Mois de la Photo Paris 2006

Páginas escritas de luz

Foi há 26 anos, em Paris, que nasceu o “ Mois de la Photo”, uma das mais famosas bienais europeias que, nesta edição, assenta tónica na relação entre fotografia e página impressa. Um acontecimento que, durante este mês, por toda a cidade, evidencia não só o sucesso da criação fotográfica mas sobretudo o poder da impressão da escrita com luz.

Texto de Susana Paiva
Fotografias gentilemente cedidas por Mois de la Photo 2006

É uma fina trama de cumplicidades, a que tece a complexa teia da realidade fotográfica em Paris, onde a imagem parece habitar todos os lugares. Aqui, reduzir a fotografia a um local, a uma estrutura, é tarefa inútil e impossível. Talvez seja precisamente isso, nas palavras de Jean-Luc Monterosso, comissário geral do Mois de la Photo, que torna Paris habitualmente tão atraente aos olhos dos amantes da fotografia – “a existência de uma multiplicidade de locais, como o Jeu de Paume, a Maison Europeéne de la Photographie, o Museu d’Orsay, a Fondation Cartier pour l’art contemporain e algumas outras estruturas dedicadas à produção e divulgação da fotografia bem como a diversidade das práticas que promovem e apresentam”.
Talvez tenhamos que admitir que o epicentro da fotografia contemporânea ocidental se deslocou mais para oeste, alojando-se em cidades como Londres e Nova Iorque, mas não seria sensato deixar de admitir que Paris continua, numa perspectiva transversal, capital da fotografia. Aqui se produzem e apresentam, em museus, galerias públicas e privadas e noutros locais menos convencionais, exposições que abarcam a componente histórica, técnica e estética da imagem fotográfica, dos seus primórdios à actualidade.
Em Paris, os museus expõe regularmente os seus fundos fotográficos, promovem visitas guiadas aos ateliers de restauro e não deixam que o património se perca no esquecimento comum. As instituições estatais apresentam as grandes exposições que fazem o tour do mundo, de Nova Iorque a Tóquio, não esquecendo contudo de promover o que de melhor se produziu e se produz ainda em França. As galerias privadas discorrem, maioritariamente, sobre os grandes clássicos da fotografia mundial, vendendo impressões vintage ou cópias contemporâneas assinadas pelos seus autores, havendo algumas poucas que arriscam ainda comercializar jovens autores, cujo nome começa agora a valorizar no mercado mundial. As grandes agências fotográficas internacionais com a VII escolhem Paris como sede ou como escritório na Europa, tal como fez a Magnum.
A forma mais justa de falar da fotografia em Paris parece ser dizer que a mesma se respira por toda a cidade. No Hôtel de Ville, o presidente da câmara abre, regular e gratuitamente, a porta a grandes nomes da fotografia humanista francesa, como Willy Ronis ou Robert Doisneau – dois ícones da fotografia francesa, a par com Henri Cartier-Bresson que desde alguns anos possui uma fundação privada, presidida por Martine Franck, sua viúva, destinada à conservação, promoção e divulgação da sua obra.
Ver fotografia em Paris é uma possibilidade sempre em aberto, extraordinariamnete rica durante todo o ano, mas apenas clarificada, na sua imensa teia de interacções, em Novembro, de dois em dois anos, durante o Mois de la Photo, quando instituições, galerias, museus, agências e fotógrafos convergem, mobilizando-se em torno de uma mesma temática, num evento não só geograficamente mapeável mas sobretudo compreensível à escala do visitante.
Foram necessárias 14 edições para que o Mois de la Photo se debruçasse, de acordo com o seu comissário geral, em plena era do digital e do virtual, sobre “um tema maior da fotografia do século XX - a página impressa”. “O livro, a revista, mas também o cartaz, foram, de facto, durante mais que um século, suportes de difusão privilegiados” afirma Monterosso, abrindo assim a porta para a tripartida estrutura da bienal, versando os grupos temáticos, – “a história das imagens e das publicações”, “o desejo do livro” e “a imprensa, a revista e o livro”, com respectiva coordenação da historiadora Anne de Mondenard, do autor e crítico Gabriel Bauret e do director artístico, de renome, Peter Knapp.
Nos 64 locais oficiais de exposição, alguns dos quais apresentando múltiplas exposições, encontram-se representados mais de duas centenas de fotógrafos entre os quais Henri-Cartier Bresson, Édouard Boubat, Jean Philippe Charbonnier, Jean-Louis Swiners, Robert Doisneau, Willy Ronis, Jean Dieuzaide, Ralph Gibson, Joel Meyerowitz, Désirée Dolron, Bruno Stevens, Érich Lessing, Jeanloup Sieff e Masao Yamamoto que, de múltiplas formas, prestarão o seu tributo ao duplo poder da escrita pela luz.
Absolutamente a não perder, neste mar de informação, a viagem que, reproduzindo os saudosos passos de Édouard Boubat, nos conduzirá, através da ponte Louis Philippe, ao coração de Paris onde, há 30 anos, se localiza a galeria Agathe Gaillard. Aí se faz, através das extraordinárias fotografias de Charbonnier, Boubat e Swinners, reviver “Réalités” - uma revista mensal ilustrada, publicada entre 1946 e 1978, e criada, num cenário de pós-guerra, para, nas palavras de Agathe Gaillard, “satisfazer a curiosidade dos franceses sobre o mundo, fazendo-os viajar sem sair de casa”. Uma revista que na edição nº 108, de Janeiro de 1955, apresentava o trabalho de reportagem “Bons pour l’asile” – “o que acontece aos 100.000 franceses que declaramos bons para o asilo” onde se traça, através do texto de Hervé Bazin e das fotografias de Jean Philippe Charbonnier, então responsável pelos “serviços fotográficos”, as impressionantes condições em que viviam os doentes mentais franceses. Um trabalho extraordinário que, na época, surpreendeu a opinião pública e que, sem dúvida, merece agora reencontrar novas audiências.


Mois de la Photo 2006, Paris
Exposições durante todo o mês de Novembro

(publicado na "Magazine Artes")