Imagens a Sul

No verão o epicentro da fotografia international desloca-se para o sudeste de França. Um acontecimento que se inicia em Julho, na cidade de Arles, onde os locais Rencontres de Photographie exibem, durante dois meses, o melhor da fotografia contemporânea, este ano sob a coordenação do fotógrafo e cineasta Raymond Depardon.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas pelos Rencontres d’Arles 2006


A polifonia da página inicial do site internet dos Rencontres d’Arles anuncia, de forma algo minimal, a essência do prestigiado festival de fotografia iniciado em 1970 na cidade de Arles.“É um festival, uma montra. São encontros, estágios, pedagogia, festa, é tudo…37 anos já!”
Hoje, o mais antigo festival internacional de fotografia, reconhecido por uma certa geração de fotógrafos e agentes culturais franceses como um dos mais importantes pontos de encontro dos profissionais da fotografia, protagoniza uma transformação que não parece agradar a todos. Nas palavras de Agathe Gaillard, a mais antiga galerista de fotografia em Paris, “Arles perdeu a sua graça. Antes íamos todos - fotográfos, galeristas, editores -, como uma grande família, passar umas férias a Arles, só para nos encontrarmos e falarmos de fotografia. Agora já não é assim”.
Actualmente os Rencontres d’Arles parecem ter, largamente, ultrapassado essa dimensão familiar. Hoje o numero de exposições de fotografia patentes a público, durante os dois meses do certame, ultrapassa já a meia centena, número mais do que contrastante com a média de 6 exposições anuais das primeiras 5 edições do Festival. E se hoje muitas vozes se erguem contra a perda da familiaridade do espaço de encontro e confraternização - a eventual essência do festival - muitas outras não cessam de afirmar que o mesmo ganhou em projecção internacional e em participação de público, em última instância factores fundamentais para a sobrevivência económica de um evento que, apesar de comemorar este ano a sua 37ª edição, continua ainda sem futuras garantias de viabilidade.
Definida como “uma manifestação aberta a todos - aos amantes da fotografia, aos criadores, ao público da fotografia contemporânea” a programação deste ano contou com a colaboração do anunciado “super fotógrafo” Raymond Depardon que aproveitou a hipótese para prestar homenagem aos históricos fotógrafos americanos que o influenciaram, bem como aos seus contemporâneos “companheiros de estrada”.
Criador multifacetado, Raymond Depardon, fotógrafo da agência Magnum desde 1979, desempenhou ao longo da sua carreira diversos papéis – “de paparazzi da Agência Delmas, enquanto debutante, a fotógrafo de nús para a revista Playboy, passando pela criação e realização cinematográfica, sobretudo documental, e pela criação da Agência Gamma, juntamente com Gilles Caron”. Um perfil que, graças à sua versatilidade e pluridisciplinaridade, permitiu que a edição deste ano dos Rencontres ganhasse uma nova dinâmica e acentuasse a tónica noutras formas de apresentação das imagens, criando múltiplos espaços para a existência de instalações e apresentações de trabalho fotográfico com recurso a projecções video que cativaram, durante horas, muitos espectadores.
Menos populares, de acordo com a imprensa francesa, parecem ter sido as medidas tomadas pelo comissário geral no que concerne à vertente pedagógica do festival, com a inclusão de uma taxa de inscrição de 220 euros, paga por todos os jovens fotógrafos que desejassem ver o seu portfolio apreciado por um painel de profissionais, contrariando assim uma longa tradição de gratuitidade e informalidade na leitura dos referidos trabalhos. “Antes os portfolios eram vistos em todo o lado, dos cafés aos hotéis” refere Agathe Gaillard, “hoje só pagando é que os jovens poderão ter a sorte de ver o seu trabalho reconhecido, algo que vai contra o princípio de descoberta de novos talentos que o festival sempre defendeu”.
Longe das polémicas e controvérsias levantadas nesta edição do festival, o público, de mapa na mão, transita pela cidade de exposição em exposição e vai deixando a sua impressão nos livros de honra que habitam cada um dos espaços expositivos. Na exposição “Fotografia Americana nas coleçcões Francesas”, reunindo maioritariamente imagens de 1910 aos anos 80, onde se destacam as chocantes imagens, de crimes e acidentes, da autoria de Arthur Fellig Weegee - obtidas por antecipação a todos os outros fotógrafos graças à sintonia ilegal das frequências rádio da polícia e a uma rede de informadores marginais -, o extracto de onze imagens da série “Graceland”, da autoria do “pai da fotografia a cores” William Eggleston, onde se mostram a casa e objectos de Elvis Presley no Tennessee, Estados Unidos da América, bem como a extraordinária série “Os Americanos” realizada, entre 1955 e 1956, nos EUA por Robert Franck, e sobre a qual, um visitante bem informado, e não abdicando do seu conhecimento, fez questão de escrever “ Robert Franck não é americano mas sim emigrante nos Estados Unidos. Ele nasceu em Zurique, na Suiça…”
Oscilando entre curiosidades, agradecimentos e críticas, as notas deixadas nos livros de honra das exposições são, não raras vezes, um espelho agudizado do impacto das exposições na população geral. Exposições como a do fotógrafo americano Robert Adams, onde se mostram imagens do quotidiano familiar, de Rocky Flats, nos anos 70, perto da fábrica de armamento nuclear, suscitaram diferentes comentários, muito marcados culturalmente. Enquanto a americana Kathryn escreveu “estas fotografias recordam-me a minha infância no sudoeste dos Estados Unidos. Anos 70, tão vividos! Elas captam o sentimento e o tom das minhas memórias desse tempo. Obrigada.”, o francês Hervé registou “dentro de dois minutos terei esquecido esta exposição indiferente. Ela faz parte dos porquês, para que serve isto sem emoção…Haverá outros que certamente apreciarão.”
Assim parece ser a tónica dos Rencontres d’Arles 2006, plenos de propostas apreciadas por uns e detestadas por outros, envoltos em polémicas que no final, além de mobilizarem toda a cidade, se traduzem em enormes sucessos de bilheteira como confessou a responsável do acolhimento das exposições do Palais de l’Archevêché – “este ano tivemos muito mais visitantes do que no ano anterior. Com o Depardon, o seu envolvimentos nos media e tudo, tivemos a cobertura de todos os canais de televisão franceses e de muita, muita imprensa escrita”.
Recordista de visitas acabaram por ser as exposições localizadas nas antigas oficinas do caminho de ferro nacional, um espaço esplendido, onde brilhou o núcleo de trabalhos sobre política e sociedade. Representando trabalhos de mais de 30 fotógrafos, e numa visita que durava em média 6 horas, as oficinas encheram-se de histórias de luta, sofrimento mas também de vitória. Aí, num trabalho da autoria de Raphaaell Dellaporta e Ondine Millot, imagem e texto uniram-se para contar histórias de escratura doméstica em França. Sobre blocos de cimento, alternando depoimentos visuais e escritos, se contam histórias de sofrimento humano à mão de outros homens, como a de Legba, uma mulher de 30 anos, originária do Togo, que aceitou um emprego para tomar conta de crianças em França. “Cheguei a 25 de Março de 2001. Eles vieram buscar-me ao aeroporto. A primeira coisa que me disseram foi - “Dá-nos todos os teus documentos”.
Um pouco mais adiante, recorrendo ao vídeo, Olivier Jobard conta-nos em “The hard way, the only way”- um caderno de viagem de um emigrante clandestino-, a odisseia de Kingsley através de um itinerário que o levou clandestinamente dos Camarões, o seu país natal, a França. Sentados num banco duro, com capacidade para apenas dois passageiros, e na escuridão do interior de um camião, somos testemunhas das dolorosas imagens, captadas com auxílio da função “nightvision”, e que nos mergulha no sofrimento silencioso das dezenas de emigrantes que viajam através do deserto nas traseiras de um qualquer camião.
Plenas de imagens fortes há no entanto, entre os actuais colegas de Depardon , uma obra que se destaca pela sua força gráfica e poética – é o trabalho de Guy Le Querec, o fotógrafo que declarou “andar sobre o fio da sorte tentando apanhar estrelas cadentes” e que tão magistralmente fotografou grandes nomes do Jazz como o tropetista Dizzy Gillespie, o saxofonista Evan Parker, o contrabaixista Charles Mingus ou a cantora e pianista Nina Simone. Uma milagrosa lufada de ar fresco num universo fotográfico que, fruto das opções de Depardon e do inegável mundo em que vivemos, se transformou praticamente num grande festival de fotografia documental.

(publicado na "Magazine Artes")