Em Londres, duas importantes exposições de Fotografia revelam-nos os novos caminhos da criação contemporânea no Oriente. No Barbican Art Gallery, “Araki: Self. Life. Death” - uma grande retrospectiva de Nobuyoshi Araki, e no Victoria & Albert Museum - “Between Past and Future – new photography and video from China”-, uma colectiva de fotógrafos e videastas Chineses, desvendam-nos olhares que fascinam e surpreendem pelas suas ousadas representações do Corpo.
Texto de Susana Paiva
Um "monstro" chamado Araki
Nobuyoshi Araki é uma verdadeira celebridade no Japão, o seu país natal. Nascido em 1940, em Tóquio - a cidade onde mais fotografou e, que na série "Contacts", definiu como "a cidade com as pessoas mais tristes do mundo" - Araki celebrizou-se nos anos 70, altura em que, verdadeiramente, iniciou a sua frenética criação fotográfica.
Autor de cerca de três centenas de publicações, algumas das quais edições de autor, desde cedo criou polémica em torno da sua obra, sobretudo pela escolha dos seus sujeitos fotográficos.
Definido, por uma das suas modelos, em "Arakimentari" - o documentário dirigido, em 2004, pelo nova-iorquino Travis Klose - como um "monstro, pleno de energia" ou pela cantora Bjork como "a pessoa mais enérgica que já conheceu", Araki deve muito do sucesso, e controvérsia, à sua extrovertida personalidade e singular abordagem fotográfica, inicialmente marcada pela revelação da sua intimidade nos seus "I-novel " e posteriormente materializada em fotografias de exóticos nus femininos, muito dos quais sexualmente explícitos.
Activo criador, numa sociedade intolerante à representação naturalista do corpo, onde a figuração dos órgãos genitais, especialmente dos pêlos púbicos, foi durante décadas estritamente proibida, Araki é hoje apontado como agente de uma verdadeira revolução estética no Japão, sendo um dos maiores responsáveis pelo progressivo esbatimento da fronteira entre arte e pornografia. É também graças ao enorme sucesso do seu trabalho, realizado ao longo das últimas quatro décadas, que é hoje possível visionar as suas fotografias, de natureza sexualmente explícita, em galerias de arte e museus de todo o mundo, permitindo assim alargar o espectro do seu público, anteriormente reduzido a um certo circuito alternativo e mais subterrâneo.
Fotógrafo multifacetado, que nunca se fixa numa só abordagem técnica ou estética - veja-se o exemplo da sistemática utilização da fotografia analógica e digital, do sistema polaroid, do recurso a diferentes formatos das suas câmaras fotográficas, bem como o recurso ao desenho e à pintura nas suas imagens -, Araki não é um fotógrafo de fácil definição. Talvez tenha sido Akiko Miki, curadora no Palais de Tokyo, em Paris, e editora de "Self.Life.Death"- a última obra de Araki, editada para acompanhar a exposição retrospectiva actualmente patente no Barbican Art Gallery - quem melhor traduziu a sua essência - "Araki está constantemente em movimento entre pares e opostos: ficção e facto, sagrado e profano, presença e ausência, arte e obscenidade, passado e futuro, interno e externo, luz e escuridão, positivo e negativo, tradição e inovação, dinamismo e estática, beleza e fealdade, profissionalismo e amadorismo, fotografia e filme, fotografia e literatura, fotografia e arte, campo e cidade, sujeito e objecto, vida e morte. Não há distinção hierárquica no seu trabalho entre fotografia comercial, fotografia pessoal, fotografia criada para parecer pessoal ou qualquer outro tipo de fotografia entre a enorme variedade do que ele cria". Ou, reforçando esta ideia, como se pode ler nas entrelinhas da definição de fotografia, que este criador, auto-intítulado "uma máquina fotográfica para o qual fotografar é apenas uma acção", expressa em "Arakimentari" - "resumindo, a fotografia é sobre um ponto num certo momento, é como parar o tempo, como se tudo ficasse concentrado nesse instante forçado. A fotografia tem um género de realidade que é quase uma ilusão, fotografar torna-nos conscientes disso. Se continuarmos a criar esses "pontos" eles formam uma linha que reflecte a nossa vida. É nisso que, inconscientemente, penso quando disparo o obturador - em juntar esses pontos. A fotografia é vida!". Um bom argumento para nos ajudar a compreender a multiplicidade e heterogeneidade das suas imagens, aplicadas com alfinetes nas imaculadamente brancas paredes da galeria de arte do Barbican - uma viagem pessoal, que nos conduz a destinos inesperados, com paragens do particular ao universal, da extrema poesia à dita pornografia.
Uma encruzilhada artística entre passado e futuro
A arquitectura da exposição “Between Past and Future – new photography and video from China” contrasta glamourosamente com o classicismo do edifício do Victoria & Albert Museum. Num ambiente de baixa luz, justificado por questões de boa visualização das múltiplas projecções vídeo, só os néons amarelo e brancos, que anunciam o título e os quatro núcleos da exposição – “História e Memória”, “Re-imaginando o Corpo”, “Pessoas e Lugares” e “Performing o Self” -, quebram o cinza escuro de onde emergem, nas três salas, os espessos perfis de madeira das caixas que abrigam as cerca de 60 obras dos 40 artistas representados.
Relativamente desconhecida na Europa, a criação fotográfica e videográfica contemporânea Chinesa, tem suscitado a curiosidade dos criadores e público em geral que, dia após dia, continuam a acorrer à sala de exposições temporárias do Victoria & Albert, assim como às actividades paralelas organizadas em seu torno.
No evento “China Live - Friday late night” que abriu, gratuitamente, as portas do Museu até às 22 horas, galerias, átrios e anfiteatro do V&A transformaram-se para receber ao vivo alguns dos criadores representados, fotograficamente, na exposição. Com grande expressão na actual prática artística chinesa encontram-se os registos documentais de performances “Live Art” dos artistas nacionais. Recorrendo assim à fotografia e vídeo, se perpetuam actividades artísticas efémeras, de visibilidade reduzida, frequentemente consideradas subversivas e, como tal, de exibição pública proibida na China.
De acordo com Shu Yang, curador, escritor e performer, é sobretudo o regime político chinês vigente, e consequentemente um conceito de arte apenas admissível "como uma prática ao serviço do regime", que motiva alguns dos jovens criadores a associarem-se em comunidades artísticas, como a “Beijing East Village”, onde a entreajuda é o principal motor para criações que nunca encontrarão reconhecimento ou financiamento oficial.
Muito centradas nas questões da identidade, história e memória, as criações chinesas contemporâneas reflectem “a rápida mudança cultural, social e económica que actualmente tem lugar na China”. Com registos muito distintos, e recorrendo a técnicas muito diversificadas, a fotografia chinesa contemporânea faz ponte entre tradição e modernidade, recorrendo a elementos figurativos, ou técnicas tradicionais, agora reinventados e expressos num novo contexto e frequentemente materializados em imagens do corpo humano.
No centro da exposição, numa das mais singulares instalações, destacam-se os 10 pares de sapatos tradicionais chineses, manufacturados pela autora - Yin Xiuzhen - e pela sua mãe, que ostentando fotografias da artista, traduzem, neste auto-retrato, as mudanças fisionómicas desde a sua infância até 1998, ano em que a obra foi concluída. Nesta peculiar auto-representação, Yin Xiuzhen, que habitualmente utiliza roupas e calçado nas suas instalações, elege os sapatos como centro da sua obra pois estes "são portadores de experiências, memórias e vestígios do tempo", concluindo que, fiéis e inseparáveis companheiros, “os sapatos, tal como barcos, transportam as pessoas milhares de quilómetros”.
Utilizando o seu próprio corpo como referência, Qi Sheng apresenta no tríptico “Memories”, datado de 2000, a sua mão acolhendo, em cada imagem, fotografias tipo passe onde figuram, individualmente, a sua mãe, Mao Tse-tung e ele próprio, enquanto criança.
Tendo deixado a China após os incidentes na Praça de Tiananmen, em 1989, e vivido durante uma década em Itália e no Reino Unido, Qi Sheng utiliza agora a sua mão esquerda, cujo dedo mindinho por ter sofrido um acidente na China se encontra agora ausente, e imagens da sua infância, para simbolizar a indelével ligação entre memória pessoal e memória histórica para toda uma geração de Chineses.
Recorrendo a motivos tradicionais, Huang Yan, produz imagens fotográficas onde figuram torsos de homens, cobertos de pó branco e pintados a tinta da china com recursos a técnicas tradicionais da pintura Chinesa. Esta pintura, onde figuram sobretudo paisagens, era tradicionalmente executada pelos criados chineses que assim encontravam um espaço de evasão das suas responsabilidades quotidianas. Rememorando esta atitude, Huang Yan afirma que "a paisagem é um recipiente onde o corpo pode residir, rejeitando a violência mundana, um espaço onde posso libertar as minhas ideias Budistas".
Numa síntese perfeita entre recursos tradicionais e novas acepções, Qiu Zhijie utiliza, em “Tatoo1”, o caracter bu – significando “não” – escrito no seu corpo e na parede atrás de si, criando assim a ilusão que o mesmo flutua livremente do corpo, numa alusão a um tempo onde “sinais e códigos se sobrepuseram aos seres humanos e os nossos corpos se tornaram meros veículos”. Uma exposição que tendo já sido apresentada, em 2004, no International Center of Photography, em Nova Iorque, traz agora à Europa, muito mais do que simples exotismo oriental, uma boa oportunidade de reflectir sobre as relações entre poder e criação artística.
“Araki – Self, Life, Death”
Barbican Art Gallery
Até 22 de Janeiro
“Between Past and Future – new photography and video from China”
Victoria & Albert Museum
Até 15 de Janeiro
(publicado na "Magazine Artes")