 e 2004, uma iniciativa denominada “O Jazz visita as escolas”, visando sensibilizar os jovens para a audição do Jazz.
No passado mês de Junho o JACC lançou a revista jazz.pt um projecto editorial bimestral, exclusivamente dedicado, como não poderia deixar de ser, ao Jazz.
http://www.jacc.pt


Editora Clean Feed
Fundada em 2001 a Clean Feed - única editora discográfica nacional na área do Jazz - nasceu, segundo os seus fundadores, "da necessidade premente de alterar o cenário cinzento do Jazz Português e de editar alguns dos mais criativos artistas internacionais em projectos singulares ou de cooperação com músicos portugueses".
Muito rapidamente a Clean Feed encontrou-se no "vértice da cena criativa internacional, lançando projectos que alcançaram metas nunca antes sonhadas". Em quatro anos a editora alcançou o impressionante número de 40 edições discográficas, com trabalhos de músicos internacionalmente reconhecidos como Steve Swell, Lou Grassi, Ken Filiano, Roy Campbell, Wilber Morris, Will Holshouser, Bernardo Sassetti, Gerry Hemingway, Ellery Eskelin, Ray Anderson, Carlos Barretto, Kevin Norton, Rodrigo Amado, Zé Eduardo, Carlos Zíngaro, Paul Dunmall, Ken Vandermark, Whit Dickey, e Steve Lehman, entre outros.
Neste momento os seus discos, cuidadosamente produzidos, são distribuídos no Japão, Estados Unidos da América, Alemanha, Reino Unido, Espanha, Itália, Polónia, Bélgica e Suiça enquanto novos artistas, incluindo Michael Blake, Herb Robertson, Joe Morris, Charles Gayle, Rob Brown, Vinny Golia, James Finn, Paul Flaherty, Ravish Momin, Pandelis Karayorgis, Joe Fiedler, Mark Dresser, Bruno Chevillon, Jean-Marc Foltz, George Schuller, Jeff Arnal, Adam Lane e Paal Nilssen-Love, engrossam o seu catálogo.
O seu projecto, orgulhosamente "made in Lisbon", pretende continuar a gravar projectos de Jazz contemporâneo, inovadores, reforçando assim o seu catálogo, internacionalmente reconhecido pela sua qualidade e coerência.
http://www.cleanfeed-records.com/


Trem Azul Jazz Store
Localizada entre o Chiado e o Cais do Sodré, encontra-se a única loja de música portuguesa especializada em Jazz. Instalada num amplo e arquitectonicamente curioso apartamento, a lembrar as estruturas nova-iorquinas, a loja expõe, de forma cuidada, milhares de títulos áudio, bem como alguns títulos dvd. Uma nota especial para os saudosos do vinil que aí poderão encontrar algumas preciosidades jamais editadas em cd.
Além de um sítio muito agradável, onde se pode escutar tranquilamente discos à escolha, em dois postos individuais, o cliente terá sempre a garantia de ser atendido por pessoal especializado, conhecedor e sobretudo apaixonando pelas sonoridades do Jazz.
Frequentemente a Trem Azul Jazz Store apresenta, no seu espaço, exposições ligadas à temática do Jazz bem como pequenos grandes concertos, ao final da tarde. Um espaço a descobrir e a explorar- agora em horário especial de verão, alargado, "enquanto há luz", às quintas e sextas feiras até às 21h30m.

Trem Azul Jazz Store
Rua do Alecrim, 21 A - Lisboa
Aberta de Segunda a Sábado, das 10:00 às 19:30
Horário especial de Verão "Enquanto há Luz há Trem Azul",
às quintas e sextas está aberta até às 21:30
http://www.tremazul.com/

(publicado no "Dna")

Novos caminhos fotográficos do Oriente

Em Londres, duas importantes exposições de Fotografia revelam-nos os novos caminhos da criação contemporânea no Oriente. No Barbican Art Gallery, “Araki: Self. Life. Death” - uma grande retrospectiva de Nobuyoshi Araki, e no Victoria & Albert Museum - “Between Past and Future – new photography and video from China”-, uma colectiva de fotógrafos e videastas Chineses, desvendam-nos olhares que fascinam e surpreendem pelas suas ousadas representações do Corpo.

Texto de Susana Paiva

Um "monstro" chamado Araki
Nobuyoshi Araki é uma verdadeira celebridade no Japão, o seu país natal. Nascido em 1940, em Tóquio - a cidade onde mais fotografou e, que na série "Contacts", definiu como "a cidade com as pessoas mais tristes do mundo" - Araki celebrizou-se nos anos 70, altura em que, verdadeiramente, iniciou a sua frenética criação fotográfica.
Autor de cerca de três centenas de publicações, algumas das quais edições de autor, desde cedo criou polémica em torno da sua obra, sobretudo pela escolha dos seus sujeitos fotográficos.
Definido, por uma das suas modelos, em "Arakimentari" - o documentário dirigido, em 2004, pelo nova-iorquino Travis Klose - como um "monstro, pleno de energia" ou pela cantora Bjork como "a pessoa mais enérgica que já conheceu", Araki deve muito do sucesso, e controvérsia, à sua extrovertida personalidade e singular abordagem fotográfica, inicialmente marcada pela revelação da sua intimidade nos seus "I-novel " e posteriormente materializada em fotografias de exóticos nus femininos, muito dos quais sexualmente explícitos.
Activo criador, numa sociedade intolerante à representação naturalista do corpo, onde a figuração dos órgãos genitais, especialmente dos pêlos púbicos, foi durante décadas estritamente proibida, Araki é hoje apontado como agente de uma verdadeira revolução estética no Japão, sendo um dos maiores responsáveis pelo progressivo esbatimento da fronteira entre arte e pornografia. É também graças ao enorme sucesso do seu trabalho, realizado ao longo das últimas quatro décadas, que é hoje possível visionar as suas fotografias, de natureza sexualmente explícita, em galerias de arte e museus de todo o mundo, permitindo assim alargar o espectro do seu público, anteriormente reduzido a um certo circuito alternativo e mais subterrâneo.
Fotógrafo multifacetado, que nunca se fixa numa só abordagem técnica ou estética - veja-se o exemplo da sistemática utilização da fotografia analógica e digital, do sistema polaroid, do recurso a diferentes formatos das suas câmaras fotográficas, bem como o recurso ao desenho e à pintura nas suas imagens -, Araki não é um fotógrafo de fácil definição. Talvez tenha sido Akiko Miki, curadora no Palais de Tokyo, em Paris, e editora de "Self.Life.Death"- a última obra de Araki, editada para acompanhar a exposição retrospectiva actualmente patente no Barbican Art Gallery - quem melhor traduziu a sua essência - "Araki está constantemente em movimento entre pares e opostos: ficção e facto, sagrado e profano, presença e ausência, arte e obscenidade, passado e futuro, interno e externo, luz e escuridão, positivo e negativo, tradição e inovação, dinamismo e estática, beleza e fealdade, profissionalismo e amadorismo, fotografia e filme, fotografia e literatura, fotografia e arte, campo e cidade, sujeito e objecto, vida e morte. Não há distinção hierárquica no seu trabalho entre fotografia comercial, fotografia pessoal, fotografia criada para parecer pessoal ou qualquer outro tipo de fotografia entre a enorme variedade do que ele cria". Ou, reforçando esta ideia, como se pode ler nas entrelinhas da definição de fotografia, que este criador, auto-intítulado "uma máquina fotográfica para o qual fotografar é apenas uma acção", expressa em "Arakimentari" - "resumindo, a fotografia é sobre um ponto num certo momento, é como parar o tempo, como se tudo ficasse concentrado nesse instante forçado. A fotografia tem um género de realidade que é quase uma ilusão, fotografar torna-nos conscientes disso. Se continuarmos a criar esses "pontos" eles formam uma linha que reflecte a nossa vida. É nisso que, inconscientemente, penso quando disparo o obturador - em juntar esses pontos. A fotografia é vida!". Um bom argumento para nos ajudar a compreender a multiplicidade e heterogeneidade das suas imagens, aplicadas com alfinetes nas imaculadamente brancas paredes da galeria de arte do Barbican - uma viagem pessoal, que nos conduz a destinos inesperados, com paragens do particular ao universal, da extrema poesia à dita pornografia.

Uma encruzilhada artística entre passado e futuro
A arquitectura da exposição “Between Past and Future – new photography and video from China” contrasta glamourosamente com o classicismo do edifício do Victoria & Albert Museum. Num ambiente de baixa luz, justificado por questões de boa visualização das múltiplas projecções vídeo, só os néons amarelo e brancos, que anunciam o título e os quatro núcleos da exposição – “História e Memória”, “Re-imaginando o Corpo”, “Pessoas e Lugares” e “Performing o Self” -, quebram o cinza escuro de onde emergem, nas três salas, os espessos perfis de madeira das caixas que abrigam as cerca de 60 obras dos 40 artistas representados.
Relativamente desconhecida na Europa, a criação fotográfica e videográfica contemporânea Chinesa, tem suscitado a curiosidade dos criadores e público em geral que, dia após dia, continuam a acorrer à sala de exposições temporárias do Victoria & Albert, assim como às actividades paralelas organizadas em seu torno.
No evento “China Live - Friday late night” que abriu, gratuitamente, as portas do Museu até às 22 horas, galerias, átrios e anfiteatro do V&A transformaram-se para receber ao vivo alguns dos criadores representados, fotograficamente, na exposição. Com grande expressão na actual prática artística chinesa encontram-se os registos documentais de performances “Live Art” dos artistas nacionais. Recorrendo assim à fotografia e vídeo, se perpetuam actividades artísticas efémeras, de visibilidade reduzida, frequentemente consideradas subversivas e, como tal, de exibição pública proibida na China.
De acordo com Shu Yang, curador, escritor e performer, é sobretudo o regime político chinês vigente, e consequentemente um conceito de arte apenas admissível "como uma prática ao serviço do regime", que motiva alguns dos jovens criadores a associarem-se em comunidades artísticas, como a “Beijing East Village”, onde a entreajuda é o principal motor para criações que nunca encontrarão reconhecimento ou financiamento oficial.
Muito centradas nas questões da identidade, história e memória, as criações chinesas contemporâneas reflectem “a rápida mudança cultural, social e económica que actualmente tem lugar na China”. Com registos muito distintos, e recorrendo a técnicas muito diversificadas, a fotografia chinesa contemporânea faz ponte entre tradição e modernidade, recorrendo a elementos figurativos, ou técnicas tradicionais, agora reinventados e expressos num novo contexto e frequentemente materializados em imagens do corpo humano.
No centro da exposição, numa das mais singulares instalações, destacam-se os 10 pares de sapatos tradicionais chineses, manufacturados pela autora - Yin Xiuzhen - e pela sua mãe, que ostentando fotografias da artista, traduzem, neste auto-retrato, as mudanças fisionómicas desde a sua infância até 1998, ano em que a obra foi concluída. Nesta peculiar auto-representação, Yin Xiuzhen, que habitualmente utiliza roupas e calçado nas suas instalações, elege os sapatos como centro da sua obra pois estes "são portadores de experiências, memórias e vestígios do tempo", concluindo que, fiéis e inseparáveis companheiros, “os sapatos, tal como barcos, transportam as pessoas milhares de quilómetros”.
Utilizando o seu próprio corpo como referência, Qi Sheng apresenta no tríptico “Memories”, datado de 2000, a sua mão acolhendo, em cada imagem, fotografias tipo passe onde figuram, individualmente, a sua mãe, Mao Tse-tung e ele próprio, enquanto criança.
Tendo deixado a China após os incidentes na Praça de Tiananmen, em 1989, e vivido durante uma década em Itália e no Reino Unido, Qi Sheng utiliza agora a sua mão esquerda, cujo dedo mindinho por ter sofrido um acidente na China se encontra agora ausente, e imagens da sua infância, para simbolizar a indelével ligação entre memória pessoal e memória histórica para toda uma geração de Chineses.
Recorrendo a motivos tradicionais, Huang Yan, produz imagens fotográficas onde figuram torsos de homens, cobertos de pó branco e pintados a tinta da china com recursos a técnicas tradicionais da pintura Chinesa. Esta pintura, onde figuram sobretudo paisagens, era tradicionalmente executada pelos criados chineses que assim encontravam um espaço de evasão das suas responsabilidades quotidianas. Rememorando esta atitude, Huang Yan afirma que "a paisagem é um recipiente onde o corpo pode residir, rejeitando a violência mundana, um espaço onde posso libertar as minhas ideias Budistas".
Numa síntese perfeita entre recursos tradicionais e novas acepções, Qiu Zhijie utiliza, em “Tatoo1”, o caracter bu – significando “não” – escrito no seu corpo e na parede atrás de si, criando assim a ilusão que o mesmo flutua livremente do corpo, numa alusão a um tempo onde “sinais e códigos se sobrepuseram aos seres humanos e os nossos corpos se tornaram meros veículos”. Uma exposição que tendo já sido apresentada, em 2004, no International Center of Photography, em Nova Iorque, traz agora à Europa, muito mais do que simples exotismo oriental, uma boa oportunidade de reflectir sobre as relações entre poder e criação artística.


“Araki – Self, Life, Death”
Barbican Art Gallery
Até 22 de Janeiro

“Between Past and Future – new photography and video from China”
Victoria & Albert Museum
Até 15 de Janeiro

(publicado na "Magazine Artes")

Pela liberdade de imprensa

20 anos de Repórteres sem Fronteiras

Nasceram há 20 anos, em Paris, e desde cedo elegeram a Fotografia como veículo privilegiado para a divulgação dos seus objectivos. Depois de editarem monografias de, entre outros, Sebastião Salgado, Raymond Depardon, Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson é agora chegada a vez do fotógrafo francês Jean-Philippe Charbonnier.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Jean-Philippe Charbonnier, cortesia de Repórteres sem Fronteiras

As paredes da sede dos Repórteres sem Fronteiras, em Paris, traduzem bem a importância que esta associação, dedicada ao combate pela liberdade de imprensa a nível mundial, atribui à imagem na comunicação dos seus objectivos ao grande público. Afixadas em grelhas metálicas, que subdividem o magnífico open space da sua sede em Paris, dezenas de cartazes de campanhas, desenvolvidas pelas mais famosas agências publicitárias, secundam o mote da associação - “Não espere que o privem da informação para a defender”.
Mãos algemadas formando o símbolo olímpico, numa clara alusão às violações de direitos na China, acompanham o slogan “Boicote os jogos olímpicos em Pequim, em 2008. Servi-vos das vossas mãos livres para assinar a petição em www.rsf.org” , e testemunham bem o seu empenho, junto da opinião pública, na luta contra a ideia da China organizar o referido evento desportivo. No extremo do escritório encontra-se afixada uma das últimas campanhas publicitárias, criada pela Fábrica, onde uma imponente mão amarrota um folha de jornal, fazendo escorrer uma espessa tinta preta, metáfora mais que perfeita dos 682 jornalistas mortos, desde 1992, no exercício da sua profissão.
As imagens publicitárias e as estatísticas dos Repórteres sem Fronteiras não deixam grande margem para dúvidas – o exercício do jornalismo, no mundo em que vivemos, pode ser perigoso. Do barómetro da liberdade de imprensa, publicado no passado dia 10 de Novembro, constam factos como os 55 jornalistas mortos desde o início do corrente ano, os 111 jornalistas ,e 3 colaboradores dos media, actualmente presos , em todo o mundo, pelo simples facto de terem exercido a sua profissão, bem como os 72 jornalistas mortos no Iraque desde o início do conflito, em Março 2003, fazendo do país “a zona mais mortífera para os profissionais da informação depois da II Guerra Mundial”.
Num lugar de destaque, e a evocar um outro conflito, a icónica imagem de Marc Riboud - captada durante uma marcha de protesto contra a Guerra do Vietnam, frente ao Pentágono em 21 de Outubro de 1967, revela-nos Jan Rose Kasmir, estendendo, candidamente, uma flor aos soldados americanos enquanto estes empunham armas - onde, na caligrafia miudinha de Riboud, se pode ler “Viva RSF. Viva a liberdade de imprensa”.
Tem sido esta manifesta cumplicidade entre fotógrafos de renome e os Repórteres sem Fronteiras que, desde 1992, tem permitido as sucessivas edições fotográficas. Num gesto de solidariedade, os fotógrafos, e respectivos agentes, abdicam dos seus direitos e, em associação com outros mecenas, viabilizam, duas vezes por ano - em Maio, por ocasião da Jornada Internacional de Liberdade de Imprensa e, em Novembro, por ocasião da Jornada de Apoio aos jornalistas em cativeiro – , álbuns fotográficos, comercializados “por todo o lado” e cujas vendas revertem totalmente a favor das actividades de apoio a jornalistas privados de liberdade.
Editado no passado dia 17 de Novembro, por altura da 16ª Jornada de apoio aos Jornalistas aprisionados, o último livro de Fotografia dos RSF, comemorativo do seu vigésimo aniversário, reúne imagens de Jean-Philippe Charbonnier, fotógrafo humanista francês, bem como textos de 20 escritores , entre os quais Bernard Henry-Lévy e Fernando Arrabal, que assim prestam homenagem às vítimas da repressão.
Charbonnier, nascido em Paris em 1921 e falecido em Grasse em 2004, foi, nas palavras do seu amigo Michel Kempf, um fotógrafo que “numa vida de voltas ao mundo, de encontros com celebridades e muitos anónimos, captou em 1/60 de segundo, milhares e milhares de histórias”. Foi um dos principais representantes da escola documental francesa dos anos 40 a 80 tendo, entre 1950 e 1974, sido fotógrafo da revista Réalités, ao serviço da qual viajou pelo mundo inteiro, realizando reportagens em África, na Ásia, nos Estados Unidos da América e em França, "aportando sempre para os seus trabalhos um olhar incisivo sobre a sociedade da sua época".
O encontro com Agathe Gaillard marca um novo rumo na sua vida, começando então a investir na Fotografia pessoal, longe das angústias inerentes ao trabalho de encomenda, e colaborando activamente na realização do projecto de sonho de Agathe Gaillard – a criação da primeira galeria totalmente dedicada à Fotografia, aberta em Paris em Junho de 1975.
Em 1976, conjuntamente com Denis Brihat e Jean-Pierre Sudre, inaugura o primeiro Festival de Fotografia de Arles, dinamizado por Lucien Clergue e Michel Tournier
Hoje, em jeito de homenagem, é a própria Agathe Gaillard que organiza uma exposição retrospectiva do trabalho de Jean-Philippe Charbonnier, na morada original da sua galeria parisiense - 3, rue du Pont Louis-Philippe - , patente a público de dia 7 de Dezembro a 28 de Janeiro do próximo ano.
Exemplos de resistência e persistência para que nunca esqueçamos que, como anuncia a campanha publicitária da cadeia televisiva France 3, “Uma imagem pode fazer tombar um muro” ou que, tal com afirma a Repórteres sem Fronteiras , numa alusão aos cativeiros, “uma câmara escura não serve só para revelar fotografias”.


Livro
“Jean-Philippe Charbonnier - Pour la Liberté de la Presse”
80 páginas de fotografias e 20 textos inéditos de David Abiker, Henri Amouroux, Fernando Arrabal, André Comte-Sponville, Didier Daeninckx, Alain Finkielkraut, Franck & Vautrin, Marcel Gauchet, André Glucksmann, Jean-Claude Guillebaud, Jean Lacouture, Bernard-Henri Lévy, Eduardo Manet, Erik Orsenna, Pierre Perret, Jean-Marie Rouart, Jean Rouaud, Yves Simon, Zoé Valdés e Raoul Vaneigem
à venda por 8 euros

(publicado no "Dna")

Portugal do lado de lá do espelho

Comissariada por Pedro Cabrita Reis e por Caroline Bougeois, “En voyage” é uma exposição que reune, até 20 de Agosto, sete artistas plásticos portugueses no Centro de Artes Le plateau, em Paris. Uma exposição pioneira que reflecte sete percursos artísticos individuais e ajuda à afirmação artística de Portugal no estrangeiro.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Lenta, a viagem começa no domingo, data de inauguração da nova exposição do Le Plateau, com o metro atravessando a cidade e fazendo-nos emergir a norte, em pleno coração de Paris XIX. Ali, nas imediações do belo Parque de Buttes-Chaumont, que os Parisienses consideram muito para além do centro da cidade, na intersecção da rue des Alouettes e da rue Carducci situa-se o Cento de Artes Le Plateau. Em torno uma particular calma, combinação mais do que perfeita de um urbanismo ainda à escala humana e de um multiculturalismo que espelha bem a cidade. Lá dentro, sete artistas plásticos Portugueses mostram as suas criações.
Falar de Portugal em França é, ainda hoje, lutar contra o pesado preconceito de uma geração de emigração iliterada, contra os enraízados estereótipos das porteiras e empregadas de limpeza e respectivos conjuges empregados na construção civil. Em Paris não há ainda a compreensão de um Portugal que caminha também noutros sentidos e ignora-se quase por completo a criação artística Portuguesa.
Se para os Franceses a Arte Portuguesa Contemporânea é considerada como periférica, já o mesmo não ousarão afirmar dos seus jovens criadores. Bom exemplo disso são os artistas actualmente expostos no Le Plateau, criadores que há muito romperam com as fronteiras geográficas e que, exceptuando o honroso caso de Ana Jotta, vivem ou trabalham fora de Portugal. Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Jorge Queiroz e Noé Sendas escolheram Berlim como local de criação enquanto Carlos Bunga e Carlos Roque cruzaram o atlântico, elegendo Nova Iorque como sede.
Considerando a diáspora Portuguesa seria tentador associar “En voyage”, tal como bem o indicia Liliana Coutinho no texto do catalógo da exposição, com a história e papel das viagens na construção da identidade Portuguesa, contudo há que admitir que nesta viagem, com Pedro Cabrita Reis ao leme, mais do que em qualquer outro sentido, a viagem é “o movimento fundamental para a criação de uma nova geografia, diferente da que é desenhada pelas fronteiras terrestres, e que ajuda a perspectivar num contexto mais vasto as propostas que os artistas Portugueses têm desenvolvido”.
Numa das salas do Plateau, Carlos Roque apresenta uma instalação composta por desenhos, feitos a partir de fotografias de ruas de Brooklin, Maputo, Miami e São Paulo. Ocupando um espaço central na exposição, um gira-discos, do qual não conseguimos desviar o olhar, emite em loop um excerto da banda sonora de um filme. “É um excerto de tal modo pequeno que ouvi-lo não chega para sabermos a história à qual pertence e que, por isso, nos aparece como uma espécie de objecto de memória recorrente que organiza e produz as imagens que se projectam no espaço e que aparecem em forma de desenho”, escreve Liliana Coutinho. “A experiência das imagens de uma grande cidade é amplificada: linhas de fuga traçadas pelas ruas quase desabitadas sobrepõem-se no desenho, provocando por vezes uma certa vertigem dada pela acumulação excessiva de experiências que, no limite, atira a nossa percepção para um plano estelar. O desenho é o dispositivo organizador da percepção da cidade que está efectivamente lá fora e que vemos através da janela descoberta”.
Seja através dos desenhos fortemente gráficos de Carlos Roque, do poético video de Rui Calçada Bastos, do arrepiante video gore de Nuno Cera, da perturbante instalação de Noé Sendas – onde, em silêncio, um homem sem rosto vê a sua imagem reflectida numa multiplicidade de espelhos que apenas lhe devolvem o vazio ou o olhar de desconhecidos – ou dos desenhos de seres híbridos de Jorge Queiroz e das arquitecturas utópicas de Carlos Bunga, os fantasmas do Homem contemporâneo – identidade, solidão, desumanização – encontram em Le Plateau o seu espaço de expressão.
Em “En voyage”, mais do que traçar um retrato da criação Portuguesa contemporânea, Pedro Cabrita Reis e Caroline Bourgeois – comissários da exposição - abrem caminho para a descoberta de sete itinerários particulares, com cada um dos criadores a abordar de forma subjectiva e intimista o seu universo individual. Recorrendo a obras previamente existentes ou a novas criações in situ, como é o caso da pintura mural de Carlos Roque, o espaço expositivo do Le Plateau apresenta ao público parisiense criações que se constituem como “leituras do nosso modo de vida, por vezes irónicas, distanciadas ou românticas”. Abordagens universalistas que encontram uma excepção na obra de Ana Jotta, artista de uma outra geração, cujo percurso artístico “se centra, sem cessar, na noção de identidade”, materializando-se em séries sob a forma de desenhos, bordados e pinturas “pornográficas”.
Sem dúvida uma séria e válida iniciativa de “exportação” da Arte Comtemporânea Portuguesa que se deseja, no futuro, ver reproduzida em mais capitais mundiais.

(publicado na "Magazine Artes")

Johan van der Keuken

Fotografia e Cinema

Cineasta, fotógrafo, experimentalista, improvisador – todas as categorias parecem redutoras quendo se trata de classificar Johan van der Keuken, criador holandês falecido em 2001. Em jeito de homenagem a Maison Européenne de la Photographie, em Paris, apresenta uma retrospectiva da sua obra enquanto a canal ARTE lança simultaneamente, em dois volumes dvd, a integralidade da sua obra cinematográfica.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Johan van der Keuken

Na cave do Hôtel Hénault de Cantobre, onde se encontra localizada a Maison Européenne de la Photographie (MEP), uma televisão exibe, em planos alternados, o rosto de um homem e paisagens de Andalusia. O protagonista é Johan van der Keuken que, em “Derniers mots”, de 2001, fala com o seu enteado, e realizador do documentário, Stijn van Santen. Aí trocam palavras de afecto, falam abertamente da morte - que Van der Keuken sabia anunciada-, e abordam assuntos como a família, amigos e a música jazz - temas recorrentes do autor.
Sobre aquele que declarou “fotografar porque o tempo passa demasiado depressa e filmar porque o tempo lhe fazia falta”, escreveu Alain Bergala “É preciso rendermo-nos à evidência: não há um olhar Van der Keuken no sentido que há um olhar Doisneau ou um olhar Cartier-Bresson, isto é marcas singulares, permanentes, na sua forma de perceber o real. É de toda uma outra coisa que se trata. (…) Na obra fotográfica de van der Keuken não se procura reabsorver uma inquietude permanente ou congelar meditações mas antes implicar os seus, sem esperança de alcançar um dia a serenidade da estabilidade mesmo que provisória.”
É ao o criador desta “eterna intranquilidade”, aprendiz de fotografia aos 12 anos de idade, que a MEP dedica actualmente 5 salas de exposição, aí exibindo fotografias e excertos das suas obras cinematográficas.
Nascido em 1938 em Amsterdão, e falecido em 2001, Johan van der Keuken publica as suas primeiras obras fotográfica aos 17 e 19 anos – “Wij zijn 17” (“Nós tinhamos 17 anos”) e “Achter Glas” (“Atrás da janela”) – dois livros inovadores, retratando os adolescentes, um grupo social raramente representado na época.
Entre 1956 e 1958, van der Keuken estuda cinema no IDHE (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos), em Paris, prosseguindo com a sua actividade fotográfica nas ruas da capital, trabalho do qual que resultará, em 1963, a publicação de “Paris Mortel”. Uma obra dividida em seis capítulos, entre os quais o metro, retratos de rua, defiles militares e o cemitério de Père Lachaise, onde a ambiência sombria de cada sequência ganha em intensidade antes de alcançar o tema principal, aquele da “mortalidade” da cidade. Johan van der Keuken metia assim fim ao mito de uma Paris romãntica e intemporal, pondo em evidência uma Paris das classes trabalhadoras, uma capital industrial.
Cruzando uma prolífera obra cinematográfica, iniciada em 1960, com uma não menos abundante obra fotográfica, van der Keuken desenvolveu séries de trabalho como “Jaipur”, em 1991, - uma homenagem aos condutores de rickshaw das intensamente movimentadas ruas de uma cidade indiana sobrepopulada - e “As ruas de Amsterdão”, em 1993, - uma contraposição de duas ruas da cidade: Damstraat, percorrida por uma curiosa mistura de habitantes de longa data, turistas, marginais, drogados e traficantes e Haarlemerdijk, uma rua de comércio tradicional – construindo “vastos frescos fotográficos” que evocam precisamente o espaço intermediário entre fotografia e cinema, “ente fixação e caos, entre superfície e simultaneadade”, segundo palavras de Johan Van der Keuken. Compostas de instantâneos sobrepostos elas materializam uma memória curta e aproximativa e funcionam “pela tensão entre o aleatório e o deliberado”.
Das suas primeiras fotografias - recordo um belíssimo auto-retrato de 1955, cigarro na mão, rolleicord e rosto de 17 anos reflectidos ao espelho - aos seus últimos filmes, entre os quais o extraordinário “Derniers mots – Ma soeur Joke”, de 1998, onde van der Keuken retrata os últimos dias de vida da sua irmã, toda a sua obra é atravessada por uma intensa poesia exaltando a vulnerabilidade do ser humano e a inevitável conclusão, para usar curiosas palavras de Johan van der Keuken, que “a vida é um grande dispêndio de energia”.

(publicado na "Magazine Artes")

Respirar fundo

Respirar fundo. Respirar fundo foi, durante muito tempo, a minha única solução para ganhar a necessária coragem e responder afirmativamente aos pedidos de organização do meu portefólio.
Seleccionar sempre me aterrou. Eliminar conjuntos de imagens, por vezes referências únicas a trabalhos com uma certa companhia, e criar argumentos sustentáveis para uma escolha do nosso próprio trabalho – sejam eles de ordem estética, técnica ou mesmo contextual – sempre me pareceram tarefas injustas e particularmente solitárias.
Seleccionar é condenar, precocemente, imagens a uma morte que, dessa forma, as impedirá de ver a luz do dia, elevando outras, certamente sínteses imperfeitas, à condição de ícone.
Acredito, e teimarei em acreditar, numa prática fotográfica múltipla e de partilha. Albergo o persistente e secreto desejo de encontrar um tempo e espaço onde haja lugar para a cumplicidade da escolha.
Seleccionar é já interpretar. Reinterpretar um Olhar, fazer juízo da beleza, significado e relevância de uma imagem.
Na fotografia de espectáculo, como em todas as outras áreas, estar à altura das expectativas é a mais dura e, porventura, dolorosa experiência. Fotografar é também aprender a viver espartilhado no delicado equilíbrio entre a nossa mundividência e a visão do mundo dos outros. Traduzir, em imagens, a essência de algo tão complexamente expresso por corpos que cruzam luzes ao ritmo de voláteis sons num espaço não obedece a regras nem oferece formulas de sucesso.
Fotografar espectáculos é tão intenso como estar vivo. Depende sobretudo da capacidade, diária e individual, de interpretar e de acreditar no sentido e na beleza das coisas que se nos apresentam.
Estar vivo é deixar-nos tocar pela vida e poesia que brota de alguns espectáculos. É compreender que, não obstante as nossas preferências estéticas e formais, há espectáculos que nos devolvem a magia e o mistério que, por vezes, falta no quotidiano.
Confesso que o novo circo me despertou para uma renovada forma de efabulação – uma possibilidade de viagem já tão remota em algumas outras práticas artísticas. Chamem-lhe facilitismo, o que quiserem. A verdade é que lá encontrei artistas completos, cujas vozes e corpos me induziram em espaços de fantasia e encantamento que eu própria havia já esquecido.
Em Évora, durante os “Percursos”, depois do espectáculo de Camille Boitel - inclasificável ouso dizer – ouvi claramente diversos outros artistas participantes apelidarem-no de “fenomenal” ou mesmo de “inacreditável”. Inexplicáveis minutos de prazer sensorial e intelectual, os de “O homem de Hus”. Primitivo e simultaneamente sofisticado. “Conceptual” ouvi, mais tarde, Camille dizer acerca do seu trabalho.
Um ano depois, ainda no âmbito dos “Percursos” recebi mais duas dádivas de puro prazer - os “Baro d’Evel “que transportaram na magia do seu “Bechtout” os sons da tradição romani, tão delicadamente conjugados com o seu contagiante humor francês, e os portugueses “Circolando” que transformaram os espaços por onde passaram em calorosos e surpreendentes mecanismos de sedução de público.
Na praça do Giraldo, em Évora, os Circolando libertaram os seus homens-toupeira, herdeiros de uma reinventada tradição musical mineira e, no seu carrossel de bicicletas, puseram à roda a cabeça de um público entusiamado. Mais tarde, no grande auditório do Centro Cultural de Belém, com “Giroflé” libertaram toda a sua poesia e delicada melodia e transportaram o público para um espaço entre a terra e o céu.
Chamem-lhe o que quiserem, já o disse. Continuarei a acreditar que a arte se partilha e, como tal, se sente. Por via da razão ou pela emoção, o que verdadeiramente mais desejo é continuar a fotografar, comunicando que há ainda muitas e boas razões para, intensamente, abraçar esta vida.

Susana Paiva
La Ferme d’en Haut, Villeneuve d’ Ascq, Lille
Abril 2005

(publicado em "Sinais de Cena")

Educar para a sensibilidade

Foi sob o tema "Colecções imprevistas" que se realizou a exposição anual do Serviço Educativo da Fundação de Serralves. Uma irrefutável prova de que o trabalho sistemático na área artística, envolvendo a comunidade escolar, pode produzir surpreendentes e eficazes resultados.

Texto e fotografia de Susana Paiva

Sofia Vitorino, programadora do Serviço Educativo da Fundação de Serralves em parceria com Elizabete Alves, não gosta de avaliar, de forma exclusivamente quantitativa, o impacto do serviço que coordena, mas tem consciência que, durante o ano, este movimenta muitos milhares de visitantes e que, nos últimos três anos, as acções da sua equipa se têm traduzido numa progressiva adesão e consequente sucesso.
Dos trezentos e trinta e sete mil visitantes da Fundação, no ano de 2004, noventa e sete mil e oitocentos corresponderam, de facto, aos visitantes do Serviço Educativo - um número que revela bem a dinâmica instituída por um serviço que elegeu como objectivo "sensibilizar e formar os diferentes públicos para as temáticas da arte, da arquitectura e do ambiente, através de uma programação heterogénea, que procura incentivar a criação de hábitos culturais". Entre as múltiplas actividades do serviço encontram-se visitas às exposições, aos espaços arquitectónicos e paisagísticos, a realização de oficinas temáticas, acções de formação e cursos, e projectos com escolas, que revelam uma programação "que procura intensificar a relação estabelecida com a comunidade, proporcionando momentos de formação, de lazer, de reflexão, de partilha de conhecimentos, emoções e valores".
Fruto dessa cumplicidade continuada com a comunidade escolar, nasceu "Colecções Imprevistas" - a exposição temática proposta pelo Serviço Educativo da Fundação de Serralves aos alunos que, durante o passado ano lectivo, visitaram a Fundação de Serralves .
Em "Colecções Imprevistas", dois mil duzentos e cinquenta e quatro alunos, de cinquenta e cinco escolas, expuseram mais de uma centena de trabalhos revelando propostas de crianças e jovens do ensino pré-escolar ao ensino superior. O resultado não poderia ter sido mais surpreendente - na sala do Serviço Educativo, devidamente transfigurada para acolher a exposição, um laranja e azul intensos, que cobrem paredes, alcatifa e mobiliário, envolvem chaves, parafusos, canetas, maços de tabaco, selos, brinquedos, botões, bolachas, chupetas, tampas, selos, moinhos de vento, penas, terços e outros tantos objectos que agrupados em caixas de cartão, fornecidas às escolas pela Fundação, revelam o laborioso trabalho colector destes pequenos grandes coleccionadores.
Tendo como intuito "motivar os jovens para a arte contemporânea, através do contacto com a experiência dos artistas, a pesquisa, a reflexão, o debate e o trabalho em grupo", o projecto desenvolveu-se em diferentes etapas, integrando visitas à Fundação de Serralves, ateliers para grupos de alunos e professores, encontros para divulgar a estrutura do projecto e debater o processo criativo bem como um seminário de formação com artistas, coleccionadores e responsáveis por colecções museológicas, e ainda uma acção de formação para professores.
No âmbito deste projecto pluridisciplinar as Escolas definiram o seu percurso, com o objectivo de cruzar ideias e referências que estimulassem novos olhares sobre as colecções pessoais dos participantes, tendo as possibilidades revelado-se inesgotáveis ao longo do ano de trabalho. "Que tipo de coisas coleccionamos? De que modo podemos expor e partilhar as nossas colecções? O que aprendemos com as colecções reunidas?"
No trabalho final algumas propostas naturalmente espelhavam o desenvolvimento dos trabalhos nas oficinas temáticas. Um bom exemplo disso foram as colecções botânicas, devidamente sistematizadas, a evocar belos herbários, resultantes da oficina "Colecções com Ciência", orientada pelos elementos da empresa "Amoeba Educação Científica", bem como os desenhos resultantes da oficina "Máquinas de Pintar", orientada por João Sá após ter criado um conjunto de máquinas "a partir da reutilização de peças em desuso ".
Dada a beleza e originalidade das "máquinas de pintar", três dessas "máquinas lúdicas que despertam em nós o desejo de experimentar, de brincar de manipular" foram instaladas na exposição, permitindo a interactividade dos visitantes que continuaram, diariamente, a produzir desenhos, traduzindo assim o desejo geral de experimentar as maravilhas da pintura automática.
Lado a lado com as colecções mais previsíveis encontravam-se algumas propostas absolutamente inesperadas com a "Colecção de afectos os nossos avós", da escola EB2/3 de Canidelo, onde se podia observar a colecção de moedas da avó Ana, a tesoura, o elástico e alfinetes que denunciavam a profissão de costureira da avó Rosa ou o tubo de ensaio com terra, numa alusão poética à prática da agricultura por parte da avó Adelaide. Uma candura e genuinidade perfeitamente patentes no testemunho complementar que Ana Rita escreveu junto ao desenho do seu avô. "Ele é amigável, bonzinho, ensina-me e ás vezes é um bocadinho chato mas consola-me quando estou triste". Uma expressão de afectos que organizada esteticamente não deixava ninguém indiferente.
Isabel Pontes, vigilante da exposição, não cessava de afirmar, com um certo orgulho, que a exposição se revelou um estrondoso sucesso e que muitos dos visitantes comentaram ter sido essa a melhor experiência da sua visita ao Museu.
À porta, no segundo livro de honra da exposição, iniciado após o primeiro ter rapidamente ficado cheio de comentários, liam-se muitas reacções entusiásticas à exposição. Numa letra infantil e desalinhada, Filipa escreveu "Gostei muito desta iniciativa dos desenhos. Fiz dois muito bonitos. Foi a parte que mais gostei do museu". Entre os visitantes estrangeiros o comentário mais inflamado é assinado por Francesco, um italiano de Florença - "A exposição mais contemporânea de todo o museu. Bravo, continuai!" . Depois, páginas e páginas de comentários elogiosos em francês, italiano, espanhol até se encontrar o depoimento de Céu Pereira, reafirmando o que já se intuía - "Continuem com estas iniciativas pois estas são uma "lufada de ar fresco" no sistema educativo".
Tudo boas razões para acreditar que no final do corrente ano lectivo a nova exposição, desta feita dedicada ao tema "Retratos", fará novamente vibrar a Fundação de Serralves, recompensando organizadores e participantes de mais um empenhado, árduo e gratificante trabalho no caminho da educação artística.

(publicado na "Notícias Magazine")

A ilha de Varda

Cineasta, fotógrafa e artista plástica, Agnès Varda não cessa de surpreender. 52 anos após a sua primeira criação, apresenta agora em Paris, na Fondation Cartier pour l’art contemporain, uma extraordinária exposição sobre a sua relação artística com a ilha de Noirmoutier. Um renovado olhar que fixa uma obra plena de afectos, onde cada dia revela, entre candura e amargura, a importância dos vasos comunicantes.

Texto de Susana Paiva
Imagens de Agnès Varda, gentilmente cedidas pela Fondation Cartier pour l’art contemporain

Foi o cinesta Jacques Demy quem, nos anos 60, fez Agnès Varda descobrir, na costa atlântica do Pays de la Loire, a ilha de Noirmoutier, e, desde então que esse “pedaço de terra rodeado de água por todos os lados” - tal como Varda gosta de citar a definição de ilha aprendida na escola primária - tem sido cenário e matéria prima das suas criações.
Em 1966 Agnès Varda fez a sua primeira incursão artística em Noirmoutier, aí rodando “Les Creatures”, uma ficção contando com Catherine Deneuve e Michel Piccoli como protagonistas. Criadora inclassificável, Varda tem alternado, ao longo dos seus mais de 50 anos de carreira, multiplas práticas e géneros artísticos - da fotografia ao cinema, da ficção ao documentário – dedicando-se nos últimos anos - depois da apresentação de “Patatutopia” na Bienal de Veneza, em 2003 - à criação de instalações vídeo onde põe em prática a sua experiência de cineasta.
Hoje, volvidos 40 anos, ei-la regressada artisticamente à ilha de Noirmoutier, apresentando, em homenagem aos seus habitantes, 8 extraordinárias instalações no espaço arquitectónico, concebido por Jean Nouvel, da Fondation Cartier, em Paris.
No interior da grande casa de vidro que domina o boulevard Raspail moram agora, cuidadosamente instaladas, as memórias de Varda, entrecruzadas com as histórias sensíveis dos habitantes de Noirmoutier, vividas entre o mar e as salinas, entre a felicidade da faina e as tragédias do mar. São 8 itinerários que, entre a melancolia e o humor, nos transportam do particular ao universal, da condição profissional à condição humana, da realidade à metáfora.
No piso térreo da Fundação aguardam-nos as cabanas “do fracasso” e “dos retratos”, construídas à imagem das rústicas estruturas de madeira que na ilha abrigam os utensílios dos pescadores e armazenam o sal. São cabanas originalmente construídas com materiais recuperados pelos habitantes da ilha, fragéis na sua construção, que Varda reconstroi agora utilizando os seus próprios materiais. Na “cabana do fracasso” paredes e telhado envolvem os visitantes em pedaços de película positiva, retirados de cópias de exibição do filme “Les Créatures”, amargamente recordando que, não obstante os magníficos desempenhos de Deneuve e Piccoli, o filme se traduziu num retundo fracasso comercial. Reforçando a memória de fracasso, na mesma sala, uma antiga mesa de montagem passa a referida película ao inverso desconstruindo assim a montagem para distribuição comercial que Varda havia realizado. Na sala contígua a “cabana dos retratos” revela no seu interior 60 imagens de habitantes de Noirmoutier, contrapondo, frente a frente, 30 retratos de mulheres e 30 retratos de homens, de idade e condição diferentes. Fotografados em diversos locais da ilha, homens e mulheres posam perante fundos distintos, consoante o seu género, constituindo duas bandas contínuas, segundo a autora, de “rostos serenos, duma secreta sexualidade”.
Entre memória pessoal e memória colectiva, a obra de Varda reflecte a condição humana, de mulher e comunicadora que é. Em “Ping-Pong, Tong et Camping” Varda parte da musicalidade do título para compor um objecto que traduz memórias de uma infância cheia de ritmo e cor. Contra uma tela, num espaço pleno de acessórios plásticos coloridos onde um colchão de praia serve de ecrã, um curto filme mostra crianças que bricam com acessórios coloridos e jogam ping-pong ao ritmo da música de Bernard Lubat.
Agnès Varda sempre priveligiou a abordagem do real nos seus projectos, filmando-os subjectivamente e permitindo que o seu olhar e vivências se tornassem o seu estilo. A sua obra reflecte de uma forma extraordinariamente poética não só quadros da realidade mas também um discreto auto-retrato enquanto cineasta.Para Varda a vida e a sua partilha são objecto e finalidade da obra artística. Assim o é quando em “Passage du Gois” transforma o piso inferior da Fondation Cartier numa metafórica travessia para a ilha de Noirmoutier.
Chegados ao início do segundo núcleo da exposição - aquele que afectivamente a artista designa pela abordagem de “Agnès” em contraposição ao núcleo superior onde se traduz a obra de “Varda” –, elucidados por uma tabela de marés do serviço hidrográfico e oceanográfico da marinha francesa, indicando o dia da visita, e imobilizados por uma barreira automática, os visitantes assistem à projecção acelerada, sobre uma cortina de plástico translúcido, da progressão diária das marés que ocultam e desocultam a estreita língua de terra submersível que liga a ilha ao continente. Apenas quando a maré vaza o visitante encontrará o salvo conducto que lhe permitirá entrar no universo pessoal de Agnès e dos habitantes de Noirmoutier.
É nesse universo misterioso, poético e muito bem humorado que se encontram expostas as obras mais interessantes da autora. Aí se pode ver “Le Tryptique de Noirmoutier”, uma obra previamente exposta em Paris, onde sobre 3 ecrãs, dois dos quais móveis, se projectam imagens com as quais o visitante poderá interagir, decidindo quais dos ecrãs permanecem abertos ou fechados, e determinando assim quais as imagem em campo ou fora de campo .
Num percurso de intensa sensorialidade os nossos passos são conduzidos, através da grandeza da imagem de “La Mer immense”, à complexa instalação de “Les Veuves de Noirmoutier” onde, em 15 filmes projectados – num grande ecrã central rodeado por 14 pequenos monitores –, são secretamente partilhadas as histórias de vida de 14 viúvas de Noimoutier. Catorze segredos bem guardados, sussurrados aos ouvidos dos visitantes em 14 postos de escuta individual. É aqui, entre relatos de sofrimento e de resignação, que se encontra a maior revelação de todas – num dos ecrãs Agnès Varda encontra-se sentada numa praia, com uma cadeira vazia a seu lado. Agnès está silenciosa, sentada entre um mar de algas. Por fim o silêncio quebra-se e a autora canta palavras de Jacques Prévert num rememorar do final do seu filme “Jacquot de Nantes” ou, em última instância, numa homenagem a Prévert, também ele natural da ilha de Noirmoutier.

Exposição “Agnès Varda. L’île et Elle.”
Fondation Cartier pour l’art contemporaine, Paris
Até 8 de Outubro de 2006

(publicado na "Magazine Artes")

Mois de la Photo Paris 2006

Páginas escritas de luz

Foi há 26 anos, em Paris, que nasceu o “ Mois de la Photo”, uma das mais famosas bienais europeias que, nesta edição, assenta tónica na relação entre fotografia e página impressa. Um acontecimento que, durante este mês, por toda a cidade, evidencia não só o sucesso da criação fotográfica mas sobretudo o poder da impressão da escrita com luz.

Texto de Susana Paiva
Fotografias gentilemente cedidas por Mois de la Photo 2006

É uma fina trama de cumplicidades, a que tece a complexa teia da realidade fotográfica em Paris, onde a imagem parece habitar todos os lugares. Aqui, reduzir a fotografia a um local, a uma estrutura, é tarefa inútil e impossível. Talvez seja precisamente isso, nas palavras de Jean-Luc Monterosso, comissário geral do Mois de la Photo, que torna Paris habitualmente tão atraente aos olhos dos amantes da fotografia – “a existência de uma multiplicidade de locais, como o Jeu de Paume, a Maison Europeéne de la Photographie, o Museu d’Orsay, a Fondation Cartier pour l’art contemporain e algumas outras estruturas dedicadas à produção e divulgação da fotografia bem como a diversidade das práticas que promovem e apresentam”.
Talvez tenhamos que admitir que o epicentro da fotografia contemporânea ocidental se deslocou mais para oeste, alojando-se em cidades como Londres e Nova Iorque, mas não seria sensato deixar de admitir que Paris continua, numa perspectiva transversal, capital da fotografia. Aqui se produzem e apresentam, em museus, galerias públicas e privadas e noutros locais menos convencionais, exposições que abarcam a componente histórica, técnica e estética da imagem fotográfica, dos seus primórdios à actualidade.
Em Paris, os museus expõe regularmente os seus fundos fotográficos, promovem visitas guiadas aos ateliers de restauro e não deixam que o património se perca no esquecimento comum. As instituições estatais apresentam as grandes exposições que fazem o tour do mundo, de Nova Iorque a Tóquio, não esquecendo contudo de promover o que de melhor se produziu e se produz ainda em França. As galerias privadas discorrem, maioritariamente, sobre os grandes clássicos da fotografia mundial, vendendo impressões vintage ou cópias contemporâneas assinadas pelos seus autores, havendo algumas poucas que arriscam ainda comercializar jovens autores, cujo nome começa agora a valorizar no mercado mundial. As grandes agências fotográficas internacionais com a VII escolhem Paris como sede ou como escritório na Europa, tal como fez a Magnum.
A forma mais justa de falar da fotografia em Paris parece ser dizer que a mesma se respira por toda a cidade. No Hôtel de Ville, o presidente da câmara abre, regular e gratuitamente, a porta a grandes nomes da fotografia humanista francesa, como Willy Ronis ou Robert Doisneau – dois ícones da fotografia francesa, a par com Henri Cartier-Bresson que desde alguns anos possui uma fundação privada, presidida por Martine Franck, sua viúva, destinada à conservação, promoção e divulgação da sua obra.
Ver fotografia em Paris é uma possibilidade sempre em aberto, extraordinariamnete rica durante todo o ano, mas apenas clarificada, na sua imensa teia de interacções, em Novembro, de dois em dois anos, durante o Mois de la Photo, quando instituições, galerias, museus, agências e fotógrafos convergem, mobilizando-se em torno de uma mesma temática, num evento não só geograficamente mapeável mas sobretudo compreensível à escala do visitante.
Foram necessárias 14 edições para que o Mois de la Photo se debruçasse, de acordo com o seu comissário geral, em plena era do digital e do virtual, sobre “um tema maior da fotografia do século XX - a página impressa”. “O livro, a revista, mas também o cartaz, foram, de facto, durante mais que um século, suportes de difusão privilegiados” afirma Monterosso, abrindo assim a porta para a tripartida estrutura da bienal, versando os grupos temáticos, – “a história das imagens e das publicações”, “o desejo do livro” e “a imprensa, a revista e o livro”, com respectiva coordenação da historiadora Anne de Mondenard, do autor e crítico Gabriel Bauret e do director artístico, de renome, Peter Knapp.
Nos 64 locais oficiais de exposição, alguns dos quais apresentando múltiplas exposições, encontram-se representados mais de duas centenas de fotógrafos entre os quais Henri-Cartier Bresson, Édouard Boubat, Jean Philippe Charbonnier, Jean-Louis Swiners, Robert Doisneau, Willy Ronis, Jean Dieuzaide, Ralph Gibson, Joel Meyerowitz, Désirée Dolron, Bruno Stevens, Érich Lessing, Jeanloup Sieff e Masao Yamamoto que, de múltiplas formas, prestarão o seu tributo ao duplo poder da escrita pela luz.
Absolutamente a não perder, neste mar de informação, a viagem que, reproduzindo os saudosos passos de Édouard Boubat, nos conduzirá, através da ponte Louis Philippe, ao coração de Paris onde, há 30 anos, se localiza a galeria Agathe Gaillard. Aí se faz, através das extraordinárias fotografias de Charbonnier, Boubat e Swinners, reviver “Réalités” - uma revista mensal ilustrada, publicada entre 1946 e 1978, e criada, num cenário de pós-guerra, para, nas palavras de Agathe Gaillard, “satisfazer a curiosidade dos franceses sobre o mundo, fazendo-os viajar sem sair de casa”. Uma revista que na edição nº 108, de Janeiro de 1955, apresentava o trabalho de reportagem “Bons pour l’asile” – “o que acontece aos 100.000 franceses que declaramos bons para o asilo” onde se traça, através do texto de Hervé Bazin e das fotografias de Jean Philippe Charbonnier, então responsável pelos “serviços fotográficos”, as impressionantes condições em que viviam os doentes mentais franceses. Um trabalho extraordinário que, na época, surpreendeu a opinião pública e que, sem dúvida, merece agora reencontrar novas audiências.


Mois de la Photo 2006, Paris
Exposições durante todo o mês de Novembro

(publicado na "Magazine Artes")

"Cabaret"

Território de liberdade e transgressão

Quarenta anos após a sua primeira representação na Broadway, chegou agora a vez de Paris receber o musical “Cabaret” numa adaptação francófona da versão de 1998, originalmente encenada pelo britânico Sam Mendes.
Um espectáculo surpreendente que transforma, com grande mestria, as míticas Folies Bergères no berlinense Kit Kat Klub, um sublime território de total liberdade e transgressão, em fruição, em pleno coração de Montmartre, até final deste ano.

Texto de Susana Paiva
Fotografias gentilmente cedidas por Stage Entertainment France

Uma hora antes do início do espectáculo, e pouco depois da abertura de portas do teatro, a sala de espectáculo das Folie Bergères, envolta numa penumbra pontuada pelas ténues luzes dos candeeiros vermelhos sobre cada mesa, encontra-se já repleta. Numa grande azáfama as empregadas de mesa insinuam-se, elegantemente, junto de cada um dos espectadores, recriando de forma estilizada os cabarets alemães dos anos 30.
Pouco tempo depois a tradicional figura do espectador encontra-se já diluída no décor. De copo sobre a mesa, transformado agora em cliente do Kit Kat Klub, resta-lhe ser cúmplice das acções deste Cabaret berlinense que promete libertar, todos quantos o frequentam, das preocupações do quotidiano.
Aclamado pela crítica internacional, quando da sua estreia em 1998, no teatro Henry Miller, na Broadway, e premiado com 4 prémios Tonys, a despojada encenação de Sam Mendes e de Rob Marshall, deste clássico que grangeou fama mundial em 1972 devido à sua versão cinematográfica, realizada por Bob Fosse e tendo Liza Minelli como protagonista, talvez tenha encontrado na centenária sala das Folies Bergère o local ideal para a sua apresentação em Paris. Da mítica sala, simbolo da boémia parisiense, inaugurada a 2 de Maio de 1869 no coração de Montmartre, restam agora pouco mais do que os veludos azuis desbotados, o candelabro central do enorme átrio e escadaria que testemunharam a gloriosa ascenção artística de Josephine Baker e transformaram, ao longo dos tempos, o local em templo de uma certo erotismo feminino. A sala de espectáculo, totalmente remodelada para a realização do espectáculo, contrasta agora, em sofisticação e glamour, com a decadência chique do átrio onde outrora muita da actividade dos Cabarets se desenrolava. O ranger do soalho e a vastidão azul da entrada remetem agora para o desaparecido universo que os soldados britânicos, estacionados em Paris em 1944, encontravam descrito, no seu manual de instruções,– “ É bom desistir da ideia feita das mulheres francesas baseadas nas histórias de Monmartre e dos cabares com espectáculos de nudez. Estes foram sempre concebidos como uma atracção turística para estrangeiros; nos tempos de paz, em Paris, viam-se muito mais britânicos e americanos (e alemães) que franceses nas famosas Folies Bergères.”
Hoje a sala de espectáculos das Folies Bergères, cuidadosamente cenografada e transfigurada, reproduz com alguma fidelidade e charme o cabaret berlinense que Christopher Isherwood descreveu em “Goodbye to Berlin” , o livro que inspirou o espectáculo “Cabaret”. É a partir desta verosimilhança e de uma extraordinária implicação do espectador na estrutura do espectáculo, que Sam Mendes construiu a sua bem sucedida versão do Kit Kat Klub, local onde se desenrola grande parte da acção teatral do espectáculo.
A um escasso metro do palco, na mesa B do clube, a respiração dos actores invade o ar durante a realização de exercícios de aquecimento em poses provocatórias. Uma violinista e um trompetista ocupam a cena e ensaiam alguns sons, intercalados com o zumbido das duas enormes ventoinhas que, pendendo do tecto, dispersam o fumo de um terceiro personagem, fumando um charuto em pose desafiante, que entretanto se juntara à cena. Do negro silêncio subsequente, rasgam a cena dois olhos espreitando por uma porta, acompanhados por uma voz - “Benvindos ao Cabaret”. Senhores e Senhoras o espectáculo vais começar, aqui onde “ a vida é magnífica” e os problemas ficam esquecidos. “Conheçam as nossas magníficas raparigas”, anuncia o mestre de cerimónias antecipando, um a um, o nome de guerra de todas as raparigas do cabaret, aqui caracterizadas com tatuagens alusivas ao seus nomes e ostentando nos braços grandes hematomas. Certamente um Cabaret diferente daquele que Christopher Isherwood encontrou, em 1928 em Berlim, na sua primeira visita à cidade que mais tarde caracterizou como “agradável de viver e cheia de rapazes…”, um território onde a liberdade sexual e a transgressão faziam parte do quotidiano.
Escrito como se de um registo documental se tratasse, “ como uma camera com o obturador aberto, passiva, que grava e não reflecte” a obra que Isherwood legou ao mundo imortalizou alguns personagens, entre realidade e ficção, unidos pelo facto de “cada um ter consciência do desastre econónico e ideológico em que vive” nessa Alemanha que abriga o embrião da ascenção de Hitler ao poder. Uma obra onde, sob uma aparente história de amor que unirá, e mais tarde separará, Sally Bowles - uma cantora de Cabaret inglesa a residir em Berlim e Clifford Bradshaw – um jovem escritor americano, acabado de chegar à cidade, em busca de tema e inspiração para a sua primeira obra literária –, se albergam temáticas como a rebelião juvenil, a homosexualidade, o anti-semitismo e sobretudo o desejo de transgressão do instituído, tudo temáticas que ainda hoje pairam sobre o mundo e, particularmente, numa França onde os problemas de integração social têm posto nas ruas uma forte contestação.
Uma obra pertinente, extraordinariamente bem encenada e profundamente tocante que tem no seu grande final uma das mais intensas experiências sensoriais do espectáculo, ao culminar, numa explosão de som e luz, com os corpos dos espectadores a vibrar, numa clara e perturbante alusão ao holocausto.

“Cabaret”
espectáculos até 31 de Dezembro nas Folies Bergères, em Paris
encenação original de Sam Mendes
co-encenação e coreografia de Rob Marshall
uma produção Stage Entertainment France
http://www.cabaret.lemusical.fr

(publicado na "Magazine Artes"

Imagens a Sul

No verão o epicentro da fotografia international desloca-se para o sudeste de França. Um acontecimento que se inicia em Julho, na cidade de Arles, onde os locais Rencontres de Photographie exibem, durante dois meses, o melhor da fotografia contemporânea, este ano sob a coordenação do fotógrafo e cineasta Raymond Depardon.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pelos Rencontres d’Arles 2006


A polifonia da página inicial do site internet dos Rencontres d’Arles anuncia, de forma algo minimal, a essência do prestigiado festival de fotografia iniciado em 1970 na cidade de Arles.“É um festival, uma montra. São encontros, estágios, pedagogia, festa, é tudo…37 anos já!”
Hoje, o mais antigo festival internacional de fotografia, reconhecido por uma certa geração de fotógrafos e agentes culturais franceses como um dos mais importantes pontos de encontro dos profissionais da fotografia, protagoniza uma transformação que não parece agradar a todos. Nas palavras de Agathe Gaillard, a mais antiga galerista de fotografia em Paris, “Arles perdeu a sua graça. Antes íamos todos - fotográfos, galeristas, editores -, como uma grande família, passar umas férias a Arles, só para nos encontrarmos e falarmos de fotografia. Agora já não é assim”.
Actualmente os Rencontres d’Arles parecem ter, largamente, ultrapassado essa dimensão familiar. Hoje o numero de exposições de fotografia patentes a público, durante os dois meses do certame, ultrapassa já a meia centena, número mais do que contrastante com a média de 6 exposições anuais das primeiras 5 edições do Festival. E se hoje muitas vozes se erguem contra a perda da familiaridade do espaço de encontro e confraternização - a eventual essência do festival - muitas outras não cessam de afirmar que o mesmo ganhou em projecção internacional e em participação de público, em última instância factores fundamentais para a sobrevivência económica de um evento que, apesar de comemorar este ano a sua 37ª edição, continua ainda sem futuras garantias de viabilidade.
Definida como “uma manifestação aberta a todos - aos amantes da fotografia, aos criadores, ao público da fotografia contemporânea” a programação deste ano contou com a colaboração do anunciado “super fotógrafo” Raymond Depardon que aproveitou a hipótese para prestar homenagem aos históricos fotógrafos americanos que o influenciaram, bem como aos seus contemporâneos “companheiros de estrada”.
Criador multifacetado, Raymond Depardon, fotógrafo da agência Magnum desde 1979, desempenhou ao longo da sua carreira diversos papéis – “de paparazzi da Agência Delmas, enquanto debutante, a fotógrafo de nús para a revista Playboy, passando pela criação e realização cinematográfica, sobretudo documental, e pela criação da Agência Gamma, juntamente com Gilles Caron”. Um perfil que, graças à sua versatilidade e pluridisciplinaridade, permitiu que a edição deste ano dos Rencontres ganhasse uma nova dinâmica e acentuasse a tónica noutras formas de apresentação das imagens, criando múltiplos espaços para a existência de instalações e apresentações de trabalho fotográfico com recurso a projecções video que cativaram, durante horas, muitos espectadores.
Menos populares, de acordo com a imprensa francesa, parecem ter sido as medidas tomadas pelo comissário geral no que concerne à vertente pedagógica do festival, com a inclusão de uma taxa de inscrição de 220 euros, paga por todos os jovens fotógrafos que desejassem ver o seu portfolio apreciado por um painel de profissionais, contrariando assim uma longa tradição de gratuitidade e informalidade na leitura dos referidos trabalhos. “Antes os portfolios eram vistos em todo o lado, dos cafés aos hotéis” refere Agathe Gaillard, “hoje só pagando é que os jovens poderão ter a sorte de ver o seu trabalho reconhecido, algo que vai contra o princípio de descoberta de novos talentos que o festival sempre defendeu”.
Longe das polémicas e controvérsias levantadas nesta edição do festival, o público, de mapa na mão, transita pela cidade de exposição em exposição e vai deixando a sua impressão nos livros de honra que habitam cada um dos espaços expositivos. Na exposição “Fotografia Americana nas coleçcões Francesas”, reunindo maioritariamente imagens de 1910 aos anos 80, onde se destacam as chocantes imagens, de crimes e acidentes, da autoria de Arthur Fellig Weegee - obtidas por antecipação a todos os outros fotógrafos graças à sintonia ilegal das frequências rádio da polícia e a uma rede de informadores marginais -, o extracto de onze imagens da série “Graceland”, da autoria do “pai da fotografia a cores” William Eggleston, onde se mostram a casa e objectos de Elvis Presley no Tennessee, Estados Unidos da América, bem como a extraordinária série “Os Americanos” realizada, entre 1955 e 1956, nos EUA por Robert Franck, e sobre a qual, um visitante bem informado, e não abdicando do seu conhecimento, fez questão de escrever “ Robert Franck não é americano mas sim emigrante nos Estados Unidos. Ele nasceu em Zurique, na Suiça…”
Oscilando entre curiosidades, agradecimentos e críticas, as notas deixadas nos livros de honra das exposições são, não raras vezes, um espelho agudizado do impacto das exposições na população geral. Exposições como a do fotógrafo americano Robert Adams, onde se mostram imagens do quotidiano familiar, de Rocky Flats, nos anos 70, perto da fábrica de armamento nuclear, suscitaram diferentes comentários, muito marcados culturalmente. Enquanto a americana Kathryn escreveu “estas fotografias recordam-me a minha infância no sudoeste dos Estados Unidos. Anos 70, tão vividos! Elas captam o sentimento e o tom das minhas memórias desse tempo. Obrigada.”, o francês Hervé registou “dentro de dois minutos terei esquecido esta exposição indiferente. Ela faz parte dos porquês, para que serve isto sem emoção…Haverá outros que certamente apreciarão.”
Assim parece ser a tónica dos Rencontres d’Arles 2006, plenos de propostas apreciadas por uns e detestadas por outros, envoltos em polémicas que no final, além de mobilizarem toda a cidade, se traduzem em enormes sucessos de bilheteira como confessou a responsável do acolhimento das exposições do Palais de l’Archevêché – “este ano tivemos muito mais visitantes do que no ano anterior. Com o Depardon, o seu envolvimentos nos media e tudo, tivemos a cobertura de todos os canais de televisão franceses e de muita, muita imprensa escrita”.
Recordista de visitas acabaram por ser as exposições localizadas nas antigas oficinas do caminho de ferro nacional, um espaço esplendido, onde brilhou o núcleo de trabalhos sobre política e sociedade. Representando trabalhos de mais de 30 fotógrafos, e numa visita que durava em média 6 horas, as oficinas encheram-se de histórias de luta, sofrimento mas também de vitória. Aí, num trabalho da autoria de Raphaaell Dellaporta e Ondine Millot, imagem e texto uniram-se para contar histórias de escratura doméstica em França. Sobre blocos de cimento, alternando depoimentos visuais e escritos, se contam histórias de sofrimento humano à mão de outros homens, como a de Legba, uma mulher de 30 anos, originária do Togo, que aceitou um emprego para tomar conta de crianças em França. “Cheguei a 25 de Março de 2001. Eles vieram buscar-me ao aeroporto. A primeira coisa que me disseram foi - “Dá-nos todos os teus documentos”.
Um pouco mais adiante, recorrendo ao vídeo, Olivier Jobard conta-nos em “The hard way, the only way”- um caderno de viagem de um emigrante clandestino-, a odisseia de Kingsley através de um itinerário que o levou clandestinamente dos Camarões, o seu país natal, a França. Sentados num banco duro, com capacidade para apenas dois passageiros, e na escuridão do interior de um camião, somos testemunhas das dolorosas imagens, captadas com auxílio da função “nightvision”, e que nos mergulha no sofrimento silencioso das dezenas de emigrantes que viajam através do deserto nas traseiras de um qualquer camião.
Plenas de imagens fortes há no entanto, entre os actuais colegas de Depardon , uma obra que se destaca pela sua força gráfica e poética – é o trabalho de Guy Le Querec, o fotógrafo que declarou “andar sobre o fio da sorte tentando apanhar estrelas cadentes” e que tão magistralmente fotografou grandes nomes do Jazz como o tropetista Dizzy Gillespie, o saxofonista Evan Parker, o contrabaixista Charles Mingus ou a cantora e pianista Nina Simone. Uma milagrosa lufada de ar fresco num universo fotográfico que, fruto das opções de Depardon e do inegável mundo em que vivemos, se transformou praticamente num grande festival de fotografia documental.

(publicado na "Magazine Artes")