Educar para a sensibilidade

Foi sob o tema "Colecções imprevistas" que se realizou a exposição anual do Serviço Educativo da Fundação de Serralves. Uma irrefutável prova de que o trabalho sistemático na área artística, envolvendo a comunidade escolar, pode produzir surpreendentes e eficazes resultados.

Texto e fotografia de Susana Paiva

Sofia Vitorino, programadora do Serviço Educativo da Fundação de Serralves em parceria com Elizabete Alves, não gosta de avaliar, de forma exclusivamente quantitativa, o impacto do serviço que coordena, mas tem consciência que, durante o ano, este movimenta muitos milhares de visitantes e que, nos últimos três anos, as acções da sua equipa se têm traduzido numa progressiva adesão e consequente sucesso.
Dos trezentos e trinta e sete mil visitantes da Fundação, no ano de 2004, noventa e sete mil e oitocentos corresponderam, de facto, aos visitantes do Serviço Educativo - um número que revela bem a dinâmica instituída por um serviço que elegeu como objectivo "sensibilizar e formar os diferentes públicos para as temáticas da arte, da arquitectura e do ambiente, através de uma programação heterogénea, que procura incentivar a criação de hábitos culturais". Entre as múltiplas actividades do serviço encontram-se visitas às exposições, aos espaços arquitectónicos e paisagísticos, a realização de oficinas temáticas, acções de formação e cursos, e projectos com escolas, que revelam uma programação "que procura intensificar a relação estabelecida com a comunidade, proporcionando momentos de formação, de lazer, de reflexão, de partilha de conhecimentos, emoções e valores".
Fruto dessa cumplicidade continuada com a comunidade escolar, nasceu "Colecções Imprevistas" - a exposição temática proposta pelo Serviço Educativo da Fundação de Serralves aos alunos que, durante o passado ano lectivo, visitaram a Fundação de Serralves .
Em "Colecções Imprevistas", dois mil duzentos e cinquenta e quatro alunos, de cinquenta e cinco escolas, expuseram mais de uma centena de trabalhos revelando propostas de crianças e jovens do ensino pré-escolar ao ensino superior. O resultado não poderia ter sido mais surpreendente - na sala do Serviço Educativo, devidamente transfigurada para acolher a exposição, um laranja e azul intensos, que cobrem paredes, alcatifa e mobiliário, envolvem chaves, parafusos, canetas, maços de tabaco, selos, brinquedos, botões, bolachas, chupetas, tampas, selos, moinhos de vento, penas, terços e outros tantos objectos que agrupados em caixas de cartão, fornecidas às escolas pela Fundação, revelam o laborioso trabalho colector destes pequenos grandes coleccionadores.
Tendo como intuito "motivar os jovens para a arte contemporânea, através do contacto com a experiência dos artistas, a pesquisa, a reflexão, o debate e o trabalho em grupo", o projecto desenvolveu-se em diferentes etapas, integrando visitas à Fundação de Serralves, ateliers para grupos de alunos e professores, encontros para divulgar a estrutura do projecto e debater o processo criativo bem como um seminário de formação com artistas, coleccionadores e responsáveis por colecções museológicas, e ainda uma acção de formação para professores.
No âmbito deste projecto pluridisciplinar as Escolas definiram o seu percurso, com o objectivo de cruzar ideias e referências que estimulassem novos olhares sobre as colecções pessoais dos participantes, tendo as possibilidades revelado-se inesgotáveis ao longo do ano de trabalho. "Que tipo de coisas coleccionamos? De que modo podemos expor e partilhar as nossas colecções? O que aprendemos com as colecções reunidas?"
No trabalho final algumas propostas naturalmente espelhavam o desenvolvimento dos trabalhos nas oficinas temáticas. Um bom exemplo disso foram as colecções botânicas, devidamente sistematizadas, a evocar belos herbários, resultantes da oficina "Colecções com Ciência", orientada pelos elementos da empresa "Amoeba Educação Científica", bem como os desenhos resultantes da oficina "Máquinas de Pintar", orientada por João Sá após ter criado um conjunto de máquinas "a partir da reutilização de peças em desuso ".
Dada a beleza e originalidade das "máquinas de pintar", três dessas "máquinas lúdicas que despertam em nós o desejo de experimentar, de brincar de manipular" foram instaladas na exposição, permitindo a interactividade dos visitantes que continuaram, diariamente, a produzir desenhos, traduzindo assim o desejo geral de experimentar as maravilhas da pintura automática.
Lado a lado com as colecções mais previsíveis encontravam-se algumas propostas absolutamente inesperadas com a "Colecção de afectos os nossos avós", da escola EB2/3 de Canidelo, onde se podia observar a colecção de moedas da avó Ana, a tesoura, o elástico e alfinetes que denunciavam a profissão de costureira da avó Rosa ou o tubo de ensaio com terra, numa alusão poética à prática da agricultura por parte da avó Adelaide. Uma candura e genuinidade perfeitamente patentes no testemunho complementar que Ana Rita escreveu junto ao desenho do seu avô. "Ele é amigável, bonzinho, ensina-me e ás vezes é um bocadinho chato mas consola-me quando estou triste". Uma expressão de afectos que organizada esteticamente não deixava ninguém indiferente.
Isabel Pontes, vigilante da exposição, não cessava de afirmar, com um certo orgulho, que a exposição se revelou um estrondoso sucesso e que muitos dos visitantes comentaram ter sido essa a melhor experiência da sua visita ao Museu.
À porta, no segundo livro de honra da exposição, iniciado após o primeiro ter rapidamente ficado cheio de comentários, liam-se muitas reacções entusiásticas à exposição. Numa letra infantil e desalinhada, Filipa escreveu "Gostei muito desta iniciativa dos desenhos. Fiz dois muito bonitos. Foi a parte que mais gostei do museu". Entre os visitantes estrangeiros o comentário mais inflamado é assinado por Francesco, um italiano de Florença - "A exposição mais contemporânea de todo o museu. Bravo, continuai!" . Depois, páginas e páginas de comentários elogiosos em francês, italiano, espanhol até se encontrar o depoimento de Céu Pereira, reafirmando o que já se intuía - "Continuem com estas iniciativas pois estas são uma "lufada de ar fresco" no sistema educativo".
Tudo boas razões para acreditar que no final do corrente ano lectivo a nova exposição, desta feita dedicada ao tema "Retratos", fará novamente vibrar a Fundação de Serralves, recompensando organizadores e participantes de mais um empenhado, árduo e gratificante trabalho no caminho da educação artística.

(publicado na "Notícias Magazine")