Pela liberdade de imprensa

20 anos de Repórteres sem Fronteiras

Nasceram há 20 anos, em Paris, e desde cedo elegeram a Fotografia como veículo privilegiado para a divulgação dos seus objectivos. Depois de editarem monografias de, entre outros, Sebastião Salgado, Raymond Depardon, Robert Doisneau e Henri Cartier-Bresson é agora chegada a vez do fotógrafo francês Jean-Philippe Charbonnier.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Jean-Philippe Charbonnier, cortesia de Repórteres sem Fronteiras

As paredes da sede dos Repórteres sem Fronteiras, em Paris, traduzem bem a importância que esta associação, dedicada ao combate pela liberdade de imprensa a nível mundial, atribui à imagem na comunicação dos seus objectivos ao grande público. Afixadas em grelhas metálicas, que subdividem o magnífico open space da sua sede em Paris, dezenas de cartazes de campanhas, desenvolvidas pelas mais famosas agências publicitárias, secundam o mote da associação - “Não espere que o privem da informação para a defender”.
Mãos algemadas formando o símbolo olímpico, numa clara alusão às violações de direitos na China, acompanham o slogan “Boicote os jogos olímpicos em Pequim, em 2008. Servi-vos das vossas mãos livres para assinar a petição em www.rsf.org” , e testemunham bem o seu empenho, junto da opinião pública, na luta contra a ideia da China organizar o referido evento desportivo. No extremo do escritório encontra-se afixada uma das últimas campanhas publicitárias, criada pela Fábrica, onde uma imponente mão amarrota um folha de jornal, fazendo escorrer uma espessa tinta preta, metáfora mais que perfeita dos 682 jornalistas mortos, desde 1992, no exercício da sua profissão.
As imagens publicitárias e as estatísticas dos Repórteres sem Fronteiras não deixam grande margem para dúvidas – o exercício do jornalismo, no mundo em que vivemos, pode ser perigoso. Do barómetro da liberdade de imprensa, publicado no passado dia 10 de Novembro, constam factos como os 55 jornalistas mortos desde o início do corrente ano, os 111 jornalistas ,e 3 colaboradores dos media, actualmente presos , em todo o mundo, pelo simples facto de terem exercido a sua profissão, bem como os 72 jornalistas mortos no Iraque desde o início do conflito, em Março 2003, fazendo do país “a zona mais mortífera para os profissionais da informação depois da II Guerra Mundial”.
Num lugar de destaque, e a evocar um outro conflito, a icónica imagem de Marc Riboud - captada durante uma marcha de protesto contra a Guerra do Vietnam, frente ao Pentágono em 21 de Outubro de 1967, revela-nos Jan Rose Kasmir, estendendo, candidamente, uma flor aos soldados americanos enquanto estes empunham armas - onde, na caligrafia miudinha de Riboud, se pode ler “Viva RSF. Viva a liberdade de imprensa”.
Tem sido esta manifesta cumplicidade entre fotógrafos de renome e os Repórteres sem Fronteiras que, desde 1992, tem permitido as sucessivas edições fotográficas. Num gesto de solidariedade, os fotógrafos, e respectivos agentes, abdicam dos seus direitos e, em associação com outros mecenas, viabilizam, duas vezes por ano - em Maio, por ocasião da Jornada Internacional de Liberdade de Imprensa e, em Novembro, por ocasião da Jornada de Apoio aos jornalistas em cativeiro – , álbuns fotográficos, comercializados “por todo o lado” e cujas vendas revertem totalmente a favor das actividades de apoio a jornalistas privados de liberdade.
Editado no passado dia 17 de Novembro, por altura da 16ª Jornada de apoio aos Jornalistas aprisionados, o último livro de Fotografia dos RSF, comemorativo do seu vigésimo aniversário, reúne imagens de Jean-Philippe Charbonnier, fotógrafo humanista francês, bem como textos de 20 escritores , entre os quais Bernard Henry-Lévy e Fernando Arrabal, que assim prestam homenagem às vítimas da repressão.
Charbonnier, nascido em Paris em 1921 e falecido em Grasse em 2004, foi, nas palavras do seu amigo Michel Kempf, um fotógrafo que “numa vida de voltas ao mundo, de encontros com celebridades e muitos anónimos, captou em 1/60 de segundo, milhares e milhares de histórias”. Foi um dos principais representantes da escola documental francesa dos anos 40 a 80 tendo, entre 1950 e 1974, sido fotógrafo da revista Réalités, ao serviço da qual viajou pelo mundo inteiro, realizando reportagens em África, na Ásia, nos Estados Unidos da América e em França, "aportando sempre para os seus trabalhos um olhar incisivo sobre a sociedade da sua época".
O encontro com Agathe Gaillard marca um novo rumo na sua vida, começando então a investir na Fotografia pessoal, longe das angústias inerentes ao trabalho de encomenda, e colaborando activamente na realização do projecto de sonho de Agathe Gaillard – a criação da primeira galeria totalmente dedicada à Fotografia, aberta em Paris em Junho de 1975.
Em 1976, conjuntamente com Denis Brihat e Jean-Pierre Sudre, inaugura o primeiro Festival de Fotografia de Arles, dinamizado por Lucien Clergue e Michel Tournier
Hoje, em jeito de homenagem, é a própria Agathe Gaillard que organiza uma exposição retrospectiva do trabalho de Jean-Philippe Charbonnier, na morada original da sua galeria parisiense - 3, rue du Pont Louis-Philippe - , patente a público de dia 7 de Dezembro a 28 de Janeiro do próximo ano.
Exemplos de resistência e persistência para que nunca esqueçamos que, como anuncia a campanha publicitária da cadeia televisiva France 3, “Uma imagem pode fazer tombar um muro” ou que, tal com afirma a Repórteres sem Fronteiras , numa alusão aos cativeiros, “uma câmara escura não serve só para revelar fotografias”.


Livro
“Jean-Philippe Charbonnier - Pour la Liberté de la Presse”
80 páginas de fotografias e 20 textos inéditos de David Abiker, Henri Amouroux, Fernando Arrabal, André Comte-Sponville, Didier Daeninckx, Alain Finkielkraut, Franck & Vautrin, Marcel Gauchet, André Glucksmann, Jean-Claude Guillebaud, Jean Lacouture, Bernard-Henri Lévy, Eduardo Manet, Erik Orsenna, Pierre Perret, Jean-Marie Rouart, Jean Rouaud, Yves Simon, Zoé Valdés e Raoul Vaneigem
à venda por 8 euros

(publicado no "Dna")