MARGARIDA GUIA | A poesia está na rua


«A poesia está na rua»

Margarida Guia, 32 anos, «bailarina cantora leitora em voz alta» (assim mesmo sem vírgulas) encontrou na sua Bibliambule, uma pequena biblioteca móvel, o meio ideal para gerar aquilo em que mais acredita - um espaço de encontro onde através da poesia, se criam relações de dádiva entre quem lê e quem escuta.

TEXTO E FOTOGRAFIA Susana Paiva

«A Bibliambule é uma biblioteca de rodas que me acompanha sempre nos meus passeios literários, leituras em voz alta fora e dentro da cidade, interior, exterior... na esquina de uma rua, num jardim, num café, num palco ou numa exposição » anuncia o texto, da autoria de Margarida Guia, à entrada do Teatro Académico de Gil Vicente, em Coimbra.
O dia começou cedo para Margarida. Todas as manhãs, antes de sair à rua, prepara a sua biblioteca, escolhendo cuidadosamente os livros a transportar. Com gestos suaves, mas determinados, vai substituindo os livros utilizados na véspera pelos eleitos de hoje. Um olhar rápido pelas lombadas revelam-nos Samuel Beckett, Jacques Prevert, William Parker, Mário Dionísio, Michaux, entre tantos outros.
Ajoelhada no chão, Margarida está prestes a concluir a tarefa. Depois, em tom de desabafo, mostra-me, na madeira da sua biblioteca, uma pequena chapa de cobre redonda que oculta um rombo feito durante o seu transporte. «Já a primeira vez que vim a Portugal a minha biblioteca sofreu muito... »
Margarida é luso-descendente mas nunca viveu em Portugal. Habita em França, onde nasceu e trabalha regularmente. Desde muito cedo descobriu, através da leitura, o valor da dádiva e da troca. Quando tinha sete anos, numa manifestação de apreço pela professora, rasgou uma folha do seu caderno de poesia e subiu ao palco da escola para lho ler. «Já na altura havia essa ligação. Oferecer poesia é uma maneira de oferecer alguma coisa ao outro mas nessa relação é também muito importante reconhecer aquilo que o outro te dá através da escuta», afirma Margarida.
Nunca abandonou a leitura, mas foi a Bibliambule — conceito resultante da contracção das palavras biblioteca e deambulação —, nascida a 28 de Julho de 2002, data do seu trigésimo aniversário, que revolucionou a sua prática como «leitora em voz alta».
Mesmo ao lado do Teatro Académico de Gil Vicente, no geométrico centro da Praça da República, Margarida instala a sua biblioteca, senta-se e espera, tranquilamente, que passe alguém. «É importante não forçar a ligação, há que esperar que a relação se estabeleça de uma forma harmoniosa e natural.» Conta como em Lisboa, por vezes, as pessoas a olhavam de forma desconfiada. «O que é engraçado é que às vezes pensam que estou a pedir esmola e não se aproximam...»
Recorda-se da experiência, não muito gratificante, que teve no Chiado, mesmo frente ao café A Brasileira. «Pus-me de propósito no sítio onde as pessoas tiram as fotografias com a estátua de Fernando Pessoa e havia sempre muitas pessoas a passar. Comecei a cantar e as pessoas ou se riam ou simplesmente passavam... Eu a cantar textos do Fernando Pessoa e as pessoas pura e simplesmente a ignorarem-me.» Mas Margarida não desiste e, com o seu ânimo habitual — forma mais que perfeita da paixão posta em tudo o que faz—, continua. «Depois fui para o Largo de Camões, contei sete rectângulos e instalei a biblioteca. Sentei-me e há um homem que se aproxima e diz: mas o que é que está a fazer? A vender livros? E eu expliquei que estava a ler poesia, perguntando-lhe se ele queria uma leitura. Ah sim, tudo bem! E foi buscar dinheiro. Penso que esse homem não teria muito dinheiro, tinha uns cêntimos, e eu disse-lhe que não era necessário pagar. Depois comecei a cantar "Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades..." e ele começou a dizer o texto. Foi um coro lindíssimo. Eu a cantar e ele a recitar. Gerou-se um conjunto muito rico de paisagens sonoras e o que foi engraçado é que, uma semana depois, encontrei-o em Lisboa e ele perguntou se ela [a Biblioambule] não estava aí. Eu gosto destas relações. São coisas pequeninas mas são vivas...», confessa com um enorme brilho nos olhos.
Ao longe, algumas pessoas passam lançando olhares desconfiados àquele objecto estranhamente pousado no centro da praça. Margarida canta. Depois um homem, passeando um boxer bebé, pára e pergunta-lhe o que faz ali.
«Posso ler-lhe uma poesia?», avança Margarida. O homem senta-se no chão e ouve. Diz-lhe que, contrariamente ao habitual, hoje tem tempo. Que não foi trabalhar e que aproveita para passear o cão de uns amigos. Que gosta de poesia mas que habitualmente a lê em silêncio. No Final da intervenção, trocam nomes de poetas. É também por esta via que Margarida vai descobrindo novos autores portugueses a que habitualmente, em França, não tem acesso.
«Porquê os livros?», parafraseia-me, surpreendida. «Desde pequena que pensava que as palavras dos livros falavam melhor do que as minhas. Diziam as coisas certas, reforçavam a minha relação com as palavras acertadas e justas.» E continua, num só fôlego, falando sobre a sua relação com a poesia. «Penso que a poesia pode tocar muito, na sua acutilância, abre espaço nos que a lêem e nos que a escutam.»
Existe no seu projecto uma gigantesca capacidade de despertar os outros, mas Margarida Guia, modestamente, diz que esta foi a forma por si encontrada para continuar desperta. «Quero continuar viva, e pequenas acções como estas fazem-nos acreditar que ainda é possível encontrar coisas boas. Quando passeamos nas cidades e vemos a publicidade, agora com o futebol em toda a parte, vemos que as pessoas já não têm tempo para si próprias. Há pessoas que ficam a chorar com as leituras, redescobrem em si a capacidade de parar e escutar os outros.»
A caminho da baixa da cidade, descendo a longa Avenida Sá Bandeira, conta-me um dos encontros que mais a sensibilizou. «Fiz um encontro lindíssimo na Suíça. Eu ia apanhar o comboio em Genebra, de regresso a França... A Bibliambule estava ao meu lado e chegou uma senhora idosa, em quem eu já havia reparado, que me perguntou o que era aquela caixa... Perguntei-lhe se lhe poderia oferecer uma leitura, ao que ela respondeu: "Minha menina eu sei ler." Expliquei-lhe que gostaria de lhe oferecer uma leitura e escolhi um poema de Beckett de que ela gostou muito. Acompanhou-me até ao TGV, ficando scomigo até ao embarque, e afirmou: "Você nunca estará sozinha, estará sempre acompanhada" e disse-me que estaria comigo, mesmo quando não estivesse presente.»
Explica agora que, no seu trabalho, o livro é o protagonista, que o corpo apenas transporta e serve o texto. Que gosta de brincar com as fronteiras da leitura e do canto e que tudo o que faz é uma troca. Depois afirma: «O que gosto na cidade é de ler a uma pessoa que não conheço, essa relação íntima que vamos estabelecer.»
E tranquilamente, chegada ao seu destino, instala-se numa esquina da Rua do Corvo, ali bem na baixa coimbrã, onde os pombos são reis. Abre a sua biblioteca, sorri e espera.
«Eu chamei a isto bibliambulação poética. A acção poética é estar presente e dar as palavras, pois as palavras do dia-a-dia também podem ser poéticas. Não sabemos o que é poesia. Eu não sei... É uma questão de sentir as palavras. As palavras que mais senti estão em livros de poesia, por isso as chamo de poesia. Mas o objectivo é encontrar as palavras certas para dizer as coisas que te podem tocar, que criam momentos excepcionais, pois temos de encher os dias de coisas excepcionais, de encontros.»
«Como as palavras falam devagar e na cidade paramos ou continuamos... », diz, docemente, Margarida aos transeuntes apressados. «É tão agradável ver um sorriso. Um sorriso na esquina de uma rua», continua, melodiosamente.
Alguns homens sorriem. «Está aqui uma grande coisa», exclama um. Outros continuam, de rosto cerrado, em direcção aos seus objectivos. Uma senhora idosa pára e pergunta: «Está a correr mundo? Tem de ir à televisão.» Depois, apaziguada, abranda um pouco e opta por ouvir a poesia.
Margarida saboreia as palavras. «Não sei de que ando à procura. Faço coisas diferentes na tentativa de encontrar sons com a voz, de envolver a poesia de sons. Sinto-me viva com isso.»
Pouco a pouco, a receptividade à Bibliambule vai aumentando. Agora é uma jovem que pára e que diz já ter lido no jornal sobre aquela acção poética. «Achei muito interessante», confessa.
No final, Margarida reorganiza a sua biblioteca, para voltar a partir. Antes, no diário da Bibliambule, escreve o nome de todos quantos pararam para a escutar. No chão, onde a biblioteca esteve instalada, assinala, com fita isoladora vermelha, um pequeno xis. «Faço o meu caminho. Sei que tenho para dar e receber e que as coisas acontecem com o tempo.» E conclui: «Encontrei um poema de Manuel Gusmão que diz: Dá-me a tua voz para dizer as vozes/ e então eu falarei/ eu direi as vozes/ de viva voz. Acaba assim...» <<

(artigo publicado na revista Notícias Magazine, de 27 de Junho de 2004)

Joana Saahirah



Portugueses de Diáspora_Joana Saahirah

O apelo da dança oriental

Aos 27 anos, a portuguesa Joana Saahirah é um dos nomes mais bem sucedidos e respeitados do circuito da Dança Oriental e do Folclore Egípcio. 
Tendo trocado definitivamente Lisboa pelo Cairo, cidade onde diariamente deslumbra o heterogéneo público que assiste aos seus espectáculos, vai edificando a passos seguros e com muita paixão a sua carreira internacional como bailarina oriental.

Texto e fotografias de Susana Paiva

A forma fascinante e cativante como Joana - tal como é simplesmente conhecida no meio profissional egípcio - fala da sua profissão não deixa margem para dúvidas - a dança oriental, prática que casualmente descobriu há sete anos atrás, tornou-se a paixão da sua vida.
As primeiras memórias do seu corpo enquanto corpo que dança remonta aos 4 anos de idade, altura em que por aptidão Joana iniciou os estudos em ballet clássico, mas a sua vocação como bailarina teria que esperar 16 anos para se revelar quando, em 1999, Joana tomou contacto com a dança oriental egípcia ao participar num workshop temático no âmbito do Festival “Andanças”. Na época era aluna do curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema e imaginava-se profissionalmente enquanto actriz quando, com alguma surpresa, descobriu a facilidade e naturalidade com que o seu corpo assimilava e interpretava a música oriental, acabando por alterar os seus planos futuros.
Concluída a licenciatura como actriz na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e consciente de que havia encontrado, na dança oriental, “a sua linguagem” Joana optou por fazer formação em “Dança do Oriente” e percussão árabe com vários professores, solidificando depois os seus conhecimentos com Shokry Mohamed, em Madrid. Mais tarde rumou ao Egipto onde consolidou a técnica com alguns dos mais consagrados bailarinos e professores nacionais e internacionais entre os quais Souhair Zaki, Raqia Hassan, Mona Gareb, Mona El Said, Aida Nour, Mahmoud Reda e Yousry Sharif.
Das 15 viagens que realizou entre 2000 e 2004 ao Egipto, para observação e formação na área, ficou-lhe a convicção de que a aprendizagem só seria completa se conseguisse residir e trabalhar enquanto bailarina no Cairo, cidade unanimemente considerado pelos especialistas como a “Meca da Dança Oriental”.
Assim, em 2005, após 3 anos de trabalho em Portugal em torno da dança oriental, decide instalar-se no Egipto onde começa por viver intermitentemente dado a existência de uma lei que impedia bailarinas estrangeiras de dançarem profissionalmente em território nacional. Inibida de assinar contratos de trabalho no Egipto, Joana começa então a actuar profissionalmente no Líbano, Qatar e Oman, iniciando assim uma carreira de sucesso no Médio Oriente. 
Em Abril de 2006, ao abrigo de uma nova lei que lhe permitia trabalhar no Egipto, Joana fixa definitivamente residência no Cairo, cidade onde “se sente verdadeiramente feliz” e onde hoje diariamente actua com a sua orquestra egípcia.
Tendo compreendido que “a Dança Oriental é interpretação pura”, Joana cedo sentiu a necessidade de aprender a falar árabe, algo que acabou por acontecer naturalmente dado o contacto permanente com a língua. Hoje reconhece que preferia ter aprendido o idioma de forma mais académica dado que o árabe que fala é sobretudo uma língua funcional, um dialecto do Cairo muito ligada ao universo do trabalho e profundamente imbuído da gíria dos músicos com que convive diariamente.
Actualmente, uma das poucas estrangeiras que actua diariamente no Cairo, Joana Saahirah continua profundamente apaixonada e dedicada à dança oriental apesar de reconhecer que é necessário ser-se física e psicologicamente muito resistente para se conseguir sobreviver numa profissão assombrada por tantos estigmas. Ser “estrangeira, mulher e bailarina” num país onde a exposição corporal da mulher em público está associada à ideia de prostituição, e sendo a dança oriental – vulgarmente designada por “dança do ventre” – uma das artes performativas socialmente mais condenadas, não transformam o quotidiano de Joana “num mar de rosas”.
“É um país onde é difícil ser bem sucedido, onde mais do que ser boa bailarina é necessário amar aquilo que se faz” frisa Joana enquanto me elenca os inúmeros obstáculos com que diariamente se depara. “É uma área em que, devido à enorme concorrência, tens que estar sempre a 100%, mesmo quando sujeita a grande pressão quotidiana”, acrescenta.
Numa cidade como o Cairo, em que o caos, corrupção e burocracia consomem muita energia, Joana tenta usar o inevitável cansaço a seu favor, fazendo com que o mesmo se traduza, em palco, no desvanecer da tensão normalmente associada à performance.
No desempenho da “dança que lhe sai da alma”, forma carinhosa como designa a dança oriental, ressalta o papel fundamental da orquestra, dado ser esta dança “a tradução clara daquilo que se ouve”, uma forma interpretativa onde não há nada fora da música, onde “não há espaço para a mentira”.
Tendo visto o seu trabalho validado pelo público egípcio, aquele que possui o mais elevado grau de exigência e perante o qual, enquanto estrangeira, se tem que provar ser muito superior às bailarinas nacionais, Joana sente-se a viver um “estado de graça” e só deseja poder continuar a consolidar, ainda que com muito esforço, a sua carreira.
Reconhece hoje que os seus objectivos actuais se distinguem daqueles com que chegou ao Cairo. Construída, de forma bem sucedida, uma identidade artística num país em que o melhor elogio, como tão frequentemente acontece, é ser tomada por uma bailarina egípcia - “eles sabem se eu sou egípcia ou não assim que entro em palco, pela forma como deixo cair o corpo” – Joana Saahirah é um caso à parte no mercado Egípcio, distingindo-se pelo rigor, vestuário, tipologia física e repertório musical interpretado onde revisita alguns clássicos da música oriental, entre eles Umm Kolthum – a “voz do Egipto” falecida em 1975 – , distanciando-se assim daquilo que o restante mercado oferece.
Assumindo-se como uma “mulher de palco” Joana considera o Egipto como território de descoberta constante onde pretende continuar a consolidar a sua carreira e a preparar dois projectos, um grande espectáculo de dança oriental para digressão internacional e a elaboração de um livro sobre dança oriental centrado na sua experiência pessoal e profissional. Enquanto tais projectos não virem a luz do dia as actividade e vivências de Joana Saahirah poderão ser seguida através de um diário no seu website – www.joanabellydance.com - e a sua mestria partilhada através dos workshops que brevemente promoverá em Lisboa, nos dias 5 e 6 de Abril, no Espaço Pro-Dança e no Porto, nos dias 12 e 13 de Abril,no Espaço Total Fitness.

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" de Março 2008)

Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson


Saul Leiter na Fondation Henri Cartier-Bresson, Paris

“Poeta da selva urbana”

As 84 anos de idade, 60 dos quais dedicados à fotografia, Saul Leiter apresenta em Paris a sua primeira exposição retrospectiva na Europa.
Uma oportunidade única para apreciar, até 13 de Abril na Fondation Henri Cartier-Bresson, a obra do fotógrafo cuja falta de ambição artística ocultou do grande público, durante cerca de 50 anos, um dos mais brilhantes e modernos Olhares da segunda metade do século XX.

Texto de Susana Paiva
Fotografias de Saul Leiter, gentilmente cedidas por Fondation Henri Cartier-Bresson

Escutar Saul Leiter discursando sobre o seu próprio trabalho é simultaneamente uma experiência desconcertante e uma imensa lição de humildade. Ouvi-lo confessar que nunca imaginou ver o seu trabalho exposto num museu ou que jamais ambicionou criar obras de Arte causa perplexidade a todos quantos observam as suas extraordinárias fotografias de rua impregnadas de uma poética onde pontuam silhuetas em fuga, apontamentos inesperados de cor e enquadramentos improváveis.
Compreender tamanha modéstia, tamanha falta de ambição artística é a principal chave para descodificar o universo de Saul Leiter, autor que ainda hoje admite, com franco sorriso, que a sua maior preocupação foi sempre “conseguir pagar as contas de electricidade, algo que nem sempre foi possível”.
Nascido em 1923 em Pittsburgh, filho de um famoso rabino, Saul Leiter decidiu, aos 23 anos de idade, abandonar os estudos em Teologia e mudar-se para Nova Iorque a fim de se consagrar totalmente à sua paixão pela pintura. Será pela mão de alguns pintores com quem privou nessa época, nomeadamente Richard Pousette-Dart, que Saul Leiter se começará a interessar pela fotografia. Na sua memória resta ainda bem vívida a forte impressão causada, em 1947, pela exposição de Henri Cartier-Bresson no MoMA, evento a que ainda hoje atribui a causalidade da sua escolha profissional.
Pleno de estímulos e munido de uma Leica começou assim a deambular pelas ruas de Nova Iorque, fotografando-as a preto e branco. Em 1948 entra numa loja de fotografia e inesperadamente decide comprar um rolo a cores, acção que se viria a revelar determinante na sua prática fotográfica, não parando desde então de alternar entre ambos os suportes.
Foi o trabalho a preto e branco de Leiter que primeiro prendeu a atenção de Steichen, na época conservador de fotografia no Museu de Arte Moderna (MoMA) em Nova Iorque, e que, em 1953, seleccionaria 25 fotografias suas, exibindo-as na exposição colectiva “Always the Young Stranger”. No entanto a sua grande mestria, patente sobretudo na forma revolucionária como utilizava a cor, teria que aguardar 4 anos antes de ser revelada ao público nova-iorquino no âmbito da conferência “Experimental Photography in Color” proferida por Steichen no MoMA em 1957.
Com uma visão pragmática da vida e concentrado na sua sobrevivência Saul Leiter torna-se, por intermédio de Robert Frank que lhe havia apresentado Alexey Brodovitch – na altura director artístico da revista “Harper’s Bazaar”-, num bem sucedido fotógrafo de moda espelhando, ao longo de duas décadas, as suas obras “dignas de museus e não de páginas de revistas” em publicações de moda como a “Esquire” e a própria “Harper’s Bazaar”.
O seu trabalho mais pessoal, centrado na fotografia de rua, acabará por permanecer esquecido aos olhos do mundo até meados dos anos 90, altura em que a Galeria Nova-iorquina Howard Greenberg lhe consagra uma exposição de fotografias a preto e branco. Será esta exposição, em 1993, juntamente com a publicação de “Early Color”, em 2006 - pela mão de Martin Harrison na Steidl-, que voltarão a concentrar na sua obra a atenção por parte dos especialistas internacionais.
Hoje, na celebração desta brilhante redescoberta, a Fondation Henri Cartier-Bresson apresenta oportunamente, em dois pisos do seu edifício na zona de Montparnasse, uma exposição comissariada por Agnès Sire onde através de dois núcleos expositivos, a cores e a preto e branco, se revelam uma centena de imagens da autoria de Saul Leiter. Realizadas entre 1947 e 1960, as imagens apresentadas a público são na sua maioria impressões de época, emprestadas pela Galeria Howard Greenberg e por coleccionadores privados, onde se revelam “silhuetas em trânsito, sombras, visões misteriosas e indirectas entre romantismo e filme negro” tão características do Olhar do fotógrafo que elegeu a “selva urbana” como sujeito do seu trabalho pessoal revelando assim o seu extraordinário universo “poético, onírico e calmante, sobre o qual plana a doçura da melancolia”.

Exposição “Saul Leiter”
na Fondation Henri Cartier-Bresson, em Paris
Até dia 13 de Abril


Catálogo da exposição
Prefácio de Agnès Sire
Entrevista de Sam Stourdzé a Saul Leiter
50 fotografias a preto e branco e 50 fotografias a cores
edição cartonada com sobrecapa impressa
20x24 cm, 144 páginas
editado por Steidl Paris

outras edições

“Saul Leiter”
Colecção Photo Poche
Edição brochada
64 páginas
Editado por Actes Sud

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" do mês de Março 2008)

Sob o signo da Utopia

Durante 2 semanas, 45 alunos e 15 professores oriundos de 5 universidades europeias exploraram os contornos da Utopia, traçando ideias cenográficas e elaborando projectos arquitectónicos numa Lisboa reinventada à luz do teatro. Uma viagem metafórica que, elegendo “o teatro ilha ou a ilha do teatro” como ponto de partida, acabou por revelar como a cooperação transnacional poderá traçar novos mapas mentais e criativos para levar à cena na capital nacional.

Texto de Susana Paiva
Imagens gentilmente cedidas por José Manuel Castanheira

Para os 60 participantes no projecto intensivo Erasmus, reunindo alunos e professores de arquitectura oriundos das Faculdades de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, da Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, da Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica da República Checa, da Escola de Arquitectura da Faculdade de Engenharia da Universidade de Lund, Suécia, e da Universidade de Strathclyde em Glasgow, Escócia, os quinze dias de Fevereiro que passaram a criar em Portugal poderão ter constituído uma excepção, um sopro de utopia que jamais repetirão na sua vida profissional. Assim o verbalizou Mathab Mazlouman, professora de arquitectura na Escola Superior de Arquitectura de Paris-la-Villette, quando o júri de professores fez o balanço da primeira semana de criação dos alunos participantes na segunda estação do projecto intensivo de cenografia e arquitectura que este ano teve como palco a cidade de Lisboa. Concebido e aprovado como uma iniciativa a realizar durante três anos consecutivos, nas cidades de Praga, Lisboa e Paris, o projecto envolve instituições universitárias europeias em que a área da cenografia constitui uma disciplina autónoma no seio da licenciatura em arquitectura e visa constituir-se como um espaço de criação utópica onde os alunos, devidamente agrupados em núcleos plurinacionais, têm como objectivo a criação de um objecto cenográfico e de um projecto arquitectónico simbólicos que “apontem para a definição de um conceito, prefigurado numa proposta que reformule e/ou re-apresente, num contexto original, as múltiplas pistas que as leituras, visitas, trabalho de grupo e discussões com o professores possam suscitar”. Uma proposta estimulante que, de acordo com José Manuel Castanheira, professor na Faculdade de Arquitectura da Universidade Técnica de Lisboa, pode encerrar também um elevado grau de dificuldade sobretudo para alunos e professores provenientes de instituições onde o objectivo final das propostas e projectos escolares tem que passar pela exequibilidade.
Instituído como espaço de transgressão das práticas habituais e de permuta intercultural, esta edição do projecto acabou por se constituir como “uma aventura sem fronteiras” para a qual o único passaporte obrigatório foi a leitura do romance “A Jangada de Pedra” da autoria do Nobel da literatura José Saramago. Talvez por isso fosse inevitável escapar à inclusão simbólica do elemento água nas propostas cénicas solicitadas aos alunos. Talvez por isso mesmo o Tejo tenha merecido a inclusão em muitos dos projectos cenográficos resultantes deste workshop tendo assim devolvido o protagonismo a espaços da capital para os quais já não olhamos de forma refrescada tão frequentemente. 
Reimaginar o Cais do Sodré como espaço central de um percurso que une o rio ao centro da cidade através de uma carpete vermelha, com criação de um espaço de “renascimento” de todos quantos experienciam “esse momento excepcional” ou redescobrir no Terreiro do Paço uma passagem cujo secreto destino nos faz desembocar num “buraco” em pleno Tejo a partir do qual se pode visualizar e vivenciar diferentemente a cidade de Lisboa são algumas das utopias cenográficas que cumpriram o destino de “explorar os limites e transgressões da implantação dos dispositivos cénicos no terreno da arquitectura” tendo, claro está, “sempre em mente o seu carácter especulativo e utópico”.

(Texto publicado na revista "Magazien Artes" de Março 2008)

Horst Friedrichs

Portfolio_Horst Friedrich

Anjos do deserto

É do reino do maravilhoso que saem os personagens fotografados por Horst Friedrich, verdadeiros “anjos do deserto” como lhes chamou a escritora venezuelana Elisabetta Balasso, co-autora do livro “Doña Maria und Ihre Träume”, uma das mais telúricas obras fotográficas e literárias da actualidade.

Fotografias gentilmente cedidas por Horst Friedrich
Texto de Susana Paiva

São poéticas e elucidativas as palavras com que Elisabetta Balasso descreve o contacto entre os autores e os habitantes do deserto venezuelano – “viemos de longe, da capital ou de além mar, de lugares míticos dos quais quem lá estava apenas tinha ouvido falar. Chegamos às terras áridas e encontramos paisagens calcinadas pelo vento, árvores iluminadas e uma bebida cheia de espírito, que convoca as sombras transparentes do desejo, e que não acalma a sede mas magnifica e produz eventos excepcionais. Chegamos e conhecemos os habitantes – anjos com rugas profundas e preciosos corações plenos de sabedoria e hospitalidade. E assim comprovamos que a realidade é bem mais mágica do que qualquer literatura, quando se penetra suavemente no tempo do deserto”. Nas palavras iniciais de “Dona Maria e os seus sonhos” se encerra, com grande mestria, o mistério e a beleza de todos quantos habitam as esquecidas paisagens do deserto venezuelano, território onde o tempo parece ter outra dimensão.
“O tempo está parado em casa de Dona Ruperta, presenças fantasmagóricas parecem aguardar nas esquinas que ficaram escuras, tão fiéis e resignadas como um cão enfraquecido. Nada sucede, e no entanto tudo está cheio de sentido - o pau que serve de bastão para espantar os animais, tão seco como os seus braços, apoiado na parede; o pedaço de queijo de cabra sobre o pratito de barro; a pequena cadeira de criança, em que Ruperta se senta nas noites em que não consegue dormir; as gretas na terra das paredes que parecem querer dizer-nos algo que não conseguimos compreender. A casa respira com a respiração pausada e profunda de um adormecido, quem sabe sonhando por Dona Ruperta, sonhando os sonhos que ela esqueceu”. Foi este o ambiente telúrico que o fotógrafo alemão Horst Friedrich encontrou quando, há cerca de doze anos, viajou pela primeira vez ao deserto venezuelano. Lia na altura o romance “Cem anos de solidão” de Gabriel García Márquez e estava longe de imaginar que iria encontrar o mesmo realismo mágico em terras venezuelanas.
“Não se ouve nada mais do que o vento. Nem cabras nem pássaros, apenas o vento. Um céu sólido, azul infinito igual à cafeteira pousada sobre a laje de pedra assente na terra. O céu dissolve-se numas nuvens brancas ali onde a terra seca se esmigalha em rectos cactos, em yabos de mil ramificações e em cujís retorcidos”. Percorrendo, a partir de Caracas, um cenário espantoso para lá dos Andes chegou ao estado de Lara, e depois a Falcón, na costa, onde conheceu Dona Maria, Margarita, Eustiquio e família bem como tantos outros habitantes, "pessoas especiais que fabricam um artesanato precioso", afirmou Horst. "São personagens, são heróis... Esta gente é incrível, interessante, forte. São pobres, mas felizes, pois têm sabedoria. Claro que às vezes gostariam de ter uma vida melhor mas, por exemplo, Eustiquio tem um telemóvel e eu de vez em quando telefono-lhe e ele fica feliz".
Tendo viajado múltiplas vezes a esses dois estados no noroeste da Venezuela, Horst fez-se sempre acompanhar da sua Hasselblad, uma máquina fotográfica alemã de médio formato, com a qual retratou os habitantes das povoações visitadas. Nem sempre a aproximação foi fácil pois quando inquiridos alguns populares recusavam a oferta de serem fotografados por Horst mas ainda assim este não desanimava. No ano seguinte voltava a inquiri-los, estreitando, pouco a pouco, os laços de amizade que lhe permitiriam uma aproximação incondicional. Assim foi com quase todos os populares. Alguns resistiram durante três anos mas acabaram por dar corpo e rosto às imagens de Horst e por , mais tarde, partilharem as suas histórias com Elisabetta Balasso.
“São seis os filhos mas deviam ser nove. A voz entrecortada e trémula, os olhos húmidos, pois é difícil recordar as dores da mulher, o medo, a fatalidade, a resignação. O tempo suspendeu-se, o sol cristalizou, a abelha deteve o voo enquanto o homem contou a sua história. Custou-lhe muito, mas seguiu valentemente, como se fora necessário, como se fosse um dever, e não o era, não nos devia nada, não era indispensável contar-nos nada; e agora não sei o que fazer, dá-me pudor este fio de água cristalino e secreto, correndo debaixo das pedras, este desenho de águas subterrâneas, este passarito ferido entre as mãos. Conta-me tudo e eu fico devastada com as experiências de sofrimento que o marcaram, com todas essas mortes sempre presentes, novamente presentes enquanto as rememora, presentes no pátio de trás, onde desde então se erguem duas cruzes brancas”.
Construído numa simbiose perfeita entre os universos imagéticos e literários, “Dona Maria e os seus sonhos” é um exemplo maior daquilo que ainda hoje se pode criar no âmbito da fotografia documental. Justamente aclamado como um projecto ao nível dos desenvolvidos no Estados Unidos da América por fotógrafos como Walker Evans e Robert Frank, este trabalho de Horst Friedrich consagra-o como um dos grandes nomes da fotografia documental, sedimentando aquilo que já se intuía na publicação, em 1999, do seu primeiro livro “Troubadours of Allah” (Trovadores de Alá), também editado pela alemã Frederking & Thaler. 
Repleto de poesia e excelentes imagens, “Dona Maria e os seus sonhos” dignifica todos quantos aí estão retratados, transportando-nos para um universo humano de extrema pureza, difícil de imaginar no mundo em que vivemos hoje.
“O filho mais novo de Eustiquio olha o céu, procurando nas estrelas a constelação que nos guia: O coração de Maria e Jesus, disse-me, assinalando os dois corações desenhados na noite”, escreve Elisabetta Balasso como a contrabalançar o insustentável peso das palavras anteriores “O céu ilumina-se aos poucos, acende-se e apaga-se seguindo a navegação das nuvens. Mais próximo da terra voa uma mosca, suspensa por asas tão rápidas que só se distingue uma sombra de cada lado do corpo. Não muito longe ouve-se um compacto zumbido de enxame. De resto, o silêncio é tão espesso que pesa no ar”. Um peso que Horst e Elisabetta souberam retratar com grande beleza e sensibilidade e que certamente perdurará como um dos mais belos livros da nossa década.

“Doña Maria und Ihre Träume” (Dona Maria e os seus sonhos)
de Horst A. Friedrichs e Elisabetta Balasso
192 páginas, aproximadamente 120 fotografias a cor e a preto e branco
Formato: 24,0 x 34,0 cm
editora: Frederking & Thaler

www.horstfriedrichs.com

imagens à venda online na Galeria Anzenberger
http://www.anzenbergergallery.com/en/article/204.html

(Texto publicado na revista "Magazine Artes" na edição de Fevereiro 2008)

Jose Vieira

Portugueses de Diáspora_José Vieira

Memórias que queimam

Praticamente desconhecido em Portugal, José Vieira é um realizador de origem Portuguesa residente em França desde 1965 e cujo núcleo central do trabalho versa a emigração portuguesa clandestina em França.
Partindo de histórias individuais, que também são a sua, a autor traça o retrato da emigração em França, recuperando uma memória colectiva, ameaçada de extinção de ambos os lados da fronteira.

Texto e fotografias de Susana Paiva
Imagens de arquivo gentilmente cedidas por José Vieira

Paris 20 ème, zona de Mémilmontant. O céu é visivelmente extenso e a vista extasiante quando observados a partir do 12º andar dos prédios de Nouvelle Belleville. Suspenso o tempo, o espaço reinventa-se à medida de cada observador. A memória liberta-se e a cidade toma nova dimensão. Apenas um intenso odor a café denuncia a presença do realizador
José Vieira prefere a força comunicadora das suas imagens ao exercício da oralidade. Não que não seja bom comunicador, eloquente na expressão das suas ideias, mas sobretudo porque acredita haver mais e melhor poder de síntese naquilo que realizou e escreveu do que naquilo que poderá vir a verbalizar. Quem visualiza as suas obras, lê os documentos que compilou e as palavras que cuidadosamente escreveu, poderá encontrar respostas para muitas das questões imaginadas. Nos seus documentários revelam-se histórias individuais de vida, exemplos que espelham a difícil existência de milhares de portugueses que nos anos 60, tal como a sua família, partilharam a dor da emigração. As suas obras são preciosos documentos sobre a memória colectiva de um povo, que escapou à pobreza e repressão Salazarista encontrando em França um precário porto de abrigo. São espaços-testemunho onde se escutam vívidos relatos sobre um fenómeno ainda hoje insuficientemente estudado e talvez por isso mal compreendido.
José Vieira acredita que há uma generalizada incompreensão por parte de quem o rodeia na escolha das suas temáticas. Para os franceses, ainda tão presos aos estereótipos da emigração - com imaginários povoados de iliteratas porteiras, mulheres da limpeza e homens que trabalham na construção civil -, os portugueses nada tem a dizer. Para os portugueses, indelevelmente marcados pela experiência da emigração clandestina, pouco desejo há em falar disso. São realidades cativas de um mundo de sofrimento e vergonha, um tempo de memórias que queimam e deixam marcas que muitos desejariam apagar e que, por isso mesmo, José Vieira deseja continuar a abordar com a mesma paixão, intensidade e empenho de sempre.
Para José Vieira a história pessoal de emigração começou cedo. Tinha sete anos e meio quando o seu pai, emigrado em França há cerca de um ano, regressou a Oliveira de Frades, distrito de Viseu, para ir buscar a família. Nesse ano de 1965 José seguiu os pais e quatro irmãos com destino a Paris, alojando-se, como tantos outros portugueses, no precário e periférico bairro de lata de Massy que a emigração portuguesa havia criado. Dessa época recorda sobretudo a chegada ao bairro de lata, memória que inscreverá na mente como o primeiro momento de ruptura da sua vida. Para trás ficavam memórias difusas de uma infância tranquila em Oliveira de Frades, o único fragmento de Portugal que perdurará imutável no seu imaginário.
Em Paris as condições no “bidonville” de Massy - baptizado como “o bairro da minhoca”- eram precárias e estavam muito longe de ser as imaginadas no sonho dourado da emigração. Vivido em grande sofrimento pelos adultos e pelas suas irmãs, então adolescentes, o bairro de lata podia contudo, aos olhos de uma criança, constituir também um enorme espaço de liberdade, terreno de fantasia para histórias de cowboys e índios que José partilhava com as outras crianças portuguesas lá residentes. Era sobretudo fora do “bidonville” que a realidade de José se tornava insustentável, com a obrigatoriedade de ocultação do domicílio perante os colegas de escola, todos franceses, e a necessária extensão dessa mentira por altura das visitas a Portugal. Consumidos pela vergonha da realidade da sua vida em França, os relatos dos emigrantes nas visitas ao seu país natal construíam histórias de felicidade e bem-estar, muito distantes do verdadeiro sofrimento da emigração. 
Talvez tenha sido essa mentira a responsável pelo maior fosso entre aqueles que emigravam e os que optavam por ficar em Portugal. Estes, convictos do sucesso dos compatriotas, invejavam-lhes a vida e erguiam barreiras que mais tarde se revelariam difíceis de transpor.
Entretanto a vida em França seguia o seu curso, com a família de José a libertar-se das duras condições do “bidonville” em 1970, altura em que o pai conseguiu reunir as condições financeiras para alugar uma casa. Para José essa mudança, feita em idade crítica - por volta dos seus 12 anos -, constituiria a segunda grande ruptura na sua vida. Cortado o cordão umbilical com os amigos do bairro de lata de Massy, parceiros de brincadeira ao longo de cinco anos, José Vieira estava novamente só, mais estrangeiro do que nunca numa terra que ainda não chegava a ser sua.
Talvez tenham sido estas rupturas que desenvolveram o seu desejo de ser assimilado pela cultura francesa - estava cansado de ser português e apenas desejava ser igual aos outros.
Hoje José Vieira pensa, escreve e sonha em francês. Não recusa as suas origens portuguesas mas tal como muitos franceses de origem portuguesa sente-se bem em França e tem muitas afinidades com a cultura francesa. Em Oliveira de Frades, localidade de que é natural, continua a ser “o filho do ferreiro” e sente que dificilmente se libertará do estigma da emigração, sendo visto como parte do grupo “daqueles que partiram”. Na sua própria terra desconhecem aquilo que faz em França. Por nunca lho terem perguntado nunca sentiu necessidade de dizer que é realizador e que escolheu como núcleo central do seu trabalho debruçar-se sobre a emigração portuguesa em França. Nunca lhes contou, em última instância, que trabalha sobre a sua história pessoal e sobre as memórias colectivas da emigração clandestina. Nunca lhes disse que nos seus documentários, especialmente em “A fotografia rasgada”, de 2001, e “O País onde nunca se regressa”, de 2006, se espelha a história de muitos daqueles que sentiram urgência em partir em busca de uma vida melhor, tal como o seu pai. Nunca lhes revelou que o seu campo de ensaio é também o das feridas que a dor da emigração nunca conseguiu sarar. Nunca lhes confessou que a emigração é sempre uma revolução na vida de quem parte e que isso as transforma para toda a vida.
Hoje, aos 49 anos, ainda não teve oportunidade de ver o seu trabalho reconhecido por todos quantos constroem a história em Portugal. Contrariamente ao que sucede em França o seu trabalho cinematográfico continua praticamente desconhecido em território nacional, ignorado pelos que ficaram e preciosamente ocultado, como uma ferida que não se quer reabrir, por aqueles que partiram.

(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")

"In nomine Dei" de Jose Saramago

A intolerância segundo José Saramago

Foi no passado dia 12 de Dezembro que o Teatro Central de Sevilha recebeu a estreia mundial do espectáculo “In nomine Dei”, um texto teatral de José Saramago levado à cena pelo Centro Andaluz de Teatro, com encenação de José Carlos Plaza e cenografia de José Manuel Castanheira, onde se veicula, numa versão operática, as magníficas palavras do escritor contra a intolerância.

Texto e fotografias de Susana Paiva

Foi com um misto de surpresa, respeito e tristeza que o público da estreia de “In nomine Dei” recebeu a mensagem difundida em vídeo onde José Saramago endereçava ao público palavras que todos desejariam ter ouvido de viva voz. No ecrã instalado à boca de cena, o escritor, visivelmente abatido, proferia um discurso universal anti-fundamentalista e testemunhava, com pesar, a dor da ausência e a inveja de todos quantos ali podiam estar. Ele, em casa, cumpria estritas ordens médicas de 15 dias de repouso absoluto, convalescendo ainda de um recente problema de saúde que levará cerca de dois meses a recuperar. Dois dias antes, no âmbito de uma conferência de imprensa realizada na biblioteca Saramago em Lanzarote, havia declarado que, ainda que estivesse certo que a representação da sua obra não mudaria nada, esperava que a estreia do espectáculo em Sevilha servisse pelo menos para “despertar as consciências de algumas pessoas que causam dano à humanidade”. Inegavelmente feliz com a estreia universal do seu texto teatral, originalmente publicado em 1993, Saramago aproveitou para contextualizar o momento histórico em que desenrola a história, explicando que a mesma se baseia num caso verídico passado em Münster, uma cidade no norte de Alemanha, onde no século XVI um conflito entre católicos e protestantes, “em nome do mesmo Deus”, acabou numa carnificina tal que dos 14000 habitantes iniciais, após um processo de tortura e morte, apenas restaram 2000. Um texto pleno de actualidade dado que, na sua opinião, "em milhares de anos de criação, de natureza, de inteligência, de tudo o que faz grande o Homem, o ser humano continua a ser utilizado pelo próprio ser humano para atentar contra si próprio".
Nesse sentido o prémio Nobel da Literatura entende que, apesar das descobertas e avanços na sociedade, “não temos melhorado nada, bem pelo contrário - temos refinado métodos de tortura, transformando-a numa ciência exacta. Nós, seres inteligentes, capazes de rir, chorar e sentir, estamos numa hora de irresponsabilidade em que nada é culpável e todos têm a culpa, como sempre”.
Tomado muitas vezes como uma voz crítica no debate de assuntos religiosos -recorde-se a polémica em Portugal em torno da obra “O Evangelho segundo Jesus Cristo” - Saramago continua a sustentar o único desejo de "compreender as coisas” reforçando a ideia de que nunca pretendeu “convencer ninguém de nada”. “Os acontecimentos descritos nesta peça representam apenas um trágico capítulo da grande e, pelos vistos, irremediável história da intolerância humana. Que a leiam assim, crentes ou não crentes, e farão um favor a si próprios”.
Assumido como uma homenagem a José Saramago - nas palavras de Rosa Torres, “um andaluz que não nasceu em Andaluzia mas que desejou sê-lo sem renunciar a ser qualquer outra coisa”, numa alusão da conselheira para a cultura da Junta de Andaluzia à recente nomeação do escritor como “filho adoptivo de Andaluzia” - “In nomine Dei”, levado à cena pelo Cento Andaluz de Teatro, é um espectáculo maior por mérito próprio, conseguindo, como tão raras vezes acontece, uma perfeita sintonia entre todos os elementos teatrais, com especial destaque para os trabalhos de encenação de José Carlos Plaza e de cenografia de José Manuel Castanheira que criam em cena uma unidade onde se espelha na perfeição a mensagem de José Saramago. Concebido como “uma cidade em ruínas, metáfora universal da destruição do ser humano” o cenário de Castanheira dá o mote essencial para a agilização de uma encenação que se adivinha difícil dada a complexidade do texto e a presença dos cerca de 30 actores e cantores em palco.
Tendo-se deslocado a Lanzarote para trabalhar durante um mês com Saramago na adaptação do texto, “que funciona como um alerta contra os fanatismos que arrastam os seres humanos a matar e a deixar-se matar”, José Carlos Plaza tem o grande mérito de, recorrendo à sua prática na encenação de operas, ter criado um espectáculo que, apesar da sua complexidade, encontrou na forma musical a facilidade de expressão que o texto original, à priori, não deixava antever. Construído de forma operática, “In nomine Dei” revela também o excelente trabalho de Mariano Díaz, responsável pela música e espaço sonoro, que soube criar, com uma matéria humana onde pontuavam apenas 4 cantores, um ambiente sonoro extraordinário, revelador do estudo dos salmos e da música eclesiástica em geral, onde o coro desempenha um papel fundamental.
Construído como um trabalho de grande fôlego e extraordinário empenho colectivo o espectáculo do Centro Andaluz de Teatro fará uma extensa itinerância pelos teatros da Andaluzia, com apresentação em 54 salas distintas, seguindo posteriormente digressão no restante território espanhol e possivelmente noutros países de expressão oficial espanhola.
Para que, pelo menos, Saramago possa estar certo que, concordando com José Carlos Plaza referindo-se a todos os intervenientes no espectáculo, “para todos nós, a partir de agora, será mais difícil ser intolerantes”.

Próximas apresentações

5 a 15 de Março no Teatro Cánovas de Málaga 
27 e 28 de Março no Gran Teatro de Córdoba


(Texto publicado na edição de Fevereiro 2008 da revista "Magazine Artes")