Johan van der Keuken

Fotografia e Cinema

Cineasta, fotógrafo, experimentalista, improvisador – todas as categorias parecem redutoras quendo se trata de classificar Johan van der Keuken, criador holandês falecido em 2001. Em jeito de homenagem a Maison Européenne de la Photographie, em Paris, apresenta uma retrospectiva da sua obra enquanto a canal ARTE lança simultaneamente, em dois volumes dvd, a integralidade da sua obra cinematográfica.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Johan van der Keuken

Na cave do Hôtel Hénault de Cantobre, onde se encontra localizada a Maison Européenne de la Photographie (MEP), uma televisão exibe, em planos alternados, o rosto de um homem e paisagens de Andalusia. O protagonista é Johan van der Keuken que, em “Derniers mots”, de 2001, fala com o seu enteado, e realizador do documentário, Stijn van Santen. Aí trocam palavras de afecto, falam abertamente da morte - que Van der Keuken sabia anunciada-, e abordam assuntos como a família, amigos e a música jazz - temas recorrentes do autor.
Sobre aquele que declarou “fotografar porque o tempo passa demasiado depressa e filmar porque o tempo lhe fazia falta”, escreveu Alain Bergala “É preciso rendermo-nos à evidência: não há um olhar Van der Keuken no sentido que há um olhar Doisneau ou um olhar Cartier-Bresson, isto é marcas singulares, permanentes, na sua forma de perceber o real. É de toda uma outra coisa que se trata. (…) Na obra fotográfica de van der Keuken não se procura reabsorver uma inquietude permanente ou congelar meditações mas antes implicar os seus, sem esperança de alcançar um dia a serenidade da estabilidade mesmo que provisória.”
É ao o criador desta “eterna intranquilidade”, aprendiz de fotografia aos 12 anos de idade, que a MEP dedica actualmente 5 salas de exposição, aí exibindo fotografias e excertos das suas obras cinematográficas.
Nascido em 1938 em Amsterdão, e falecido em 2001, Johan van der Keuken publica as suas primeiras obras fotográfica aos 17 e 19 anos – “Wij zijn 17” (“Nós tinhamos 17 anos”) e “Achter Glas” (“Atrás da janela”) – dois livros inovadores, retratando os adolescentes, um grupo social raramente representado na época.
Entre 1956 e 1958, van der Keuken estuda cinema no IDHE (Instituto de Altos Estudos Cinematográficos), em Paris, prosseguindo com a sua actividade fotográfica nas ruas da capital, trabalho do qual que resultará, em 1963, a publicação de “Paris Mortel”. Uma obra dividida em seis capítulos, entre os quais o metro, retratos de rua, defiles militares e o cemitério de Père Lachaise, onde a ambiência sombria de cada sequência ganha em intensidade antes de alcançar o tema principal, aquele da “mortalidade” da cidade. Johan van der Keuken metia assim fim ao mito de uma Paris romãntica e intemporal, pondo em evidência uma Paris das classes trabalhadoras, uma capital industrial.
Cruzando uma prolífera obra cinematográfica, iniciada em 1960, com uma não menos abundante obra fotográfica, van der Keuken desenvolveu séries de trabalho como “Jaipur”, em 1991, - uma homenagem aos condutores de rickshaw das intensamente movimentadas ruas de uma cidade indiana sobrepopulada - e “As ruas de Amsterdão”, em 1993, - uma contraposição de duas ruas da cidade: Damstraat, percorrida por uma curiosa mistura de habitantes de longa data, turistas, marginais, drogados e traficantes e Haarlemerdijk, uma rua de comércio tradicional – construindo “vastos frescos fotográficos” que evocam precisamente o espaço intermediário entre fotografia e cinema, “ente fixação e caos, entre superfície e simultaneadade”, segundo palavras de Johan Van der Keuken. Compostas de instantâneos sobrepostos elas materializam uma memória curta e aproximativa e funcionam “pela tensão entre o aleatório e o deliberado”.
Das suas primeiras fotografias - recordo um belíssimo auto-retrato de 1955, cigarro na mão, rolleicord e rosto de 17 anos reflectidos ao espelho - aos seus últimos filmes, entre os quais o extraordinário “Derniers mots – Ma soeur Joke”, de 1998, onde van der Keuken retrata os últimos dias de vida da sua irmã, toda a sua obra é atravessada por uma intensa poesia exaltando a vulnerabilidade do ser humano e a inevitável conclusão, para usar curiosas palavras de Johan van der Keuken, que “a vida é um grande dispêndio de energia”.

(publicado na "Magazine Artes")