Portugal do lado de lá do espelho

Comissariada por Pedro Cabrita Reis e por Caroline Bougeois, “En voyage” é uma exposição que reune, até 20 de Agosto, sete artistas plásticos portugueses no Centro de Artes Le plateau, em Paris. Uma exposição pioneira que reflecte sete percursos artísticos individuais e ajuda à afirmação artística de Portugal no estrangeiro.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Lenta, a viagem começa no domingo, data de inauguração da nova exposição do Le Plateau, com o metro atravessando a cidade e fazendo-nos emergir a norte, em pleno coração de Paris XIX. Ali, nas imediações do belo Parque de Buttes-Chaumont, que os Parisienses consideram muito para além do centro da cidade, na intersecção da rue des Alouettes e da rue Carducci situa-se o Cento de Artes Le Plateau. Em torno uma particular calma, combinação mais do que perfeita de um urbanismo ainda à escala humana e de um multiculturalismo que espelha bem a cidade. Lá dentro, sete artistas plásticos Portugueses mostram as suas criações.
Falar de Portugal em França é, ainda hoje, lutar contra o pesado preconceito de uma geração de emigração iliterada, contra os enraízados estereótipos das porteiras e empregadas de limpeza e respectivos conjuges empregados na construção civil. Em Paris não há ainda a compreensão de um Portugal que caminha também noutros sentidos e ignora-se quase por completo a criação artística Portuguesa.
Se para os Franceses a Arte Portuguesa Contemporânea é considerada como periférica, já o mesmo não ousarão afirmar dos seus jovens criadores. Bom exemplo disso são os artistas actualmente expostos no Le Plateau, criadores que há muito romperam com as fronteiras geográficas e que, exceptuando o honroso caso de Ana Jotta, vivem ou trabalham fora de Portugal. Rui Calçada Bastos, Nuno Cera, Jorge Queiroz e Noé Sendas escolheram Berlim como local de criação enquanto Carlos Bunga e Carlos Roque cruzaram o atlântico, elegendo Nova Iorque como sede.
Considerando a diáspora Portuguesa seria tentador associar “En voyage”, tal como bem o indicia Liliana Coutinho no texto do catalógo da exposição, com a história e papel das viagens na construção da identidade Portuguesa, contudo há que admitir que nesta viagem, com Pedro Cabrita Reis ao leme, mais do que em qualquer outro sentido, a viagem é “o movimento fundamental para a criação de uma nova geografia, diferente da que é desenhada pelas fronteiras terrestres, e que ajuda a perspectivar num contexto mais vasto as propostas que os artistas Portugueses têm desenvolvido”.
Numa das salas do Plateau, Carlos Roque apresenta uma instalação composta por desenhos, feitos a partir de fotografias de ruas de Brooklin, Maputo, Miami e São Paulo. Ocupando um espaço central na exposição, um gira-discos, do qual não conseguimos desviar o olhar, emite em loop um excerto da banda sonora de um filme. “É um excerto de tal modo pequeno que ouvi-lo não chega para sabermos a história à qual pertence e que, por isso, nos aparece como uma espécie de objecto de memória recorrente que organiza e produz as imagens que se projectam no espaço e que aparecem em forma de desenho”, escreve Liliana Coutinho. “A experiência das imagens de uma grande cidade é amplificada: linhas de fuga traçadas pelas ruas quase desabitadas sobrepõem-se no desenho, provocando por vezes uma certa vertigem dada pela acumulação excessiva de experiências que, no limite, atira a nossa percepção para um plano estelar. O desenho é o dispositivo organizador da percepção da cidade que está efectivamente lá fora e que vemos através da janela descoberta”.
Seja através dos desenhos fortemente gráficos de Carlos Roque, do poético video de Rui Calçada Bastos, do arrepiante video gore de Nuno Cera, da perturbante instalação de Noé Sendas – onde, em silêncio, um homem sem rosto vê a sua imagem reflectida numa multiplicidade de espelhos que apenas lhe devolvem o vazio ou o olhar de desconhecidos – ou dos desenhos de seres híbridos de Jorge Queiroz e das arquitecturas utópicas de Carlos Bunga, os fantasmas do Homem contemporâneo – identidade, solidão, desumanização – encontram em Le Plateau o seu espaço de expressão.
Em “En voyage”, mais do que traçar um retrato da criação Portuguesa contemporânea, Pedro Cabrita Reis e Caroline Bourgeois – comissários da exposição - abrem caminho para a descoberta de sete itinerários particulares, com cada um dos criadores a abordar de forma subjectiva e intimista o seu universo individual. Recorrendo a obras previamente existentes ou a novas criações in situ, como é o caso da pintura mural de Carlos Roque, o espaço expositivo do Le Plateau apresenta ao público parisiense criações que se constituem como “leituras do nosso modo de vida, por vezes irónicas, distanciadas ou românticas”. Abordagens universalistas que encontram uma excepção na obra de Ana Jotta, artista de uma outra geração, cujo percurso artístico “se centra, sem cessar, na noção de identidade”, materializando-se em séries sob a forma de desenhos, bordados e pinturas “pornográficas”.
Sem dúvida uma séria e válida iniciativa de “exportação” da Arte Comtemporânea Portuguesa que se deseja, no futuro, ver reproduzida em mais capitais mundiais.

(publicado na "Magazine Artes")