"Cabaret"

Território de liberdade e transgressão

Quarenta anos após a sua primeira representação na Broadway, chegou agora a vez de Paris receber o musical “Cabaret” numa adaptação francófona da versão de 1998, originalmente encenada pelo britânico Sam Mendes.
Um espectáculo surpreendente que transforma, com grande mestria, as míticas Folies Bergères no berlinense Kit Kat Klub, um sublime território de total liberdade e transgressão, em fruição, em pleno coração de Montmartre, até final deste ano.

Texto de Susana Paiva
Fotografias gentilmente cedidas por Stage Entertainment France

Uma hora antes do início do espectáculo, e pouco depois da abertura de portas do teatro, a sala de espectáculo das Folie Bergères, envolta numa penumbra pontuada pelas ténues luzes dos candeeiros vermelhos sobre cada mesa, encontra-se já repleta. Numa grande azáfama as empregadas de mesa insinuam-se, elegantemente, junto de cada um dos espectadores, recriando de forma estilizada os cabarets alemães dos anos 30.
Pouco tempo depois a tradicional figura do espectador encontra-se já diluída no décor. De copo sobre a mesa, transformado agora em cliente do Kit Kat Klub, resta-lhe ser cúmplice das acções deste Cabaret berlinense que promete libertar, todos quantos o frequentam, das preocupações do quotidiano.
Aclamado pela crítica internacional, quando da sua estreia em 1998, no teatro Henry Miller, na Broadway, e premiado com 4 prémios Tonys, a despojada encenação de Sam Mendes e de Rob Marshall, deste clássico que grangeou fama mundial em 1972 devido à sua versão cinematográfica, realizada por Bob Fosse e tendo Liza Minelli como protagonista, talvez tenha encontrado na centenária sala das Folies Bergère o local ideal para a sua apresentação em Paris. Da mítica sala, simbolo da boémia parisiense, inaugurada a 2 de Maio de 1869 no coração de Montmartre, restam agora pouco mais do que os veludos azuis desbotados, o candelabro central do enorme átrio e escadaria que testemunharam a gloriosa ascenção artística de Josephine Baker e transformaram, ao longo dos tempos, o local em templo de uma certo erotismo feminino. A sala de espectáculo, totalmente remodelada para a realização do espectáculo, contrasta agora, em sofisticação e glamour, com a decadência chique do átrio onde outrora muita da actividade dos Cabarets se desenrolava. O ranger do soalho e a vastidão azul da entrada remetem agora para o desaparecido universo que os soldados britânicos, estacionados em Paris em 1944, encontravam descrito, no seu manual de instruções,– “ É bom desistir da ideia feita das mulheres francesas baseadas nas histórias de Monmartre e dos cabares com espectáculos de nudez. Estes foram sempre concebidos como uma atracção turística para estrangeiros; nos tempos de paz, em Paris, viam-se muito mais britânicos e americanos (e alemães) que franceses nas famosas Folies Bergères.”
Hoje a sala de espectáculos das Folies Bergères, cuidadosamente cenografada e transfigurada, reproduz com alguma fidelidade e charme o cabaret berlinense que Christopher Isherwood descreveu em “Goodbye to Berlin” , o livro que inspirou o espectáculo “Cabaret”. É a partir desta verosimilhança e de uma extraordinária implicação do espectador na estrutura do espectáculo, que Sam Mendes construiu a sua bem sucedida versão do Kit Kat Klub, local onde se desenrola grande parte da acção teatral do espectáculo.
A um escasso metro do palco, na mesa B do clube, a respiração dos actores invade o ar durante a realização de exercícios de aquecimento em poses provocatórias. Uma violinista e um trompetista ocupam a cena e ensaiam alguns sons, intercalados com o zumbido das duas enormes ventoinhas que, pendendo do tecto, dispersam o fumo de um terceiro personagem, fumando um charuto em pose desafiante, que entretanto se juntara à cena. Do negro silêncio subsequente, rasgam a cena dois olhos espreitando por uma porta, acompanhados por uma voz - “Benvindos ao Cabaret”. Senhores e Senhoras o espectáculo vais começar, aqui onde “ a vida é magnífica” e os problemas ficam esquecidos. “Conheçam as nossas magníficas raparigas”, anuncia o mestre de cerimónias antecipando, um a um, o nome de guerra de todas as raparigas do cabaret, aqui caracterizadas com tatuagens alusivas ao seus nomes e ostentando nos braços grandes hematomas. Certamente um Cabaret diferente daquele que Christopher Isherwood encontrou, em 1928 em Berlim, na sua primeira visita à cidade que mais tarde caracterizou como “agradável de viver e cheia de rapazes…”, um território onde a liberdade sexual e a transgressão faziam parte do quotidiano.
Escrito como se de um registo documental se tratasse, “ como uma camera com o obturador aberto, passiva, que grava e não reflecte” a obra que Isherwood legou ao mundo imortalizou alguns personagens, entre realidade e ficção, unidos pelo facto de “cada um ter consciência do desastre econónico e ideológico em que vive” nessa Alemanha que abriga o embrião da ascenção de Hitler ao poder. Uma obra onde, sob uma aparente história de amor que unirá, e mais tarde separará, Sally Bowles - uma cantora de Cabaret inglesa a residir em Berlim e Clifford Bradshaw – um jovem escritor americano, acabado de chegar à cidade, em busca de tema e inspiração para a sua primeira obra literária –, se albergam temáticas como a rebelião juvenil, a homosexualidade, o anti-semitismo e sobretudo o desejo de transgressão do instituído, tudo temáticas que ainda hoje pairam sobre o mundo e, particularmente, numa França onde os problemas de integração social têm posto nas ruas uma forte contestação.
Uma obra pertinente, extraordinariamente bem encenada e profundamente tocante que tem no seu grande final uma das mais intensas experiências sensoriais do espectáculo, ao culminar, numa explosão de som e luz, com os corpos dos espectadores a vibrar, numa clara e perturbante alusão ao holocausto.

“Cabaret”
espectáculos até 31 de Dezembro nas Folies Bergères, em Paris
encenação original de Sam Mendes
co-encenação e coreografia de Rob Marshall
uma produção Stage Entertainment France
http://www.cabaret.lemusical.fr

(publicado na "Magazine Artes"