Flor Garduno

Entre a Terra e o Céu

Céu e Terra, Sagrado e Profano, Intimidade e Exposição - são estas as pedras basilares da obra de Flor Garduño.
Herdeira da tradição do seu conterrâneo Manuel Alvarez Bravo, e da sua capacidade de captar o sonho enquanto obra do homem acordado, Flor Garduño cria, com as suas imagens, “momentos suspensos de grande densidade, onde sentimos a intersecção de diferentes planos temporais e uma voz que está para lá de todas as medidas”.

Fotografias de Flor Garduño
Texto de Susana Paiva

Frequentemente descrita como “fotógrafa poética”, Flor Garduño tem o extraordinário poder de, quer seja através das suas imagens dos indígenas americanos ou dos seus nus simbólicos e das suas naturezas mortas, criar pontes que nos conduzem, entre os mundos do sagrado e do profano, numa improvável cartografia temporal que o escritor Carlos Fuentes tão bem descreveu como “o retrato móvel da eternidade” .
Outrora assistente do mestre mexicano Manuel Alvarez Bravo, Flor Garduño cedo encontrou, no seu próprio Olhar, a liberdade artística que, durante os anos 80, a levou a percorrer zonas remotas da América Latina captando a vida e os rituais dos povos indígenas. Daí resultou “Witnesses of Time” - o seu livro internacionalmente aclamado, editado em sete países durante o ano de 1992.
Nesses “testemunhos”, Flor Garduño habituou-nos às suas pesquisas e deambulações por “interstícios do tempo longo onde se anicham os medos da morte e de esperança de ressurreição” , espaços-tempo onde se revelam a sobrevivência de crenças mais velhas que a ocupação europeia e a difusão do cristianismo nas Américas.
Depois, com a maternidade, a fotógrafa decidiu interromper os seus trabalhos de exterior. Voltou-se para a casa, - “essa ferramenta interior que tem um espaço e um tempo muito próprios” -, onde faz agora fotografia.
Mas, não obstante a mudança de cenário, é ainda “da fronteira indefinível que separa e integra o sagrado e o profano que tratam as novas imagens de Flor Garduño. Porque, bem o sabemos, de uma prática rara de alguns momentos diferentes, que esses dois mundos se tocam e entrecruzam”, escreve Teresa Siza, no prefácio de “Flor”, versão europeia de “Inner Light”, última publicação da fotógrafa mexicana.
Reflectindo uma nova forma de estar, e um novo espaço de acção, o último trabalho de Flor Garduño dá-nos a certeza de ser este apenas um novo capítulo dos seus motivos principais. “A temática é, ainda, a ritualística da relação com o sagrado, agora centrada no intercâmbio dos signos da tradição mágica e mítica com o corpo da mulher”, revela Teresa Siza, directora do Centro Português de Fotografia.
É agora no corpo da mulher, “associado a um sinal de posse ou de passagem a um dos objectos que, ao longo dos tempos e das civilizações mais tem perdurado como receptáculo de um sagrado qualquer”, que se encontra o epicentro do seu trabalho.
“Sujeito simultaneamente ao profano, o corpo do homem arrisca-se a ser destruído com a proximidade do sagrado. Porque o sagrado representa uma energia perigosa, temível, que envolve o "pneuma", essa respiração que fala e que é o corpo.
Mas não para a mulher, ser que escapa, desde a mais primitiva das sociedades, às regras que controlam o dom, o corpo colectivo e a organização social.
A mulher é, pois, o elemento de equilíbrio, de ligação entre os grupos, mas, também, o elemento estranho, diferente - a ara e não o corpo, o local ou agente de sacrifício e não a vítima. O homem, esse sim, é ser-para-a-morte; a mulher é ser-para-a-vida. Esse foi o sentimento desde a primitividade da cultura”, explica Teresa Siza.
Nas imagens de Flor Garduño se define um sentido que não é histórico nem de causa-efeito. Os signos, encontrados no substracto de muitas culturas, apontam para a presença desse corpo onde as respostas se procuram e se devolvem enigmas.
“Neste percurso labiríntico pelos signos da fertilidade e do poder feminino, atravessado pelo elemento de função catalizadora, - o símbolo fálico, peixe, espada, feixe de luz - , não é com a realidade da presença dos mitos que nos confrontamos, mas com o esplendor do corpo e da concepção. Por isso mesmo as flores - símbolos sexuais -, os frutos férteis, esse peixe das profundidades, cuja função e forma são as de cortar a água da vida”, conclui Teresa Siza.
As imagens de Flor Garduño “são herdeiras de sentidos dispersos, havendo nelas uma depuração da natureza dos mitos, que aqui se fazem música e bailado” , como tão bem revela a majestosa fotografia da “Árvore da Vida” - uma esplendorosa árvore, criadora de vida e movimento, que parece surgir da vastidão de um deserto.
E parafraseando Teresa Siza, reforçamos a ideia inicial de Carlos Fuentes reveladora do fulcro da obra de Garduño. “Mas é com o domínio do tempo que a fotógrafa introduz a ruptura. São momentos suspensos de grande densidade, onde sentimos a intersecção de diferentes planos temporais e uma voz que está para lá de todas as medidas”.


Bibliografia

2002 INNER LIGHT editado por Bulfinch Press New York/Boston EUA
FLOR (versão europeia de INNER LIGHT) editado por:
Lunwerg, Madrid/Espanha (espanhol)
Peliti Associati, Roma/Itália (italiano)
Braus, Heidelberg/Alemanha (alemão)

2001 Reedição de WITNESSES OF TIME pela APERTURE, New York, EUA (versão inglesa e espanhola)

1996 MUMMENSCHANZ, Tobler Verlag, Altstätten, Suiça

1994 MESTEÑOS, Schellenberger, Frauenfeld, Suiça

1992 WITNESSES OF TIME, Prólogo de Carlos Fuentes
editado por:
Braus, Heidelberg/Alemanha
Thames and Hudson Ltd. London/Inglaterra
Thames and Hudson Inc. New York/EUA
Motta Editore, Milano/Itália
Redacta SA, Mécixo D.F./México
Helvetas, Zurich/Suiça
Arthaud, Paris/França

1992 Monografia publicada pela revista DU, Zurich/Suiça (Janeiro)

1987 BESTIARIUM, U. Bär Verlag, Zurich/Suiça (alemão)
Edizione Argentum, Stabio/Suiça (espanhol)

1985 MAGIA DEL JUEGO ETERNO, Ed. Juchachi' Reya, Juchitán, Oax., México

(publicado no "Dna")